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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Quaresma

4° DOMINGO
14 de Março de 2010

Primeira Leitura
Josué 5,9a.10-12
A PÁSCOA NA TERRA PROMETIDA

O livro de Josué não pretende contar os fatos como eles sucederam. Procura, sim, jogar luzes nos acontecimentos catastróficos, detectar as raízes do mal e apresentar soluções com mudanças radicais. Foi destinado aos exilados da Babilônia, a fim de que tomassem consciência e percebessem porque havia uma situação de explorados e sem terra, para mostrar que Israel se comportou injustamente.

Este livro narra, na primeira parte, a posse da terra prometida (1-12). Na segunda descreve a distribuição da terra entre as tribos (13-21) e no fim descreve o fim da carreira de Josué.

Os israelitas já haviam atravessado o Jordão e se preparavam para conquistar a terra. Antes disso Josué promoveu a circuncisão de todos os hebreus. O objetivo era selar a identidade de Israel enquanto povo da Aliança. Era um sinal da maturidade do povo. A circuncisão era o sinal da ruptura com o opressor, o começo de um novo estilo de vida baseado na fraternidade e na liberdade. Era o fim do vexame. Moisés havia morrido. Agora quem comandava era Josué. Os israelitas traziam consigo a Arca da Aliança e chegaram a Gálgada, onde celebraram a Páscoa depois da circuncisão. Começaram a comer os frutos da terra e deixaram o maná. O deserto havia terminado para eles.

Os hebreus deram àquele lugar o nome de Gálgada, em hebraico “Gallôti”, que significa tirar, ou “Gulah”, que significa exilar. Portanto, este lugar não é geográfico, mas teológico, onde todos os sistemas de escravidão são removidos para assumir comportamentos fraternos e maduros. Finalmente a promessa se cumpre, as pessoas não comem mais o maná, mas o pão do grão da terra. Acabou o caminho do deserto, feito de provações, endurecimento do povo e muita paciência de Deus.

Esta localidade entre o Jordão e Jericó foi a base para a conquista da terra prometida com Javé e com Saul e tornou-se um grande centro religioso e político.

Segunda Leitura
2 Coríntios 5,17-21
A NOVA CRIATURA: O QUE ERA VELHO PASSOU

Esta carta é dividida em três partes:

01) descrição de incidentes e escândalos na comunidade (1-7);
02) organização de uma coleta em benefício dos pobres (8-10);
03) apologia de Paulo de si mesmo (10-13);

Em Corinto havia falsos missionários que pregavam um Evangelho diferente do de Paulo e buscavam seus próprios interesses. Isto minava a ação de Paulo, pois, além de o ridiculizarem, punham em perigo a essência do Evangelho.

Em vista disso, Paulo escreve aos cristãos desta comunidade para contestar estes missionários exibicionistas e interesseiros, que visavam somente o lucro e a promoção pessoal, fazendo-se sustentar pela comunidade. A pregação deles esvaziava a paixão, morte e ressurreição de Jesus e priorizava a Lei.

Paulo então lhes escreve afirmando que o passado já passou e quem está em Cristo é uma nova criatura. Deus reconciliou a humanidade consigo mediante Jesus Cristo. Paulo enfatiza seu ministério, que é exercido como diaconia, um serviço gratuito. Seu ministério é de reconciliação. Ele é embaixador de Cristo, um representante que age em nome dele, que comunica aquilo que lhe foi confiado. Jesus, que se fez pecado (hamartia), é o reconciliador com sua morte e ressurreição. Ele se fez vítima pelo pecado (hattat) e com sua morte reorganizou o cosmos (Colossenses l 1,20).

Evangelho
Lucas 15,1-3.11-22
A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Este capítulo é o coração do evangelho de Lucas. Expressa o rosto da misericórdia do Pai. O que deu oportunidade a esta parábola foram os cobradores de impostos e os pecadores que se aproximavam de Jesus. Os fariseus e os doutores da lei contestavam a solidariedade das pessoas em comer com esses pecadores. Outra razão foi também a prática pastoral de Jesus no meio dos pagãos. Os judeus rejeitavam essa práxis.

Na parábola, o Pai é Deus que manifesta todo o seu amor. O filho mais velho é o povo de Israel (os fariseus e os doutores da lei). O filho mais novo representa todos os marginalizados, pobres, cobradores de impostos...

O filho mais novo, num gesto ousado, contrariando as regras do jogo, pede sua parte da herança (a divisão só era feita após a morte do pai). O pai não coloca objeção. Consente, dando a entender que para ele todos os filhos são iguais.

Longe do pai, o filho leva uma vida ambígua. Passa a ser visto a cuidar dos porcos (animais impuros para os judeus) e disputar a comida com eles. Fica em condição humilhante. Nessa condição reconhece o seu erro e resolve voltar. O pai jamais abandonou a idéia de que o filho voltaria. Ao vê-lo enche-se de compaixão. Não deixa que o filho peça para ser tratado como servo, mas manda vesti-lo como hóspede ilustre. Coloca-lhe o anel no dedo, sinal de plenos poderes. Calça-o com sandália, sinal de liberdade adquirida. Mata um boi cevado para festejar a sua recuperação.

O filho mais velho parece bom e não quer aceitar o projeto do pai. Não pauta sua vida no relacionamento pai-filho, mas de patrão-servo. Calunia o irmão de esbanjar os bens com prostitutas. Não admite chamá-lo de irmão, mas o chama de “este seu filho”. O pai tenta a reconciliação. Trata-se de uma verdadeira ressurreição do filho. De fato, por duas vezes o filho disse: “Vou me levantar.” Usa o verbo “anastás”, referência à ressurreição (anastasis), e o pai por duas vezes havia considerado o filho morto.

