| A
Paixão é o tema central deste período
do ano. A vida e a missão de Jesus foram marcadas pelo
sofrimento e pela atitude de obediência à vontade
do Pai. Ele confundiu sua vida com a dos pobres, fracos, marginalizados
e pecadores, para iniciar com eles uma nova comunidade de
amigos, iguais e fraternos. A acusação dos judeus
a Pilatos era de certo modo verdadeira (Lucas 23,5).
De fato, seus ensinamentos e mensagens eram destinados a transformar
a ordem constituída, para criar outra mais humana,
no amor, na fraternidade, sem restrição de raças...
Por isso o mataram. Ele morreu para recuperar o direito de
todos.
Com
o domingo de Ramos iniciamos os ritos da Semana Santa, com
os quais a Igreja faz memória da paixão do Senhor.
Mas o rito completo também celebra a entrada solene
de Jesus em Jerusalém, entre a aclamação
da multidão e a alegria das crianças, que agitam
ramos de oliveira e estendem mantos à sua passagem.
Portanto, a liturgia de um lado proclama sua entrada triunfal
em Jerusalém, e de outro sua paixão e morte.
No
domingo de Ramos dois elementos estão presentes: a
exaltação do Senhor e a sua negação.
A multidão que grita “Hosana”
cinco dias mais tarde pede a sua crucificação.
Este é o mistério do homem diante de Deus. De
sua aceitação alegre passa à sua negação.
Este farisaísmo está em cada um de nós,
que passamos da exaltação religiosa a períodos
que excluem Deus do horizonte da vida.
O
texto de Isaías nos oferece a chave de leitura da Paixão
do Senhor, através da figura misteriosa de um personagem
enviado por Deus para dar a liberdade não com sua força
e violência, mas doando-se em sinal de expiação.
Flagelado, ele aceita serenamente o castigo, seguro de sua
vitória final.
O
Servo de Javé encontra sua concretização
histórica em Jesus, que se humilhou e esvaziou de sua
condição divina, assumindo nossa humanidade
e identificando-se com o homem pecador, fazendo a experiência
de uma existência alienada de Deus, imersa na miséria
e destinada à morte. Mas Deus o exaltou e lhe restituiu
a vida gloriosa, fazendo-o Senhor.
De
Clodereu, avô de Carlos Magno, ao ler
a Paixão de Cristo, chorou como uma criança
e depois exclamou: “Se
eu estivesse lá com meus soldados, aqueles esbirros
teriam um final infeliz e eu mesmo teria impedido a morte
de Cristo”. Esta é a expressão
de um sentimento sincero de muitos de nós, mas a dinâmica
da paixão não está ligada tanto a um
simples acontecimento da Semana Santa, quanto à continuidade
do pecado individual e coletivo.
Em
Lucas encontramos o itinerário completo que Jesus percorreu.
Ele não se encontra despreparado, nem surpreso diante
dos sofrimentos, pois já os havia previsto e querido:
“Desejei ardentemente
comer esta Páscoa com vocês”.
A ceia se torna sinal de sua auto-doação a nós:
“Este é o meu corpo
dado por vocês”. Assim, já
na ceia Jesus havia se entregue nas mãos dos inimigos
para ser sacrificado.
Todavia,
Lucas não desdramatiza a Paixão de Jesus. Descreve
a dor de sua alma e a angústia de seu coração
de Homem-Deus. Jesus é descrito como profundamente
humano e, em sua humanidade, inefavelmente divino. Tomado
pela angústia da agonia, ele reza incessantemente e
seu suor tornou-se como gotas de sangue.
Ao
descrever a agonia de Jesus, Lucas pretende exprimir seu estado
de sofrimento extremo. Todavia, neste clima Jesus vence o
medo e o desespero, abandonando-se nas mãos do Pai:
“Se queres afasta de mim
este cálice”. O aspecto divino
da paixão se manifesta em sua experiência dolorosa
e angustiante.
Outro
aspecto da paixão em Lucas é que ela se articula
como uma narração envolvente. Na narração
aparecem aqueles que o seguem. Um dos temas fundamentais em
Lucas é a “sequela
Christi”, a partilha da Cruz do
Senhor. Por isso, o próprio itinerário para
o Calvário se revela profundamente como um convite
ao seguimento. Simão de Cirene e as mulheres que o
acompanham não são espectadoras indiferentes.
Simão carregou a cruz e carregar a cruz significa segui-lo.
O povo o acompanhou em atitude de conversão (Lucas
23,27). O centurião romano ficou profundamente
impressionado e no fim converteu-se. O bom ladrão o
defendeu diante do companheiro de infortúnio que o
injuriava: “Lembre-se
de mim quando estiver no paraíso”.
Acompanhemos
Jesus que, como rei humilde, vai ao encontro da morte pelas
estradas de Jerusalém. Também nós, com
nossos ramos verdes de esperança, o acompanhamos em
sua paixão.
