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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Quaresma

1° DOMINGO
21 de Fevereiro de 2010

Primeira Leitura
Deuteronômio 26,4-10
OFERTA DAS PRIMÍCIAS AO SENHOR

Estes versículos são importantes no Antigo Testamento, pois contêm o “Pequeno Credo Histórico” (Von Rad). Este Credo é uma profissão de fé do israelita, resultado de uma longa história de turbulências, opressões, sofrimentos, lutas e finalmente posse da terra prometida. Faz memória dos prodígios que Deus realizou ao longo da história. Contém todos os elementos constitutivos da fé dos primeiros tempos de Israel. Exprime o núcleo da fé hebraica e a caracteriza como fé histórica, ou seja, tem como conteúdo não uma doutrina, mas um evento no relacionamento com Deus. O texto é resultado da caminhada do povo e de sua fé em Deus libertador, que se manteve ao lado do povo oprimido.

O trecho contém um rito, uma oferta e a profissão de fé. Todo israelita, ao colher os frutos da terra (primícias), devia apresentá-los a Javé. Esse gesto tinha um duplo significado. Por um lado, suscitava a memória de que o processo de libertação e a posse da terra são dons de Deus concedidos ao povo. Por outro lado, a oferta dos dons a Deus estimulava à generosidade, à superação da tentação da ganância e do acúmulo de bens. Por fim, o rito se encerrava com um almoço para os mais próximos e para os levitas (v.11).

Depois de fazer a oferta das primícias a Javé, o israelita professava sua fé em Deus libertador: “Meu Pai era um arameu..." (v.5), fazia a memória das minorias migrantes, sem terra, forçadas a buscar a sobrevivência em ambientes estranhos que as escravizavam, e lembrava a ida ao Egito e o grito de invocação de ajuda ao Senhor. Nesta situação, Deus fez uma opção pela minoria oprimida, ouvindo o seu clamor, libertando-a (v.8) e conduzindo-a á terra prometida (v.9).

Por isso, a fé do israelita está ancorada na história, e a expressão dessa fé é a gratuidade e a ação de graças (v.10a). Para o israelita, a oferta das primícias era a memória dos atos libertadores de Javé, que agiu ao lado deles, e não como as divindades pagãs dos povos vizinhos, que também tinham ritos semelhantes, mas, ao oferecer os frutos da terra, recitavam o mito da divindade. Após esta profissão de fé, o ofertante se prostrava diante de Deus libertador em adoração e reconhecimento.

Segunda Leitura
Romanos 10,8-13
SE VOCÊ CRER DE CORAÇÃO, SERÁ SALVO

Faz parte de uma seção onde Paulo mostra a fidelidade de Deus e a incredulidade de Israel (cap. 9–11). Em Jesus Deus concedeu anistia à humanidade, pois sozinha ela não podia chegar à salvação. Em Jesus, Deus se tornou próximo das pessoas, libertando-as com sua morte e ressurreição. Assim, a salvação não é exercício da pura prática da lei, como acreditava o povo do Antigo Testamento, mérito exclusivo das pessoas, pois se praticassem os mandamentos Deus seria obrigado a salvá-las.

A justiça é pura graça de Deus em Cristo. Portanto, resta aos cristãos reconhecer que Cristo é o Senhor, ou seja, está em pé de igualdade com Deus e adquiriu este título em virtude de sua obediência ao Pai. Mas não basta proclamar que Cristo é o Senhor. É necessário crer com o coração que Deus o ressuscitou. O coração é a sede das opções da vida. Portanto, crer com o coração é a prática cristã capaz de traduzir em obras, em gestos concretos e libertadores a fé que se professa. É pôr em movimento um processo de libertação, do qual ninguém fique excluído.

A salvação vem da profissão de fé de que Cristo é o Senhor ressuscitado.

Evangelho
Lucas 4,1-13

TENTAÇÃO DE JESUS NO DESERTO

O evangelista apresenta as tentações de Jesus, que são uma síntese de todas as tentações que padeceu durante sua ação libertadora. Lucas inseriu estas tentações depois de descrever a sua genealogia. Com isso, quis mostrar que Jesus é humano como qualquer outra pessoa. Portanto, as tentações que ele sofreu são iguais às nossas.

Esta narrativa se encontra apenas em Lucas e em Mateus. Teve sua origem provavelmente num ambiente eclesial, interessado em definir com exatidão o sentido do título Filho de Deus. De fato, no sentido semítico, ele podia designar um semideus, que devido ao seu nascimento divino tinha uma grande força, da qual se servia para sua vantagem própria. A tradição sobre as tentações nega esta possibilidade e afirma o sentido bíblico do Filho de Deus, ou seja, o executor obediente e cheio de fé da vontade do Pai. As tentações podem ser consideradas históricas, embora a redação do diálogo seja da comunidade primitiva. Além do mais, a tentação não tem apenas um caráter pedagógico, para nos ensinar a vencê-las.

