| Os
"grandes desequilíbrios" agravados pela crise
impõem a instituição de um novo mecanismo
de governação internacional no seio da ONU,
sustenta Bento XVI na encíclica Caritas in veritate,
publicada na véspera da cimeira do G8. O Vaticano espera
que as 150 páginas escritas pelo Papa sejam lidas como
um impulso ao "desenvolvimento humano integral".
Na
terceira encíclica do seu pontificado, a primeira de
caráter social, Bento XVI formula a posição
da Santa Sé sobre a reforma da "arquitetura econômica
e financeira internacional" no contexto da crise que
se propagou dos Estados Unidos aos cinco continentes. A resposta
da comunidade internacional, defende o Papa, terá de
passar pela criação de uma "verdadeira
autoridade política mundial", um ônus que
poderia recair sobre as Nações Unidas. Para
tal impõe-se uma célere "reforma"
da Organização.
Disciplinar
a globalização seria, nos termos da encíclica
Caritas in veritate (A caridade na verdade), a tarefa de base
da nova "autoridade", um "degrau superior de
organização à escala internacional de
tipo subsidiário". Para além de "governar
a economia mundial, sanear as economias atingidas pela crise"
e "prevenir o seu agravamento e maiores desequilíbrios",
o novo mecanismo proposto pelo Vaticano trataria também
de "proceder a um desejável desarmamento integral,
alcançar a segurança alimentar, assegurar a
proteção do ambiente e regular os fluxos migratórios",
à luz do "princípio da solidariedade".
No
entender do Papa, a globalização, "a priori,
não é boa nem má". No entanto, defende
que os indivíduos passem da condição
de "vítimas" ao papel de "protagonistas"
na correção de "disfunções,
tantas vezes graves, que introduzem novas divisões
entre os povos e no interior dos mesmos".
Ética
"amiga da pessoa"
Aos
Estados é pedida uma ética que promova a "dignidade
inviolável da pessoa humana e, também, o valor
transcendente das normas morais naturais": "Uma
ética econômica que prescinda destes dois pilares
arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico
e a prestar-se a instrumentalizações; mais concretamente,
arrisca-se a aparecer em função dos sistemas
econômico-financeiros existentes, em vez de servir de
correção às disfunções
dos mesmos".
Partindo
do diagnóstico de uma "ligação estreita
entre a pobreza e o desemprego", resultado do crescente
recurso a expedientes de gestão como a deslocalização
de empresas, Bento XVI pronuncia-se contra a degradação
do "nível de proteção dos direitos
dos trabalhadores", a começar pelo "direito
a um salário justo". As estruturas sindicais,
argumenta o Papa, "foram sempre encorajadas pela Igreja".
A
encíclica Caritas in veritate retoma, também,
a condenação do aborto e da eutanásia,
a par da defesa do "casamento entre um homem e uma mulher"
enquanto "célula primeira e vital da sociedade".
"Considerar o aumento da população como
a causa primeira do subdesenvolvimento é incorreto,
mesmo do ponto de vista econômico", concluiu Bento
XVI.
Na
apresentação da encíclica, o cardeal
Renato Raffaele Martino, que preside ao Conselho Pontifício
Justiça e Paz, recusou descrever o documento papal
como um texto "feito especificamente para a crise".
Trata-se, explicou o cardeal, de uma encíclica destinada
a promover "o desenvolvimento humano integral".
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