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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Pascal
6° Domingo
09 de Maio de 2010

Dia das MÃES

Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
15,1-2.22-29
O ESPÍRITO SANTO E NÓS MESMOS RESOLVEMOS NÃO PÔR NENHUMA CARGA SOBRE VOCÊS
Este capítulo traz o que se costuma chamar de “Concílio de Jerusalém”. É um capítulo importante porque nos informa como foram resolvidos em Jerusalém, onde se encontrava a comunidade mãe, os problemas referentes à observância das leis judaicas pelos cristãos, ou ter em separado a lei mosaica sobre a circuncisão.

É um momento importante para a Igreja, em que o colégio apostólico resolveu questões importantes que se apresentavam no curso da evangelização dos gentios. Tratava-se de ver os modos diferentes de encarar a prática pastoral no meio dos pagãos.

Paulo, por sua vez, havia terminado a sua primeira viagem missionária, verificando que Deus havia chamado também os pagãos à fé em Jesus Cristo. Assim, os pagãos começavam a fazer parte do povo de Deus, e por isso as leis de Moisés caducavam e não podiam ser impostas aos pagãos convertidos.

Paulo e Barnabé haviam organizado uma boa comunidade em Antioquia com os convertidos do paganismo, porém alguns cristãos vindos do judaísmo presentes nesta comunidade exigiam a circuncisão como observância da lei mosaica. Isto gerou um problema, a ponto de levar a questão para Jerusalém.

Paulo e Barnabé expõem, em Jerusalém, a questão explicitando o modo de sua evangelização, que tinha traços bem claros. Para eles, os cristãos que abraçaram a fé começaram a fazer parte do povo de Deus, a Igreja, e por isso todas as leis de Moisés caducaram e não podiam ser impostas sob pena de mutilar o Evangelho de Cristo.

Da mesma opinião de Paulo e Barnabé eram Pedro e Tiago, os quais pediam apenas a observância de algumas cláusulas para favorecer a convivência pacífica, e assim o Concílio de Jerusalém confirmou a prática pastoral de Paulo e Barnabé, afirmando que a circuncisão e a lei de Moisés não eram requisitos necessários para pertencer ao povo de Deus. Após a conclusão, a assembléia decidiu enviar uma carta às comunidades de Antioquia, Síria e Cilícia.

A questão abordada em Jerusalém não era apenas de lei, mas mais séria: se a salvação vinha da observância da Lei mosaica ou de Cristo. Por isso Paulo afirma convincentemente que Cristo é o único Salvador, ou seja, para Paulo a Lei não salva, apenas dá a consciência do pecado. Assim, para ser cristão bastava a fé em Cristo.

Segunda Leitura
Apocalipse
21,10-14.22-23
NO CÉU ETERNO, A GLÓRIA DO CORDEIRO IMOLADO

O livro do Apocalipse é entendido como representação dramática progressiva do plano de Deus, no estudo próprio do gênero literário apocalíptico. Foi escrito no tempo de Domiciano (81-86) para confortar os cristãos ameaçados por perigos internos e externos, assegurando que no fim Cristo, junto com seus servidores, venceria seus inimigos.

As experiências do autor do Apocalipse são movidas pelo Espírito Santo (1,10; 3,2; 17,3; 21,10). O texto apresenta as visões finais do livro. O vidente contemplou de longe o esplendor da Jerusalém celeste (21,1-8), a nova humanidade salva, a Igreja no universo renovado. Olhando mais de perto, o vidente percebe os detalhes:

A Jerusalém celeste desce do céu, do mistério de Deus, e se encontra num monte alto. Não está no humano.

A Igreja é grande, perfeita, preciosa e estável. Para expressar tudo isso, o autor recorre a simbolismos sugestivos, inspirando-se em Isaías e Ezequiel. O autor usa com profusão a luz, os cristais, pedras preciosas... segundo a visão simbólica de Isaías 54,11-12. No simbolismo, as doze portas e as repartições segundo os pontos cardeais são inspiradas em Ezequiel 48,31-35.

