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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
A
04 DOMINGO DA QUARESMA
03 de Abril de 2011
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Primeira
Leitura
1 Samuel
16,1b.6-7.10-13a
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DEUS ESCOLHE
E SAMUEL UNGE DAVI COMO REI
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O
texto narra a unção real de Davi, um acontecimento
importante na história do povo de Deus, pois confere
contornos definidos à monarquia, novo regime iniciado
com Saul. A escolha de Davi, que era o último dos
oito filhos de Jessé e cuidava das ovelhas de seu
pai (16,1a), contrasta com a de Saul, que
era filho de um homem rico, criava jumentos e possuía
empregados (1Samuel 9,1).
Deus
enviou Samuel para ungir Davi porque Saul fazia uma má
administração. Davi contentou a todos, preocupando-se
em sua administração com os endividados e
os descontentes (22,2). Assim, Deus manifestou
por meio dele o seu amor ao povo.
Samuel
era um juiz que recebeu a incumbência de ungir um
dos filhos de Jessé, porém Deus não
lhe revelou a identidade do escolhido. Samuel, mesmo sendo
um chefe carismático, era apenas um instrumento de
Deus.
Saul
fora escolhido como primeiro rei, mas traiu a confiança
de Deus e foi destituído. Samuel lhe comunicou a
notícia: “Porque
você rejeitou a palavra do Senhor, Ele o rejeitou
como rei” (1Samuel 15,23b).
No
processo de escolha do substituto de Saul, Samuel ficou
impressionado com o porte atlético de Eliab, filho
mais velho de Jessé (9,2). Deus,
porém, não olha a aparência (v.7).
Samuel acreditou que devia ser escolhido Eliab, o filho
mais velho, uma escolha normal do ponto de vista humano
(v.6), porém Deus lhe disse: “Os
homens olham o exterior, a aparência, enquanto eu
vejo o interior, a realidade invisível aos olhos”.
A escolha de Deus obedece a critérios diferentes
dos humanos. Deus escolheu o filho mais novo, o menos importante
aos olhos da família de Jessé (vv.10-11),
o qual nem se encontrava presente no momento da escolha
e foi preciso mandar chamá-lo. De fato, Samuel entendeu
os desígnios de Deus e não permitiu que Jessé
e seus filhos sentassem à mesa para participar da
refeição enquanto Davi não chegasse
(v.11). Esta escolha confirmou o critério
de Deus no Antigo testamento (Miqueias 5,1; Isaías
11,1; 53,2-3) e no Novo Testamento (Mateus
11,25; 18,1-5; Lucas 1,48-53; 1 Coríntios 1,18-31).
O
rito da unção de Davi é um símbolo,
uma espécie de “sacramento”
(v.13). O óleo representa muitos
valores, como saúde, força, odor suave. A
pessoa que o recebia em sua cabeça recebia, portanto,
a saúde e a força de que tinha necessidade
para exercer a sua função, a fim de que o
seu desempenho correto se estendesse a todos como um perfume
suave.
Davi,
que foi escolhido por Deus, é visto como um profeta
(v.13a), pois para cumprir a sua missão
recebeu o Espírito de Deus. Assim, o rei tem algo
em comum com o profeta.
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Segunda
Leitura
Efésios
5,8-14
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OUTRORA
VOCÊS ERAM TREVAS, MAS AGORA SÃO LUZ NO SENHOR
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Os
capítulos 4-6 desta carta formam a sua parte exortativa.
Caracterizam-se pela insistência em viver a vocação
à qual o cristão foi chamado. O nosso texto
tem um perfil representado pela temática da luz (vv.8-9.13-14).
Há cinco exortações no texto.
1ª
exortação: Viver
como filhos da luz (v.8),
ter Deus como luz. O ser do cristão é
luz. Ele a recebeu no Batismo e a conseqüência
dessa luz na vida dele é bondade, justiça
e verdade (v.9).
Essas
três conseqüências da luz na vida do cristão,
já presentes no Antigo Testamento, eram a síntese
do relacionamento justo e fraterno diante do projeto de
Deus, contrastando com a maldade e a injustiça.
2ª
exortação: Procurar
o que agrada a Deus (v.10).
