O
segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos pode
ser chamado de “O Manifesto”
da nova comunidade. Ele apresenta dois elementos que permitem
que a comunidade seja e cresça:
01)
o Espírito (2,1-13);
02) a Palavra
(2,14-41).
O
Espírito é a força de agregação
que transforma os vários grupos na nova comunidade.
A Palavra é o dom que a comunidade tem o dever de
comunicar aos outros. O nosso texto se interessa pela primeira
parte deste capítulo.
A
experiência do Espírito Santo ocorreu no dia
de Pentecostes. No início, esta comemoração
era uma festa agrícola que Israel celebrava sete
semanas depois da Páscoa. Em hebraico, era chamada
“Hagshauv’ot”
(festa das semanas ou das primícias da colheita
– Êxodo 34,22). Pentecostes é
uma palavra grega que significa cinqüenta dias. Dois
séculos antes de Cristo, era celebrada como festa
comemorativa da Aliança do Sinai. Os fariseus a transformaram
na festa em que comemoravam o dom da Lei no Sinai. De fato,
em Êxodo 19, cinqüenta dias depois que o povo
saiu do Egito, Deus fez a Aliança com ele no Sinai,
acompanhando-a com trovões, relâmpagos, trombetas,…
(Atos dos Apóstolos 2,1-2). Esse
fato foi uma das bases sobre as quais Lucas construiu a
narrativa do Pentecostes.
Lucas
se inspirou também em Números 11,10-30, que
narra a ação de Deus derramando o seu Espírito
sobre Moisés e os setenta anciãos para que
pudessem organizar o povo. Para o evangelista, o Espírito
foi derramado sobre todos.
Finalmente,
Lucas serviu-se de Gênesis 11, onde se encontra o
relato da torre de Babel. Ali Deus confundiu a ambição
das pessoas. Para Lucas, o Pentecostes é o oposto
de Babel, pois todos entendiam em suas próprias línguas.
Com
o Pentecostes, Lucas mostra a comunidade cristã como
o novo povo de Deus, o povo da nova Aliança.
Segundo
Fílon e a tradição dos Targumim, a
voz de Deus se dividiu em várias línguas,
inclusive em setenta, para que todas as nações
pudessem entender. O objetivo de Lucas, em sua narrativa,
é dizer que todos são habilitados pelo dom
do Espírito Santo para serem profetas. Esta comunidade
não se funda na Lei, mas no dom comum recebido. Será
esse dom que permitirá penetrar a Lei e vivê-la
realizando as profecias de Jeremias 31,31-34 e de Ezequiel
36,25-28.
Na
lista de Lucas estão presentes treze povos e países.
Segundo a geografia imperial da época, os povos eram
divididos em três partes:
01)
um primeiro grupo de três povos
vivia além da fronteira oriental do Império
(partos, medos e elamitas);
02) um segundo
grupo era constituído por nove regiões que
formavam a Mesopotâmia;
03) um terceiro
grupo era formado pelos “estrangeiros
de Roma”. Lucas distingue depois
entre os prosélitos e os hebreus (diferença
étnico-religiosa; cretenses e árabes), entre
os habitantes das ilhas e da terra firme (diferença
cultural).
No
relato de Pentecostes há um sentido de comunhão
que agrega os hebreus, tornando-os comunidade, e este é
o falar línguas. Eles se fazem entender superando
o gueto, o nacionalismo e as forças de desagregação.
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| Pentecostes
é o evento conclusivo da história da salvação
e marca o início da Igreja. A Bíblia compara
o Espírito Santo:
01)
a um sopro de vida. Deus soprou sobre
o barro e o seu espírito o fez tornar-se um ser
vivente;
02) a um
vento impetuoso (1ª leitura) que
não se vê, mas que arrasta tudo;
03) a um
fogo inflamável, mas eficaz, que transforma em
luz e calor tudo o que encontra;
04) a uma
água cristalina capaz de fazer o deserto florescer.
Mas
o que o Espírito Santo faz?
