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QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Pe. José Antonio Bertolim, OSJ

A Quarta-Feira de Cinzas é a porta da Quaresma. Com a liturgia de hoje e a imposição das cinzas ingressamos no edifício litúrgico quaresmal, o qual tem como aspecto característico a oração, o jejum, as obras de caridade e a escuta da Palavra. Entre eles, emergem o apelo à penitência e a conversão.

A cerimônia da imposição das cinzas, mais do que extensão de um rito penitencial antigo, é sugerida pela antífona: “Mudemos as vestes, revistamo-nos de cinzas e saco, choremos diante do Senhor...”. Antigamente, a Quarta-Feira de Cinzas começava com uma procissão que ia da Igreja de Santa Anastásia à de Santa Sabina, em Roma. Antes dela, o povo, o clero e o Papa recebiam as cinzas entre cantos.

O ritual de hoje tem um duplo significado: um relativo à conversão, à penitência, ao perdão dos pecados e à renovação interior, outro exprimindo a precariedade e a insuficiência humana. A fórmula é “lembra-te de que és pó e em pó te hás de tornar”. Esta foi à sentença de Adão depois do pecado [Gênesis 3,19]. É um anúncio das conseqüências amargas do pecado e da necessidade da penitência para retornar à condição perdida. É um convite a uma meditação austera sobre a precariedade, a fragilidade e a insuficiência humanas.

O homem é um meteoro que dura muito pouco. Está diante dos sofrimentos e da morte e só em união com Deus pode dar sentido à sua vida.

Hoje é dia de jejum em vista da solidariedade com Cristo morto e sepultado. O jejum é expressão de austeridade. É um ato religioso de dependência a Deus [Êxodo 34,28; 1 Reis 19,8]. É um meio clássico de expiação.

No Antigo Testamento havia o uso da imposição das cinzas. Números 9,1 narra que os filhos de Israel, vestidos de saco e com a cabeça coberta de cinzas, reuniram-se para o jejum e depois confessaram os seus pecados [Ezequiel 27,30].

A Igreja sabe que o homem é pecador, mas também sabe que, com a graça e o esforço [ascese], ele pode chegar à santidade. Por isso, indica a penitência para conseguir o aperfeiçoamento espiritual. O Catecismo da Igreja Católica [CIC] fala, no n.º 583, que só com a penitência e a busca da renovação o povo de Deus pode dilatar o Reino de Deus. “A ascese e a penitência contribuem para adquirir domínio sobre nossos instintos” [2043].

Mas a conversão, como no tempo dos profetas, não diz respeito apenas às obras externas [cinzas e saco], aos jejuns e às mortificações, mas também à conversão do coração, à penitência interior, pois sem isso as obras externas são estéreis [1430].

A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus com todo o coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e uma reprovação das más ações. Ela comporta um desejo de mudar de vida com a graça da misericórdia de Deus e a confiança na sua graça.

Esta conversão do coração deve ser acompanhada por uma dose de tristeza salutar, que os Padres denominaram “animi cruciatus” [aflição do espírito] e “compunctio cordis” [contrição do coração].

O Código de Direito Canônico [1249] fala da penitência, na qual o cristão deve praticar a oração, as obras de piedade, a caridade e a mortificação cumprindo mais fielmente os próprios deveres...

Paulo VI diz que a penitência é um ato religioso pessoal que tem como objetivo o amor ao Senhor e o abandono nele. Devemos fazer penitência para denunciar aos céus e à terra que somos miseráveis.

Os ensinamentos da liturgia de hoje pedem a renovação da nossa vida em espírito de humildade e de penitência [antífona]. A coleta pede ao Senhor que nossas obras de caridade e penitência vençam nossos vícios e nos livrem dos pecados. As leituras nos convidam a nos voltarmos para Deus com todo o coração, com jejuns e lágrimas, e a rasgarmos os corações e não as roupas.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano B:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico B
"
 
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