REFLEXÃO

O centro da parábola não é o filho pródigo, mas a misericórdia do Pai, o seu comportamento, cheio de grande misericórdia em relação aos dois filhos. Na relação com o filho mais jovem, o comportamento do pai é ir ao encontro dele, abraçá-lo e beijá-lo, não deixar que ele confesse os próprios pecados. Ordena que o filho tenha as insígnias de filho, veste, anel e sandálias, e ordena que seja feita uma grande festa.

No relacionamento com o filho mais velho, a misericórdia do pai se exprime na súplica para que participe da festa: ”Você está sempre comigo”.

Jesus é a encarnação humana da misericórdia de Deus. Veio encontrar o pecador, comunicar-lhe a salvação. Come com os pecadores e escandaliza os fariseus e os doutores da lei, que se julgavam justos, sem necessidade de perdão.

O filho pródigo, que se afasta de casa depois de pegar sua herança, volta às costas para o pai e decide fazer sua experiência, mostrar sua autonomia e suficiência. É a figura emblemática do homem moderno, que declara poder viver sem referência a Deus em sua vida.

O pecado é sempre uma negação pessoal do Pai e um desvincular-se dos interesses do Pai. Converter-se, ao contrário, é voltar aos braços do Pai e reconhecer sua filiação (“Irei à casa de meu pai…”).

O pecado do filho mais jovem foi o enjôo da casa do pai, a pretensão de usar bens que não eram dele, fugir da casa paterna, desperdiçar os bens.

O pecado do filho mais velho foi o cansaço da casa paterna. Não fugiu, mas teve pequenez de ânimo.

O filho mais novo dá inicio ao seu processo de conversão tomando consciência do seu pecado e reconhecendo-o. Tem então o desejo de mudar de vida e satisfazer o mal praticado com a confissão do seu pecado e a conseqüente acolhida do perdão do pai.

A mensagem de hoje nos ensina que é preciso sentir necessidade de voltar, de reconhecer os próprios pecados com a confissão e ser acolhido pelo amor de Deus. É preciso festejar, alegrar-se com a alegria que jorra do dom da salvação e da reconciliação do Pai.

Podemos traduzir os sinais do filho pródigo da seguinte maneira:

- “Esbanjou todos os seus bens” - nossos pecados são ruínas para a alma;
- “Carestia” - o vício que nos causa aridez;
- “Colocou-se a serviço” - somos escravos dos nossos sentidos;
- “Fome” - morte espiritual;
- “Levantou-se” - arrependimento, reconciliação;
- “Veste nova” - revestimento da graça;
- “Anel no dedo“ - dignidade recuperada como filho de Deus;
- “Sandálias nos pés” - caminho nas estradas do bem;
- “Banquete”- Eucaristia pascal;
- “Festa, música”- imagem de alegria.

Esta parábola é uma página sublime da literatura bíblica. Seus primeiros destinatários foram os fariseus e os escribas, que criticavam Jesus por tratar bem os pecadores (v.2).

Com esta parábola, Jesus justifica sua atitude. Ele não fazia nada mais que o Pai fazia com os pecadores. Mas Jesus acrescenta uma segunda parte à parábola por causa das atitudes dos fariseus e escribas. O filho mais velho é pessoa perfeita, mas puritana, cumpridora, mas insensível, ser porém sem amor. Sua obediência à Lei precisa do espírito de amor. Pois sem amor nada tem valor (1 Coríntios 13).

Eles têm uma idéia diminuída de Deus, pois Deus é mais compassivo e menos exigente, oferece o perdão a todos. É sempre Deus quem tem a iniciativa da reconciliação.

É no dia-a-dia que nossa conversão vai se manifestar. Talvez não tenhamos grandes pecados, mas podemos lutar contra nosso caráter defeituoso, ser conseqüentes com nossa opção cristã...

Este domingo é tradicionalmente denominado domingo “Laetare” por causa da primeira palavra do intróito: “Regozije-se”. Hoje é permitido que os paramentos do celebrante sejam de cor rosa em vez de roxo e que se enfeite o altar com flores, coisa que não acontece nos outros dias da Quaresma.

A alegria é uma característica essencial do cristão e hoje a Igreja inteira lembra isso. A participação na Quaresma não deve ensombrear nossa alegria interior. Ao contrário, deve fazê-la crescer. Paulo escreve: “Alegrem-se sempre no Senhor” (Filipenses 4,4). Devemos alegrar-nos com a alegria que é sinônimo de júbilo interior, de felicidade que se manifesta também exteriormente.

A sociedade técnica, diz Paulo VI, conseguiu multiplicar as ocasiões de prazer. É muito difícil para ela gerar a alegria, pois a alegria vem de outra fonte, é espiritual. De fato, muitas vezes não faltam o dinheiro, o conforto, a higiene e a segurança material. Apesar disso, o tédio, o mau humor e a tristeza continuam, infelizmente, a ser a sorte de muitos”.

A alegria vem de um coração que se sente amado e também ama, de um coração que se esforça para traduzir esse amor em obras. Só quem se sente amado por Deus pode exprimir este júbilo interior. Paulo diz: “Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em nossas tribulações” (2 Coríntios 7,4), e sabemos que a vida dele não foi fácil. Foi açoitado, apedrejado, sofreu naufrágio, expôs-se a diversos perigos, além de passar sede e frio, fazer jejum, enfrentar a nudez... (2 Coríntios 11,24-27).

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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