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A Astúcia da Lebre e
o Espírito da Floresta

A lebre sempre teve fama de ser um animal espertalhão.
Nesta fábula do Benim, uma vez mais se comprova que até aos espíritos ela consegue enganar!

Houve, outrora, um longo período de seca. A terra, árida, não produzia nada, nem para os homens nem para os animais, que andavam famintos. Os celeiros estavam completamente vazios.

A comadre lebre pôs-se a caminho em busca de alimento, levando consigo como única bagagem a sua astúcia e malícia. Chegada ao descampado, pôs-se a comer frutos selvagens, raízes e tudo o que era comestível.

Descobriu então nas vizinhanças uma baobá (diz que é a maior árvore que existe) e procurou imediatamente «o pão dos macacos» (os seus frutos são porosos e doces, tão do agrado dos macacos), mas não o encontrou. Enquanto observava a árvore, reparou que muitas abelhas entravam e saíam de um buraco no tronco. «Se há abelhas», pensou, «também deve haver mel. Deixá-as trabalhar. Volto à tardinha, quando as abelhas, cansadas do trabalho, foram deitar e dormir. «Será fácil para mim comer o mel de que tanto preciso». E regressou a casa.

Na savana, porém, encontrou um espírito, que apreciava muito o mel (segundo a imaginação africana, as florestas, os bosques, os rios e as montanhas estão povoados de espíritos). Este passou junto do baobá e teve o mesmo pensamento da comadre lebre, que o havia vigiado espreitando pelo canto do olho e apercebeu-se das intenções do espírito.

Voltou, então, atrás e entrou rapidamente dentro do buraco do mel. Começou a comer avidamente, mas, como tinha as patas da frente curtas de mais, não conseguiu ir até ao fundo da toca, deixando lá em baixo algum mel.

A lebre tomou melancolicamente o caminho de casa, mas apercebeu-se de que outro espírito vinha na direção da grande árvore para comer o mel que lá ficara. Voltou logo atrás e saltou velozmente para a toca, escondendo-se bem lá no fundo. O espírito entrou no buraco e encontrou a lebre encolhida.

«Ah!», exclamou, «encontrei a ladra do mel», e apanhou a lebre por uma pata.

«Larga-me», gritou a lebre, «quem és tu?»

«Sou o espírito da savana», respondeu, «e tu és minha prisioneira».

«Não, não!», retorquiu a lebre, «nesta savana não há espírito nenhum! Se houvesse, já me tinha atirado para longe».

«Ai é assim?!», respondeu o espírito, «espera para ver então!»

Agarrou na lebre e atirou-a para bem longe. A lebre caiu num tufo de capim seco e, correndo a toda a velocidade, foi para casa, enquanto resmungava entre dentes:

«Bem querias, espírito da savana, que eu ficasse presa nas tuas garras, para ir encher a tua pança! Espírito meu, quem é mais esperto que eu?»

O espírito apercebeu-se então, e tarde de mais, que havia perdido uma boa refeição. A lebre é realmente astuta e, nisso, supera todos os outros animais.

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