Untitled Document
LITURGIA SEMANAL
MENU
Santuário São José
Home >
SANTUÁRIO
FORMAÇÃO
ACESSE
 
Untitled Document
ANO A - São Mateus
TEMPO COMUM II
PÁSCOA
SEMANA SANTA
QUARESMA
TEMPO COMUM I
VI Domingo >
NATAL
ADVENTO
COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
01 DOMINGO DA QUARESMA
13 de Março de 2011

Primeira Leitura
Gênesis
2,7-9; 3,1-7
PARAÍSO E QUEDA

Este trecho é o segundo relato da criação, datado do século X a.C., quando Salomão reinava em Israel. É uma reflexão de sabedoria sobre o homem. Mostra o projeto de Deus para o homem e a sua não aceitação. O texto faz parte da tradição javista (J), cujo autor é anônimo, denominado javista. O texto serviu-se de várias tradições e culturas da época. Pode ser definido como doutrinal, e fala do passado em vista do presente e do futuro. Descreve na imagem de um jardim a vida paradisíaca que Deus planejou para o homem. A imagem do jardim era muito desejada por aqueles que moravam no deserto e sonhavam viver num lugar com pomares, áreas verdes, água, frutos...

No centro desse jardim está a árvore da vida, a síntese a que todo ser humano aspira, isto é, a própria vida. Junto da árvore da vida o homem pode usufruir de todos os bens. Mas junto dela está também a árvore do conhecimento do bem e do mal, isto é, da possibilidade de o homem tornar-se auto-suficiente, como o último critério do que é bom ou mau para si e para os outros.

Os capítulos 1-11 do Gênesis constituem uma ponte que liga Abraão à criação do mundo. Na verdade, existem duas tradições que descrevem a origem do mundo e do homem. Uma narração da criação é atribuída à tradição sacerdotal (P) e a outra, que descreve o homem posto no paraíso, mais primitiva, assim como a criação da mulher, a queda de Adão e Eva, é atribuída à tradição javista. Positivamente, o hagiógrafo não construiu uma história da criação, mas serviu-se das tradições anteriores e das culturas que refletiam a criação do mundo que lhe eram contemporâneas.

A liturgia apresenta sinteticamente a criação de Adão do pó, com o sopro de Deus comunicando-lhe a vida. Ao criá-lo, o Senhor o colocou num jardim magnífico, mostrando o seu grande amor por ele. Em contraposição à bondade de Deus vem a desobediência de Adão e Eva. Esta, instigada pela serpente, duvida do amor criador e reivindica a sua autonomia moral para decidir independentemente de Deus, gerando assim o pecado original. Esse ato de soberba tem como resultado a punição e a perda da amizade divina e a percepção da sua miséria. Faz com que se encontrem sozinhos, como se fossem náufragos no oceano.

A serpente é hostil a Deus e inimiga do homem. O jogo dela é o símbolo da auto-suficiência. Usou a tática de fazer com que eles, aprofundando o conhecimento do bem e do mal, se tornassem como Deus. Assim, quando roubamos o lugar de Deus, tornamo-nos idólatras, pois cultuamos a nós mesmos e a nossa ganância, que é descrita no capítulo 3 na forma de comer. Aí se reflete o que acontece quando as pessoas dão livre curso à ganância, ao desejo de posse e à auto-suficiência, deparando com a morte. De fato, a culpa descrita no capítulo 3 adquiriu contornos definitivos no capítulo 4, quando Caim matou Abel.

Este trecho representa a etapa mais trágica da história do homem. Nossos progenitores foram postos na existência nas melhores condições, mas não tomaram consciência da sua riqueza, pois, criados do pó da terra (Adamah), foram colocados no jardim das delícias (Gênesis 2,8) para cultivá-lo, guardá-lo e usufruir dele (Gênesis 2,15).

A serpente enganou Eva com duas mentiras:

01) Deus não proibiu de comer o fruto.
02) Se vocês o comerem tornar-se-ão como Deus, conhecendo o bem e o mal.