Trata-se de um critério decisivo, com o qual o
cristão deve avaliar suas atitudes.
3ª
e 4ª exortações: Não
ter nenhuma parte com a escuridão, antes, levar
a luz às trevas, vencer as trevas
(v.11).
5ª
exortação: As
trevas levam ao sono da morte, enquanto a luz é
a ressurreição. A ressurreição
projeta a luz sobre o nosso futuro, ilumina a nossa
vida mortal: “Acorde,
você que está dormindo. Levante-se dentre
os mortos e Cristo o iluminará”
(v.14).
Por
isso, o cristão é chamado a comportar-se de
acordo com a vocação que recebeu (4,1).
Há uma incompatibilidade entre luz e trevas, entre
dormir e estar acordado, pois com o Batismo o cristão
passou das trevas para a luz, iluminado e iluminante no
Senhor.
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Evangelho
João
9,1-41
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JESUS UNGE E CURA O CEGO DE NASCENÇA |
Esta
longa perícope é um dos sete sinais que ocupam
toda a estrutura do Evangelho. O sinal (semeion),
isto é, a cura do cego, que é um fato prodigioso,
nos leva a ver além do milagre, na direção
do mistério de Cristo e da celebração
dos sacramentos.
A
cura do cego é o sexto sinal no evangelho de João
colocado no contexto da festa das tendas, quando o povo
lembrava o tempo que passou no deserto. Era um acontecimento
festivo e suscitava a esperança de vida entre os
sofredores. Neste dia o sacerdote ia tirar água da
piscina de Siloé para com ela purificar o altar do
Templo.
À
noite eram acesas tochas sobre os muros do Templo, a fim
de iluminar a cidade. Esses detalhes contribuem para nos
mostrar que Jesus é luz que faz brilhar nossos olhos
da fé e água que lava nossas cegueiras.
Este
episódio fazia parte da catequese batismal das primeiras
comunidades cristãs. A cegueira lembra o pecado,
lavar-se na piscina de Siloé lembra a imersão
na água e a luz é o símbolo da fé.
Os primeiros cristãos chamavam o Batismo de iluminação.
O
cego, símbolo do povo oprimido, é vítima
de preconceitos religiosos com graves conseqüências
sociais. Era considerado um castigado por Deus e a única
coisa que podia fazer era pedir esmolas.
Jesus
é o Servo que Isaías descreve em 42,6 e 49,6
como luz que capacita as pessoas a enxergarem, e com um
gesto audacioso, pois transgredia a instituição
mais apreciada pelos judeus, o repouso sabático (no
dia de sábado os judeus não podiam exercer
39 atividades, entre elas a que Jesus fez), enviou
o cego para se lavar na piscina de Siloé. O vocábulo
“Siloé” em hebraico significa “Aquele
que envia”, porém o evangelista
interpreta o verbo no passivo “enviado”
em referência ao fato messiânico. Santo Agostinho,
com um jogo sutil de palavras, diz: “Vocês
sabem quem é o enviado: Se Cristo não tivesse
sido enviado a nós (missus),
nenhum de nós teria
sido desviado (dimissus),
isto é, perdoado do
pecado”.
O
cego foi à piscina, lavou os olhos e foi batizado
em Cristo. Por isso, é digna de consideração
a série progressiva de títulos que atribui
a Jesus. Ele começa reconhecendo Jesus simplesmente
como fazedor de milagres (v.6), depois
o define como profeta (v.17), em seguida
como “alguém
que faz a vontade de Deus” (v.31)
e, por fim, alguém que “é
Deus” (v.33).
Na
seqüência vem o colóquio direto com Jesus
(vv.35-38). O cego é como um catecúmeno:
está fazendo uma caminhada que vai lhe abrindo os
olhos. Essa caminhada se traduz numa série de perguntas
e respostas: “Você
crê no Filho do Homem?” - pergunta-lhe
Jesus (v.35), mas o cego vai além
desse título chamando-o de “Senhor”
(Kyrios) e, por fim, prostra-se
para adorá-lo como Deus: “Eu
creio, Senhor” (v.38).
