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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Quaresma

2° DOMINGO
28 de Fevereiro de 2010

Primeira Leitura
Gênesis 15,5-12.17-18
ALIANÇA DE DEUS COM ABRAÃO

Estes versículos, tirados da narração já vista, relatam a Aliança de Deus com Abraão. Destacam um grande acontecimento, pois Deus entra em comunhão com os homens e lhes revela o seu projeto. Deus considera a fé de Abraão, torna-se amado pelos homens e suscita a vida para os pobres e os excluídos. Abraão é a figura desses pobres, cuja única riqueza é a fé em Deus, que inverte os rumos da história.

Deus falou a Abraão, que estava velho e cuja esposa era estéril, o que significava uma desgraça (não possuir filhos). Além disso, Abraão era errante e sem terra. Para ele, a vida era possuir uma descendência e um pedaço de terra. Deus foi ao seu encontro e lhe prometeu uma descendência e uma terra, selando com ele um pacto. Bastava que para isso Abraão tivesse fé.

O sentido da narração não é muito claro. O rito do deserto nos versículos 9-11 é arcaico. A narração indica uma teofania. Deus conclui com Abraão uma aliança, que se expressa bilateralmente. Porém, aqui o sentido de Berith indica um compromisso unilateral. Só Deus se compromete com o juramento e Abraão apenas crê.

Abraão acreditou e isto lhe foi creditado como justiça”. Esta é uma das frases mais famosas da Bíblia, que ofereceu a Paulo base para sua reflexão sobre a participação mediante a fé (Romanos 4,3). Crer, da raiz hebraica “aman”, significa “ser estável”, “seguro”. Abraão encontra na palavra de Deus o fundamento, a rocha para fundamentar todas as suas aspirações e esperanças. Por isso Deus lhe credita isto como justiça, em hebraico “zedaqáh”, que significa um relacionamento da criatura com o Criador.

Por isso Abraão saiu de Ur rumo à terra prometida. Para isto fez um pacto da seguinte forma: Dividiu pelo meio alguns animais, colocando as partes umas em frente das outras, e em seguida passou pelo meio dos animais divididos proclamando fidelidade àquele contrato. Se um deles fosse infiel, devia ser despedaçado como os animais. Depois que escureceu, apareceram uma tocha de fogo e um braseiro fumegante, que passavam entre as partes dos animais. Só o Senhor passou entre os animais divididos, pois ele será perenemente fiel ao seu projeto. O braseiro e a tocha são teofanias. Falam da presença de Deus que caminha com o seu povo.

Segunda Leitura
Filipenses 3,17 – 4,1
HÁ POR AÍ MUITOS INIMIGOS DA CRUZ DE CRISTO

Paulo se encontrava na prisão, conforme 1,12-14, quando escreveu aos filipenses. A comunidade de Filipos ficou abalada com sua prisão. Enquanto isto, alguns adversários aproveitaram a ocasião para anunciar um Evangelho que negava o valor do mistério pascal. Paulo os chama de “inimigos da cruz” (v.18). Da cadeia Paulo pede aos filipenses que se afastem desses falsos pregadores e o imitem, vendo-o como ponto de referência para discernir se o Evangelho anunciado e vivido é autêntico ou não.

Em seguida Paulo apresenta algumas características dos “inimigos da cruz”: o deus deles é o estômago e só pensam no que é terreno (v.19b). Ele se refere aos judaizantes, para os quais a morte de Cristo não teria sido um acontecimento de salvação e libertação. Por isso pregavam que para obter a salvação era preciso apegar-se às leis antigas, cumprir as regras da pureza e impureza, tendo na circuncisão (o que é vergonhoso) a garantia da liberdade.

Segundo Paulo, o caminho para estes é a perdição e para os cristãos, ao contrário, um êxodo para a Jerusalém celeste, da qual eles são cidadãos

Evangelho
Lucas 9,28-36
TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

O evangelista coloca o evento da transfiguração no final do ministério de Jesus na Galileia, depois da profissão da fé de Pedro, para confirmar a identidade misteriosa de Jesus.

Lucas evita falar de transfiguração, porque o Evangelho que escreveu dirigia-se aos pagãos, que podiam confundir o episódio com a metamorfose das divindades pagãs. Para o evangelista, o episódio da transfiguração faz parte dos últimos acontecimentos que antecedem a viagem de Jesus a Jerusalém (9,51; 19,28). Neste sentido, a transfiguração é a preparação para o “caminho da libertação” de Jesus. A partir deste fato, Jesus toma consciência de sua morte libertadora. Antes de relatar a cena, Lucas situa Jesus num momento tenso de oração, depois destaca o lugar elevado onde Jesus venceu as tentações.

Antes de realizar seu êxodo definitivo, com sua viagem decisiva, sua corporeidade se transforma, como que para antecipar seu destino de morte e ressurreição. Com sua transformação ele experimenta momentaneamente a glorificação à direita do Pai e o triunfo sobre a morte. O esplendor do céu refulge por um instante em seu rosto.

Moisés e Elias conversam com ele. São os representantes da Lei e dos profetas, ou seja, do Antigo Testamento. Moisés é o líder da libertação do Egito e Elias o restaurador do javismo no reino do Norte no tempo de Acab, libertando o povo da idolatria. O comparecimento destas duas personagens atesta que Jesus é o libertador definitivo prometido e prefigurado nos líderes do passado. Lucas diz em 24,44ss e em Atos dos Apóstolos 26,22 que Moisés e os profetas previram os sofrimentos de Jesus.

