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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C - São Lucas
Tempo Pascal
PENTECOSTES
23 de Maio de 2010

Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
2,1-11
VINDA DO ESPÍRITO SANTO EM MEIO A UM RUÍDO COMO DE VENTO

Este capítulo é um dos pontos centrais da obra de Lucas. Em primeiro lugar descreve a efusão do Espírito Santo sobre a Igreja formada por 120 membros (Atos dos Apóstolos 1,15), entre os quais estavam os apóstolos, Maria e outros crentes. Em seguida vem o discurso de Pedro esclarecendo o significado do Pentecostes e levando à adesão três mil pessoas (vv.14-41).

Quando Lucas escreveu os Atos, a evangelização já havia alcançado os confins do mundo (1,8). Isto quer dizer que todos os povos presentes em Jerusalém no dia de Pentecostes já haviam recebido o anúncio de Jesus. Lucas colocou assim mesmo o evento do Pentecostes para mostrar a universalidade do povo de Deus e da evangelização, que para Lucas foi obra do Espírito Santo.

Ao descrever o Pentecostes, Lucas serviu-se dos evangelhos e do Antigo Testamento. O Pentecostes, assim como a Páscoa, era uma festa agrícola antiga em Israel. As duas, com o passar do tempo, foram transformadas em festas religiosas. A Páscoa lembrava a saída do Egito e o Pentecostes o dia em que Moisés recebeu as Tábuas da Lei no Sinai. Ao descrever a vinda do Espírito Santo, Lucas a fez coincidir com o Pentecostes judaico, celebrado no 50º dia da Páscoa. No Antigo Testamento esta festa era compreendida e celebrada com duplo significado: festa da colheita do trigo, cujas primícias eram oferecidas a Deus em sinal de gratidão e celebração da revelação do dom do Sinai concluído com a Aliança. Se a Páscoa assinalava o namoro de Deus com Israel libertado do Egito, o Pentecostes representava o dia do casamento na revelação e no pacto. De fato, cinqüenta dias depois que o povo saiu do Egito, Deus fez a aliança com ele no Sinai (Êxodo 19). Este acontecimento foi acompanhado por relâmpagos, trovões, trombetas... Lucas afirma que a vinda do Espírito Santo também foi acompanhada por estes mesmos fenômenos. Com isso ele quer dizer que em Jerusalém surgiu uma nova Aliança. Surgiu o novo povo de Deus e foi dada uma nova lei: o Espírito Santo.

Lucas também se inspirou em Números 11,10-30, onde Deus repartiu seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos, para que pudessem organizar o povo. Com isso Lucas salienta que o Espírito Santo foi derramado sobre todos.

Originalmente, esta festa era conhecida no Antigo Testamento também como festa das Sete Semanas depois da Páscoa (“hag shabuot”). Tinha significado agrícola ligado à plantação e ao dever de todo israelita de dar a décima parte das colheitas. Depois ela se tornou festa anual da renovação da Aliança, como relatam o livro dos Jubileus (6,20) e alguns documentos de Qumran.

Finalmente, Lucas serve-se de Gênesis 11, que relata o episódio da torre de Babel, no qual Deus confundiu a ambição das pessoas, que com orgulho pretendiam fundar uma nova nação por conta própria. Deus confundiu a ambição deles. No Pentecostes ocorreu o contrário: todos entendiam em sua própria língua. Portanto, surgiu um novo povo de Deus, com uma nova Aliança.

A descrição da vinda do Espírito Santo é uma composição redacional de Lucas que lembra a manifestação de Deus no Sinai. As línguas e o fogo lembram provavelmente a tradição hebraica, segundo a qual a voz do Senhor no meio do fogo se dividiu em setenta línguas, para ser compreendida por todas as nações.

A interpretação do fenômeno das línguas é discutível. Em 1Coríntios 12-14 Paulo fala da glossolalia como uma oração estática sob a ação do Espírito Santo, que era formulada com sons incompreensíveis e palavras estranhas. A descrição de Lucas revela a compreensão da linguagem carismática dos apóstolos por todos os presentes. Tratava-se de hebreus da diáspora vindos de diferentes nações, que não conheciam o aramaico, língua então falada na Palestina. Eles liam a Bíblia em grego, chamada dos LXX. Lucas dá uma descrição detalhada das regiões de onde eram provenientes. Embora fossem hebreus, o hagiógrafo os faz representantes dos respectivos povos pagãos para os quais a Igreja logo se difundiu. Com isso, o Pentecostes tem uma conotação eminentemente missionária.