Aqui se delineiam as fases da fé, que não
é um dom repentino, mas exige uma pedagogia progressiva
de Deus, que respeita os ritmos e as capacidades do homem
ao atraí-lo para si.
Enfim,
aparece o termo do juízo (krisis),
que confere à narrativa um caráter dramático,
uma tensão que exige uma escolha: “Eu
não vim a este mundo para julgar”
(v.39). O cego que teve os olhos abertos
não apenas para o mundo da natureza, mas também
para Deus, é ignorado pelos outros. Assim, diante
da luz que é Jesus cada um é livre de aceitá-lo
ou negá-lo.
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REFLEXÃO |
| A
Quaresma surgiu como um itinerário batismal que se
concluía com o Batismo na comunidade. Era uma grande
festa que se prolongava por oito dias. Por isso, nos três
últimos domingos da Quaresma, a liturgia propõe
um verdadeiro itinerário catecumenal e assim se concretiza
o empenho da Igreja na Quaresma: chamar para a fé aqueles
que ainda não a têm (catecumenato para
os que serão batizados), reavivar e fazer
progredir na fé aqueles que já a receberam como
um dom (catequese para todos os cristãos),
restituir a vida espiritual aos batizados vencidos pelo pecado
(reconciliação).
Na
história do cego de nascença está representada
a condição do homem em busca da luz, e o gesto
simbólico de Jesus lembra o gesto criativo de Deus,
um gesto de nova criação, que se refere à
história particular de cada um de nós. Passar
das trevas para a luz equivale a passar da morte para a vida.
Cristo veio para que todos vivam na luz.
Foi
Jesus quem tomou a iniciativa de curar o cego, é ele
quem olha cada homem necessitado de luz. Este cego era um
dos marginalizados de que fala João e é um destinado
ao dom de Deus. Com freqüência não valorizamos
o dom de Deus em nós porque não nos deixamos
iluminar por Ele em profundidade. Hoje isto se torna difícil
devido à complexidade e ao pluralismo cultural que
torna difícil a busca de si, a reconstrução
da própria identidade, a abertura para um projeto estável
de vida. São muitos os bombardeios e as propostas de
seduções que nos atingem.
Diante
disto, é preciso construir um espaço de silêncio
dentro de nós mesmos, um quarto com paredes brancas,
sem portas e fotos de referência, pleno de silêncio
e de paz, onde cada um possa ver-se a si mesmo e tomar decisões
com coragem.
Davi,
ungido rei de Israel, recebeu o Espírito do Senhor.
A unção de Davi é a figura de Cristo,
rei de todos os consagrados pelo Espírito Santo, que
“se fez guia do homem
que caminhava nas trevas, para conduzi-lo à grande
luz da fé”. A unção
de Davi é também a figura da realeza do cristão,
que recebeu o Batismo com a unção do Espírito
Santo.
A
Quaresma foi no passado o tempo oportuno de preparação
dos catecúmenos para o Batismo: o catecúmeno
ainda não tinha a fé sacramental e, como o cego
do evangelho de hoje, pedia a visão. Como Jesus deu
a luz solar ao cego mediante a ablução, assim
também dá a luz do sol divino aos olhos interiores
do catecúmeno mediante o Batismo. Por isso, o Batismo
é chamado em Hebreus 6,4 de iluminação.
A
fé, que é indissociável do Batismo (Atos
dos Apóstolos 2,14-41), confere uma nova capacidade
de ver e quem possui esse dom vê o Cristo não
como um simples homem, mas como o Salvador divino. Vê
as Sagradas Escrituras não como páginas de sábios
e poetas antigos, mas como o livro que revela os mistérios
e desígnios de Deus. Vê a Igreja não como
uma simples instituição, mas como o Corpo de
Cristo. Vê a liturgia não como simples práticas
externas, rituais, mas como exercício do sacerdócio
de Cristo que associa a si os fiéis na obra de glorificação
do Pai e santificação dos homens.
O
Batismo tira dos olhos (Atos dos Apóstolos
26,17) a venda do orgulho, da auto-suficiência
etc., porém não é apenas um rito, ele
exige atitudes e disposições (Atos dos
Apóstolos 2,28-41; 3,19; 16,14-15; 17,32-33).
