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ANO A - São Mateus
TEMPO COMUM II
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
02 DOMINGO DA QUARESMA
20 de Março de 2011

Primeira Leitura
Gênesis
12,1-4a
A VOCAÇÃO DE ABRAÃO

A vocação de Abraão marca a origem do povo de Deus. O texto nos coloca na segunda parte do livro chamado “História patriarcal”, depois que terminou a primeira parte, a chamada “história primordial”. Nesta, depois da criação vem o pecado, que é a destruição da harmonia do homem com Deus e do homem com os outros homens e com a natureza, tendo como conseqüência uma série de episódios: crime de Caim, torre de Babel, nascimento de Set, Noé e basicamente o chamado de Abraão, com o qual se dará o início da nova história.

Abraão, avançado em idade, não tinha filhos. Sua mulher, Sara, era estéril, e Deus lhe pediu que deixasse a terra e os parentes e fosse para uma terra desconhecida, fazendo-lhe uma promessa (4,1). Abraão, filho de Terach, respondeu ao apelo de Deus, e assim, depois da queda de Adão, reiniciou-se o diálogo entre Deus e o homem, que se aprofundaria através dos patriarcas e dos profetas, e desembocaria em Jesus.

Deus pediu que Abraão rompesse todos os vínculos e enfrentasse uma terra desconhecida, com a promessa de uma posteridade numerosa, embora a sua mulher fosse estéril (11,30).

Para dar uma idéia completa da história de Abraão, o hagiógrafo fundiu diversas tradições, que eram passadas de geração em geração nas doze tribos. Todas essas tradições desenham o retrato religioso de Abraão, modelo ideal para o israelita, em que a fé em Deus e a obediência são as qualidades desse patriarca. A sua genealogia não descreve nenhum mérito seu (Gênesis 11,26-34), inclusive há trechos que falam de um Abraão medroso e confuso, como por exemplo no Egito, quando teve medo do faraó e negou que Sara fosse sua mulher (Gênesis 12,10-29), e quando consentiu em gerar um filho da escrava (Gênesis 16).

Segunda Leitura
2 Timóteo
1,8-10

DEUS NOS CHAMOU À SANTIDADE

Paulo se encontra preso e sabe que será julgado e condenado à morte. Esta notícia abalou Timóteo, seu filho na fé, líder da comunidade de Chipre. Em vista disso, Paulo escreveu-lhe estimulando-o a assumir corajosamente as tribulações, pois Paulo confia nos poderes de Deus. Este é um trecho parenético.

Timóteo não tinha a personalidade de Paulo. Era tímido e podia deixar-se levar pelos opositores. A missão de Timóteo era anunciar o Evangelho em meio a conflitos, uma mensagem proveniente de um profeta que acabou na cruz, e por isso sentia-se fraco.

Por isso, Paulo expressa em sua carta-testemunho a sua confiança absoluta em Deus e convida o indeciso Timóteo a assumir corajosamente a tribulação decorrente da pregação.

Evangelho
Mateus
17,1-9
A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

O episódio da transfiguração vem imediatamente depois de três episódios importantes:

01) a confissão messiânica de Pedro (Mateus 16,13-20);
02) o primeiro anúncio de que o Messias devia sofrer (Mateus 16,21-23);
03) o anúncio do destino de sofrimento e humilhação dos discípulos (Mateus 16,24-28).

Este relato ocupa um lugar central nos Sinópticos e se liga à teofania do Jordão, onde Jesus foi consagrado Messias com a unção do Espírito Santo e, por outro lado, antecipa a glorificação pascal do Messias.

Cada um dos Sinópticos narra a transfiguração com tonalidades próprias. Para Mateus, a transfiguração serve para mostrar que Jesus é o novo Moisés, o Servo de Javé e o profeta por meio do qual chegou o Reino da justiça. A mesma voz que havia proclamado Jesus no Jordão como o Filho predileto e pedido para que o ouvissem, aqui, diante dos discípulos, reconfirma a dignidade do Messias, Filho de Deus, e exorta a acolher docilmente a voz do novo Moisés.

O episódio ocorre numa montanha, lugar onde Deus se revela. Mateus afirma que Jesus é o novo Moisés, cujo rosto brilhou no monte (Êxodo 34,29-35). Seu rosto brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz (v.2). Ele é o rosto brilhante do Pai que trouxe a nova Lei.

Os três discípulos formam o grupo privilegiado que testemunhou a ressurreição da filha de Jairo e a agonia de Jesus no horto. O monte é o Tabor, conforme indica Cirilo de Jerusalém, embora alguns falem do Hermon, cujo cimo, sempre coberto de neve, atinge 2.814 metros.