Ela vê a Lei como uma limitação. Apresenta Deus como um déspota, e não como um Pai. Ao comerem o fruto ficaram nus. Para a tradição hebraica, Adão e Eva estavam revestidos no paraíso de uma “veste de glória”, mas com o pecado foram despidos dela, perderam o brilho da vida divina que possuíam, tornaram-se nus de “ser”, enquanto amados por Deus. Cortaram o relacionamento com Deus e ficaram sós.

A criação do homem é narrada numa linguagem mitológica popular comum nas fontes extra-bíblicas. Deus é descrito como um oleiro que plasma a argila, quase acariciando com delicadeza a sua criatura. O nome que o homem recebeu, “Adamah”, significa “terreno”, “tirado da terra”. Assim, a origem do homem está fortemente ligada à terra, da qual tira o seu sustento e para a qual voltará. Todavia, a sua vida deriva de Deus, pois este lhe soprou nas narinas e o tornou “alma vivente”, com “néfesj” (alma). No texto, o hagiógrafo não quer referir-se a um princípio espiritual do homem, mas à sua vida em geral, a qual depende de uma intervenção especial de Deus.

Depois de criá-lo, Deus o colocou no Éden, com superioridade sobre os animais, pois possui o espírito de vida. Deus age aqui como um agricultor, planta um jardim rico em vegetações para o homem. O jardim lembra nas mitologias a habitação dos deuses. O jardim chamado paraíso é um termo persa que indica os jardins extraordinários dos monarcas orientais. Éden em aramaico significa “Eteppa”, e não delícia ou prazer como o termo afim no hebraico. O Éden exprime a fecundidade do jardim, e nele estavam as duas árvores simbólicas. Na literatura oriental antiga, a árvore da vida era símbolo da imortalidade, a árvore do bem e do mal simbolizava o conhecimento, a experiência total, divina, reservada ao Criador, a qual também seria partilhada pelo homem se não tivesse pecado. Mas, com a desobediência, ele pretendeu usurpar a prerrogativa de Deus, negando o seu estado de dependência e reivindicando autonomia.

Assim, o mal entrou no mundo por obra do demônio e pela rebelião do homem (Sabedoria 2,24). A serpente, símbolo da hostilidade, simbolizava para os pagãos o Deus da fecundidade, um ser astuto. Para o hagiógrafo, é a imagem de uma criatura rebelde ao plano de Deus.

Segunda Leitura
Romanos
5,12-19

JESUS CRISTO, NOVO ADÃO

Neste trecho, Paulo apresenta dois personagens contrastantes: Adão e Cristo. O primeiro, desobediente, introduziu o pecado no mundo. O segundo, obediente, trouxe à humanidade a graça, da qual nasce a vida para todos. O apóstolo não pretende tanto mostrar o contraste entre Adão e Cristo, como evidenciar que com o Batismo vivemos tempos novos, pois em Cristo a humanidade renasceu para a vida. Ele trouxe a universalidade da salvação.

Batizado, o cristão se transfere da esfera do pecado para a do Espírito Santo, da liberdade. Por isso, o apóstolo explicita a paz profunda que o cristão encontra quando reconciliado com Deus. Se a culpa de Adão transmitiu um veneno mortal a toda a humanidade, a adesão a Cristo e à sua obra redentora trouxe a vida.

O pecado (He hamartia) é considerado por Paulo como uma potência maléfica, que impõe o seu domínio sobre o homem, causando-lhe a morte espiritual e impedindo-o de conseguir a plenitude da vida. Cada um de nós traz um Adão em sua carne todas as vezes que se deixa subjugar pela ganância e pela auto-suficiência.

Jesus, com a sua ação redentora, rompeu a nossa solidariedade com Adão e tornou-se chefe de uma nova humanidade, com a expressão concreta do seu amor. Ele é superior a Adão, pois o dom da graça é incomparável. Paulo é um teólogo judeu que acredita no valor salvífico do bode expiatório e do cordeiro pascal, em cujo nível colocou a morte de Cristo. Se o pecado foi capaz de destruir a humanidade, a graça salvífica teve a função de levar à unidade a família dos filhos de Deus.