A nova Jerusalém será preparada como uma “esposa para o seu esposo” (21,2-3) e será vasta, com cada lado medindo 12 mil estádios, ou seja, 2.400 km. Terá uma riqueza incalculável, com seus elementos constando de pedras e metais preciosos. Brilhará como uma imensa pedra de ouro, tendo 12 fundamentos, 12 portas ornamentadas de pérolas (são as doze tribos de Israel abertas nos quatro pontos cardeais). O número 12 indica o número do povo de Deus.

Mas o que faz Jerusalém mais bonita e extraordinária é a presença visível de Deus, pela qual a cidade inteira se transforma num Templo imenso, tornando ultrapassado o templo antigo. A teologia judaica não concebia o povo sem o Templo. A destruição do Templo significava o fim do povo antigo e da antiga Aliança. Na história do povo hebraico, encontramos a primeira descrição do Templo na época de Salomão. A segunda ocorre na época de Zorobabel, com a volta do exílio, e a terceira é uma visão ideal de Ezequiel da restauração do Templo.

Na nova Jerusalém, a luz de Deus e do Cordeiro a preenchem a ponto de o sol e a lua serem supérfluos, pois ela brilha sobre os outros povos, como Isaías 60,1-3 havia anunciado.

É para esta cidade santa que todos os seguidores de Cristo caminham, mesmo quando enfrentam perseguição e morte. Esta é a cidade voltada para todos (as portas voltadas para os quatro pontos cardeais). Será esta cidade que porá em prática o projeto de Deus manifestado plenamente em Jesus Cristo. Nela se formará uma nova sociedade onde se contemplará a face de Deus.

Evangelho
João 14,23-29
JESUS PROMETE O ESPÍRITO SANTO

Estes versículos fazem parte do discurso de despedida de Jesus. É o discurso do adeus que Jesus fez a seus discípulos. Este discurso se inicia no capítulo 13 com o lava-pés e termina no capítulo 17. Tem o sabor de testamento-herança. É uma resposta à pergunta de Judas, não o Iscariotes, sobre como ele devia se manifestar ao mundo, já que Judas alimentava a idéia da manifestação de um Messias guerreiro. Jesus responde à pergunta de Judas com a proposta de um amor ativo: guardar a sua Palavra, ou seja, assumir com ele o projeto do Pai e assim transformar a sociedade. Guardar sua palavra é efeito e sinal do amor do Pai e do Filho. Trata-se de uma presença divina e particular iniciada já aqui. Neste sentido, os exegetas falam de uma escatologia realizada. Onde está o amor está a presença e o encontro com Jesus.

Neste contexto, Jesus está para partir, porém promete o Espírito, que irá ajudar os discípulos a interpretar a Palavra de Jesus, fará a memória atualizada das ações de Cristo, e assim por meio do Espírito será possível distinguir a vontade de Deus.

No evangelho de hoje, Jesus responde a Judas Tadeu dizendo que ele se manifesta a todo aquele que o ama e guarda a sua Palavra (v.23). Portanto, o amor e a obediência à sua palavra são duas condições que favorecem o clima de relacionamento com Jesus. Uma vida de acordo com os ensinamentos de Jesus libera uma corrente de afeto e um circuito de presença de Deus em nós. Esta habitação pessoal de Deus, ao mesmo tempo em que dessacraliza e derroga toda a mediação externa, “sacraliza” o homem como lugar da presença de Deus.

Além disso, o Espírito e a paz de Cristo são outros dois pontos de comunhão de Deus com o homem, segundo o evangelho de hoje. O Espírito que o Pai enviará em nome de Jesus será o mestre que ensinará e lembrará tudo o que Jesus disse. Junto com o dom do Espírito Santo, Jesus lembra a paz, que é o conjunto de todas as bênçãos messiânicas da nova Aliança. Estas duas “realidades” plasmam no cristão a comunhão com Deus. Se fizéssemos uma sessão de logoterapia, que consiste em liberar o subconsciente a partir de uma palavra chave que sugere idéias e relações, ao nos defrontarmos com a expressão “morada de Deus”, a resposta que teríamos seria: Igreja, templo... Mas a resposta do evangelho de hoje é diferente e coloca que a morada de Deus é o próprio homem, aquele que ama e guarda a palavra de Jesus. E sua palavra de testamento é amar os irmãos como ele amou, porque no irmão está a encarnação, o prolongamento do próprio Deus.