Lucas
descreve o Senhor em sua paixão como o herói
do amor, o verdadeiro mártir que se propõe a
dar a sua própria vida, que luta até o fim no
Getsêmani, que reza continuamente na agonia e perdoa
pacientemente os algozes.
Jesus
sofre e morre por todos nós, e nós às
vezes continuamos a fazê-lo sofrer de diferentes modos:
um pouco com o coração de Judas que trai, como
Pedro que o nega, como Pilatos que o condena, como os chefes
dos judeus que o injuriam, como os soldados que o crucificam.
Precisamos ser como o Cireneu que carrega a cruz, como o bom
ladrão que se arrepende, como José de Arimatéia
que o acolhe.
Que
frutos podemos oferecer nesta Semana Santa? Ser construtores
da paz, pois é este o significado do ramo verde que
levamos para casa. Participar bem dos mistérios pascais
na Semana Santa. Se ainda não a fizemos, fazer uma
boa confissão. Procurar ser bons cireneus, ajudar a
carregar a cruz do outro no sofrimento, nas dores, na doença,
na ignorância, na velhice, na marginalização
etc.
Só
João fala das palmas que serviram para saudar Jesus
(João 12,13). Mateus fala de ramos
cortados de árvores (Mateus 21,8),
assim como Marcos (Marcos 11,8). Lucas não
menciona este pormenor.
A
palma é o sinal característico da vitória
dos atletas e guerreiros da antigüidade greco-latina,
mas se tornou símbolo do martírio na iconografia
cristã. Nas catacumbas é adotada como símbolo
da imortalidade, da ascensão espiritual. Para Lung,
a palma é símbolo da alma, como referência
à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, que
prefigura a ressurreição pascal, com a vitória
sobre a morte e sobre o pecado.
Segundo
os apócrifos, a cruz de Cristo era de oliveira. A oliveira
significa força, purificação, cura. Atribui-se
também a ela o significado do amor, da honra e da riqueza,
já que Salomão havia construído a porta
do “Sancta Sanctorum”
com batentes de oliveira, cobrindo-a de ouro (1 Reis
6,39). Ângelo Salésio
escreveu: “Se eu vejo
junto à tua porta uma madeira de oliveira dourada,
te chamarei Templo de Deus”.
O
ingresso de Jesus em Jerusalém é, sobretudo,
um ingresso messiânico. A tradição e a
fé bíblica colocam nele o cumprimento da palavra
e da promessa de Deus. Após seu ministério na
Judéia e na Galileia, Jesus entra na cidade santa como
Messias, com as prerrogativas que a tradição
bíblica lhe atribui: “Filho
de Deus”.
Na
cerimônia litúrgica do domingo de Ramos revivemos
dois mistérios: o da glória e o da dor.
Mistério
de Glória - Para o seu ingresso
em Jerusalém, por ocasião de sua última
Páscoa, Jesus cuidou de todos os detalhes. Enviou
os discípulos para buscar um burrico, recomendando
o que deviam dizer ao patrão. À multidão
que o acolheu ele transmitiu uma mensagem de paz. Sua
cavalgadura não foi a do guerreiro, mas um paciente
burrico.
Mistério de Dor -
Esta semana é chamada Semana da Paixão.
Entramos no drama da “Passio
Christi”. Lucas relata que
Jesus, ao descer do monte das Oliveiras em direção
a Jerusalém, “chorou
sobre ela”. É o sacrifício
de Jesus. “Quem não
sacrifica nada não ama, quem sacrifica pouco ama
pouco, quem sacrifica tudo ama totalmente”
(Monior).
As
duas primeiras leituras apresentam em termos dramáticos
a operação “kenosis”
de Jesus: seu rebaixamento, as duas dimensões da divindade.
Jesus se torna homem em termos radicais: “Despojou-se
assumindo condições de servo”.
O profeta Isaías o apresenta como um sub-homem, um
verme, que não tem nada de homem, a tal ponto que as
pessoas, ao passarem à sua frente, viram o rosto. “Aquele
que não conheceu pecado tornou-se pecado”.
É a antítese mais substancial que se possa imaginar
a respeito da divindade.
Jesus não padeceu a morte de maneira passiva, mas a
provocou ativamente. “Só
a sua pregação explica a sua condenação,
só a sua ação ilumina a sua paixão,
só o conjunto da sua vida e de suas obras manifesta
em que a cruz deste homem inigualável é diferente
das inúmeras cruzes que estão presentes na história”
(Hans Kung).
O
sofrimento de Cristo não é apenas o de dois
mil anos atrás. Continua hoje diante de nossos olhos
nos pobres humilhados, nos marginalizados, drogados, doentes...
O caminho do Calvário, que vai do pretório de
Pilatos até o Gólgota, passa diante de nossas
portas, onde muitas vezes somos espectadores.