Evangelho
Mateus
4,1-11
A TENTAÇÃO DE JESUS NO DESERTO

Depois de ser batizado, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, lugar de oração e também de gestação do projeto de Deus para o povo do Antigo Testamento. O evangelista lembra que Jesus foi tentado durante 40 dias e 40 noites, número simbólico que lembra o tempo em que Moisés ficou na montanha (Êxodo 34,28), sem comer nem beber, na intimidade com Deus, para receber o contrato da Aliança e fundar a nova sociedade. Lembra também o tempo que Elias permaneceu no Horeb, depois do qual desceu para transformar a sociedade, ungido por Eliseu um novo rei para Israel (1 Reis 19,8). Lembra ainda a permanência dos hebreus durante 40 anos no deserto, tentados a voltar para trás, para o Egito, mesmo que fosse para continuar como escravos, desde que a barriga estivesse cheia.

Em oposição ao desígnio de Deus, que traçou para o Messias o caminho do Servo sofredor (Isaías 52,13-53), um caminho de humildade, sofrimento e pobreza, Satanás propõe a Jesus o caminho do sucesso terreno, do poder e da riqueza. Jesus rejeita as tentações de Satanás e renova a sua adesão total e incondicional à vontade do Pai.

As tentações de Jesus no deserto no início da sua vida pública constituem o terceiro quadro com o qual os Sinópticos descrevem a fase preparatória do seu ministério: a atividade penitencial de João Batista, o Batismo de Jesus e as tentações. Jesus foi tentado como nós, mas não pecou (Hebreus 4,18).

Satanás propõe a Jesus que realize a justiça do Reino mediante uma posse mágica, usando Deus em seu benefício. “Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães”, mas Jesus contesta afirmando que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que Deus diz (Deuteronômio 8,3). O projeto de Deus é maior: é conduzir o povo à liberdade. Não contente, Satanás tenta Jesus novamente, pedindo que ele abuse do poder de Deus a fim de livrá-lo da morte, desta vez utilizando o Salmo 91,11-12. Jesus é convidado a jogar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém, para mostrar que Deus está ao seu lado e é capaz de libertá-lo da morte. Segundo a crença popular, este era o lugar onde o Messias daria prova de ser o enviado de Deus. Jesus se recusou a ser o Messias do prestígio, e, sobretudo, a escapar da morte, pois a proposta de Deus passa pela morte do mestre da justiça. Por isso, Jesus responde: “Não tente o Senhor seu Deus”. Ser Messias do prestígio é idolatria.

Na terceira tentação, Satanás propõe que Jesus realize a justiça do Reino usurpando o poder: “Eu lhe darei todos os reinos do mundo e suas riquezas se você se prostrar diante de mim e me adorar” (vv.8b-9). Aqui Jesus é tentado a realizar a justiça do Reino tornando-se chefe político de uma sociedade injusta, contrariando a liberdade das pessoas. Jesus se recusa a ser o Messias do poder e responde: “Adore o Senhor seu Deus e sirva somente a ele” (Deuteronômio 6,13). Absolutizar-se no poder é repetir a opressão do faraó.

A primeira tentação, a do deserto, é a do lugar onde o povo passou fome e sede e experimentou a mão forte de Deus (Êxodo 15–17). Na segunda tentação, a do pináculo do Templo, o diabo pede um sinal maravilhoso da sua divindade, mas Jesus o contesta citando Deuteronômio 6,16: ”Não provoque o Senhor seu Deus...”. Na terceira tentação, o diabo muda o cenário, desta vez o alto de um monte, mas Jesus o contesta citando Deuteronômio 6,13: “Você temerá o Senhor, seu Deus, prestar-lhe-á o seu culto e só jurará pelo seu nome”.

REFLEXÃO

Começamos a Quaresma, caminho anual de preparação à Páscoa, centrado na história fundamental da história do homem pecador, o qual não pode encontrar por si só uma estrada de salvação. É Deus quem a oferece a ele. Pecador e escravo, ele não pode pagar o seu resgate, mas é Deus, fazendo-se homem, que o paga.

O amor insistente de Deus não pode ser desilusão. Assim, somos todos chamados a retificar os nossos caminhos para que coincidam com os caminhos de Deus.

A primeira leitura nos pergunta: “Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou?”. No simples nível carnal somos homens que vimos de outros homens, nascemos para morrer, como fruto de um conjunto de causas. Para os hebreus, entretanto, todo esse conjunto de causas tem sempre a ação concreta de Deus.

