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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
Quaresma
3°
DOMINGO
07 de Março de 2010
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Primeira
Leitura
Êxodo 3,1-8a.13-15
DEUS
REVELA SEU NOME A MOISÉS |
O
texto se insere na narração das teofanias de
Deus a Moisés e da revelação do seu santo
nome. Javé se apresenta como aquele que é perenemente
fiel. É o Deus dos antepassados: Abraão, Isaac
e Jacó, o Deus da Aliança com os patriarcas.
É sensível aos sofrimentos do povo, ao qual
vê, ouve e conhece, e por isso age (v.8),
com o projeto de lhe dar a terra boa. Mas, para concretizar
esse projeto, Deus quis precisar de Moisés, para guiar
o povo no deserto, fazer através dele a Aliança
no Sinai e conduzir o povo à terra prometida.
Este capítulo é conhecido como o capítulo
da missão de Moisés e da revelação
do nome de Deus como JHWH. Possui um conteúdo muito
importante, pois trata do Êxodo, da Aliança e
da libertação.
O
tema é característico do episódio do
chamado e da missão, do qual a Bíblia é
muito rica. Neste esquema convergem diversos elementos: Teofania
onde Deus aparece, Missão
ligada ao chamado, Promessa
“estarei com você”.
Os
sinais que acompanham os chamados espelham o esquema clássico
da vocação semelhante à de Gedeão
(Juízes 6,1-24), Jeremias
(Jeremias 1,4-10) e Isaías
(Isaías 6,1-13). O esquema é:
Apresentação
de Deus (Êxodo 3.2.6.14), Chamado
(Êxodo 3,7-10), Objeção
de quem foi chamado (Êxodo 3,16), Sinais
confirmadores (Êxodo 4,2-8).
Javé
se apresenta como aquele que é fiel. Ele viu a aflição,
a exploração e o clamor do povo. Em hebraico,
a palavra “saao”
(clamor) é um grito desesperado por
justiça. Por isso ele chamou Moisés.
O
episódio da sarça ardente mostra a santidade
de Deus. Por isso Moisés tira as sandálias,
gesto que os islâmicos usam ainda hoje ao entrar numa
mesquita. Deus promete um país rico, espaçoso,
onde corre leite e mel. Esta terra é descrita num enfoque
teológico como “terra
prometida” aos pais (Gênesis
15), num enfoque geográfico como “país
cananeu, do hitita, do amoreu”... (Êxodo
3,8-17) e num enfoque político como “a
jóia do mundo” (Daniel
8,9). |
Segunda
Leitura
1
Coríntios 10,1-6.10-12
QUEM PENSA ESTAR DE PÉ CUIDE PARA QUE NÃO CAIA |
Os
capítulos 8-10 desta carta abordam os problemas das
carnes sacrificadas aos ídolos e vendidas nos açougues
das cidades. Comer estas carnes era idolatria ou não?
Para alguns mais esclarecidos não, porque os ídolos
não existiam mais, mas outros diziam que sim.
Os
coríntios formavam uma comunidade composta na maioria
por pagãos convertidos. Paulo explica para eles como
não cair nos mesmos erros do povo de Israel. Explica
que Israel libertado do Egito fez uma experiência da
solidariedade de Deus, o qual o protegeu com as nuvens, o
fez passar pelo mar Vermelho, o alimentou e lhe saciou a sede.
Contudo, este povo não lhe foi fiel. Por isso, a comunidade
de Corinto deve estar atenta para não cair no mesmo
erro de cobiça, idolatria, fornicação,
desconfiança e murmuração. Repetir o
erro do passado é criar uma sociedade que tem como
parâmetro as opressões dos faraós.
Quanto
à polêmica das carnes sacrificadas aos ídolos,
Paulo afirma que não há problema em comer carnes
sacrificadas, mas a solidariedade deve permanecer, e, portanto,
é melhor abster-se da carne para não perder
o irmão fraco. O amor é o termômetro da
solidariedade.
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Evangelho
Lucas
13,1-9
PENITÊNCIA: A FIGUEIRA ESTÉRIL |
O
texto está inserido na viagem de Jesus a Jerusalém,
que inicia em Lucas 9,51. Esta viagem é para Lucas
um verdadeiro itinerário de libertação.
Neste
contexto uma tragédia humana é apresentada.
Pilatos quis construir um aqueduto e usou o dinheiro do tesouro
do Templo. Provocou a resistência de um grupo de galileus,
que foram assassinados quando ofereciam sacrifícios
no Templo. A outra tragédia é a queda da torre
de Siloé, matando dezoito pessoas. Para a mentalidade
dos hebreus, baseada na doutrina da retribuição,
supunha-se que as catástrofes fossem castigos de Deus.
Segundo aquela mentalidade, pegou-pagou.
Para
Jesus, as tragédias humanas não são castigos
de Deus. Jesus nega uma relação entre as culpas
das pessoas e o seu fim trágico. Todavia, tais eventos
devem constituir uma advertência séria e um convite
à penitencia. Deus não é vingador, mas
amoroso.
Jesus
mostra a possibilidade de viver a solidariedade de Deus através
da “metánoia”,
tendo assim a vida.
A
parábola da figueira é uma amostra de como Deus
é solidário e paciente. A figueira é
uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina.
