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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C - São Lucas
Tempo Comum
SANTÍSSIMA TRINDADE
30 de Maio de 2010

Primeira Leitura
Provérbios
8,22-31

A SABEDORIA, COM DEUS,
NA CRIAÇÃO DO MUNDO

Este trecho é um hino à sabedoria personificada. O texto consta de quatro estrofes. Na primeira (vv.22-23) e na última (vv.30-31), a Sabedoria fala de si mesma. Na segunda e terceira (vv.27-29), fala do mundo que Deus criou do nada através de sua ajuda. A sabedoria simboliza o agir de Deus. Por isso é a síntese da criação. Ela é a criatura primogênita de Deus (8,22-26).

No princípio não havia abismos, nem fontes abundantes, nem montes ou colinas. Não havia terra nem campos. Então Deus colocou o céu, traçou o horizonte sobre as águas dos oceanos, condensou as nuvens no alto, controlou as fontes dos oceanos, sinalizou os limites do mar e colocou os fundamentos da terra. Do seu lado estava a sabedoria, ou seja, o seu projeto de liberdade e vida para a criação. Este projeto é como um mestre de obras (v.30), ao qual Deus inspira, a fim de que a vida seja bem sucedida em todas as suas manifestações. O Novo Testamento leu este texto à luz da encarnação, vendo Jesus como a sabedoria do Pai.

Estes capítulos (1-9) foram escritos na época pós-exílica, como resultado de uma coleção de diversas sentenças que formam o corpo do livro, através de uma escola sapiencial que se preocupou em compilar as experiências de vida dos antepassados, para servirem de orientação às gerações presentes. Esta escola sapiencial remonta ao tempo de Salomão, mas só na época pós-exílica mostrará todo o seu vigor, coletando e compilando estas experiências de vida, pois justamente na época pós-exílica o povo se viu privado de uma das mediações político-religiosas mais importantes: “Nem os reis nem os profetas”. Portanto, como o povo podia orientar-se? Era preciso a sabedoria e esta se resumia à sensatez que nasce da experiência de vida. Com o passar do tempo, o povo de Deus do Antigo Testamento chegou a personificar esta experiência vital: ela é a criatura primogênita de Deus. É a dama que as pessoas devem cortejar, amar e conquistar a fim de possuir a vida.

Para o povo, as cabeçadas e acertos dos que vieram antes dele servirão como ponto de referência para que as pessoas tenham bom senso de discernimento, para construir a sociedade. O bom senso orientará a vida do povo em sintonia com o projeto de Deus. Para Israel, a verdadeira sabedoria é a sensatez que nasce da experiência da vida. Para Israel, sábio é quem constata que Javé é o Deus da vida e o verdadeiro culto prestado a ele é serviço incondicional à vida e à liberdade das pessoas.

A sabedoria tem suas prerrogativas. Ela se louva pela sua origem, natureza e obras. É posterior a Deus, mas anterior ao universo, inferior a Deus, mas superior ao mundo. É uma personagem concreta, não poética, e tem uma relação com Deus. A Sabedoria é a “hokumà”, ou seja, o objeto da pesquisa do sábio, fonte de habilidade, de capacidade de viver bem. É como a esposa inseparável do marido, sempre enamorada dele. Ela é a primeira (“reshit”), como diz o Eclesiástico 24,9. No Talmude hebraico se lê: “Deus criou a Sabedoria.“ Portanto, ela foi criada por Deus (Salmo 139,13: “Ele me criou”). São Jerônimo traduziu como “me possuiu, me adquiriu”. É, portanto, a primeira criatura modelada pelo Criador, fonte moderadora de outras criaturas. Ela estava presente no ato da criação (vv.27-30).

Para a tradição hebraica, a Sabedoria é o instrumento de trabalho do Criador, ou seja, a sua Torá. Como um rei que, ao construir o seu palácio, não segue o seu critério, mas o plano do arquiteto, Deus olhou a Torá e criou o universo. Portanto, a sabedoria é comparada à palavra modelo, norma, sinal de todo o universo. Enfim, tudo é reflexo da sabedoria.