•
Transforma
homens ignorantes em profetas.
• Faz Cristo nascer
no seio de Maria.
• Faz Cristo ressurgir
dos mortos.
• Faz os apóstolos
tornarem-se homens corajosos.
• Suscita a fé
e conduz o Cristo.
• Faz desabrochar o
amor e a doação.
E
quais são os dons que o Espírito Santo nos dá?
•
Sabedoria
- o gosto pelas coisas de Deus, fazendo com que os mandamentos
não sejam um peso, mas uma libertação.
•
Inteligência
para entender o projeto de Deus: “Os
meus caminhos não são os caminhos de vocês”.
•
Conselho,
dom pelo qual podemos distinguir o bem e o mal, e comportar-nos
como filhos de Deus.
•
Fortaleza
- dá-nos a coragem da fé, do amor e da verdade.
•
Ciência
- é o dom que faz com que vejamos todas as criaturas
como “glória
de Deus”, reflexo da sua beleza
e sinal da sua bondade.
•
Piedade
- dá-nos o dom da oração, que faz
com que nos voltemos para Deus chamando-o de Pai; e o
dom do amor, que se exprime na palavra, no diálogo,
no silêncio, na adoração...
•
Temor de Deus
- não é ter medo de Deus, de seus castigos
ou de que nos mande para o inferno, mas o temor de não
fazer o suficiente para amá-lo, de não estar
à altura da dignidade para a qual fomos chamados.
Sem
o Espírito Santo, Deus está distante, Cristo
fica no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja
é uma simples organização, a autoridade
um poder, a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo
e o agir moral um agir de escravo (Atenágoras).
Para
quem lhe perguntava qual era o objetivo da vida cristã,
São Serafim, um santo da Igreja católica russa
do século XIX, respondia que consistia em adquirir
o Espírito Santo.
Ter
o Espírito Santo é estar repleto de Deus como
Satoko Hara, jovem japonesa que deu a vida a serviço
dos pobres que viviam em Tóquio num bairro chamado
Vila das Formigas. Satoko era católica, filha de pais
ricos, porém incrédulos. Dedicou oito anos ao
serviço desse povo, sempre com um sorriso nos lábios.
Esta era a sua palavra de ordem.
Com
o Batismo do Espírito Santo, os discípulos compreenderam
tudo o que Cristo lhes havia ensinado (14-16).
Captaram o mistério de Jesus de Nazaré, com
quem haviam convivido, e assim se tornaram testemunhas (mártires)
dele. O Pentecostes foi o marco desse novo evento.
No
Pentecostes, Lucas procurou dar plasticidade narrativa a uma
realidade universal, a um dado de fé, isto é,
à manifestação do Espírito Santo
na Igreja. Por isso usou uma linguagem escatológica
e simbólica própria das teofanias bíblicas,
com alusão clara aos fenômenos da promulgação
da Lei no Sinai (Êxodo 19,3-20).
Lucas
teve a intenção de:
01)
Verificar a promessa do Espírito Santo que Jesus
fez e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento.
02) Constatar
a força do Espírito Santo atuando na missão
evangelizadora e na vida da Igreja. Esta é, aliás,
a finalidade dos Atos. O Espírito dá força
e aval ao anúncio e ao testemunho dos apóstolos
sobre Jesus de Nazaré.
03) Proclamar
na festa aniversário da promulgação
da Lei mosaica a vigência da nova Lei de Cristo
e do seu Espírito, a nova Aliança e a Páscoa
seladas na pessoa e no sangue de Cristo ressuscitado.
(Antes, o Pentecostes era uma festa com o nome
de “Festa das Semanas”, em que se celebrava
a colheita dos cereais. Posteriormente, no séc.
II a.C., somou-se a esta festa a recordação
- aniversário da promulgação da Lei
no Sinai).
04) Por
último, expressar a universalidade do novo povo
de Deus, que ainda não havia saído dos limites
do judaísmo. A ação e o dinamismo
do Espírito Santo realizam a unidade na pluralidade
de línguas, raças e culturas.
