| Houve,
outrora, um longo período de seca. A terra, árida,
não produzia nada, nem para os homens nem para os
animais, que andavam famintos. Os celeiros estavam completamente
vazios.
A comadre lebre pôs-se a caminho em busca de alimento,
levando consigo como única bagagem a sua astúcia
e malícia. Chegada ao descampado, pôs-se a
comer frutos selvagens, raízes e tudo o que era comestível.
Descobriu então nas vizinhanças uma baobá
(diz que é a maior árvore que existe) e procurou
imediatamente «o pão dos macacos» (os
seus frutos são porosos e doces, tão do agrado
dos macacos), mas não o encontrou. Enquanto observava
a árvore, reparou que muitas abelhas entravam e saíam
de um buraco no tronco. «Se há abelhas»,
pensou, «também deve haver mel. Deixá-as
trabalhar. Volto à tardinha, quando as abelhas, cansadas
do trabalho, foram deitar e dormir. «Será fácil
para mim comer o mel de que tanto preciso». E regressou
a casa.
Na savana, porém, encontrou um espírito, que
apreciava muito o mel (segundo a imaginação
africana, as florestas, os bosques, os rios e as montanhas
estão povoados de espíritos). Este passou
junto do baobá e teve o mesmo pensamento da comadre
lebre, que o havia vigiado espreitando pelo canto do olho
e apercebeu-se das intenções do espírito.
Voltou, então, atrás e entrou rapidamente
dentro do buraco do mel. Começou a comer avidamente,
mas, como tinha as patas da frente curtas de mais, não
conseguiu ir até ao fundo da toca, deixando lá
em baixo algum mel.
A lebre tomou melancolicamente o caminho de casa, mas apercebeu-se
de que outro espírito vinha na direção
da grande árvore para comer o mel que lá ficara.
Voltou logo atrás e saltou velozmente para a toca,
escondendo-se bem lá no fundo. O espírito
entrou no buraco e encontrou a lebre encolhida.
«Ah!»,
exclamou, «encontrei
a ladra do mel», e apanhou a lebre
por uma pata.
«Larga-me»,
gritou a lebre, «quem
és tu?»
«Sou
o espírito da savana», respondeu,
«e tu és minha
prisioneira».
«Não,
não!», retorquiu a lebre, «nesta
savana não há espírito nenhum! Se houvesse,
já me tinha atirado para longe».
«Ai
é assim?!», respondeu o espírito,
«espera para ver então!»
Agarrou
na lebre e atirou-a para bem longe. A lebre caiu num tufo
de capim seco e, correndo a toda a velocidade, foi para
casa, enquanto resmungava entre dentes:
«Bem
querias, espírito da savana, que eu ficasse presa
nas tuas garras, para ir encher a tua pança! Espírito
meu, quem é mais esperto que eu?»
O espírito apercebeu-se então, e tarde de
mais, que havia perdido uma boa refeição.
A lebre é realmente astuta e, nisso, supera todos
os outros animais.
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