Este
episódio narrado no Êxodo constitui um dos pontos
centrais da história da salvação. Deus
intervém de maneira misteriosa para libertar o povo
da servidão do Egito. Segundo a mentalidade do tempo,
a prosperidade e a segurança de uma nação
dependiam da força de seus deuses. O esplendor, a extensão
e o poder do Império egípcio exprimiam, portanto,
a grandeza de sua divindade. Javé, o Deus que se revelou
a Moisés na sarça ardente (Êxodo
3), vem confrontar-se com esses deuses para libertar
os descendentes dos patriarcas hebreus reduzidos à
escravidão, a trabalhos desumanos, para construir cidades
grandiosas para o faraó.
A
Páscoa era originalmente festa dos pastores que celebravam
a primavera e o nascimento das ovelhas. Nesta festa, os pastores
derramavam o sangue de cordeiros ao redor do acampamento,
a fim de espantar os maus espíritos, que poderiam prejudicar
a fecundidade do rebanho. Na ocasião, esses pastores
ofereciam a Deus um cordeiro de seu rebanho.
Com
a saída do Egito, a Páscoa tornou-se a celebração
do Êxodo (Êxodo 13,14), traduzida
em forma de refeições. Foi associada à
festa dos ázimos. Portanto, com a saída do Egito
Israel adotou esta festa dos pastores para celebrar o Êxodo,
associando-a à festa dos ázimos, que era uma
festa agrícola. Porém a festa agrícola
só foi celebrada quando Israel tomou Canaã e
associada à festa da Páscoa após a reforma
de Josias em 622 a.C.
O
texto que relata a Páscoa dos judeus (Êxodo
12,1-13,16) foi escrito bem mais tarde, alguns séculos
depois, num contexto de opressão para Israel, ou seja,
durante o exílio na Babilônia. O relator da escola
javista e sacerdotal coletou informações das
fontes javista e eloísta e elaborou o texto atual,
para que viesse responder aos anseios do povo oprimido na
Babilônia, provocando assim a libertação
do Egito.
Nosso
texto fala do ritual da Páscoa. Trata-se de um memorial,
ou seja, de atualização da libertação
do Egito. O texto fala ao coração dos exilados
e suscita neles a memória dos feitos de Deus. Neste
sentido, o texto oferece algumas indicações.
A Páscoa marca o início de um novo tempo de
libertação (v.1), e com ela
se inicia uma vida nova. É o início da vitória
do povo sobre a opressão. Para a inauguração
desta nova era requer-se a partilha para que ninguém
tenha demais e falte ao outro o que comer (v.4).
É uma festa que visa à preservação
da vida. O sangue não afugentará mais os maus
espíritos, mas servirá de sinal para a perseverança
de Israel enquanto povo ameaçado de desaparecer devido
à política do opressor. É uma festa de
memória histórica que lembra o passado desastroso
(as ervas amargas). É celebrada às
pressas (os pães sem fermento). Os
que nela tomam parte devem estar preparados para uma longa
viagem, até chegarem a uma sociedade plenamente humana
e fraterna. |
Este
é o primeiro escrito do Novo Testamento que fala da
Eucaristia. Ela era celebrada em Corinto, numa comunidade
que enfrentava problemas e divisões. Os primeiros cristãos,
antes de celebrarem a ceia, faziam uma refeição
na qual todos punham em comum o que traziam. Era o momento
da partilha que precedia a Eucaristia. Neste contexto, em
que alguns comiam comodamente o que traziam e os pobres ficavam
sem nada, Paulo questiona a comunidade se é possível
celebrar a Eucaristia sem a partilha. Não seria comungar
a própria condenação? Paulo sublinha
o caráter sagrado do banquete comunitário (Kyriakón
deipron) como atualização da ceia
do Senhor. Mas como isso podia acontecer se a ceia comunitária
(ágape), que tinha o objetivo
de favorecer o amor fraterno e a partilha dos bens que cada
um trazia, não estava acontecendo? Se os ricos, que
dispunham do tempo que quisessem, reuniam-se antes para comer
e beber (v.22)? A noite chegava e o pobre,
que havia trabalhado o dia todo como descarregador no porto,
assim como os escravos, não tinha nada para o ágape
e eram marginalizados pelos ricos.
