| A
festa da Santíssima Trindade, depois do tempo pascal,
parece convidar-nos a considerar unitariamente, como que em
um epílogo, toda a história da salvação.
Esta solenidade resume os dons que recebemos e celebramos
durante o ano litúrgico. No Natal recebemos o dom do
Pai, na Páscoa o dom do Filho e no Pentecostes o dom
do Espírito Santo.
Ao
celebrar esta festa, fazemos um ato de fé nas três
pessoas divinas, na sua unidade, e ao mesmo tempo agradecemos
os dons recebidos.
O
mistério da Trindade é o primeiro dogma da nossa
fé, a verdade fundamental do cristianismo. Não
podemos negar nem explicar esta verdade misteriosa da nossa
fé. Ela foi objeto de reflexão de mentes iluminadas
do cristianismo como Santo Agostinho (o menino e a
conchinha do mar) e São Patrício que,
para tentar explicar este mistério aos holandeses,
colheu um trevo e explicou-lhes que o trevo é um só,
assim como uma só é a realidade de Deus, mas
as folhas são três, distintas e iguais, como
são distintas e iguais as pessoas da Santíssima
Trindade.
A
Santíssima Trindade é um “mistério
doutrinal”. Cremos que Deus Pai enviou
o Filho que morreu e ressuscitou, e que o Espírito
Santo veio para a nossa santificação e que a
manifestação no tempo e na história dos
homens do Pai, do Filho e do Espírito é a revelação
da existência eterna, pessoal e distinta das três
pessoas divinas.
A
Santíssima Trindade é um “mistério
cultual”. Mistério presente na
liturgia. No Batismo fomos batizados em nome da Trindade.
Na Crisma recebemos do Pai por mediação do Filho
o dom do Espírito Santo. Na Confissão nossos
pecados são perdoados em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. No sacramento da Ordem há a
invocação do Espírito Santo da parte
do Pai pela mediação do Filho. No Matrimônio,
os noivos entregam um ao outro as alianças em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na oração
Eucarística temos a tríplice invocação
trinitária, primeiro como agradecimento ao Pai pela
obra que realizou na história, depois a invocação
do Espírito Santo sobre o pão e o vinho na hora
da consagração.
A
Santíssima Trindade é um “mistério
na vida cotidiana”. Todas as vezes que
rezamos o “Creio”
invocamos a Trindade.
A
Santíssima Trindade age na história. “O
Pai como criador e Salvador. O Filho que se fez homem por
você, para que você se torne Deus por meio dele”
(Gregório Nazianzeno). Ele restaurou
a imagem de Deus ofuscada por nós pelo pecado. O Espírito
Santo nos santificou e age junto com o Pai e o Filho na história
(Gênesis 1; Lucas 1; João 4,6; 13; 14,16;
26; Romanos 8,15-16).
Sobre
a festa da Santíssima Trindade podemos falar pouco,
e com humildade. Ao falar de Deus devemos usar metáforas,
imagens, simbolismos. É como procede a Bíblia,
que não faz uma exposição sobre Deus,
sobre a sua natureza, sobre o seu modo de relacionar-se com
as criaturas e a criação. O mistério
de Deus é inefável.
Os
mistérios principais da nossa fé são
dois:
01)
Unidade e trindade de Deus;
02) Encarnação,
paixão, morte e ressurreição de Nosso
Senhor Jesus Cristo.
Os
muçulmanos crêem em Deus, mas não são
cristãos, pois não crêem na encarnação
de Jesus nem na Trindade. Os hebreus também crêem
em Deus, e são monoteístas, mas não são
cristãos. Igualmente as testemunhas de Jeová
crêem em Deus, porém não são cristãos.
Acreditam em Jesus como o Anjo Miguel encarnado. “O
anti-Cristo é aquele que nega o Pai e o Filho”
(1 João 2,22).
Os
filósofos Platão e Aristóteles afirmam
a unidade de Deus com a razão, mas nós, cristãos,
afirmamos que Deus é uno na natureza e trino nas Pessoas,
porque Jesus nos revelou: “O
Filho Unigênito, que está no seio do Pai, nos
revelou” (João 1,18).
O mistério trinitário é como o sol: não
conseguimos fixá-lo com os olhos, mas percebemos que
vivemos na sua luz, no seu calor e no seu brilho.
A
Trindade não é um enigma religioso a ser decifrado
como um hieróglifo ou um quebra-cabeça teológico.