Segunda Leitura
1Coríntios
12,3b-7.12-13
CARISMAS DIVERSOS, MAS UM SÓ ESPÍRITO

Paulo dá uma distinção como critério básico para saber o que procede e o que não procede do Espírito Santo. Este critério é o relacionamento de Jesus como o único Senhor. É provável que alguns de Corinto, julgando-se movidos pelo Espírito, tenham declarado de forma blasfema “Jesus maldito” (12,3a). Para Paulo, isto não é ação do Espírito Santo, pois a ação do Espírito Santo leva a proclamar que Jesus é o Senhor.

Os coríntios achavam que ter carismas era possuir dons extraordinários, como falar línguas e profetizar. Esta era uma visão dedutiva e personalista. Paulo explicita que existem vários dons, mas o Espírito é o mesmo, e, portanto, tudo colabora para a execução do plano de Deus. O mesmo ocorre na comunidade, onde a cada um é dado um sinal da presença do Espírito Santo para o bem comum.

Em Corinto havia divisões (11,18), intemperança (11,21), confusões (14,23). Portanto, era preciso voltar à unidade (11) e, sobretudo, à caridade (13). Para Paulo, os dons do Espírito vêm de uma única fonte e têm um único objetivo: a “utilidade comum” (v.17), ou seja, a edificação do corpo de Cristo (v.27), a Igreja (v.28).

Paulo salienta que o critério para distinguir os verdadeiros dons dos não verdadeiros (“pneumátika”) é o cristológico, e não os ídolos pagãos. Quem está com o Espírito de Jesus não pode proclamar, como uma hipótese acadêmica ou uma referência histórica de grupos judaicos ou agnósticos, que Jesus seja anátema.

Os carismas (“karismata”) são para o bem de todos e vêm do mesmo Espírito. Os ministérios (“diakonia”) lembram a atitude de Jesus. As operações (“energemata”) que lembram as curas, os milagres, vêm de Deus.

Para Paulo, a pluralidade não pode comprometer a unidade da Igreja, assim como diferentes órgãos compõem o corpo humano. Na Igreja não pode haver distinções, pois com o Batismo todos receberam o mesmo Espírito. Assim, todos bebem da mesma fonte que é o Espírito Santo. Portanto, não há razões para divisão na comunidade.

Evangelho
João
20,19-23
RECEBA O ESPÍRITO SANTO,
PARA O PERDÃO DOS PECADOS

João e Lucas têm perspectivas diferentes para o Pentecostes. Para João ele aconteceu no mesmo dia da ressurreição de Jesus, enquanto para Lucas só cinqüenta dias após a Páscoa. Apesar das perspectivas diferentes, a finalidade é a mesma. Ambos mostram que o Espírito sustentou as lutas de Jesus para realizar o projeto de Deus e que é o mesmo Espírito que agora anima as lutas das comunidades cristãs.

João situa a cena do Pentecostes no Templo, na tarde do domingo da Páscoa. A referência à tarde do domingo reflete a práxis cristã de se reunir para celebrar a memória da morte e ressurreição de Jesus, a Eucaristia. As portas fechadas mostram um aspecto negativo (o medo) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressuscitado, que não conhece barreiras).

Jesus saúda a comunidade com a plenitude dos bens messiânicos (“Shalom”). É a mesma saudação que Jesus usou em sua despedida (14,27). A reação da comunidade é de alegria, pois, fortalecida pela presença do Senhor, a comunidade está pronta para exercer a missão (v.21b), e quem vai garantir a missão é o Espírito Santo (v.22), que com o sopro de Jesus dá vida nova, fazendo nascer a comunidade messiânica. De agora em diante, os cristãos são responsáveis pela continuação do projeto de Deus em manifestações de atos concretos de amor.

Jesus soprou sobre eles, repetindo o mesmo gesto de Deus (Javé soprou num boneco de barro e dali saiu o ser vivo - Gênesis 2,7). Assim nasceu a nova comunidade. Esta nova comunidade deve continuar o projeto do Pai sintetizado na fórmula: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem serão perdoados”. O pecado, para João, são gestos concretos de injustiça, opção fundamental contra a vida. Por isso, a comunidade deve mostrar onde estão a vida e a morte, promovendo a vida e quebrando os mecanismos da morte, lutando contra o mal. Afinal, os discípulos devem continuar a missão de Jesus (20,21) e tornar-se suas testemunhas no mundo (15,26).