Confrontando-nos com o texto do Deuteronômio, vemos que a nossa história é sempre uma história pessoal de nulidade, no sentido de que o homem, sendo um ser racional, é carne. É também uma história pessoal de pecado no sentido de que o homem, olhando para dentro do seu coração, se descobre inclinando-se para o mal, em meio a tantas misérias. Esta leitura nos lembra que somos peregrinos e que o nosso porto é a terra prometida, isto é, o encontro pessoal com Deus. Neste caminho não estamos sós. Deus está conosco.

A segunda leitura mostra que a obra de salvação que Deus opera em nós para nos tirar da nossa insignificância e nos fazer participar da natureza divina é a graça, que deve ser acolhida mediante a fé. Esta fé deve estar enraizada no coração, em nossa interioridade profunda, bem protegida dos solavancos que comumente nos agitam. E, do fundo do nosso coração, deve depois externar-se na vida concreta de cada dia. Não devemos contentar-nos em professá-la apenas formalmente com a boca. A nossa fé deve ser acompanhada por obras. Se acolhermos a graça do Senhor, que suscita em nós a fé e a vontade de colocá-la em prática, não seremos desiludidos. O Senhor não faltará com as suas promessas. O nosso caminho prosseguirá seguro em direção à terra prometida.

O evangelho mostra que não podemos pretender fazer o nosso caminho sem padecer alguma prova. As tentações são fruto da nossa debilidade intrínseca. Somos fruto das tentações do inimigo, que quer levar-nos à parte e iludir-nos com suas sugestões. Não esqueçamos que também Deus pode nos colocar à prova.

Jesus, igual a nós em tudo menos no pecado, quis submeter-se às tentações no momento em que se preparava para a sua missão com jejum e oração. O demônio tenta dissuadi-lo do seu intento, sugerindo-lhe outros meios mais rentáveis, mais fundados na sabedoria humana. Jesus não se deixou levar pelos argumentos falsos do demônio, mas manteve a sua escolha ancorada na vontade de Deus.

Encontramo-nos diante de duas encruzilhadas: qual devemos tomar? É muito fácil, por sugestão do tentador, ou por nossa debilidade, ou ainda por influência de ideias que nos circundam, tomarmos o caminho mais largo e cômodo. Ao contrário, o caminho que a Palavra de Deus nos mostra parece cheio de sacrifícios.

Portanto, procuremos fazer um pequeno programa para esta Quaresma, pequeno, mas eficaz: um programa que conste de um melhor conhecimento da Palavra de Deus, que chegue até o coração; uma realização prática desta Palavra na vida diária, apesar das tentações e das provas.

A Quaresma é o tempo de preparação para o grande evento da ressurreição. Neste tempo a Igreja sempre nos pede uma pausa prolongada de reflexão, de penitência, de sacrifício, de renúncias e recolhimento para vivermos mais atentamente os eventos da ressurreição.

Hoje Jesus é apresentado diante das tentações, que nos lembram que ser tentado é próprio da condição humana, que Jesus assumiu totalmente (Hebreus 4,15). Mas esse fato nos lembra também que a tentação pode ser superada. A tentação tem o objetivo de avaliar o valor da pessoa. Pode ser um fato que nos leva à prova para nos conduzir à infidelidade (sentido negativo), ou pode nos fazer crescer na fidelidade (sentido positivo). Lembremos que Deus permite que sejamos tentados porque respeita a nossa liberdade e nos dá meios para vencer.

O tentador por antonomásia é o demônio. Ele não desanima (Lucas 4,12). Porém, as tentações vêm do interior do homem, da sua natureza frágil, inclinada ao pecado. É o que João chama de concupiscência da carne (1 João 2,16). É uma força que gera desordens nas faculdades morais do homem, e, mesmo não sendo em si mesma um pecado, inclina o homem ao pecado (Catecismo da Igreja Católica, 2515). É uma fragilidade em nossa interioridade profunda, onde somos capazes de decidir e chamados a decidir. “Um ninho de cobras”, diz François Mauriac. Paulo fala que esta é uma lei que está no coração do homem: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero fazer” (Romanos 7,19).

