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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Quaresma

5° DOMINGO
21 de Março de 2010

Primeira Leitura
Isaías 43,16-21
OS PRODÍGIOS DO NOVO ÊXODO
SERÃO MAIORES QUE OS DE OUTRORA

Este é um texto do Dêutero-Isaías, um profeta-poeta anônimo que viveu no exílio babilônico, desempenhando suas atividades pelo ano 550 a.C. Os primeiros deportados pensavam que o exílio duraria pouco, mas com uma nova deportação, em 582, as esperanças foram frustradas. E não se via perspectiva de retorno imediato. As esperanças de retorno se reacenderam com a vitória de Ciro, rei dos persas, sobre os caldeus. Porém, quem iria libertar Israel, Javé ou Ciro com seus deuses? Os versículos 14-15 respondem a esta questão colocando que Javé é o libertador, que se identifica como sendo o Redentor, “Go’el”, aquele que tem a obrigação de salvar, ou de resgatar, o Santo de Israel, o totalmente outro que não pode ser confundido com os ídolos, o Criador de Israel, o Rei. Todos esses títulos fazem memória de Javé na história em contraste com os ídolos, que só traziam opressão para o povo eleito. Foi Javé quem mandou Ciro para reduzir à ruína a cidade opressora.

O autor convida o povo a esquecer o passado e fixar os olhos no futuro, pois a ação histórica de Javé para libertar Israel abriu caminho no mar e conduziu o faraó e seus militares ao abismo. O Senhor convida o povo a deixar a nostalgia e abrir-se para a esperança do futuro (vv.16-17).

Javé exercita o povo para a esperança. Os fatos maravilhosos acontecidos no Êxodo não têm comparação com a nova libertação que acontecerá. O povo deve abrir-se para esta novidade. Até o deserto (passagem obrigatória) não será mais hostil e devorador de vidas, e o povo não perambulará mais sem rumo, pois Javé traçou um caminho, fazendo brotar água nos lugares ermos.

Os versículos 20-21 descrevem a reação da criação à novidade libertadora de Javé. Os chacais e as avestruzes, animais que vivem em regiões desabitadas, honrarão Javé por suscitar vida onde ela não existia. Os animais serão pacíficos. O povo celebrará louvores ao Senhor por ter experimentado a liberdade.

Segunda Leitura
Filêmon 3,8-14
ANSEIO EM CONHECER CRISTO
E O PODER DE SUA RESSURREIÇÃO

A carta a Filêmon é uma coletânea de pelo menos três bilhetes que foram juntados mais tarde, formando a carta atual. Paulo havia escrito esses bilhetes durante sua prisão em Éfeso (56-57). Cada um desses bilhetes traz uma preocupação particular de Paulo em relação à comunidade que ele fundou. Nosso texto trata de uma preocupação que perturbou Paulo constantemente: a dos judaizantes que deturpavam o Evangelho, forçando os pagãos convertidos a aderirem às normas da lei mosaica, sobretudo no que se refere à necessidade da circuncisão, que havia sido abolida pelo Concílio de Jerusalém (Atos dos Apóstolos 15).

Paulo afirma que os verdadeiros circuncidados são os cristãos que prestam culto pelo Espírito de Deus e tem Cristo como ponto de referência para suas vidas, não se apoiando na Lei mosaica (3,3).

Os judeus circuncidados se consideravam autênticos e chamavam os pagãos de “cães”. Paulo os classifica de maus operários e afirma que ele, sim, poderia se gloriar do seu passado como circuncidado e fariseu, mas o encontro com Cristo mudou radicalmente sua vida. Considerou todo o passado um lixo. Para ele o que importa é Cristo. Este é o futuro que ele procura alcançar como um atleta preparado.

Paulo abandona toda a confiança de querer salvar-se com os méritos das observâncias judaicas e confia apenas em Deus, pelos méritos de Cristo (v.9). Para ele, conhecer Cristo implica uma comunhão profunda. Paulo foi pego de improviso na estrada de Damasco e aquele encontro transformou sua vida. Para ele, a libertação em Cristo é uma batalha diária que não permite descanso. O cristão precisa ser um verdadeiro atleta, para não se acomodar às estruturas.

Evangelho
João 8,1-11
JESUS LIVRA UMA MULHER ADÚLTERA

Para a maioria dos estudiosos, este trecho não pertence a João, pois sua inserção aqui interrompe a seqüência do Evangelho. Sua linguagem está mais para Lucas do que para João. Não há referência a este texto nos códigos orientais antigos e nos Padres gregos do primeiro milênio. Em todo caso, sua canonicidade e historicidade não são colocadas em discussão.

O ambiente do episódio é o Templo de Jerusalém. Jesus passava as noites no monte das Oliveiras e durante o dia ensinava em Jerusalém (Lucas 21,37). O Templo era o lugar de oposição a Jesus, onde se concentrava o poder religioso opressor. Antes de o sol nascer, Jesus se encontrava na esplanada do Templo ensinando. Ele é o novo sol que com sua ação faz surgir à libertação plena.

Os fariseus e os doutores da lei trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Para eles, a sentença já estava decretada. O episódio da mulher adúltera é semelhante à história de Suzana no capítulo 13 de Daniel. Na lei de Moisés era prescrita a pena de morte para o(a) adúltero(a), quando o pecado fosse com uma mulher casada (Levítico 20,10; Deuteronômio 22,22). Se o adultério fosse entre um homem e a noiva de outro, ambos deviam ser apedrejados (Deuteronômio 22,22-24). Nosso texto não diz se a adúltera era casada ou noiva.

