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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A

PENTECOSTES
12 de Junho de 2011

Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
2,1-11

VINDA DO ESPÍRITO SANTO EM MEIO A UM RUÍDO COMO DE VENTO

O segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos pode ser chamado de “O Manifesto” da nova comunidade. Ele apresenta dois elementos que permitem que a comunidade seja e cresça:

01) o Espírito (2,1-13);
02) a Palavra (2,14-41).

O Espírito é a força de agregação que transforma os vários grupos na nova comunidade. A Palavra é o dom que a comunidade tem o dever de comunicar aos outros. O nosso texto se interessa pela primeira parte deste capítulo.

A experiência do Espírito Santo ocorreu no dia de Pentecostes. No início, esta comemoração era uma festa agrícola que Israel celebrava sete semanas depois da Páscoa. Em hebraico, era chamada “Hagshauv’ot” (festa das semanas ou das primícias da colheita – Êxodo 34,22). Pentecostes é uma palavra grega que significa cinqüenta dias. Dois séculos antes de Cristo, era celebrada como festa comemorativa da Aliança do Sinai. Os fariseus a transformaram na festa em que comemoravam o dom da Lei no Sinai. De fato, em Êxodo 19, cinqüenta dias depois que o povo saiu do Egito, Deus fez a Aliança com ele no Sinai, acompanhando-a com trovões, relâmpagos, trombetas,… (Atos dos Apóstolos 2,1-2). Esse fato foi uma das bases sobre as quais Lucas construiu a narrativa do Pentecostes.

Lucas se inspirou também em Números 11,10-30, que narra a ação de Deus derramando o seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos para que pudessem organizar o povo. Para o evangelista, o Espírito foi derramado sobre todos.

Finalmente, Lucas serviu-se de Gênesis 11, onde se encontra o relato da torre de Babel. Ali Deus confundiu a ambição das pessoas. Para Lucas, o Pentecostes é o oposto de Babel, pois todos entendiam em suas próprias línguas.

Com o Pentecostes, Lucas mostra a comunidade cristã como o novo povo de Deus, o povo da nova Aliança.

Segundo Fílon e a tradição dos Targumim, a voz de Deus se dividiu em várias línguas, inclusive em setenta, para que todas as nações pudessem entender. O objetivo de Lucas, em sua narrativa, é dizer que todos são habilitados pelo dom do Espírito Santo para serem profetas. Esta comunidade não se funda na Lei, mas no dom comum recebido. Será esse dom que permitirá penetrar a Lei e vivê-la realizando as profecias de Jeremias 31,31-34 e de Ezequiel 36,25-28.

Na lista de Lucas estão presentes treze povos e países. Segundo a geografia imperial da época, os povos eram divididos em três partes:

01) um primeiro grupo de três povos vivia além da fronteira oriental do Império (partos, medos e elamitas);
02) um segundo grupo era constituído por nove regiões que formavam a Mesopotâmia;
03) um terceiro grupo era formado pelos “estrangeiros de Roma”. Lucas distingue depois entre os prosélitos e os hebreus (diferença étnico-religiosa; cretenses e árabes), entre os habitantes das ilhas e da terra firme (diferença cultural).

No relato de Pentecostes há um sentido de comunhão que agrega os hebreus, tornando-os comunidade, e este é o falar línguas. Eles se fazem entender superando o gueto, o nacionalismo e as forças de desagregação.

Segunda Leitura
1 Coríntios
12,3-7.12-13

CARISMAS DIVERSOS,
MAS UM SÓ ESPÍRITO

Paulo dá neste trecho o critério para distinguir o que procede ou não do Espírito Santo: o reconhecimento de Jesus Cristo como Senhor (v.36), pois a ação do Espírito Santo leva sempre a professar que Jesus é o Senhor.

Isto é fundamental, pois os coríntios achavam que possuir carismas era dispor de dons extraordinários como falar línguas, profetizar etc. Esta era uma visão redutora do Espírito Santo. Assim, Paulo utiliza três termos para indicar três aspectos diferentes da ação dos dons:

01) carismas (karismata);
02) serviços (diakoniai);
03) atividade (energeis).

Portanto, carisma indica gratuidade, serviço à comunidade e força para construir o Reino de Deus.

Em seguida, Paulo dá uma hierarquia dos carismas: “os apóstolos” (testemunhas diretos de Jesus), “os profetas” (os que anunciam de modo convincente a mensagem) e “os mestres” (os catequistas que ajudam a aprofundar a fé). Porém, a pluralidade de carismas é vista na unidade de um só corpo no qual circula a mesma vida.

