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Pe.
Carlos Gustavo Haas |
“Senhor,
como queres que preparemos a Páscoa?”
(Cf. Mt 26, 17)
Iniciando
a Quaresma de 2010, repetimos esta mesma pergunta que os
discípulos dirigiram a Jesus. A pergunta é
justamente sobre a forma de “preparar” a Páscoa.
Pois
bem, para qualquer festa importante, a gente costuma se
preparar. E quanto mais importante a festa, mais tempo leva
a preparação. Na própria preparação
já se começa a viver a festa .
1. O que é a Quaresma
Nós
cristãos celebramos todo ano a festa da Páscoa:
a morte e a ressurreição de Jesus e tamém
a nossa. É a maior de todas as festas. A mais importante...
Grande demais para ser preparada em apenas três dias
ou uma semana. Por isso, estendemos a sua preparação
para quarenta dias. Daí Quaresma, período
de quarenta dias, que vai da quarta-feira de cinzas até
a quinta-feira santa pela manhã.
Os
textos litúrgicos que rezamos durante o tempo da
Quaresma são belíssimos e nos conduzem ao
verdadeiro espírito deste “tempo favorável”.
Poderia citar muitos mas o espaço do artigo não
me permite. Cito portanto apenas o Prefácio da Quaresma
V (Missal Romano, pág. 418) como síntese de
toda esta riqueza:
“Na
verdade, é justo e necessário, é nosso
dever e salvação louvar-vos, Pai santo, rico
em misericórdia, e bendizer vosso nome, enquanto
caminhamos para a Páscoa, seguindo as pegadas de
Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, mestre e modelo
da humanidade, reconciliada e pacificada no amor.
Vós
reabris para a Igreja, durante a Quaresma, a estrada do
Êxodo, para que ela, aos pés da montanha sagrada,
humildemente toma consciência de sua vocação
de povo da aliança. E, celebrando vossos louvores,
escute vossa Palavra e experimente os vossos prodígios.
Por
isso, olhando com alegria esses sinais de salvação,
unidos aos anjos e aos santos, entoamos o vosso louvor,
cantando a uma só voz:”
Podemos
encontrar neste Prefácio todos os elementos que caracterizam
não só a liturgia deste Tempo, mas especialmente
a sua teologia, a sua espiritualidade e a sua pastoral.
Voltamo-nos para Deus, “Pai Santo, rico em misericórdia”;
relembramos a grande experiência do Êxodo, da
Aliança, da libertação e da nova terra;
assumimos nossa atitude de povo peregrino, ouvintes da Palavra,
povo amado e escolhido por Deus; nosso modelo é Cristo,
cuja morte e ressurreição celebramos de forma
mais intensa neste tempo. Enfim, a Quaresma é um
“sinal de salvação” ou, numa expressão
usada num artigo de Dom Manoel João Francisco, “sacramento
anual de reconciliação”.
É
indispensável que recuperamos também a Quaresma
como o tempo ideal de fazer a preparação final
dos catecúmenos que serão batizados, confirmados
e receberão a Eucaristia na Vigília Pascal.
O Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos
(RICA) lembra que “o tempo da purificação
e iluminação dos catecúmenos é
normalmente a Quaresma. De fato, na liturgia e na catequese,
pela comemoração ou preparação
do Batismo e pela penitência, a Quaresma renova a
comunidade dos fiéis juntamente com os catecúmenos
e os dispõe para a celebração do mistério
pascal, ao qual os sacramentos de iniciação
associam cada um” (Introdução do RICA,
n. 21).
2. Simbolos, ritos, gestos quaresmais
São
vários os símbolos, as atitudes e iniciativas
humanas e religiosas que acompanham e enriquecem o tempo
da Quaresma, no qual, como em toda preparação,
já saboreamos de certa maneira a festa da Páscoa
que virá. Por exemplo:
* A cor roxa, as cinzas e
a cruz lembram o caráter de penitência
e conversão próprio deste tempo. Isto se manifesta
também no visual do espaço celebrativo, sóbrio,
despojado.
* O jejum
nos orienta a dar mais atenção à Palavra
de Deus. A fome que sentimos (quando fazemos jejum) pode
simbolizar e evocar a fome que temos da Palavra de Deus.
É tempo forte, portanto, de escuta da Palavra, pois
através dela vamos conhecer os desejos de Deus e
praticar a sua vontade.
* Ajudados pela Campanha da
Fraternidade, intensificamos a prática
da caridade, procurando corrigir e aperfeiçoar, à
luz da Palavra de Deus, nosso jeito como tratamos as pessoas
e com elas nos relacionamos, sobretudo os mais pobres e
sofredores, e como procuramos ajudá-los a viver com
dignidade. Nesta ano de 2010, temos uma motivação
ainda maior por ser uma Campanha da Fraternidade Ecumênica.
* Nesse tempo forte da vida
da Igreja intensificamos nossa vida
de oração, na forma de súplicas,
pedidos de perdão, intercessão, agradecimento,
compromissos de fé, melhor participação
na comunidade etc. É um tempo próprio para,
nas comunidades, a gente participar de alguma celebração
penitencial (individual ou comunitária). Sobre estas
três atitudes – jejum, esmola e oração
– os Santos Padres fazem muitas referências.
Recordemos algumas: “O que a oração
pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe.