Paulo
lembra a Eucaristia como um preceito que recebeu do Senhor.
Lembra a instituição da ceia na noite em que
o Senhor foi traído. A Eucaristia foi instituída
numa ceia solene, com o partir e o entregar do pão
aos presentes, como se fazia nas refeições judaicas
mais solenes.
Quando
Jesus pronunciou as palavras “Este
é o meu corpo“, não pensava
na transubstanciação ou empanação,
mas em sua morte, em seu corpo entregue aos inimigos. Aceitava
perder sua vida para resgatar a vida de todos. O mesmo sentido
tinha o vinho. Significava o seu sangue derramado para estabelecer
a nova Aliança entre Deus e os homens.
A
memória (anamnesis) é
um termo do calendário litúrgico judaico. Pois
os hebreus celebravam a Páscoa como memorial da libertação
do Egito, ou seja, como ritualização de um evento
do qual dependia a sua salvação.
A
ceia é um verdadeiro memorial, porque propõe
os sinais que Jesus sofreu em sua vida para nos salvar. Participar
dela significa reconhecer o valor de sua morte. |
O
lava-pés dá início à segunda parte
do Evangelho de João (13-20), denominada
por muitos exegetas de “Livro
da Glória”, porque Jesus chegou
à glorificação nos céus através
de sua paixão e morte. Trata-se da última ceia,
durante a qual Jesus abriu seu coração aos discípulos,
confiando-lhes seu testamento espiritual, contido nos dois
“discursos do adeus”
(14,15-16) e na oração sacerdotal
(v.17).
Para
João, o lava-pés assume o valor de um gesto
profético extremamente significativo, enquanto recapitula
o serviço do amor prestado pela humanidade do Verbo,
através de seu abaixamento e de sua oblação
sacrificial.
A
última ceia de Jesus antes da festa da Páscoa
não assume um caráter pascal como nos sinópticos,
pois João nem lembra a instituição da
Eucaristia. Segundo a perspectiva teológica jovanéia,
Jesus enfrentou o drama da paixão livremente, com perfeita
consciência do que estava para lhe acontecer. Ele sabia
que chegara sua hora de passar deste mundo ao Pai, ou seja,
que aquele era o momento decisivo para fazer a vontade do
Pai que o havia predestinado como vítima de expiação
pelos pecados do mundo. Sua consciência da morte é
caracterizada pelo verbo “oida”,
que significa conhecimento adquirido, plena consciência
do que se faz.
Tomar
a refeição juntos é sinal de partilha.
Jesus vive este clima familiar com os seus. Na ceia Jesus,
consciente de estar concretizando o projeto do Pai, mostra
que esse projeto se traduz em ações concretas.
Por isso, despoja-se de seu manto (sinal de dignidade)
e pega o avental. É o Senhor que se torna servo (Filipenses
2,6-7) e lava os pés dos discípulos.
A
reação de Pedro era espontânea, mas contradizia
radicalmente a missão de Jesus. Em outras palavras,
Pedro negava inconscientemente o serviço de Jesus como
oferta de sua vida para a salvação dos homens.
Sua negação comportava, portanto, a exclusão
da herança do Reino. Jesus, intervindo, explicou aos
discípulos que eles já estavam puros por sua
adesão de fé à palavra.
João
lembra que o fato acontece “antes
da Páscoa”. Não é
tanto uma menção cronológica, mas teológico-litúrgica.
É a primeira Páscoa cristã. De fato,
João não fala da Páscoa “dos
judeus”. |
| A
Quinta-Feira Santa é a festa do Amor. Na Páscoa
hebraica, o povo se reunia para comemorar a libertação
da escravidão. Os cristãos, por sua vez, reúnem-se
para comemorar a vitória de Jesus sobre o pecado e
a morte. A libertação de Moisés não
foi completa, a de Cristo sim.