Quem é esta Sabedoria? “No princípio estava junto de Deus, e tudo foi criado por meio dele...“ (João 1,2-3); “Por meio dele foram criadas todas as coisas...” (Colossenses 1,15); “Por meio dele o mundo foi feito...” (Hebreus 1,2; 1,3); “É o princípio da criação de Deus” (Apocalipse 3,14).

Segunda Leitura
Romanos
5,1-5
O AMOR DE DEUS EM NOSSOS CORAÇÕES PELO ESPÍRITO SANTO

Esta carta é um anúncio da salvação, através da fé em Cristo (1,16). Esta é oferecida aos judeus e a todos e é necessária porque tanto uns como outros estão sob o jugo do pecado (1,18 - 4,25). As obras da Lei, realizadas segundo critérios humanos, não salvam. O que salva é a fé em Cristo, em sua vitória redentora (3,21-31)

Nesta carta o apóstolo expõe de maneira profunda, ordenada e serena o que havia exposto de maneira polêmica na Carta aos Gálatas. Fala da gratuidade da salvação pela fé, mostra que Deus pode salvar não só os judeus, mas toda a humanidade, através de Jesus Cristo, bastando para tanto ter fé nele, que é a manifestação suprema do amor do Pai aos homens. Para que a humanidade seja salva, Deus dá uma anistia geral, bastando que o homem creia nele e se torne seu discípulo e, com isso, o Espírito Santo age no homem criando uma vida nova. É a justificação operada por Cristo por meio da fé, na qual o homem encontra a salvação.

Em Jesus, o homem encontra a justificação, ou seja, a reconciliação com Deus e, portanto, a paz, ou seja, um novo relacionamento com ele que havia se rompido com o pecado.

O cristão é salvo, mas não se trata de uma salvação definitiva. Ela se dará na ressurreição, quando será vivida a mesma condição de Cristo Ressuscitado. Cristo recuperou para o homem o estado de graça ou a amizade com Deus. Adquiriu um novo hábito, um novo estado de ânimo sustentado pela esperança no futuro. Isto não é ilusão, mas fruto da fé na vitória de Cristo.

Mesmo sendo criatura nova, o homem (cristão) conserva as carências da antiga família, ainda vive num mundo de fragilidade e corrupção, mas o amor (“ágape”) de Deus é o artífice de sua salvação. Portanto, o amor de Deus e o dom do Espírito Santo são a garantia para a salvação, e o fruto da fé são a paz e a esperança.

Tendo acreditado em Cristo pela fé e feito a experiência de Deus pelo Espírito Santo (caridade), resta ao cristão traduzir a fé na vida (esperança). Isto é difícil, supõem tribulações, sofrimentos internos e externos provocados pela prática da fé numa sociedade hostil. Porém, para quem acredita na força redentora de Cristo, os sofrimentos produzem esperança e firmeza, levando à resistência, virtude característica dos mártires, que não se dobraram diante da morte.

Em Cristo temos a paz porque somos reconciliados com Deus (Colossenses 1,20; Efésios 2,14). Isto é o sumo bem (“Shalom”), porque os liames que oprimiam foram quebrados, o céu se abriu e podemos conhecer o Pai, temos acesso a ele, um relacionamento com ele, somos seus filhos. “Estamos em paz com Deus”, paz não no sentido psicológico de serenidade, tranqüilidade, mas na dimensão bíblica do novo relacionamento com Deus, graças à salvação em Cristo. O justificado não está livre das tribulações que dilaceram a história e a existência, não é um extraterrestre que vive feliz em sua ilha ou num planeta onde não se conhece a dor ou o mal. Está num campo de batalha, onde há forças do mal e destruição (tribulação = “thlipsis), mas com a esperança de que não é um otimismo fácil, mas uma presença confiante e ativa no mundo. É o paradoxo cristão, que tem o seu significado na expressão: “Gloriamo-nos nas adversidades, não por masoquismo, mas por consciência lúcida de que é possível realizar a resistência ao mal. Paulo não faz aqui a apologia do super-homem como o de Nietzsche. Se a esperança cristã não se confunde com resignação, também não é confundida com a “anoréia” (virilidade e heroicidade) exaltada pelos gregos. Justamente porque é uma confiança do homem fraco (“Ben Adàm”), ou seja, filho da terra, mas que deposita suas forças em Deus. O cristão não vive de ilusão, não se arrisca a tornar-se um Dom Quixote ingênuo porque a “esperança não desilude”, tem sua âncora em Deus.