A
teologia latina, sobretudo, procurou dar explicações
abstratas do mistério da Santíssima Trindade.
Os primeiros concílios deram origem ao símbolo
Niceno-constantinopolitano no século IV. Depois vieram
os parces latinos, com o trabalho “De
Trinitate”, de Agostinho (354-430),
e a teologia escolástica da Idade Média, e aí
sobressaíram Tomás de Aquino (séc.
XIII) e as Dezessete Questões sobre a Trindade
(I-I, 27-43). Mais tarde o Concílio
de Trento (séc. XIV) e a teologia
neo-escolástica trataram deste tema até antes
do Concílio Vaticano II (1962-1965).
Usando
as categorias aristotélicas da filosofia grega, com
sua distinção em essência e existência,
natureza e Pessoa, a teologia clássica procurou explicar
o mistério da Santíssima Trindade afirmando
que Deus é uno na essência e na natureza, e trino
nas pessoas. Uma só natureza divina, portanto um só
Deus em três pessoas distintas de igual dignidade, glória
e categoria.
Na
verdade, todo o esforço que fazemos para explicar a
Santíssima Trindade continua sendo uma ortodoxia abstrata
e especulativa, portanto de difícil compreensão
pastoral.
O
Deus da Bíblia não é o mesmo dos filósofos,
pois todas as perfeições que são atribuídas
a Deus criador não podem exprimir a riqueza da sua
bondade que se manifestou na história da salvação
com Jesus Cristo e o dom do Espírito Santo. Nossa mente
se perde diante de Deus Trindade. É difícil
explicar a imagem da Santíssima Trindade, porém
podemos ter uma idéia dela quando vemos pessoas se
unirem para buscar um mundo melhor e mais feliz. Quando vemos
pessoas lutarem unidas contra o mal, o sofrimento, a dor,
o desânimo, o fatalismo... Quando vemos uma família
crescer na união e no amor. Quando vemos jovens, apesar
dos obstáculos e fracassos, continuarem acreditando
e lutando por uma vida mais plena de sentido. Todos são
uma imagem da Santíssima Trindade, pois fazem o que
Deus uno e trino faz: criam, crescem, constróem, salvam,
vivem no amor, na união, na solidariedade... Neste
sentido, a Santíssima Trindade não é
um mistério incompreensível, um tratado de teologia,
mas o que de melhor procuramos realizar em nossas vidas.
A
Santíssima Trindade é a própria vida
no que ela tem de mais bonito e verdadeiro: o amor vivenciado
constantemente, que cresce, se comunica, cria e salva. O amor
é a alma do mundo, a vida da vida. A Trindade é
a fonte de todos os dons e de todas as graças.
Deus,
em sua pedagogia, foi se revelando aos poucos, manifestando
a sua realidade íntima. Desde o Antigo Testamento foi
dando a conhecer, sobretudo, a “unidade” do seu
ser, a sua distinção completa do mundo e o seu
modo de se relacionar com ele, como Criador e Senhor. Ensina-nos
que é “incriado”,
que não está limitado a um espaço, pois
é “imenso”,
nem ao tempo, pois é “eterno”.
O seu poder não tem limites, pois ele é “onipotente”
(Deuteronômio 4,39).
Deus
se revela no Antigo Testamento como Deus único e criador,
mas também como pastor que busca o rebanho, que o cuida
com ternura e perdoa as infidelidades do seu povo.
Foi
Cristo que revelou a intimidade do mistério trinitário
(Mateus 11,27). Ele também revelou
a existência do Espírito Santo junto com o Pai
e o enviou à Igreja para santificá-la e revelou
a unidade perfeitíssima de vida entre as pessoas divinas
(João 16,12-15). O Pai gera o Filho
eternamente e o Espírito Santo procede do Pai e do
Filho e estas “procedências”
entre as três pessoas divinas são eternas. Em
Deus a Paternidade, a Filiação e a Expiração
constituem todo o ser do Pai, do Filho e do Espírito
Santo.
O
Deus que Cristo revelou não é um Deus distante
e inacessível. Está próximo do homem.
É compassivo e misericordioso, lento na ira e rico
em clemência (1ª leitura). Por
isso perdoa a idolatria e a infidelidade dos israelitas (Êxodo
32) e renova a Aliança assumindo-os como o
seu povo. Deus não é um ser solitário,
fechado em si mesmo, mas amor e alteridade. |