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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
A
03 DOMINGO DA QUARESMA
26 de Março de 2011
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Primeira
Leitura
Êxodo
17,3-7
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DEUS DÁ ÁGUA AO SEU POVO |
O
episódio da água que jorra da rocha foi conservado
pelas três tradições: javista (J),
eloísta (E) e sacerdotal (P).
O nosso texto é da tradição P. Os lugares
de Massa e Meribá na língua hebraica significam
“provocação e contestação”.
Estão associados a um momento difícil da caminhada
do povo de Israel em direção à terra
prometida, que se caracterizou pela falta de água
no deserto.
O
texto deve ser lido à luz da fé em Javé
libertador, aliado do povo em busca da liberdade. Nesta
caminhada do povo, a falta de água aparece como um
sintoma de que a libertação não foi
assumida em sua totalidade. Por isso, o povo reclama com
Moisés dizendo que preferia ter ficado no Egito a
enfrentar a precariedade, isto é, preferia voltar
à opressão a lutar pela liberdade, mas a resposta
de Javé é surpreendente: Ele doa gratuitamente
a água, que era o bem mais precioso para o povo do
Oriente Médio, considerado como bênção
de Deus que fecundava o território árido do
deserto.
Neste
lugar o povo pôs Deus à prova (tentação,
prova = Massa) (contestação,
queixa = Meribá).
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Segunda
Leitura
Romanos
5,1-2.5-8
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O
ESPÍRITO SANTO NOS FOI DADO
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Os
capítulos 5-8 de Romanos constituem a segunda seção
da sua parte doutrinal, enquanto a primeira seção
contém a defesa da justificação mediante
a fé em Jesus. Paulo afirma que o homem não
pode salvar-se por si mesmo, é Deus quem o salva.
Com uma condição: que acredite em Jesus Cristo
e se comprometa com Ele.
Paulo
afirma que a obra de reconciliação operada
por Cristo na cruz eliminou o pecado e instaurou um novo
relacionamento com Deus. Ele nos deu a paz, nos tornou justos,
e o homem participa desse grande dom com a fé, isto
é, acolhendo o dom de Deus total e incondicionalmente.
Cristo,
com sua morte e ressurreição, conseguiu-nos
a anistia de Deus (v.1), não por nossos méritos,
mas porque Deus é fiel e pela fé em Cristo
derramou o Espírito Santo em nossos corações.
Mas como sabemos que recebemos o Espírito Santo?
“Cada um interrogue
o seu coração; se ama o seu irmão,
o Espírito Santo mora nele”
(Santo Agostinho). Por isso, Deus “derramou”
o Espírito Santo em nossos corações.
O verbo “derramar”, na Bíblia, refere-se
a líquidos, à chuva que no Oriente era considerada
um dom precioso de Deus.
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Evangelho
João
4,5-42
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A SAMARITANA: O DOM DA ÁGUA VIVA |
Jesus
está na Samaria e encontra uma mulher samaritana ao
lado de um poço. No Antigo Testamento, o poço
é lembrado no episódio em que Abraão
encontrou Rebeca, futura esposa de Isaac (Gênesis
24,13ss). Há o poço de Jacó,
onde estava Raquel (Gênesis 29,1-14).
Moisés encontrou num poço as filhas de Jetro,
entre elas Séfora, com quem se casou (Êxodo
2,16-21).
Para
o povo bíblico, o poço é o símbolo
da Lei, das instituições judaicas e da sabedoria.
No encontro com Jesus, a samaritana, representando o povo,
ficou sabendo que não precisava mais beber nas instituições
ou na Lei. Estas estavam suplantadas pela fonte de água
viva que é Jesus.
A mulher
samaritana sem nome, que representa a própria humanidade,
estava procurando água no calor intenso para saciar
a sua sede, e Jesus, ao encontrá-la, explicou-lhe
que tinha uma água diferente daquela do poço
de Jacó, uma água que jorra para a vida eterna.
Na liturgia
de iniciação cristã dos adultos, no
terceiro domingo da Quaresma é celebrado o primeiro
escrutínio de preparação ao Batismo,
que deverá ser celebrado na grande vigília
pascal. As leituras de hoje foram escolhidas tendo em vista
esse contexto catecumenal, de modo particular o encontro
de Jesus com a samaritana.
Estranhamente,
Jesus pediu para beber à samaritana e ela se admirou
que um judeu pedisse para beber a uma samaritana. Jesus
quebrou os preconceitos, acabando com a pretensa superioridade
dos judeus sobre as mulheres, pois dar água significava
o mesmo que lhe dar hospedagem.
Jesus
apresentou à samaritana uma proposta, pois soube
discernir a sede interior do seu coração e
a origem da sua falta de fé. Ela era uma mulher samaritana
que, como os seus antepassados, vivia um compromisso religioso.
Um pouco para com o Deus de Israel e um pouco para com os
ídolos pagãos, dos quais os cinco maridos
(bralim) são um símbolo.