Evangelho
João
16,12-15
O ESPÍRITO DA VERDADE LHES ENSINARÁ TUDO E ME GLORIFICARÁ

Estes versículos pertencem ao discurso de despedida de Jesus, onde a função do Espírito Santo é explicitada. Antes de morrer, Jesus dá a conhecer aos discípulos tudo o que deviam saber sobre o Pai e o que foi realizado nele e por meio dele (15,15). Outras coisas ainda deviam ser ditas, mas por enquanto os discípulos não estavam preparados, não podiam compreender (v.12), e foi só depois da ressurreição que eles puderam entender o alcance de suas palavras (2,22; 12,6), quando receberam o Espírito Santo. O Espírito é revelador do Pai, pois tudo o que Deus quis revelar ao homem o fez através de Jesus, que é a Palavra ("Logos") de Deus e esta Palavra será compreendida nos lugares, nas situações novas em que os crentes se encontrarem. O Espírito irá guiar, dizer, anunciar, glorificar. Ele é a verdade que Jesus fez conhecer. Ajudará a dar continuidade à obra de Jesus. O Espírito é a memória do passado de Jesus para o hoje da Igreja. Ele age em comunhão com Jesus e com o Pai (vv.13b;14b;15b). Jesus, que é um com o Pai, partilha o que é seu com o Espírito.

O “Espírito da verdade” sintetiza a missão, pois a palavra de Jesus esconde virtualidades, riquezas, mistérios que só Deus e seu Espírito conhecem e por isso podem revelar. As manifestações de Deus como experiências de Cristo permanecem escondidas sob véus espessos, sob invólucros histórico-culturais que precisam ser continuamente entendidos e, sobretudo, colocados nas mãos dos homens de todos os tempos. Esta é a tarefa árdua do Espírito Santo.

O verbo “ananghellein” não significa tanto anunciar como se tratasse de uma mensagem nova, mas sim explicar, tornar claro. A palavra de Jesus precisa ser libertada das sombras, da obscuridade que a faz incompreensível, e nesse sentido há um ponto particularmente indecifrável na vida de Jesus, que é a sua morte na cruz, que o Espírito Santo deverá esclarecer aos cristãos (16,21).

O Espírito Santo é a alma da Igreja não porque abre uma nova era de salvação, mas pela sua tarefa insubstituível de atualizar a obra de Cristo. O Espírito é para João o profeta de Jesus (16,12-15).

REFLEXÃO

As festas da Santíssima Trindade são uma única celebração do mistério trinitário presente em todo o ano litúrgico. Hoje somos convidados a contemplar a Santíssima Trindade, a lembrar as três Pessoas divinas, que são consideradas não só por aquilo que fazem por nós, mas por aquilo que são. A Trindade é um mistério que diz respeito antes de tudo ao próprio Deus.

O mistério da Santíssima Trindade consiste no fato de que Deus, desde sempre, num único instante da eternidade, fez proceder de si próprio o Verbo, ou seja, a Palavra interior, espiritual, a imagem perfeita de si mesmo. A isso chamamos de geração, porque o Verbo é totalmente idêntico àquele de quem procedeu, ou seja, igual ao Pai, da mesma substância, da mesma natureza do Pai. Este Verbo, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, chama-se Filho. E o Pai e o Filho, amando-se com um amor infinito, fazem proceder deles próprios uma terceira Pessoa, também idêntica ao Pai e ao Filho, o Espírito Santo, que é o Senhor, e dá a vida e procede do Pai e do Filho e é adorado e glorificado com o Pai e o Filho. Eis o mistério da Santíssima Trindade, um só Deus criador do céu e da terra, mas em três Pessoas iguais e distintas.

A Trindade é o mistério dos mistérios. Qualquer consideração que seja feita a seu respeito é superficial. As palavras de consideração sobre ela são as da linguagem humana, e não conseguem traduzir o que procuram revelar.