A nuvem é o sinal que atesta a presença de Deus. Assim Lucas testemunha que Deus está presente em Jesus, seu Filho. Aqui como no batismo é o Pai quem declara que Jesus é seu Filho. Ele declara que Jesus é o escolhido para realizar o seu projeto. Por isso o convite de Deus é solene: “Escutem o que ele diz” (Lucas 9,35).

REFLEXÃO

Hoje todos estão preocupados com a imagem: parecer sempre jovem e bonito. Praticam ginástica, usam cosméticos, fazem estética e cirurgias, bronzeiam a pele... Além desta beleza há outra para se preocupar. É aquela que nasce da escuta da Palavra que salva. Deus, como um grande escultor, modela a nossa realidade. Quer fazer de nós uma obra de arte. Tudo o que encontra luz refletirá. Quem escuta Jesus, muda sua vida, vence seus defeitos, aprende a viver como ele e aos poucos vê em si mesmo algo diferente que atrai. Longe do Senhor nosso rosto já não é bonito, porque traz um sinal de egoísmo.

Jesus nos transfigurou em filhos de Deus pelo Batismo, que é uma iluminação. Essa transfiguração será consumada com a transfiguração de nosso corpo. Nós, cristãos, seremos sempre mais transformados na imagem radiante de Deus, por obra do Espírito Santo (2 Coríntios 3,18). Isto é possível mantendo a amizade com ele, sendo-lhe fiel, para que a imagem de seu Filho permaneça sempre radiante em nós (graça). Para isso é preciso um empenho contínuo, com a renúncia e a penitência, para vencer as más inclinações. Para isso é preciso uma ascese lenta, orientando-se para Deus. A presença de Moisés nos diz que a transformação se realiza na observância da Lei.

A transfiguração de Cristo não é fruto de um equilíbrio que conseguiu com técnicas psicofísicas. Não é uma máscara para camuflar o seu ser. Não é uma posse momentânea, um “look”, mas a expressão do seu sim total ao Pai. Seu rosto é diferente porque é qualitativamente diferente.

Lucas situa a transfiguração num contexto de oração de Jesus em comunhão pessoal com o Pai. A transfiguração aconteceu num momento de crise, poucos dias depois que Jesus anunciou sua paixão e suscitou a reação negativa de Pedro. Tudo isso havia provocado o desmoronamento das esperanças messiânicas, impregnadas de triunfalismo político. A decepção atingiu os discípulos, com o conseqüente abatimento. Por isso Jesus recorreu à oração, como expressão de uma necessidade vital de comunhão com o Pai naquele momento. Ao descer do monte, uma nova energia inundava sua pessoa, assim como o coração dos discípulos, para continuarem o caminho em direção a Jerusalém. Também nós, para reafirmar nossa identidade de filhos de Deus, devemos intensificar nossas orações, particularmente nos momentos difíceis.

Precisamos “subir ao monte” para o encontro com Deus, como todos os santos fizeram. Precisamos saber contemplar a oração e a ação, já que não é possível ficar sempre no monte. Só em contato com Deus pela oração responderemos satisfatoriamente à nossa vocação cristã e nos realizaremos como seguidores de Jesus. Não há cristão, nem testemunho cristão, sem a oração pessoal e comunitária.

Para que Cristo transforme nossa condição humilde conforme o modelo de sua condição gloriosa (2ª leitura), devemos ouvi-lo e estar unidos a ele pela oração. Transformados nele não vamos caminhar como “inimigos da cruz”, mas como cidadãos do céu.

Devemos testemunhar o rosto silencioso e não deformado de Cristo, testemunhando-o como discípulos. Assim como devemos descobrir o rosto de Cristo na pessoa de nossos irmãos, particularmente dos que mais sofrem (Mateus 25,40).

São Leão Magno diz que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da cruz”. Os apóstolos jamais esqueceram esta “gota de mel” que Jesus lhes ofereceu no meio da amargura. Realmente, Pedro lembrará este evento muito tempo depois (2 Pedro 1,17-18). Esta centelha de glória envolveu os três escolhidos com uma felicidade tão grande que Pedro exclamará: “Senhor, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas...”. Mas Pedro não sabia o que dizia, pois é preciso estar com Jesus em todas as circunstâncias da vida, tanto faz se estivermos rodeados dos melhores consolos ou numa cama de hospital. Devemos dizer: “Vultum tuum, Domine, requiram”. “Desejo ver-te, Senhor, e procurarei o teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida”.

A experiência inédita de Pedro, Tiago e João foi para fortalecê-los nas adversidades. Esta lembrança serviu-lhes sem dúvida como grande ajuda nas situações difíceis. Após aquele momento de glória, os apóstolos não viram mais Moisés, Elias e Jesus. Viram o Jesus de sempre, que às vezes passava fome, cansava-se, portanto sem manifestações gloriosas. Vê-lo transfigurado foi uma exceção. Também nós devemos encontrar Jesus na vida quotidiana, no trabalho, na rua, nos vizinhos, na oração, nos sacramentos, na palavra... Devemos aprender a descobri-lo nas coisas ordinárias. O Jesus que esteve no Tabor é o mesmo que se encontra ao nosso lado diariamente.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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