Para os doutores da lei, a sentença estava decretada: a mulher devia ser apedrejada. Afinal, eles representavam o poder e serviam-se do aparato legal para legislar em prejuízo dos outros. Eram juízes, superiores à Lei.

A reação de Jesus diante da insistência deles foi estranha. Jesus se abaixou e com o dedo começou a escrever no chão (v.6). Este gesto é obscuro. Além de escrever, o verbo também pode significar “redigir uma acusação”. Quem sabe seja possível encontrar neste gesto uma referência a Jeremias 17,13: “Os que se afastam de ti serão inscritos na terra”, isto é, no “sheol”, entre os mortos. Mas, diante da insistência dos acusadores, que queriam submeter Jesus a uma prova, pois se absolvesse a adúltera manifestava-se contra a Lei e se não a absolvesse perderia a simpatia do povo, Jesus lhes dá uma resposta clara: “Aqueles de vocês que não tiverem pecado atirem a primeira pedra”. Na verdade, segundo Brown, Jesus se limitou a traçar na terra algumas linhas enquanto estava pensando.

Segundo Deuteronômio 17,7 as testemunhas tinham que atirar a primeira pedra contra o acusado. Mas a resposta de Jesus os desconcertou, pois de acusadores passaram a ser acusados, isto é, de juízes passaram a ser réus. Com isso, Jesus abala o sistema opressor em pleno Templo e desmonta a maquinação contra ele. A ordem de retirada deles é política: retiram-se a começar dos mais velhos, talvez porque tivessem mais sabedoria e entendessem primeiro o ensinamento de Jesus, ou porque com mais idade tivessem cometido mais pecados.

Jesus inicia então um diálogo com a mulher. Não um diálogo inquisidor, mas de oferta de salvação: “Eu também não a condeno”. Jesus não aprovou o pecado. Condenou a severidade dos acusadores, mas com sua generosidade regenerou e deu dignidade à mulher que havia enveredado por um caminho errado.

REFLEXÃO

As três leituras convidam à conversão. Na primeira leitura, a conversão é vista por um enfoque comunitário. Deus liberta os hebreus da escravidão, abre-lhes o caminho no deserto e faz rios brotarem no chão árido. Na segunda leitura, Paulo declara que com sua conversão é um homem novo, considera todo o passado como um lixo e busca o futuro. O Evangelho proclama a misericórdia de Deus e a conversão da pecadora.

A liturgia nos convida à conversão, a renovar nossos pensamentos e nosso modo de agir, a colocar em ordem nosso relacionamento com Deus e corrigir os desvios de nosso relacionamento com o próximo. A liturgia de hoje sublinha com termos sugestivos o convite para nos decidirmos por uma conversão radical.

A narração do Evangelho é tão eloqüente que dispensa comentários. Os fariseus e os doutores da lei armaram uma armadilha para Jesus, tentando “colocá-lo à prova” para assim poderem acusá-lo. Tramaram a cilada tão bem que se Jesus absolvesse a adúltera se manifestaria contra a lei de Moisés, e se a condenasse estaria se contradizendo a si próprio. A atitude de Jesus expressa o seu desejo de os acusadores terem a coragem de olhar para dentro de si mesmo e, se por acaso se julgassem sem pecado, então poderiam acusar a mulher. No final da cena ficam apenas os dois, Jesus e a mulher, a misericórdia e a miséria.

A atitude dos fariseus e escribas, além de capciosa, era discriminatória, pois a Lei previa castigo para os dois cúmplices (Lucas 20,10; Deuteronômio 22,23). Parece que no tempo de Jesus havia se mitigado, segundo as diferentes escolas rabínicas, a aplicação de lei tão rigorosa. Jesus se encontrava frente a uma situação difícil, semelhante à do tributo a César (Mateus 22,15s). Podia manifestar-se contra a Lei mosaica ou contra o Sinédrio, a quem competia ditar a sentença de execução. A saída mais fácil para Jesus, se não quisesse neste episódio mostrar a misericórdia de Deus, seria remeter o caso ao Conselho.

A atitude de Jesus em relação à adúltera expressa o que João 1,17 expõe em seu prólogo: “A lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”. Porque Deus não quer a condenação do pecador, mas sim que ele se arrependa e viva (Ezequiel 33,11). Deus, mais do que juiz, é Pai. Aceita o homem em sua fragilidade e o perdoa porque o ama. A única condição é que o homem se reconheça pecador e se converta. Deus regenera o homem com seu perdão e o justifica fazendo com que o pecador se torne homem novo (Filipenses 3,8-14). Como Paulo, que conheceu Cristo mediante a conversão e afirma que experimentou a sublimidade do conhecimento de Cristo, e portanto considera todo o resto lixo, ou seja, a circuncisão, a lei mosaica, sua observância escrupulosa como a praticava a ponto de perseguir os cristãos. Diante de Cristo tudo isso perde importância. Para ele, agora, a vida é “participar dos sofrimentos de Cristo”, com a esperança de chegar à ressurreição.

Sair do pecado é sair da escravidão, como os israelitas desterrados sentiram ao sair da Babilônia, pois Deus realiza uma “obra nova”. A expressão que se manifesta com esta nova vida é de alegria: “O Senhor fez conosco maravilhas, em nós tudo é alegria...” (Salmo 126).

Jesus agiu de maneira diferente da nossa, que às vezes vemos o cisco no olho do próximo e não vemos a trave que está no nosso olho. “Que classe de homens somos: Pecadores que se julgam justos, ou justos que se crêem pecadores?” (Pascal).

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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