As tentações ocorrem no deserto, que para o Antigo Testamento lembra o tempo da gestação do profeta de Deus para o povo. Foi nele que os hebreus forjaram a duras penas a nova sociedade livre da opressão. Os quarenta dias (simbólicos) lembram os quarenta dias que Moisés permaneceu na montanha na intimidade com Deus, a fim de escrever o contrato da nova sociedade (Êxodo 34,28). Lembram ainda os quarenta anos do deserto, com suas tendências de volta ao Egito, mesmo que fosse para viver como escravos, desde que com a barriga cheia. Lembram ainda o tempo que Elias ficou no Horeb e depois desceu para transformar a sociedade completamente, do ponto de vista político e religioso (1 Reis 19,8).

O Diabo tem um plano para perverter o projeto de Deus. A primeira tentação lembra o dom do maná no deserto. Ele propõe a Jesus que se sirva de seus dons messiânicos para seu próprio interesse (v.3). Jesus se recusa a ser o Messias da abundância, pois o projeto de Deus vai além das promessas eleitoreiras (Deuteronômio 8,3). Não basta o pão, o projeto de Deus é maior.

Na segunda tentação o Diabo tenta perverter o plano de Deus mediante a usurpação do poder: “Eu lhe darei todas as riquezas...” Jesus se recusa a ser o Messias do poder (Deuteronômio 6,13). Absolutizar o poder é repetir a opressão do faraó.

Na terceira tentação o Diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus, a fim de se livrar da morte, usando o Salmo 90,11-12. Jesus é convidado a atirar-se do pináculo do Templo. Mas ele se recusa a ser o Messias do prestígio (Deuteronômio 6,16), o que é idolatria. Segundo a tradição, o pináculo era o lugar da manifestação do Messias.

O Diabo se afastou de Jesus para voltar a tentá-lo no tempo oportuno. O tempo oportuno é o final da ação libertadora de Jesus, em que ele iria enfrentar os soldados e os chefes dos judeus (Lucas 22,1-3).

REFLEXÃO

Iniciamos a Quaresma, caminho anual de preparação à Páscoa, centrado no fato fundamental da história do homem pecador, que não pode encontrar em si mesmo a estrada da salvação. Somente Deus pode oferecê-la. Pecador e escravo, o homem não pode pagar seu próprio resgate, mas somente Deus que se fez homem.

Neste domingo, os temas polarizam sobre a fé e a provação da fé. A fé cristã é histórica. Certamente, fé é uma palavra muito genérica, pois muitos dizem ter fé porque acreditam no Absoluto. Para outros ela é uma atitude psicológica de confiança. Para outros, ainda, é simplesmente uma prática religiosa. Em todas essas atitudes existe o germe, mas não a verdadeira fé que a Bíblia nos ensina.

Para a Bíblia, ter fé é reconhecer que Deus segue nossas vidas de perto, tem em si as diversas reações da liberdade humana diante dos acontecimentos. A história do povo hebreu, especialmente de sua saída do Egito, é um exemplo claro desta posição de Deus. Deus escutou suas lamentações e os hebreus acreditaram quando reconheceram Deus em suas vidas. Fé é, portanto, reconhecer que Deus atua de acordo com um plano para conduzir os homens para a salvação.

Para nós, cristãos, crer em Deus é reconhecer que ele agiu em Cristo para nos salvar. É crer que Jesus é o Senhor porque Deus o ressuscitou.

Os evangelistas escreveram os evangelhos para que não se perdesse a lembrança do que aconteceu realmente e para recolher o testemunho “daqueles que foram testemunhas desde o início”, para “dar testemunho da solidez do ensinamento” (Lucas 1,1-4). As palavras de hoje nos dizem que em Jesus se manifestou o plano divino da vitória sobre o mal. Assim, o mal não é invencível.

Como Jesus, o cristão pode passar por provações em sua vida. A tentação do materialismo, em que o homem tem fome do pão material, ou seja, de tudo o que supõe o ter e o gastar com coisas, é a primazia do ter sobre o ser e a dissociação entre fé e vida. Como cristãos devemos subordinar os bens a nós, pois produzir e gastar como atitude fundamental em nossa vida não é compatível com o Evangelho. Além disso, a primazia do ter sobre o ser gera o egoísmo, o exclusivismo, a falta de partilha, a injustiça, a desigualdade, a insatisfação diante das necessidades artificiais.

Ser e amar é a única solução para os problemas humanos, porque leva à partilha e ao reconhecimento do outro como irmão.