Como
a Igreja é guiada pelo Espírito Santo, Paulo
estabelece dois critérios sobre os carismas dados pelo
Espírito Santo (2ª leitura),
para distinguir os autênticos dos falsos, isto é,
dos arrebatamentos entusiasmados comuns às religiões
misteriosas da época, quando se chegava a superestimá-los
acima da fé. Paulo estabeleceu um critério “doutrinal”,
que é a confissão pascal de fé: “Jesus
é o Senhor”, contra a divinização
do imperador romano e dos “éones”,
demiurgos e forças superiores do sincretismo helenista.
Para Paulo, quem faz esta profissão de fé está
animado pelo Espírito Santo (v.3b).
O segundo critério é o “comunitário”.
Segundo ele, a ação do Espírito Santo
se manifesta em todo carisma que serve para o bem comum do
grupo de fiéis (v.7 e Lumen gentium 12,2).
Após
determinar a autenticidade dos carismas, Paulo estabelece
dois princípios:
01)
A pluralidade dos carismas e dos ministérios
na comunidade é normal e necessária, como
a diversidade de membros e funções no corpo
humano, à semelhança do qual Paulo entende
a Igreja, que é o Corpo de Cristo. Assim, Paulo
afirma que o Espírito Santo se manifesta em cada
membro da comunidade para o bem de todos. Por isso, é
preciso respeitar o carisma de cada um.
02) A diversidade
de carismas nos membros da comunidade não impede
a sua unidade, porque os diversos dons coincidem em sua
origem e finalidade. Sua origem é o Espírito
de Deus, no qual todos foram batizados para formar um
só corpo (v.13) (Efésios
4,3-5).
A diversidade não é para a competição,
mas para a unidade e a complementaridade. Os cristãos
podem dedicar-se à vida apostólica, à
pregação, à teologia, ao ensino, à
educação, à catequese, ao atendimento
social dos pobres, dos doentes, dos idosos... Em todos eles
o Espírito Santo se manifesta para o bem.
O
Espírito Santo se manifestou no dia de Pentecostes
por meio dos elementos que costumavam acompanhar a presença
de Deus no Antigo Testamento: o vento e o fogo.
O
fogo aparece na Bíblia como imagem do amor que penetra
todas as coisas e como elemento purificador. Também
produz luz e significa o novo resplendor com que o Espírito
Santo fez compreender a doutrina de Cristo. Ele é o
Mestre que ensinará tudo, disse Jesus (João
14,16).
Da
mesma forma a imagem do vento está presente na Bíblia
para indicar a obra do Espírito Santo. O vento impetuoso
no dia de Pentecostes exprime a nova força com que
o amor divino irrompe na Igreja.
No
dia de Pentecostes não receberam o Espírito
Santo apenas alguns privilegiados, como os companheiros de
Moisés (Números 11,25) ou os
profetas, mas todos: “Derramarei
o meu Espírito sobre toda a carne”
(Atos dos Apóstolos 2,17).
A
vinda do Espírito Santo não foi um acontecimento
isolado na Igreja. Os apóstolos foram robustecidos
na missão de testemunhas de Jesus, e não só
eles, mas todos que creram Nele, para que todos pudessem proclamar
que Jesus Cristo é o Senhor.
Assim,
a grandeza da nossa missão depende também da
nossa correspondência às moções
do Espírito Santo. Por isso, devemos sentir necessidade
de pedir-lhe com freqüência que “lave
o que está machucado, regue o que está seco,
cure o que está doente, acenda o que está morno
e retifique o que está torcido”
(Seqüência da missa de Pentecostes).
Por
isso devemos ser dóceis à ação
do Espírito Santo, pois é Ele que, com suas
inspirações, dá tom sobrenatural a nossos
pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele
a aderir a Jesus Cristo e assimilar a sua doutrina. É
Ele que nos dá luzes para tomar consciência da
nossa vocação pessoal e fazer tudo o que Deus
espera de nós. É o Espírito Santo que
inspira as nossas ações. |