Geralmente era plantada no meio das vinhas, que são
o símbolo mais eloqüente de Israel, e chega a
produzir frutos dez meses seguidos. Na representação
da parábola, a figueira é o povo que faz parte
da vinha. Quem plantou a figueira e vai procurar frutos é
Deus. O agricultor é Jesus. Os três anos representam
os anos de pregação de Jesus, depois dos quais
são esperados frutos. A sentença do patrão
ao não encontrar frutos é severa, mas o agricultor
se propõe a adubar a figueira. Assim se exprime a solidariedade
de Deus em Jesus.
Neste
trecho, Jesus nos convida à conversão, que segundo
a palavra hebraica “shûb”
significa trocar de estrada e pôr-se no caminho de Deus.
É trocar de mentalidade, ter um novo modo de pensar
e julgar. É tomar consciência do pecado e afastar-se
dele. É um processo na vida e não um momento
da vida, renovando sempre a adesão a Deus.
Certa
vez perguntaram a Malraux: “O
que é preciso para limpar Paris? Ele respondeu: “Quinze
minutos, desde que cada um limpe a frente de sua casa”.
A conversão do mundo está aí: no
esforço comum. |
REFLEXÃO |
| O
povo era escravo no Egito. Deus enviou Moisés para
libertá-lo e conduzi-lo a Canaã, mas muitos
não chegaram à terra prometida. O mesmo pode
acontecer com cada um de nós, que também atravessamos
o mar Vermelho (Batismo), recebemos o maná
(Eucaristia) e também não chegamos
à terra prometida, ou seja, à felicidade eterna.
Para
que isto não aconteça, escutemos o que Jesus
diz no Evangelho. Nos dois exemplos, a matança dos
galileus e o desastre com aqueles que construíam a
torre de Siloé, todos morreram. Jesus ensina que não
existe segurança nenhuma neste mundo. Nossa morte pode
chegar a qualquer momento. Jesus convida à conversão
para que não se pereça. Aqui, perecer significa
escolher o inferno, viver afastado de Deus, sem amor. Para
Jesus, conversão (shûb)
significa trocar de mentalidade, ter um novo modo de pensar
e julgar. É tomar consciência do pecado e afastar-se
dele. A conversão é um processo na vida e não
um momento da vida. É uma adesão a Deus.
A
partir deste domingo, a liturgia se concentra inteiramente
no tema da conversão,
que é uma resposta adequada à paciência
de Deus. Lucas explicita bem na parábola a misericórdia
de Deus, tema que ele aprecia bastante. Deus manifesta sua
paciência esperando que demos frutos de conversão.
Há, porém, maneiras diferentes de viver a urgência
da conversão: como ameaça ou como convite libertador.
Como ameaça, a iminência do juízo de Deus
gera angústia. Como convite libertador, é um
chamado estimulante que gera a alegria, porque liberta do
peso que nos impede de crescer como pessoas.
Converter-se
do quê? Do pecado, mas este não existe em abstrato.
O que conta é o agente do pecado, ou seja, a pessoa.
Assim, a primeira coisa que devemos mudar em nós é
a maneira de pensar, para assimilar os critérios de
Jesus e o estilo de sua conduta, tal como o expressou em toda
a sua vida e em sua doutrina. Isto está contido nos
ensinamentos das bem-aventuranças.
Mudar
o interior é penoso para nós porque estamos
instalados muito a gosto em nossa mesquinhez e na sombra inútil
de nossa figueira frondosa, mas que talvez seja estéril.
Temos todas as soluções nas mãos, mas
não aplicamos nenhuma para nos renovar e melhorar nosso
ambiente. Pois se trata de reformar a nós mesmos e
não aos outros.
Converter-se
significa dirigir o coração a Deus, estar disposto
a usar todos os meios para viver com ele. Afastar da vida
todo pecado deliberado. É ter um coração
contrito, que conheça suas faltas e pecados e esteja
disposto a eliminá-los. É ter uma dor sincera
por seus pecados, que se manifesta, sobretudo, na confissão.
É procurar novamente o perdão e a força
de Deus no sacramento da Reconciliação, para
recomeçar. É ter a atitude que Davi teve no
Salmo 50.
Uma
demonstração clara de nossa vontade de conversão
e desprendimento das coisas materiais é a atitude de
mortificação que se manifesta em coisas simples
do dia-a-dia, como a pontualidade em começar as tarefas
e a intensidade com que as realizamos, a convivência
com as pessoas que nos propicia ocasiões para mortificar
nosso egoísmo e contribuir para criar um clima mais
agradável. Mortificações que não
mortificam os outros, que nos tornam mais delicados, mais
compreensíveis e abertos a todos. Não nos mortificamos
quando somos suscetíveis, estamos preocupados apenas
conosco, oprimimos os outros, não sabemos privar-nos
do supérfluo e às vezes do necessário,
ficamos tristes quando as coisas não andam como havíamos
previsto. Somos mortificados quando sabemos fazer tudo para
todos, para salvar a todos (1 Coríntios 9,22).
Além
disso, manifestamos atitudes concretas de conversão
com o jejum e a abstinência que fortalece o Espírito,
mortifica a carne e sua sensualidade e eleva a alma a Deus,
e abate a concupiscência, dando forças para vencer
e amortecer as paixões.
A
atitude de conversão é fomentar o desejo profundo
e eficaz de voltar uma vez mais para Deus, como o filho pródigo,
com um retorno mediante a contrição, a conversão
do coração, que se traduz no desejo de mudar,
na decisão firme de melhorar de vida. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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