A
ceia é um sinal de comunhão, amizade e convívio.
Sentar-se à mesma mesa e comer o mesmo alimento supõe
uma capacidade de acolher o outro, a disponibilidade, o amor
recíproco.
O
ágape é sempre uma provocação
para o bem, o amor, a esperança. Não se pode
sentar à mesa do Senhor com egoísmo, como faziam
os ricos de Corinto. Jesus, no gesto de partir o pão,
estava entregando sua vida. O mesmo deve acontecer conosco.
A
Eucaristia não faz o milagre que esperamos em nossa
vida se não quebramos os ídolos do nosso coração,
se não damos espaço para a caridade.
É
preciso sentar à mesa, amar como Jesus amou. Então
estaremos seguros de que ele se encontra em nosso meio.
O
ponto alto deste primeiro dia do Tríduo Pascal é
esta missa, em que se celebra, comemora, renova sacramentalmente
a ceia do Senhor. Esta celebração exige de nós
uma concentração intensa. Foi a primeira missa
celebrada na terra, com a instituição da Eucaristia
e a ordenação episcopal dos apóstolos.
Jesus
mandou Pedro e João prepararem o lugar para a Páscoa.
Não queria uma sala qualquer, mas um “catalyma”,
isto é, uma sala onde viviam os servos, os domésticos,
onde havia instrumentos de trabalho. Era um pouco moradia,
um pouco armazém. Uma sala simples, exatamente como
aquela em que havia nascido em Belém, mas o amigo lhe
ofereceu a melhor sala. Jesus nasceu numa estrebaria, mas
celebrou a Eucaristia numa sala rica, num cenáculo.
Na
narração, João enfoca mais o gesto do
lava-pés (amou-os até o fim).
O mal do mundo hoje é a falta de amor. “Com
o amor se pode batizar sem água, crismar sem óleo,
absolver sem absolvição, comungar sem hóstia”
(Faber). O amor provoca empenho total, dedicação
ao próximo, fidelidade ao dever. Nenhum meio de locomoção
pode preencher as distâncias entre os homens. O amor
pode.
A
Eucaristia é o ponto alto de toda a vida cristã
(Concílio Vaticano II). Jesus tornou-se,
na última Ceia, o grande sinal do amor. Esta é
a força da Eucaristia. Nós não somos
um grupo que se reúne por razões humanitárias,
nem por um código de moral, mas ao redor de uma pessoa,
Jesus Cristo ressuscitado, presente na Eucaristia, força
unificadora da comunidade.
Como
os discípulos de Emaús desiludidos, céticos
e desconfiados, o mundo de hoje só saberá reconhecer
Cristo quando os cristãos souberem repartir verdadeiramente
o pão.
Com
a instituição da Eucaristia, Jesus nos dá
o sacerdócio da nova Aliança: “Façam
isto em memória de mim”. Assim,
os presbíteros participam do ofício do único
mediador, Jesus Cristo, no qual anunciam a palavra, mas acima
de tudo exercem o sagrado ministério no culto eucarístico,
e, agindo “in persona
Christi” e proclamando o seu mistério,
unem as orações dos fiéis ao sacrifício
de Cristo, e no sacrifício da missa representam e aplicam,
até a vinda do Senhor, o único sacrifício
do Novo Testamento (Concílio Vaticano II).
Por
que devemos freqüentar assiduamente a Eucaristia? A resposta
pode ser encontrada na biografia do General de Lamoricière.
Depois de converter-se, ele procurava comungar sempre. Certo
dia ele disse ao seu pároco: “Creio
que não é justo aproveitar muito os dons do
Senhor”. O pároco respondeu:
“A Eucaristia não
é um prêmio. É um meio para chegar ao
prêmio”.
Celebrar
a Eucaristia é atualizar a nova ceia pascal do povo
de Deus, como já prefigurava a Páscoa dos hebreus.