O
mistério pascal representa dois momentos complementares,
não cronologicamente separáveis, de um procedimento
pelo qual da morte nasce a vida, do sofrimento a alegria,
do pecado a novidade da graça, da miséria do
homem a vitória de Cristo. Cristo é o antítese
desta nova ordem das coisas, da ressurreição
universal iniciada na cruz com seu rebaixamento abissal, com
sua pobreza radical, para nos indicar o renascimento.
“A
ressurreição não é só um
novo episódio que vem depois da cruz. Ela brota da
cruz, é fruto dela. Porque Cristo se empobreceu voluntariamente
até a última indigência, que é
a cruz” (Tillard).
Jesus,
ao entrar em Jerusalém como rei messiânico, entra
com humildade, em atitude de serviço. É o servo
paciente da 1ª leitura de hoje que caminha para a paixão
mediante sua auto-humilhação, como nos fala
a 2ª leitura. É um caminho paradoxal, pois pelo
fracasso ele chega à vitória.
Na
entrada em Jerusalém, apenas um grupo de discípulos
aclamou Jesus, “por todos
os milagres que haviam visto” (v.38).
Aclamaram-no como rei e Senhor (vv.34-38).
O
relato da Paixão de Lucas, destinado aos não
judeus vindos do paganismo, está relacionado com o
ministério público de Jesus e com o tempo da
Igreja, que era perseguida após a ressurreição.
A paixão é vista não como um sadismo
absurdo do Pai ou um masoquismo patológico de Jesus,
pois nem o Pai nem Jesus queriam o sofrimento, que é
uma realidade negativa. Ele ocorreu em virtude de uma finalidade
superior, a vontade salvadora de Deus. Houve uma repugnância
natural de Jesus diante de seus sofrimentos físicos,
como a tortura, a flagelação, a coroação
de espinhos, a caminhada até o Calvário e a
crucifixão; e diante de seus sofrimentos psíquicos,
como a traição de Judas, o preço de resgatar
os escravos por sua pessoa, a negação de Pedro,
a deserção dos discípulos, a ingratidão
do povo, a inveja e o ódio dos chefes religiosos. O
motivo de toda essa realidade que Cristo suportou em obediência
ao Pai é a nossa salvação.
Jesus
assumiu a cruz por fidelidade ao Pai e por amor aos homens.
Mas o motivo é um só: “por
nós e para a nossa salvação”.
Na
verdade, a preparação do desenlace final de
Jesus ocorreu em toda a sua vida, em seu ministério
público na Galileia e na Judeia, onde mostrou sua mensagem
de amor, de serviço e de pobreza, sua boa nova de salvação
aos pobres, seus milagres como sinais do reino de Deus, sua
denúncia profética contra religiosos ritualistas
e contra o culto vazio do Templo, a proclamação
de uma lei e religião fundada no Espírito e
no amor, assim como toda a série de encontros e discussões
com os escribas e os fariseus. Esta é uma síntese
das causas ideológicas e históricas que provocaram
sua morte.
A
morte de Cristo não foi uma fatalidade nem um simples
erro judicial. Ela não ocorreu por culpa dos protagonistas
de seu processo, paixão e crucifixão. Foi resultado
da culpa de todos os homens pecadores. Assim, o mistério
da Cruz é a revelação do amor máximo
de Deus por nós. Os sofrimentos foram o meio para expressar
este amor de Deus em Jesus Cristo.
Este
exemplo de Cristo também pede de nós uma atitude
de amor. Amemos também nós a Deus, porque ele
nos amou primeiro (1 João 4,19s).
Jesus
foi o Servo, renunciou ao caminho fácil, suportou a
ignomínia (Hebreus 12,2), assumiu
nossa humanidade, vestiu-se de humildade, obediência,
amor e renúncia. Preferiu nos salvar não com
o triunfo e a glória que tinha junto de Deus. Solidarizou-se
conosco. Isto exige do cristão os mesmos sentimentos.
O
clima era propício para receber Jesus em Jerusalém,
pois era costume na ocasião as pessoas saírem
ao encontro dos grupos de peregrinos mais importantes para
fazê-los entrar na cidade com cantos e aclamações.
Jesus não manifesta nenhuma oposição
aos preparativos de sua chegada em Jerusalém. Ele mesmo
escolhe uma cavalgadura, um asno trazido de Betfagé.
Na Palestina, o asno havia sido a cavalgadura de personagens
importantes desde o tempo de Balaão (Números
22,21s). Assim, Jesus fez sua entrada em Jerusalém
montado num burrico, como havia sido profetizado (Zacarias
9,9). Os cantos de aclamação eram messiânicos.
No meio da alegria da aclamação, Jesus contemplou
o panorama da cidade e chorou (Lucas 19,41),
porque viu Jerusalém afundada em seu pecado e em sua
cegueira. Jesus se compadeceu da cidade que o rejeitava. Cinco
dias depois, aquele Hosana entusiástico se transformaria
em um grito furioso: “Crucifica-o”. |