|
COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
| |
Ano
C
Tríduo Pascal
Sexta-Feira Santa
Adoração da Cruz
02 de Abril de 2010 |
Primeira
Leitura
Isaías 52,13-53,12
|
QUARTO
CÂNTICO DO SERVO:
PAIXÃO E GLÓRIA |
O
trecho é conhecido como o 4º canto do Servo de
Javé. É um poema do servo de Deus que enfrenta
constantemente a dor e a rejeição até
a morte.
Este
4º canto do Servo de Javé se insere no contexto
das ilusões e amarguras da restauração
pós-exílica. O povo havia voltado para a sua
pátria após o exílio babilônico,
mas continuava sendo dominado, agora pelos persas. As funções
tinham sido restabelecidas no Templo, mas o culto não
era dinâmico. Por isso, o profeta prognostica uma restauração
nacional, só que esta não acontecerá
com armas, mas através dos sofrimentos e humilhações
do Servo de Javé (Isaías 42,1-4; 42,1-7;
50,4-7).
Israel
seria guiado por alguém bom, pois o mal não
poderá persistir para sempre. Israel um dia será
livre. O sofrimento do povo era para expiar as suas culpas,
mas o Servo será vítima da cólera divina.
Por isso a teoria do bode expiatório encontra sua aplicação
neste homem inocente que paga por todos, como um cordeiro
manso e humilde.
O
Servo de Javé enfrenta conscientemente a rejeição
e a dor. Este trecho prenuncia a morte de Jesus. Pode ser
considerado o 5º Evangelho da Paixão. |
Segunda
Leitura
Hebreus 4,14-16;
5,7-9
|
JESUS,
SUMO SACERDOTE,
PASSOU PELAS MESMAS PROVAÇÕES QUE NÓS |
A
Carta aos Hebreus é um discurso sobre o sacerdócio
de Cristo. O autor é um cristão anônimo
que escreveu pelo ano 80 aos cristãos desanimados e
em perigo de abandonar a fé em Jesus. O motivo do desânimo
desses cristãos era ter que enfrentar os sofrimentos
justamente por serem cristãos, assim como a vontade
de retomar as formas já superadas do culto judaico
e o afrouxamento diante da demora da salvação
final.
O
texto pertence a uma parte que pode ser chamada “Jesus,
sumo sacerdote digno de fé e misericórdia”
(Hebreus 3,15-10). Ele é digno de
fé porque cumpriu tudo que Deus havia predisposto para
ele. Sua credibilidade diante de Deus foi completa (3,2-6).
Por isso pode-se aderir a ele com plena confiança (3,7;
4,14). Por isso também ele é misericordioso
(4,15), pois experimentou a condição
humana e conheceu a fraqueza do homem. Por meio da obediência
ao Pai, conquistou a salvação de todos (5,9).
Ele é o único mediador entre Deus e os homens,
não como os sumos sacerdotes que se apresentavam diante
de Deus no Santo dos Santos com sangue das vítimas.
Ele derramou o seu próprio sangue para salvar a humanidade. |
Evangelho
João 18,1-19,42
|
PAIXÃO
DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO |
Para
o evangelista, Jesus é o doador da nova vida. Ele a
doa plenamente. Durante a paixão, mostra sua verdadeira
identidade a Anás. Explica para Pilatos o verdadeiro
significado de sua realeza. É rei porque cumpre até
o fim a vontade do Pai, que é amar o mundo até
o fim.
Jesus
é apresentado ao povo com as insígnias reais:
coroa de espinhos e manto de púrpura. “Ecce
Rex vester” é o motivo de
sua condenação, escrito em três línguas,
e proclama sua realeza diante do mundo. Também no Calvário
Jesus demonstra sua realeza. No relato da paixão, o
título de rei é usado doze vezes e o termo reino
três vezes. Na cruz suas pernas não são
quebradas e João relaciona este detalhe com Êxodo
12,46, que fala do cordeiro pascal, e Jesus morre como um
cordeiro pascal. Outro indício de sua realeza é
a quantidade de perfumes usados em seu sepultamento, cerca
de 32 quilos, quantidade usada somente nos sepultamentos dos
reis.