REFLEXÃO

A riqueza do cristão consiste em ser habitado por Deus. Deus parece estar à procura de uma casa para habitar. Deus é um hóspede “incômodo”, mas sumamente salvador. Sua companhia fornece luz e sustento para nossa vida. Assim, Cristo está no mundo, mas não é do mundo, portanto não pode adotar o estilo de vida que bem lhe convier.

Cada um traz consigo um raio da presença de Deus em si, mas para isso precisa amar a Deus. Isto implica a observância de sua palavra, pois esta está sempre a serviço da vida, para o crescimento, a maturidade, a solidariedade e o verdadeiro progresso do homem.

Depois da ressurreição de Jesus, um novo estilo de vida iniciou-se para os apóstolos. Eles mudaram. A compreensão que tinham de Jesus, de sua vida, de suas palavras e ações lhes deu a certeza de que o ressuscitado vivia no meio deles e agia para que todos pudessem ser salvos. Com isso, amadureceram a idéia de que todos os povos da terra formam uma só família.

Com o passar do tempo, surgiu uma nova estrutura e um novo equilíbrio para o cristão, que foi fruto da renovação trazida por Cristo, mas, sobretudo, se tinha a consciência de que o modo verdadeiro de como Cristo continuava vivendo como ressuscitado era o coração do homem.

Nos domingos que seguem a Páscoa, a liturgia chama nossa atenção para trechos do discurso de Jesus na última ceia, onde, cercado pelos discípulos, fala do seu futuro relacionamento com eles depois da morte na condição de ressuscitado. Jesus revela as coisas futuras no momento de sua separação deles, e promete que não os deixará órfãos, pois voltará com sua existência glorificada. Para os discípulos, isto foi o início de uma vida nova.

Jesus lhes assegura que “naquele dia“, período entre a morte e o Pentecostes, uma nova era de fé será inaugurada, na qual os discípulos descobrirão o vínculo que os liga ao Pai através dele próprio. Com isso, o rio de vida que desce do Pai ao Filho transbordaria nos discípulos.

O conceito de Jerusalém deu uma resposta conjunta do Espírito aos apóstolos, aos presbíteros, a todos os membros da Igreja Mãe de Jerusalém e aos convertidos do paganismo (Atos dos Apóstolos 15,28ss). Embora com a resolução de Jerusalém o problema tenha sido dirimido, ainda havia um longo caminho a ser percorrido, pois os fariseus (judaizantes) continuavam firmes em sua intransigência puritana. Por causa disso Pedro, ao chegar a Antioquia da Síria, afastou-se da mesa dos cristãos convertidos do paganismo, contrariando as decisões de Jerusalém. Paulo o recriminou na presença de todos e a questão foi resolvida na caridade (Gálatas 2,11-14).

A Questão de Jerusalém indica o sentido da inculturação da Igreja e esta é a grande tarefa da missão evangelizadora da Igreja em nossos dias (EN 20). A primeira inculturação que conhecemos deu-se no itinerário da revelação, em que “Deus falou na Escritura por meio dos homens e em linguagem humana” (Dei Verbum 12,1). “Deus, ao longo da história da salvação, falou aos homens conforme os tipos de cultura própria de cada época“ (Gaudium et Spes 58,1). Paulo de Tarso, judeu de raça e religião, mas romano de cidadania e grego de cultura e mentalidade, levantou a ponte entre o judaísmo e o cristianismo, entre a fé cristã e a cultura helenística. Com Constantino (313), o cristianismo inculturou-se nos povos bárbaros e prolongou-se até a alta Idade Média (séculos VIII e X). O cristianismo impregnou a cultura e o contexto sócio-político da alta e baixa Idade Média (séculos: XI a XV) até o Renascimento.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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