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Quarta-Feira de Cinzas é a porta da Quaresma. Com a
liturgia de hoje e a imposição das cinzas ingressamos
no edifício litúrgico quaresmal, o qual tem
como aspecto característico a oração,
o jejum, as obras de caridade e a escuta da Palavra. Entre
eles, emergem o apelo à penitência e a conversão.
A
cerimônia da imposição das cinzas, mais
do que extensão de um rito penitencial antigo, é
sugerida pela antífona: “Mudemos
as vestes, revistamo-nos de cinzas e saco, choremos diante
do Senhor...”. Antigamente, a Quarta-Feira
de Cinzas começava com uma procissão que ia
da Igreja de Santa Anastásia à de Santa Sabina,
em Roma. Antes dela, o povo, o clero e o Papa recebiam as
cinzas entre cantos.
O
ritual de hoje tem um duplo significado: um relativo à
conversão, à penitência, ao perdão
dos pecados e à renovação interior, outro
exprimindo a precariedade e a insuficiência humana.
A fórmula é “lembra-te
de que és pó e em pó te hás de
tornar”. Esta foi à sentença
de Adão depois do pecado [Gênesis 3,19].
É um anúncio das conseqüências amargas
do pecado e da necessidade da penitência para retornar
à condição perdida. É um convite
a uma meditação austera sobre a precariedade,
a fragilidade e a insuficiência humanas.
O
homem é um meteoro que dura muito pouco. Está
diante dos sofrimentos e da morte e só em união
com Deus pode dar sentido à sua vida.
Hoje
é dia de jejum em vista da solidariedade com Cristo
morto e sepultado. O jejum é expressão de austeridade.
É um ato religioso de dependência a Deus [Êxodo
34,28; 1 Reis 19,8]. É um meio clássico
de expiação.
No
Antigo Testamento havia o uso da imposição das
cinzas. Números 9,1 narra que os filhos de Israel,
vestidos de saco e com a cabeça coberta de cinzas,
reuniram-se para o jejum e depois confessaram os seus pecados
[Ezequiel 27,30].
A
Igreja sabe que o homem é pecador, mas também
sabe que, com a graça e o esforço [ascese],
ele pode chegar à santidade. Por isso, indica a penitência
para conseguir o aperfeiçoamento espiritual. O Catecismo
da Igreja Católica [CIC] fala, no
n.º 583, que só com a penitência e a busca
da renovação o povo de Deus pode dilatar o Reino
de Deus. “A ascese e a
penitência contribuem para adquirir domínio sobre
nossos instintos” [2043].
Mas
a conversão, como no tempo dos profetas, não
diz respeito apenas às obras externas [cinzas e saco],
aos jejuns e às mortificações, mas também
à conversão do coração, à
penitência interior, pois sem isso as obras externas
são estéreis [1430].
A
penitência interior é uma reorientação
radical de toda a vida, um retorno, uma conversão a
Deus com todo o coração, uma ruptura com o pecado,
uma aversão ao mal e uma reprovação das
más ações. Ela comporta um desejo de
mudar de vida com a graça da misericórdia de
Deus e a confiança na sua graça.
Esta
conversão do coração deve ser acompanhada
por uma dose de tristeza salutar, que os Padres denominaram
“animi cruciatus”
[aflição do espírito]
e “compunctio cordis”
[contrição do coração].
O
Código de Direito Canônico [1249]
fala da penitência, na qual o cristão deve praticar
a oração, as obras de piedade, a caridade e
a mortificação cumprindo mais fielmente os próprios
deveres...
Paulo
VI diz que a penitência é um ato religioso pessoal
que tem como objetivo o amor ao Senhor e o abandono nele.
Devemos fazer penitência para denunciar aos céus
e à terra que somos miseráveis.
Os
ensinamentos da liturgia de hoje pedem a renovação
da nossa vida em espírito de humildade e de penitência
[antífona]. A coleta pede ao Senhor
que nossas obras de caridade e penitência vençam
nossos vícios e nos livrem dos pecados. As leituras
nos convidam a nos voltarmos para Deus com todo o coração,
com jejuns e lágrimas, e a rasgarmos os corações
e não as roupas. |