No
domingo passado, o tema do Batismo foi sugerido pelo sinal
da água (João 4), que é
fonte de vida. Hoje o Batismo é visto como sinal que
ilumina os olhos do cego de nascença pela fé
em Cristo que é luz do mundo. O evangelho de hoje corresponde
ao segundo dos “escrutínios”
que precediam o Batismo dos catecúmenos. Aqui o Batismo
é visto como uma iluminação pessoal,
mediante a fé, para quem crê em Cristo.
O
cego recebeu primeiro a visão ocular e depois a da
fé. O Batismo ilumina a pessoa inteira: coração,
sentimentos, conduta... Por isso o cristão é
chamado a andar como filho da luz (2ª leitura).
Esta é a atitude conseqüente de quem foi vocacionado
e ungido pelo Espírito, como os profetas, os reis e
os sacerdotes do Antigo Testamento (1ª leitura).
O
evangelista, mais do que descrever um milagre, relata um processo
de fé em Cristo. Narra a história de um homem
que passa da cegueira física para a iluminação
da fé em Cristo. O cego passa de uma situação
de dependência total (pedia esmolas)
para a autonomia de quem vê, e de sua ignorância
religiosa para a libertação interior da fé.
Jesus,
ao curar o cego, confirma a sua afirmação: “Eu
sou a luz do mundo”. A expressão
“Eu Sou”
é uma fórmula bíblica de auto-revelação,
um eco de equiparação a Javé no Antigo
Testamento (Êxodo 3,4). Aqui explicita
a autotranscendência de Jesus como Deus, Senhor do sábado
(era dia de sábado), e expressa a
iniciativa livre de Jesus como Deus, que não exigiu
um pedido do cego, nem a sua fé, mas foi uma oferta
espontânea.
O
milagre provocou uma confissão cristológica
do cego através de um processo ascendente de amadurecimento
pessoal e de conhecimento de Jesus, como aconteceu com a samaritana.
Ela primeiro reconhece que Aquele homem se chama “Jesus”
(v.11), depois que é “vindo
de Deus” (v.33) e,
por fim, que é “Filho
do Homem", título messiânico
(vv.35.38).
O
relato conclui que a cegueira do ex-cego passou para os fariseus
no sentido espiritual. Deixa também bem clara a proclamação
da messianidade e divindade de Jesus, que é luz do
mundo e Messias (Filho do Homem), e o antagonismo
entre Jesus e os judeus. Na intenção do evangelista,
que escreveu no contexto de polêmica das comunidades
cristãs com o judaísmo, fica claro o conflito
entre a Sinagoga e a Igreja, pois naquela altura, última
década do primeiro século, houve a ruptura da
Igreja com a Sinagoga. Daí se explica o medo dos pais
do cego, pois naquele contexto quem reconhecia Jesus como
Messias era expulso da Sinagoga.
O
texto também pode ser visto numa perspectiva de interpretação
litúrgica sacramental, especificamente o Batismo, visto
como iluminação da cegueira do homem por meio
da fé em Cristo, luz do mundo. Na primitiva arte cristã
das catacumbas, a cena do cego de nascença aparece
sete vezes, quase sempre ilustrando o Batismo.
Por
isso, a práxis pastoral da Igreja assumiu este evangelho
como referente ao Batismo, por causa dos detalhes da piscina,
da água, do banho e do efeito da luz nos novos olhos
do cego. Realmente, o texto insiste cinco vezes na cegueira
de nascença daquele que foi curado. Santo Agostinho
afirma sobre este texto: “Este
cego representa a raça humana. Se a cegueira é
a não-fé, a iluminação é
a fé. Ao lavar seus olhos na piscina, cujo nome significa
enviado, foi batizado em Cristo”.
Em
conexão com a segunda leitura, como os catecúmenos
batizados passavam à categoria de “iluminados”,
Paulo exorta: “Andem como
filhos da luz”. Luz que deve manifestar-se
em bons frutos, sobretudo, a bondade, a justiça e a
verdade. Cristo disse: “Vocês
são a luz do mundo...” (Mateus
6,14-16). É preciso viver acordados (Efésios
5,14). |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
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