A
missa é o sacrifício de Cristo e da Igreja,
ou seja, o oferecimento ao Pai do Corpo e Sangue de Cristo,
que tem lugar na oração eucarística,
depois da consagração: “Celebrando
a memória da morte e ressurreição de
vosso Filho, nós vos oferecemos, ó Pai, o pão
da vida e o cálice da salvação”
(Oração II).
João
não relata a instituição da Eucaristia.
Em seu lugar coloca o lava-pés, gesto que tem relação
com a Eucaristia, como sinal que é também do
amor e da entrega de Jesus. Jesus fez este gesto motivado
por sua passagem para o Pai e pelo amor aos seus. O lava-pés
não tem o significado das abluções rituais
dos judeus realizadas antes das refeições, nem
o detalhe da hospitalidade semita, já que não
é feito no início da ceia, mas enquanto ela
se desenvolve. Este ofício era tarefa dos escravos,
por isso causou a reação de Pedro. O gesto mostra
a humilhação de Jesus que, embora sendo Deus,
realiza uma ação de serviço.
O
lava-pés resume toda a vida de Jesus, centralizada
no amor ao Pai e aos homens. Explica a existência de
Jesus. Sua vida fica toda iluminada. Gesto que está
de acordo com seus ensinamentos e exemplos. Gesto que não
tem nada de interesseiro, como ocorre com os políticos
quando vão beber café nas casas dos pobres em
época de eleições, para ter notoriedade
e popularidade, contribuindo como detalhes para a fotografia
e a urna de votos.
Tanto
para o gesto da Eucaristia como do lava-pés, Jesus
pede continuidade a seus discípulos: “Façam
o mesmo” (João 13,15),
“façam em minha
memória” (1 Coríntios
11,24-25), ou seja, Jesus pede que repitam suas atitudes
de amor, serviço, entrega, renúncia, obediência...
Dentro
desta linha de serviço está o sacerdócio
instituído por Cristo junto com a Eucaristia, pois
graças ao ministério do sacerdócio o
mandato de Cristo se torna presente. Assim temos o sacrifício
eucarístico, que é a fonte e o ápice
de toda a vida cristã (Lumen Gentium 11,1),
a fonte de onde jorra a vida e a força para a Igreja
(Sacrosanctum Concilium 10,1).
Os
cristãos procuraram cumprir o mandato do Senhor de
celebrar a ceia em sua memória desde o início:
“Os irmãos eram
constantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na
vida comum, na fração do pão”
(Atos dos Apóstolos 2,42).
A
cena evangélica de hoje mostra claramente como se deve
exercer a autoridade entre os irmãos: como serviço
de amor. Jesus disse: “Vocês
me chamam Mestre e Senhor, e dizem bem, pois eu sou. Se eu
lavei-lhes os pés, vocês também devem
lavar os pés uns dos outros. Dei-lhes o exemplo para
que façam o mesmo”.
A
última Ceia foi uma ceia testamentária, uma
ceia afetuosa e imensamente triste, uma ceia permeada por
um gesto transcendente, mas ao mesmo tempo simples, onde é
instaurada para o povo uma nova Aliança com Deus: “Esta
é a nova Aliança no meu sangue”.
O
mandamento de Jesus é o amor (João 13,34).
É o mandamento novo. Novo porque o irmão é
objeto do amor de Deus. Novo porque o modelo é sempre
atual. Novo porque o modo de cumpri-lo será sempre
novo. “Como eu os amei”.
Novo porque o amor será sempre uma novidade para o
homem acostumado à rotina e ao egoísmo. Devemos
perguntar-nos se, nos lugares onde a maior parte de nossa
vida se desenvolve, as pessoas sabem que somos discípulos
de Cristo pela forma amável, compreensiva e acolhedora
com que as tratamos. Sabemos pedir desculpas a alguém
quando o tratamos mal? Temos manifestações de
carinho com os que estão ao nosso lado? Temos cordialidade,
estima, palavras animadoras, sorriso, bom humor, preocupação
com os problemas dos outros? |