É como se um cego se pusesse a falar sobre as propriedades da luz. O mistério permanece, mas o homem é convidado a falar sobre Deus e não pode falar a não ser com imagens.

Para os profetas Deus é esposo, amigo. Jesus, ao invés, deu preferência à sua paternidade, que não é uma designação que ele encontrou num livro, mas fruto de sua experiência com Deus. O Deus de Jesus é o mesmo de Abraão, Isaac e Jacó, mas não mais com contornos esquisitos, com fulgor e relâmpagos, iras e cóleras. Jesus é aquele que veio do Pai (João 1,18) e conhece os segredos de Deus. O Deus de Jesus não é um motor imóvel do qual falavam os filósofos gregos, mas a fonte de toda a existência, o princípio da vida. Sua essência é o Amor (1João 4,7-8). Ele se exprime doando-se, pois, se Deus é Amor, tem uma exigência íntima de irradiar-se, de sair de si.

Somente nós, cristãos, sabemos que Deus é único na natureza e trino nas Pessoas. Em nenhuma outra religião se conhece tal verdade. Muitas vezes se pergunta o que é específico do cristianismo, que o diferencia essencialmente das outras religiões. A resposta é: A REVELAÇÃO DE DEUS COMO TRINDADE. Este é o centro do anúncio cristão, não só como doutrina, mas também como vida.

Nós sabemos que Deus é trino porque Jesus nos revelou: “Ninguém jamais viu o Pai, senão aquele que está no seio do Pai”. A revelação da Trindade pelo Filho nos mostra o amor do Pai: “Já não os chamo servos, porque lhes fiz conhecer tudo aquilo que ouvi do Pai”.

Jesus nos revelou o segredo de Deus. Deus nos revelou em Jesus o mistério de sua vida, porque quer que participemos de sua própria vida, conhecendo-o e amando-o como ele é em sua vida íntima. Este é o mistério de nossa elevação à vida sobrenatural, ou seja, de uma vida acima de nossa condição humana, porque nos eleva ao nível da vida divina.

Todas as culturas e povos invocaram um Deus ao longo dos séculos, pouco importando quem ele fosse. Os deuses foram muitos e o ateísmo era considerado uma loucura, um atentado contra a sociedade. Os cristãos foram condenados no início porque não aceitaram os deuses de Roma.

Jesus, o Verbo de Deus, abre para os homens a intimidade da vida de Deus, uno e trino. Com sua pedagogia divina fala do Pai e que o Pai e ele são uma coisa só (João 10,30). Depois fala do Espírito Santo que procede do Pai. Mas foram necessários alguns concílios, particularmente os de Nicéia (325) e Constantinopla (381), para esclarecer e colocar em evidência os dados que Jesus revelou.

O mistério da Santíssima Trindade suscitou a paixão dos doutores da Igreja. Basta lembrar Santo Agostinho com seu tratado “De Trinitate”, que levou quinze anos para escrever. Porém, mais do que ciência, é preciso contemplação. Como diante de um espetáculo da natureza, do rosto sorridente de uma criança, as palavras são poucas, é preciso silêncio.

Deus é amor, mas também comunhão. Sua unidade não é solitária, mas comunitária. Sua existência é um facho de relações de amor. A festa da Trindade nos ensina a viver esta mensagem divina. De fato, o mundo sofre por estar distante desse fogo. Os povos lutam por falta de amor. As famílias se dividem por falta de amor. Os idosos são infelizes por falta de amor.

Frederico de Ozanam beijava as crianças depois de batizá-las e dizia que venerava naqueles anjos o trono da Santíssima Trindade.

São Benedito de Montecassino foi um dia almoçar na casa de alguém que o convidou com a intenção de matá-lo com alimento envenenado. Mas, antes de sentar-se à mesa, o santo fez uma oração em nome da Trindade e depois fez o sinal da cruz sobre o pão e o vinho. Com esse gesto, o copo que continha o vinho se quebrou, espalhando o líquido e manchando a toalha de preto. São Benedito saiu sem tocar no alimento e sua vida foi salva

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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