As tentações também podem vir do exterior, isto é, do ambiente do “mundo”, com a sua mentalidade que se opõe a Deus, e influi em nossas decisões. Hoje isto se manifesta num confronto de pressões individuais e coletivas, através do egoísmo, de explorações, violências, falsidades, idolatria, culto ao dinheiro, prazer... Tudo isso cria uma cultura que determina nosso pensamento e escolha. Esta, por sua vez, usa mecanismos que fazem o homem acreditar, por meio do ser intermediário “carne e mundo”, que a palavra de Deus não é confiável, que limita e impede de ser livre, autônomo, capaz de julgar aquilo que é realmente desejável... Quando o mundo da técnica, da ciência e da riqueza é visto como um meio de segurança e faz concluir que é possível ir em frente sozinho (Gênesis 3,5), então se tem como pai o diabo, o pai da mentira (João 8,43-44).

Para não cair na armadilha do demônio é preciso fazer a vontade do Pai (João 8,28). Mas para isso é necessário o Espírito Santo, que ajuda a discernir o bem e o mal, e dá a consciência de que sem a ajuda de Deus não se pode fazer nada (João 15,1-5), de que a força vem de Deus: “Tudo posso naquele que me conforta” (Filipenses 4,13). Portanto, é preciso permanecer firme no amor de Deus, e então a tentação não será mais uma ocasião para o mal, mas para firmar a nossa fidelidade a Deus: “Bem-aventurado aquele que suporta a tentação, porque, depois de superá-la, receberá a vida, o prêmio que o Senhor prometeu aos que o amam” (Tiago 1,12).

Jesus, solidário com o homem, é totalmente livre do pecado, mas não da tentação. A técnica que Jesus usou contra o demônio foi a de que com Satanás não se discute, e se opôs a ele com a força libertadora da Palavra. De fato, Jesus respondeu-lhe três vezes com a força da Palavra. Foi diferente de Adão e Eva, que se expuseram à sedução, dialogando com o sedutor, e assim foram vencidos.

O demônio nos tenta com sofismas, com raciocínios que aparentemente parecem justos. Assim ele enganou Eva, e assim ele nos engana, podendo nos dizer: “Supere este limite imposto por Deus e será adulto, dono de si, capaz de decidir por si mesmo...”. Adão e Eva aceitaram este raciocínio e sentiram a solidão, o vazio do ser, o medo da morte.

Precisamos reconhecer sem exagero as conseqüências do pecado de Adão e Eva (pecado original) em nosso tempo de perda de sentido de Deus na vida, de pretensão de ser o único artífice da vida, o demiurgo da própria história (Gaudium et Spes), de aspiração de uma autonomia absoluta, de ateísmo prático que confia na libertação econômica e social, de perda fundamental da dimensão do pecado.

A liturgia apresenta duas tentações, a de Adão e a de Jesus, de dois modos diferentes: com Adão e Eva, demolindo a Palavra de Deus e aceitando as palavras do diabo. Eles vêem Deus como um concorrente, não confiam em sua palavra, rebelam-se contra o seu projeto, não querendo ser dependentes dele.

A ação do diabo é constante na vida do homem, embora o mundo moderno não se dê conta de sua força e de sua presença na vida do homem. O polonês Laszek Kolakowski, em “conversa com o diabo”, imagina-o dizendo: “Às vezes entro nas igrejas e escuto com calma, atenção e serenidade as homilias dos padres. Acontece muito raramente, cada vez mais raramente, que um pregador, mesmo o mais humilde padre do interior, lembre-se de falar de mim no púlpito, no confessionário ou em qualquer outro lugar. Mas por que tem vergonha? Porque tem medo de fazer o papel de atrasado, de caboclo que acredita em fábulas!”.

São Filipe Neri, quando celebrava a Eucaristia, disse a Jesus: “Senhor, não confie muito em mim, pois sou capaz de pecar em menos de cinco minutos.”

Santo Afonso de Ligório, já com 80 anos, curvado pela artrite, dizia: “Tenho as mesmas tentações de quando era estudante na universidade de Nápoles”.

Martegna escreveu aos pés de uma pintura sua esta frase em latim: “Nihil nisi divinum stabile est; caetera fumus”: “Nada senão aquilo que é divino é estável, tudo o resto é fumaça.”