João
quer dar um ensinamento à comunidade cristã
tentada pela saudade da água, pela facilidade da
vida pagã. A samaritana e a comunidade podem encontrar
água viva, não em um culto ligado a um lugar
em especial, mas em “espírito
e verdade”, isto é, suscitada
e iluminada pelo Espírito Santo de Deus e pela revelação
messiânica de Jesus.
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REFLEXÃO |
| A
samaritana representa a comunidade cristã que hoje
vem ao poço, isto é, a Igreja onde Jesus se
encontra. Cada pessoa desta comunidade vem com sua própria
sede, com suas necessidades, esperando alguma coisa. Ao vir
encontra-se com o pedido de Jesus: “Dê-me
você mesmo de beber”, isto é,
“dê-me o seu amor”.
A
situação em que Jesus se encontrava, com o sol
queimando, a garganta seca e cansado, era, mais do que isso,
o pecado do homem que lhe queimava o coração.
Jesus tem sede, mas sede de salvar o homem.
No
episódio da samaritana há um itinerário
que conduz à fé. Este foi um sinal para crer
que Jesus é o Filho de Deus e, crendo, possuir a vida
eterna (João 20,30-31). Por isso,
a samaritana aceitou o diálogo com Jesus, renunciou
à incredulidade quando ele mostrou conhecer os segredos
da sua vida. Por isso tratou-o como um profeta e pensou que
era o Messias esperado pelos judeus e samaritanos e foi anunciar
aos habitantes da cidade. Estes acreditaram nele não
pelo que a mulher lhes disse, mas porque o viram e pediram
que ficasse com eles.
A
humanidade sempre foi atormentada por uma sede misteriosa
que jamais conseguiu aplacar e muitas vezes, para saciá-la,
recorreu a meios errados. Deus nos mostra qual é a
verdadeira água capaz de saciar o homem: a salvação
oferecida por Jesus. Assim como da rocha brotou a água
para matar a sede do povo, também de Cristo (1Coríntios
10,4) brota a água do Espírito Santo
que vivifica o homem. O Espírito Santo é a água
que nos é dada, derramada em nossos corações.
A água “espiritual”
que brota da rocha espiritual que é Cristo é
a Eucaristia. Ela nos dá a vida divina (João
6,54).
A
sede de salvação se satisfaz em Cristo. “Moisés
tocou na rocha e conseguiu uma torrente de água. Cristo
toca a mesa eucarística, bate na mesa espiritual e
faz jorrar a fonte do Espírito. Por isso, essa fonte
(Eucaristia) ocupa
uma posição central, porque as ovelhas se aproximam
dela e bebem a salvação”
(São João Crisóstomo).
Este
domingo está ligado ao chamado “primeiro
escrutínio”, que é um
rito sacramental de purificação e de graça
para os catecúmenos adultos próximos do Batismo.
A samaritana é o símbolo do catecúmeno
voltado para a água viva da palavra e da ação
de Cristo, que purifica.
A
água que jorrou misteriosamente da rocha é prenúncio
da água que brotaria em abundância nos dias do
Messias. É figura de uma efusão de graça.
Agostinho
diz que Cristo, ao pedir água para a samaritana, tinha
sede da sua fé. Esta sede “divina”
expressa que Deus tem sede da nossa sede Dele. Ele tem ânsia
de ser amado.
Neste
terceiro domingo da Quaresma o tema do Batismo é relevante.
Já no final do século V os catecúmenos
eram preparados para o Batismo mediante os escrutínios
nos três domingos que antecediam a Semana Santa. Por
isso, embora Mateus seja o titular dos domingos do Ano A,
é substituído por João, com o formulário
da catequese que era feita aos catecúmenos nestes três
domingos:
01)
a samaritana;
02) a cura
do cego de nascença;
03) a ressurreição
de Lázaro.
Os
judeus desprezavam os samaritanos, mas os evangelistas dão
um lugar melhor para eles, basta lembrar o bom samaritano
(Lucas 10,33) e o leproso samaritano do grupo
de dez que voltou para agradecer a cura (Lucas 17,16). Os
samaritanos eram um povo que saiu das tribos orientais com
que Sargão II da Assíria (720-705 a.C.)
repovoou a Samaria depois da sua deportação
para a Babilônia em fins do século VIII a.C.
Prestavam culto a Javé no monte Garizin, mas os judeus
os consideravam impuros.
Jesus
oferece à samaritana a “água
viva”, isto é, preconiza o culto
a Deus em espírito e verdade em oposição
ao culto vazio do Templo. A “água
viva” é o dom de Deus, unido
ao conhecimento de Jesus, porque Ele é o dom do Pai.
A “água viva”
tem relação também com o Espírito
Santo (João 7,37-39). Nos livros proféticos
e sapienciais, a água é símbolo dos bens
messiânicos e da sabedoria. Na linha da Patrística,
a água está ligada à sabedoria cristã,
na qual somos iniciados pelo Batismo. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
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