Oração, misericórdia, jejum: três
coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente”
(São Pedro Crisólogo). “Não tem
mérito nenhum negar alimento ao corpo se no coração
não se renuncia à injustiça e se a
língua não se abstém da calúnia”
(São Leão Magno). “A esmola só
será autêntica se à ajuda material estiver
unido o perdão das ofensas” (Santo Agostinho).
* Podemos expressar nossa
vontade de participar da caminhada sofrida de Jesus
(vítima da violência, de ontem e de hoje),
participando de procissões (de ramos, do encontro,
do Senhor morto etc.), Via-Sacras, círculos bíblicos
etc.
* Expressamos o “clima”
próprio deste tempo forte da vida da Igreja
também através da música e do canto.
Há uma música própria e cantos que
caracterizam este tempo, além do hino da CF . O Hinário
2 da CNBB apresenta também um bom repertório
de músicas litúrgicas quaresmais. Na introdução
do Hinário 2 lemos: “Cantar a Quaresma é,
antes de tudo, cantar a dor que se sente pelo pecado do
mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras, crucifica
os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de
Cristo. O canto da quaresma nos inspira e anima a assumir,
com mais garra do que nunca, a Cruz de Nosso Senhor Jesus
Cristo. (...) Pela participação em seus sofrimentos,
isto é, ‘obedientes ao Pai e comprometidos
com os irmãos até o fim’ (cf. Jo 13,1),
‘cheguemos à glória da sua ressurreição’
(cf. Fl 3, 10-11)”. Para ajudar nesta vivência,
é aconselhável também que se evite
na Quaresma o toque de instrumentos musicais. Também
não cantamos o “glória” e o “aleluia”.
3. Lembretes práticos para as equipes de
liturgia e de celebração
* O espaço litúrgico,
despojado, sóbrio e “vazio” nos ajuda
a esvaziar o coração para preenchê-lo
com a Palavra, que é luz para nossos passos e que
nos converte.
* Momentos de silêncio,
principalmente entre as leituras e após a homilia,
são importantes.
* Um sinal permanente no espaço
litúrgico, como um tecido roxo em
forma de faixa na mesa da Palavra ou como detalhe na mesa
eucarística (sem “tampar” ou esconder
o altar), ajudará na experiência quaresmal.
Não colocar o cartaz da CF em frente ao altar ou
ambão, mas num outro local, de preferência
na entrada da igreja, bem visível para a comunidade.
* A cruz,
pela qual fomos marcados no Batismo, deve ser destacada.
Ela lembra que somos discípulos e discípulas
de Jesus, que superou o fracasso humano da cruz com um amor
que vence a morte.
* A comunidade
pode fazer maior experiência da misericórdia
de Deus através do sacramento da Reconciliação,
de celebrações penitenciais e também
de retiros.
4. Semana Santa e Tríduo Pascal: a conclusão
da quaresma
Existe
um jeito, um lugar, um momento muito especial no qual aprenderemos
a “viver a semana santa”. É o que nos
aponta o saudoso Papa Paulo VI: “Se há uma
liturgia que deveria encontrar-nos todos juntos, atentos,
solícitos e unidos para uma participação
plena, digna, piedosa e amorosa, esta é a liturgia
da grande semana. Por um motivo claro e profundo: o Mistério
Pascal, que encontra na Semana Santa a sua mais alta e comovida
celebração, não é simplesmente
um momento do Ano Litúrgico: ele é a fonte
de todas as outras celebrações do próprio
Ano Litúrgico, porque todas se referem ao mistério
da nossa redenção, isto é, ao Mistério
Pascal”.
“Viver
a semana santa” significa fazermos memória
destas ações maravilhosas de Deus. Mais, saber
que estamos “re-vivendo” todos estes fatos.
“De geração em geração,
cada um de nós é obrigado a ver-se a si próprio,
com os olhos penetrantes da fé, como tendo ele mesmo
estado lá no Calvário, na primeira sexta-feira
santa, e diante do sepulcro vazio, na manhã da ressurreição.
Hoje, todos nós, aqui reunidos para celebrar a eucaristia,
estávamos lá, prontos a morrer na morte de
Cristo e a ressuscitar em sua ressurreição.
Será exatamente nossa comunhão com o corpo
sacramental do verdadeiro Cordeiro que nos tornará
realmente presentes àquele eterno presente”.
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| Notas
1. Cf. Frei
José Ariovaldo da Silva, O tempo da Quaresma, Liturgia
em Mutirão, Edições CNBB, pág.
38-40.
2. Está publicado pela Paulus um CD com todos os cantos
próprios da Quaresma e da CF para a missa de cada domingo
da Quaresma deste ano.
3. Cf. Ir. Veronice Fernandes, A liturgia do tempo da quaresma,
Liturgia em Mutirão II, Edições CNBB,
pág. 99.
4. Sugerimos o DVD Reconciliai-vos, produzido pela CNBB e
Verbo Filmes, como roteiro para estudo e aprofundamento do
sacramento da Penitência e Reconciliação
e das celebrações penitenciais.
5. Sugiro ainda a leitura do importante artigo de Pe. Domingos
Ormonde e Ir. Penha Carpanedo que está publicado na
Revista de Liturgia, janeiro/fevereiro 2010, pág. 15
a 22.
6. Césare Giraudo, Redescobrindo a Eucaristia. São
Paulo, Loyola, 2002, p. 83 |
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