O Evangelho nos mostra que não podemos pretender fazer nosso caminho sem padecer alguma provação. As tentações são fruto de nossa debilidade intrínseca. Somos fruto das tentações do inimigo, que quer nos iludir com sugestões. Entretanto, o mundo atual é marcado pelo sinal da descrença, pelo ateísmo militante ou pelo agnosticismo indiferente. O grito “Deus está morto” do Zaratustra de Nietzsche confirmou o surgimento de ídolos que querem ocupar o lugar de Deus destronado. Para muitos, a imagem do homem técnico da pós-modernidade suplanta a imagem de Deus que morreu. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e o homem lhe paga com a mesma moeda, criando Deus também à sua imagem e desejo“ (Voltaire).

Jesus é em tudo igual a nós, menos no pecado. Quis submeter-se à tentação no início de sua missão, no momento em que se preparava com o jejum e a oração. O Diabo tenta dissuadi-lo do seu propósito, sugerindo-lhe outros meios mais rentáveis, mais fundados na realidade humana. Jesus não se deixou levar pelos argumentos falsos do Demônio, mas manteve sua escolha ancorada na vontade de Deus.

Também nós nos encontramos diariamente diante de duas encruzilhadas. Qual devemos tomar? É muito fácil, por sugestão do tentador, por nossa fraqueza ou por influência de idéias que nos circundam, tomar o caminho mais curto e mais cômodo. Ao contrário, o caminho mostrado pela palavra de Deus parece cheio de sacrifícios.

É preciso fazer um pequeno programa nesta Quaresma, pequeno, mas eficaz, um programa que consista em conhecer melhor a palavra de Deus que chegue até o coração. E ao mesmo tempo partir para a realização prática desta palavra na vida diária, apesar das tentações.

O relato das tentações lembra os três momentos do caminho do povo hebreu no deserto em direção a Canaã.

01) A fome, a murmuração e o dom do maná - Deus permitiu a fome para ensinar que o homem não vive só de pão (Deuteronômio 8,2). Jesus viveu esta tentação, mas, ao contrário do povo hebreu, venceu-a. Como Jesus, os cristãos devem fazer a experiência do deserto e das tentações na saída do Egito. Todos os israelitas foram batizados na nuvem e no mar, todos comeram o mesmo pão espiritual... (vv.2-4). É a mesma a situação dos cristãos que receberam os sacramentos da iniciação (Dupont). Por isso devem preocupar-se em não sucumbir às tentações, como Israel. Hoje as tentações são as dos bens materiais, em detrimento da moral, da família, da saúde, de Deus...

02) A falta de água - Os israelitas murmuravam: “Deus está conosco?” E pedem um milagre a Deus: que mostre água. Onde Israel sucumbiu, Jesus saiu vencedor e não iria obrigar Deus a intervir em seu favor. Hoje muitos querem ensinar a Deus o que fazer: Por que Deus não acaba com o mal? Sempre faço o bem e veja o que me acontece: uma desgraça!

03) O impacto com a terra de Canaã - Deus havia advertido o povo de que, ao entrar na terra prometida, encontraria um povo pagão, e lhe disse: “Vocês devem adorar somente a mim” (Deuteronômio 6,15; Êxodo 23,20). O povo de Israel sucumbiu, pensou em receber favores do povo conquistado unindo-se a ele na adoração dos ídolos. Jesus passou pelo mesmo caminho, mas venceu. E os cristãos, quantos ídolos adoram? Sucesso, moda, status, símbolos…

A Quaresma é um tempo de adesão madura a Deus, pois é um dom, mas também uma procura. A Quaresma é um tempo para mergulhar na palavra de Deus, que nos faz discernir entre o bem e o mal.

Se o Diabo tentou Jesus, quanto mais a nós. Isto porque Satanás é um anjo mau, capaz de tornar-se atraente, enganador, inclusive de citar a Palavra de Deus. Sua função é nos separar de Deus, nos convencer a caminhar com as próprias forças, propor-nos sucesso e segurança contra o projeto de Deus.

O ódio de Satanás é reservado aos santos“ (Bernanos). Não é só nos fenômenos excepcionais (droga, alcoolismo, violência...) que se reconhece a intervenção de Satanás, mas também nas ações normais, do dia-a-dia, quando a quimera do ter-poder-prazer tende a nos desviar da obediência da fé...

Parece-me que certas ironias sobre o conteúdo doutrinal nascem de um conhecimento incorreto de como Cristo e os apóstolos rejeitaram o Diabo“ (Rahner).

A Quaresma é um tempo de preparação para a Páscoa, a festa litúrgica mais importante. Para chegar a esta festa, a Igreja nos propõe quarenta dias de preparação. A Quaresma é um tempo de meditação, de oração, de caridade. É um tempo para aprofundar mais os mistérios da fé, com o jejum, a esmola, a oração.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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