Evangelho
João
20,19-23
RECEBAM O ESPÍRITO SANTO,
PARA O PERDÃO DOS PECADOS

Para João, o Pentecostes aconteceu no próprio dia da ressurreição. Lucas o faz coincidir com a festa judaica do Pentecostes, cinqüenta dias após a Páscoa. Duas perspectivas diferentes, mas com a mesma finalidade, mostrando que o Espírito que sustentou a luta de Jesus para realizar o plano de Deus é o mesmo que continua animando as lutas das comunidades.

Estamos num domingo, com a práxis cristã de celebrar a Eucaristia à tarde. Os discípulos se encontram com as portas fechadas. Jesus aparece no meio deles e os saúda com o “Shalom” (plenitude dos bens messiânicos). É uma comunicação do dom da paz. Quando o vêem, os discípulos se alegram e, fortalecidos, estão prontos a dar testemunho dele depois de receberem o Espírito Santo. Jesus sopra sobre eles, lembrando a nova criação (Gênesis 2,7). Assim nasce a comunidade messiânica, que de agora em diante tem a responsabilidade de continuar o projeto de Deus e por isso Jesus lhe dá o poder de perdoar os pecados.

REFLEXÃO

Pentecostes é o evento conclusivo da história da salvação e marca o início da Igreja. A Bíblia compara o Espírito Santo:

01) a um sopro de vida. Deus soprou sobre o barro e o seu espírito o fez tornar-se um ser vivente;
02) a um vento impetuoso (1ª leitura) que não se vê, mas que arrasta tudo;
03) a um fogo inflamável, mas eficaz, que transforma em luz e calor tudo o que encontra;
04) a uma água cristalina capaz de fazer o deserto florescer.

Mas o que o Espírito Santo faz?

Transforma homens ignorantes em profetas.
Faz Cristo nascer no seio de Maria.
Faz Cristo ressurgir dos mortos.
Faz os apóstolos tornarem-se homens corajosos.
Suscita a fé e conduz o Cristo.
Faz desabrochar o amor e a doação.

E quais são os dons que o Espírito Santo nos dá?

Sabedoria - o gosto pelas coisas de Deus, fazendo com que os mandamentos não sejam um peso, mas uma libertação.

Inteligência para entender o projeto de Deus: “Os meus caminhos não são os caminhos de vocês”.

Conselho, dom pelo qual podemos distinguir o bem e o mal, e comportar-nos como filhos de Deus.

Fortaleza - dá-nos a coragem da fé, do amor e da verdade.

Ciência - é o dom que faz com que vejamos todas as criaturas como “glória de Deus”, reflexo da sua beleza e sinal da sua bondade.

Piedade - dá-nos o dom da oração, que faz com que nos voltemos para Deus chamando-o de Pai; e o dom do amor, que se exprime na palavra, no diálogo, no silêncio, na adoração...

Temor de Deus - não é ter medo de Deus, de seus castigos ou de que nos mande para o inferno, mas o temor de não fazer o suficiente para amá-lo, de não estar à altura da dignidade para a qual fomos chamados.

Sem o Espírito Santo, Deus está distante, Cristo fica no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é uma simples organização, a autoridade um poder, a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo e o agir moral um agir de escravo (Atenágoras).

Para quem lhe perguntava qual era o objetivo da vida cristã, São Serafim, um santo da Igreja católica russa do século XIX, respondia que consistia em adquirir o Espírito Santo.

Ter o Espírito Santo é estar repleto de Deus como Satoko Hara, jovem japonesa que deu a vida a serviço dos pobres que viviam em Tóquio num bairro chamado Vila das Formigas. Satoko era católica, filha de pais ricos, porém incrédulos. Dedicou oito anos ao serviço desse povo, sempre com um sorriso nos lábios. Esta era a sua palavra de ordem.

Com o Batismo do Espírito Santo, os discípulos compreenderam tudo o que Cristo lhes havia ensinado (14-16). Captaram o mistério de Jesus de Nazaré, com quem haviam convivido, e assim se tornaram testemunhas (mártires) dele. O Pentecostes foi o marco desse novo evento.

No Pentecostes, Lucas procurou dar plasticidade narrativa a uma realidade universal, a um dado de fé, isto é, à manifestação do Espírito Santo na Igreja. Por isso usou uma linguagem escatológica e simbólica própria das teofanias bíblicas, com alusão clara aos fenômenos da promulgação da Lei no Sinai (Êxodo 19,3-20).