João
faz a morte de Jesus coincidir com o momento em que no Templo
eram imolados os cordeiros para a Páscoa judaica, ressaltando
assim que Jesus era o verdadeiro Cordeiro pascal imolado para
nossa libertação. Ele é o verdadeiro
Cordeiro (Apocalipse 5,6-14). |
REFLEXÃO |
| Nesta
liturgia revivemos o mistério central de nossa salvação.
A paixão e morte de Jesus mostram sua humilhação
profunda e sua sede de aproximação do homem
diante de sua fragilidade, pecado e morte.
Contemplamos
Jesus pregado na cruz. Toda a vida de Jesus esteve orientada
para este momento supremo. Jesus esperou a cruz por muitos
anos e naquele dia seu desejo de redimir a humanidade se cumpriu.
O que era um instrumento infame, reservado aos bandidos, converteu-se
em árvore da vida. Diante daquele espetáculo
desolador alguns blasfemaram, outros zombaram e outros, indiferentes,
observaram o que estava acontecendo. Muitos tinham visto sua
pregação, seus milagres, seu poder divino. Jesus
tem apenas piedade e compaixão diante de todos esses
espectadores.
Um
dos soldados lhe ofereceu vinho com mirra. Era um gesto de
humanidade com os condenados, pois esta bebida adormecia e
aliviava os sofrimentos. Jesus pensou com gratidão
naquele que lhe oferecia, mas não quis tomá-la
para sofrer conscientemente.
Por
que tanto sofrimento? “Tudo
que ele padeceu é o preço do nosso resgate”
(Santo Agostinho). Ele quis sofrer até
as últimas conseqüências para que compreendêssemos
o seu amor supremo e a baixeza do nosso pecado.
A
crucifixão era a execução mais cruel
no mundo antigo. A morte ocorria depois de uma longa agonia,
e às vezes os verdugos aceleravam o fim do crucificado
quebrando-lhe as pernas. Por isso, a cruz era “escândalo
para os judeus e loucura para os gentios”
(1 Coríntios 1,23).
Nossa
união íntima com Jesus necessita do conhecimento
completo da Cruz, pois nela se consuma nossa redenção,
onde os sofrimentos encontram um sentido. Embora a cruz não
fosse necessária, pois Jesus podia muito bem ter evitado
as humilhações e os maus tratos, a vergonha
do patíbulo, os pregos e a lança, quis sofrer
tudo isso por cada um de nós.
Os
frutos da cruz apareceram ali mesmo, pois um dos ladrões
reconheceu seus pecados: “Senhor,
lembre-se de mim quando tiver entrado em seu reino”.
De fato, aquele companheiro de suplício havia visto
o comportamento de Jesus desde que empreenderam a caminhada
para o Calvário: seu silêncio impressionante,
seu olhar cheio de compaixão para a multidão
que o acompanhava, sua grande majestade no meio de tanta dor
e cansaço. Tudo isso tocou o coração
daquele condenado. Não foi preciso nenhum milagre para
que se convertesse em discípulo de Jesus. Bastou contemplar
seus sofrimentos. A eficácia da paixão é
vontade para cada um, como foi para aquele ladrão.
Por isso podemos afirmar que o Filho de Deus “amou-o
e se entregou por mim” (Gálatas
2,20), não por nós de modo genérico,
mas por cada um de nós.
Jesus
submeteu-se à morte por amor, com plena consciência,
inteira liberdade e coração sensível.
Por isso agora recebemos copiosamente os frutos do seu amor
e deste modo só o nosso não querer pode tornar
vã a paixão de Jesus.
Pregado
na Cruz, Jesus manifesta uma sensibilidade suprema. Depois
de se ter dado a si próprio na última Ceia,
dá-nos naquele momento o que lhe é mais precioso
na terra. Depois de o terem despojado de tudo, “ele
nos dá a sua própria Mãe como nossa Mãe”.
Seu gesto tem significado duplo, pois se por um lado Jesus
se preocupa com Maria, cumprindo com toda fidelidade o quarto
mandamento, por outro no-la dá como nossa Mãe. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
|
|