REFLEXÃO

Pentecostes é o Batismo da Igreja. O povo da Aliança foi constituído no Sinai e o novo povo é consagrado no cenáculo. Com o Pentecostes, homens comuns se tornaram colaboradores do Espírito Santo, ministros da salvação. Cheios do Espírito Santo, tornaram-se “um povo de santos”, como disse o autor do Êxodo (19,20). Não se reuniram por determinação própria, mas por causa de uma força do alto.

A Igreja verdadeira é aquela que vive os vínculos da fé, ou seja, a força e a bondade de Deus. Assim, o corpo eclesial vive e se move em virtude da ação do Espírito Santo que o vivifica. Sem o Espírito Santo, a Igreja é um corpo inerte.

A unidade do corpo não destrói a multiplicidade dos membros e, com isso, os carismas não são cancelados pelo Espírito Santo que os distribui e provoca sua vitalidade. Por isso, sem os múltiplos carismas, a Igreja é monótona, fechada num mistério inexaurível (Efésios 3,18) à riqueza sem fim de Deus (Romanos 11,33).

A Igreja não é uma simples associação de homens de boa vontade, mas uma convocação de santos, animada por uma mesma força que impulsiona para agir no tempo que encontra em Cristo a sua proposta concreta. Ela é chamada para instaurar o reino de Deus e combater toda forma de egoísmo e injustiça.

O Espírito Santo completou a obra salvífica de Jesus. Assim, Jesus Redentor realiza sua ação em perfeita sintonia com o Pai e o Espírito Santo. As três Pessoas operam conjuntamente.

Por isso, o Pentecostes é uma nova criação na qual Jesus infundiu o seu Espírito nos discípulos, gerando um novo povo. É a ação de Deus que provoca nos homens a escolha de Deus e de seu projeto.

Pentecostes é uma festa essencialmente missionária.

O Espírito Santo e Jesus são duas pessoas distintas, mas unidas ao Pai e, portanto, únicas. É o Espírito Santo que tem a tarefa principal de nossa salvação, pois “ninguém pode dizer Senhor Jesus senão em virtude do Espírito Santo”.

Hoje termina o tempo pascal. Amanhã a cor litúrgica será verde. Continuaremos a meditar não mais as instruções de Jesus no cenáculo, mas os acontecimentos do seu ministério na Galileia. É um pouco como na segunda-feira, quando recomeça a vida comum depois da interrupção do domingo.

É com a iluminação do Espírito Santo que podemos proclamar a divindade de Jesus. Suponhamos que duas pessoas escutem a mesma página do Evangelho e uma diga: Jesus é um homem excepcional, uma grande alma religiosa, um grande fundador, o maior homem que já existiu, mas não vai, além disso.

Um outro, tocado pelo Espírito Santo em sua fé, diz: “Jesus é o Filho de Deus”. Diz isto porque o Espírito que está nele o iluminou e aqueceu seu coração. Pois é impossível que o homem, sem a ajuda do Espírito Santo, possa reconhecer em Jesus de Nazaré, o carpinteiro, o humilde pregador da Galileia, o Filho de Deus, aquele mediante o qual todas as coisas foram criadas, ele que nasceu do Pai antes de todos os séculos.

Nenhum milagre pode fazer sair da boca de um homem e de seu coração a profissão de fé “Jesus é o Senhor” sem o Espírito Santo. A pregação do Evangelho é inútil se o Espírito Santo não ilumina aquele que escuta.

A leitura da Bíblia torna-se igual à de qualquer livro se o Espírito Santo não abre nossa mente e nosso coração. É o Espírito que vivifica, a carne de nada vale. O Espírito Santo é a alma profunda de nossa espiritualidade.

Por isso, daqui para frente, ao escutarmos o Evangelho, lembremos que é em virtude do Espírito Santo que o acolhemos. Com isso, a lembrança do Espírito Santo não fica resumida ao dia de hoje, mas joga luz sobre todo o ano litúrgico.