Ludwing Van Beethoven disse: ”Se pudesse livrar-me do meu mal, ergueria o mundo”.

Giovanni Papini disse: “O homem, para se elevar, precisa pôr-se de joelhos”.

O tempo da Quaresma nos leva a refletir sobre a nossa humanidade decaída. Pede-nos, portanto, mais ascese para nos libertarmos dos pecados. Quem abre a janela para o panorama deste mundo vê coisas que alegram o coração, mas não pode fechar o coração para tantos fatos que são causas de tristeza. Os homens, filhos do mesmo Pai, suicidam-se, geram violência, egoísmo, ódios... Filhos pisam na dignidade dos pais, leis imperantes do prazer animalizam o homem, critérios de vida atentam contra a dignidade humana, sofrimentos, injustiças, mortes... Por que tudo isso? Por causa do pecado de Adão, que atingiu a todos. Por isso, o pecado jamais será uma celebração da liberdade, porque é submissão à potência do mal.

No século IV, a Igreja organizou a primeira Quaresma, composta de três semanas, com forte acento batismal, a fim de preparar os catecúmenos para o Batismo na vigília pascal. Alguns séculos mais tarde, a Quaresma foi ampliada para cinco semanas, começando na quarta-feira de cinzas, e teve uma conotação mais penitencial para o povo, especialmente para os penitentes públicos que se reconciliavam na quinta-feira santa.

Com a reforma litúrgica, os dois primeiros domingos da Quaresma apresentam o tema da conversão ou penitência, os demais apontam para o Batismo. Embora a Quaresma tenha a conotação da conversão de coração, mente e conduta, mediante a escuta da Palavra, penitência, esmola, oração e confissão, ela é acima de tudo uma atitude permanente de vida cristã, um estilo de viver como cristão, como discípulo de Jesus.

Como é possível que Jesus tenha sido tentado? Porque era um homem em tudo igual a nós (Hebreus 4,15). Portanto, a tentação foi natural para Ele, e a venceu porque era Filho de Deus.

Nas tentações de Jesus fica claro que elas ocorreram no início da sua vida pública, e se referem à sua identidade e função messiânica, e que Jesus as venceu não como o Messias triunfalista esperado pelo judeus, mas como Servo de Javé. Suas tentações são uma réplica das tentações do povo de Israel no deserto. A “fome”, que fazia o povo sentir saudades do Egito (Êxodo 16), hoje pode traduzir-se em materialismo, consumismo, na primazia do ter sobre o ser. A “tentação a Deus”, que fez o povo pedir a Deus milagres ao sentir sede (Êxodo 17), hoje se traduz na tentação de querer manipular Deus com os mecanismos de uma religião interesseira. A “idolatria” do poder, que fez o povo fabricar um bezerro de ouro e adorá-lo como a um deus (Êxodo 32), hoje se traduz em substituir Deus pelo poder, pelo dinheiro, pelo sexo etc. A todas essas tentações Jesus responde com a Palavra:

1) Ele o afligiu, fazendo-o passar fome e depois o alimentou com o maná, desconhecido por você e por seus pais, para lhe mostrar que nem só de pão vive o homem mas de tudo que procede da boca do Senhor” (Deuteronômio 8,3).
2) Não tentem o Senhor seu Deus, como o tentaram em Massa” (Deuteronômio 6,16).
3) Você temerá o Senhor seu Deus, a ele servirá e pelo seu nome jurará” (Deuteronômio 6,13).

Nas tentações, é a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus e o faz abertamente, pondo-o à prova. Neste episódio Jesus nos ensina como devemos vencer as tentações. Ele permite as tentações para nos purificar, nos fazer santos, para nos dar maturidade, para nos fazer humildes. Para vencermos as tentações, além das mortificações é necessária a oração: ”Vigiem e orem para não caírem em tentação” (Marcos 14,38). “Não nos deixeis cair em tentação”.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

Untitled Document

Rua Dom José Marello, 39 - Vila Feliz - 86808-050 - Apucarana - PR - Fone: (43) 3033-1899
Webmaster © 2007 a 2011 - Santuário São José