Lucas teve a intenção de:

01) Verificar a promessa do Espírito Santo que Jesus fez e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento.
02) Constatar a força do Espírito Santo atuando na missão evangelizadora e na vida da Igreja. Esta é, aliás, a finalidade dos Atos. O Espírito dá força e aval ao anúncio e ao testemunho dos apóstolos sobre Jesus de Nazaré.
03) Proclamar na festa aniversário da promulgação da Lei mosaica a vigência da nova Lei de Cristo e do seu Espírito, a nova Aliança e a Páscoa seladas na pessoa e no sangue de Cristo ressuscitado. (Antes, o Pentecostes era uma festa com o nome de “Festa das Semanas”, em que se celebrava a colheita dos cereais. Posteriormente, no séc. II a.C., somou-se a esta festa a recordação - aniversário da promulgação da Lei no Sinai).
04) Por último, expressar a universalidade do novo povo de Deus, que ainda não havia saído dos limites do judaísmo. A ação e o dinamismo do Espírito Santo realizam a unidade na pluralidade de línguas, raças e culturas.

Como a Igreja é guiada pelo Espírito Santo, Paulo estabelece dois critérios sobre os carismas dados pelo Espírito Santo (2ª leitura), para distinguir os autênticos dos falsos, isto é, dos arrebatamentos entusiasmados comuns às religiões misteriosas da época, quando se chegava a superestimá-los acima da fé. Paulo estabeleceu um critério “doutrinal”, que é a confissão pascal de fé: “Jesus é o Senhor”, contra a divinização do imperador romano e dos “éones”, demiurgos e forças superiores do sincretismo helenista. Para Paulo, quem faz esta profissão de fé está animado pelo Espírito Santo (v.3b). O segundo critério é o “comunitário”. Segundo ele, a ação do Espírito Santo se manifesta em todo carisma que serve para o bem comum do grupo de fiéis (v.7 e Lumen gentium 12,2).

Após determinar a autenticidade dos carismas, Paulo estabelece dois princípios:

01) A pluralidade dos carismas e dos ministérios na comunidade é normal e necessária, como a diversidade de membros e funções no corpo humano, à semelhança do qual Paulo entende a Igreja, que é o Corpo de Cristo. Assim, Paulo afirma que o Espírito Santo se manifesta em cada membro da comunidade para o bem de todos. Por isso, é preciso respeitar o carisma de cada um.
02) A diversidade de carismas nos membros da comunidade não impede a sua unidade, porque os diversos dons coincidem em sua origem e finalidade. Sua origem é o Espírito de Deus, no qual todos foram batizados para formar um só corpo (v.13) (Efésios 4,3-5).

A diversidade não é para a competição, mas para a unidade e a complementaridade. Os cristãos podem dedicar-se à vida apostólica, à pregação, à teologia, ao ensino, à educação, à catequese, ao atendimento social dos pobres, dos doentes, dos idosos... Em todos eles o Espírito Santo se manifesta para o bem.

O Espírito Santo se manifestou no dia de Pentecostes por meio dos elementos que costumavam acompanhar a presença de Deus no Antigo Testamento: o vento e o fogo.

O fogo aparece na Bíblia como imagem do amor que penetra todas as coisas e como elemento purificador. Também produz luz e significa o novo resplendor com que o Espírito Santo fez compreender a doutrina de Cristo. Ele é o Mestre que ensinará tudo, disse Jesus (João 14,16).

Da mesma forma a imagem do vento está presente na Bíblia para indicar a obra do Espírito Santo. O vento impetuoso no dia de Pentecostes exprime a nova força com que o amor divino irrompe na Igreja.

No dia de Pentecostes não receberam o Espírito Santo apenas alguns privilegiados, como os companheiros de Moisés (Números 11,25) ou os profetas, mas todos: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Atos dos Apóstolos 2,17).

A vinda do Espírito Santo não foi um acontecimento isolado na Igreja. Os apóstolos foram robustecidos na missão de testemunhas de Jesus, e não só eles, mas todos que creram Nele, para que todos pudessem proclamar que Jesus Cristo é o Senhor.

Assim, a grandeza da nossa missão depende também da nossa correspondência às moções do Espírito Santo. Por isso, devemos sentir necessidade de pedir-lhe com freqüência que “lave o que está machucado, regue o que está seco, cure o que está doente, acenda o que está morno e retifique o que está torcido” (Seqüência da missa de Pentecostes).

Por isso devemos ser dóceis à ação do Espírito Santo, pois é Ele que, com suas inspirações, dá tom sobrenatural a nossos pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele a aderir a Jesus Cristo e assimilar a sua doutrina. É Ele que nos dá luzes para tomar consciência da nossa vocação pessoal e fazer tudo o que Deus espera de nós. É o Espírito Santo que inspira as nossas ações.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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