A presença na cena de Moisés, representante da Lei, e de Elias, representante dos profetas, indica que todo o Antigo Testamento converge para a pessoa e a obra de Cristo. O sol e a luz são elementos simbólicos do divino e se contrapõem às trevas, símbolo do pecado e da rebelião contra Deus. A profecia apocalíptica descreve o final da história da salvação como um tempo de luz. A luz brilhante é símbolo da presença operante de Deus e lembra a nuvem que acompanhou os hebreus na caminhada do deserto, como também aquela que aparecerá no final dos tempos (2 Macabeus 6,8).

A reação dos discípulos é idêntica à das teofanias do Antigo Testamento. Um temor sagrado atinge o homem que se encontra diante de Deus, mas Jesus, tocando-os como tocava os doentes, pede a eles que não tenham medo e se levantem. Ao final, Jesus está sozinho com os discípulos. O desaparecimento de Moisés e Elias indica que com a vinda de Jesus a antiga Aliança está superada.

O retrato da transfiguração é uma catequese cristológica que instrui sobre a plena identidade daqueles que acolheram o Senhor. Mateus associa a transfiguração à profissão de fé de Pedro (16,16). Ela ocorreu “seis dias depois” que Pedro reconheceu em nome dos discípulos que Jesus era o Messias.

A transfiguração representa a antecipação do Reino (Catecismo da Igreja Católica, 554-556). Todavia, a primeira transfiguração incancelável que se dá em nossa vida é o Batismo. A segunda ocorre com o sacramento da Penitência, sacramento do renascimento. E a terceira se dará no juízo final.

A ordem de Jesus para que não contassem a ninguém o acontecido indica que só com o mistério pascal será possível colher o sentido profundo da pessoa de Jesus e da sua obra.

REFLEXÃO

A vocação de Abraão não se dirige à salvação individual, mas é feita em função de todos, isto é, tem uma dimensão universal. Abraão teve coragem de romper com a sua segurança pessoal, para arriscar um futuro diferente baseado somente na palavra de Deus. Ele obedeceu sem ter em que se apoiar, a não ser a palavra de Deus. Abandonou tudo para ir à terra desconhecida. Por isso é o modelo de todo vocacionado por Deus.

Quem somos nós, cristãos? Antes de tudo vocacionados a deixar a nossa terra, que é o mundo onde vivemos, a sociedade onde estamos imersos, com seus valores e contravalores, deixar a mentalidade pagã e ir em direção ao chamado de Deus, isto é, ter uma mentalidade de fé, deixando-nos ser guiados.

Tudo isso comporta sofrimento. Para Abraão não foi fácil deixar tudo, por isso Paulo (2ª leitura) nos ensina a sofrer pelo Evangelho. Sofrer gera escândalo. Pedro rebelou-se ao anúncio da prisão de Jesus e foram necessários a luz da ressurreição e o dom do Espírito Santo para os discípulos vencerem o medo dos sofrimentos e saírem a pregar o Evangelho. A ressurreição fez com que vissem a luz no fim do túnel do sofrimento.

A experiência da transfiguração foi para os três discípulos uma experiência antecipada da ressurreição, uma parcela da “sequela Christi”.

O gênero literário deste trecho está em consonância com as teofanias bíblicas do Antigo Testamento, cujo protótipo é a teofania do Sinai, mas cada evangelista deu o seu toque. Assim, Mateus ressalta Jesus como novo Moisés que entra em contato com Deus no Sinai. Marcos descreve uma manifestação do Messias oculto, de acordo com o “segredo messiânico”, e Lucas acentua a experiência de Jesus durante a oração e a comunicação com o Pai.

Abraão é o nômade de Deus, o destinatário de uma escolha gratuita de Deus, que saiu de Ur, na Mesopotâmia, por volta do ano 1850 a.C., para ir a Canaã, na Palestina, e por ser obediente recebeu uma descendência numerosa. Ele é modelo e pai para os que têm fé .

Dentro do contexto de chamado gratuito de Deus está o cristão destinatário de uma vocação especial, através de Jesus Cristo que nos chama à fé (2ª leitura). Somos chamados a uma vida santa (v 9), superior à que Abraão foi chamado, pois em Cristo se deu a Aliança da regeneração do homem que culminou com a nossa filiação divina.

A vocação que Deus nos dirige é gratuita, sem o nosso mérito (v.9), e nos assegura a eternidade (v.10).

Para Leão Magno, o objetivo da transfiguração foi “desterrar das almas dos discípulos o escândalo da cruz”. Foi uma “gota de mel” no meio das amarguras. Fez tão bem aos apóstolos que Pedro pediu para ficarem lá, mas o rosto radiante de Jesus é visto acima de tudo nas circunstâncias habituais da vida. A lembrança da transfiguração foi de grande valia para Pedro, Tiago e João nas situações difíceis de suas vidas.

Abraão, escolhido por Deus e dócil a ele, é sinal de bênção para si e para toda a humanidade.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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