Bossuet resumiu a necessidade do Espírito Santo em nossa vida desta maneira: “Além dos instrutores de fora, temos necessidade de um mestre interior, para compreender aquilo que nos foi ensinado exteriormente, para nos lembrar, impedindo que esqueçamos, para nos fazer amar as verdades anunciadas, para compreendermos e nos lembrarmos dos ensinamentos de Jesus e os termos presentes no coração com afeto. Mais que ciência, o Espírito Santo nos inspira amor. É por intermédio dele que somos disciplinados na verdade de Deus”.

Como disse Tagore, o homem é como um herói que saiu com sua lâmpada de barro gritando: “Eu iluminarei os seus caminhos”. Mas, diante do primeiro obstáculo no caminho, sua lâmpada caiu e quebrou-se. Então ele voltou para sua casa na noite escura, abandonando os ares de conquistador e de guia presunçoso e suplicou: “Ilumine-me, fogo, já que era argila a proteção de minha luz”.

Se o Espírito Santo estiver presente na Igreja, Deus não ficará longe do homem. Cristo não pertence ao passado, mas é o ressuscitado. O Evangelho não é letra morta, mas poder de vida. A Igreja não é uma organização, mas comunhão no amor trinitário. A missão não é propaganda, mas Pentecostes. A autoridade não é dominação, mas serviço libertador. A liturgia não é evocação do passado, mas atualização dos fatos salvadores de Deus e antecipação da consumação do futuro esperado. A moral não é ética natural de escravos submetidos ao látego da lei, mas agir como cristãos, isto é, segundo a lei do Espírito em Cristo Jesus.

(Declaração do Conselho Mundial das Igrejas)

No dia de Pentecostes, o Espírito Santo manifestou-se como vento impetuoso e línguas de fogo. O fogo aparece na Bíblia como imagem do amor que penetra todos as coisas e como elemento purificador. É a imagem que nos ajuda a entender melhor a ação que o Espírito Santo realiza nas almas. O fogo também produz luz, e significa o novo resplendor com que o Espírito Santo faz compreender a doutrina de Jesus. “O advogado, o Espírito Santo... ensinará-lhes tudo e lhes trará à memória tudo o que eu lhes disse” (João 14,26). É ele quem nos conduz à plena compreensão das verdades ensinadas por Jesus.

No Antigo Testamento, a obra do Espírito Santo é freqüentemente sugerida pela palavra “sopro”, a fim de exprimir ao mesmo tempo a delicadeza e a força do amor divino. Não há nada mais sutil que o vento que penetra por toda parte, que até parece percorrer os corpos inanimados e dar-lhes vida própria. O vento impetuoso no dia de Pentecostes exprime a nova força com que o amor divino irrompe na Igreja. Pedro, diante da multidão, fez-lhe ver que o que estava acontecendo era o cumprimento do que os profetas haviam anunciado. ”E sucederá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Atos dos Apóstolos 2,17). Assim, os que receberem a efusão do Espírito já não serão uns poucos privilegiados, como os companheiros de Moisés (Números 11,25) ou como os profetas, mas todos os que se abrirem para Cristo (João 7,39).

A vinda do Espírito Santo no Pentecostes não foi um acontecimento isolado na vida da Igreja, pois o Paráclito a santifica continuamente, como também santifica cada alma através de suas inspirações.

Não só os apóstolos foram fortalecidos na missão de testemunhar Jesus, mas todos os que nele crerem (Atos dos Apóstolos 2,17-18). A grandeza de nossa missão corresponde às noções do Espírito Santo e, por isso, devemos sempre pedir que o Espírito Santo “lave o que está manchado, regue o que está seco, cure o que está doente, aqueça o que está morno...”.

Para isso é preciso docilidade às inspirações do Espírito Santo, pois é ele quem dá o tom sobrenatural a nossos pensamentos, desejos e obras, quem nos impele a aderir à doutrina de Cristo, quem nos dá luz para tomar consciência de nossa vocação pessoal e força para realizar o que Deus espera de nós.

O Espírito Santo age em nossa alma. Não podemos dizer uma só jaculatória se ele não nos move a dizê-la (1Coríntios 12,3). Ele está presente quando rezamos, quando descobrimos uma luz nova num conselho recebido. É ele quem nos sugere a realizar uma boa obra e a encontrar uma palavra adequada para animar uma pessoa a ser melhor.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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