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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Pascal
5° Domingo
02 de Maio de 2010
Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
14,21-27
FIM DA PRIMEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA DE PAULO E BARNABÉ
O trecho ilustra a conclusão da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé. Eles partiram da Antioquia no ano 45 (Atos dos Apóstolos 13,2; 14,26) e voltaram no ano 49 após quatro anos de peregrinação apostólica. Assim, a Palavra de Deus saiu da Palestina e foi difundida pelas extremidades da terra (Atos dos Apóstolos 1,8).

Derbe é a última etapa da viagem. Daí eles retornam visitando as comunidades já fundadas, para confirmar os cristãos na fé e consolá-los nas perseguições, reforçando-lhes a decisão de optar pelo Cristo. Em Antioquia foram recebidos com alegria e ali falaram das maravilhas operadas por Deus.

Trata-se das primeiras comunidades cristãs que surgiram longe da Palestina, entre os pagãos. Por isso Paulo se preocupa em:

01) exortar os cristãos a ficarem firmes na fé;
02) organizar a comunidade com uma hierarquia e com responsáveis, fazendo com que as comunidades não fiquem acéfalas, mas tenham presbíteros para guiá-las;
03) rezar, jejuar e confiar a Deus as comunidades fundadas.

Lucas usa o termo “thlipsis” (tribulação), que indica sofrimento físico, privações, perda de posição pública... pois tudo isto era a sorte dos que seguiam o Mestre. É necessário passar por tudo isto, pois é a “conditio sine qua non“ para ser cristão.

Os presbíteros, constituídos para as comunidades, formarão depois um importante grupo com os apóstolos na assembléia de Jerusalém (15,2,4,6). Estarão presentes em Jerusalém, Listra, Icônio, Antioquia da Pisídia, Éfeso...

Certamente a comunidade cristã participou da escolha deles (6,5-6), embora a última palavra coubesse aos apóstolos (Tito 1,5) e sobretudo ao Espírito Santo (20,28). A eleição se dava mediante a imposição das mãos.

Segunda Leitura
Apocalipse
21,1-5
O NOVO CÉU E A NOVA TERRA

Os capítulos 21 e 22 do Apocalipse formam o último grande ato do grande combate cósmico entre o bem e o mal já apresentado em todo o livro.

O tema central deste trecho é a intervenção definitiva do Cordeiro, que decreta a condenação da Babilônia (a prostituta), a sociedade gananciosa, violenta e opressora, e prepara a vitória da nova Jerusalém (a Esposa), a sociedade plenamente humana pela prática da justiça, da qual o Cordeiro é o centro e a razão de ser,

Nosso texto abre uma nova visão, onde uma nova ordem das coisas é apresentada. Tudo é novo e o mal (simbolizado pelo mar) já não existe. O autor retoma um tema já utilizado na literatura profética: o de Jerusalém como esposa de Javé. Para ele Jerusalém é noiva e desce do céu, de junto de Deus. Está enfeitada (em 19,8b afirma que o linho com que está vestida representa as ações da justiça dos cristãos) e pronta para o seu marido, o Cordeiro (v.2).

A visão expressa a renovação universal trazida por Deus através do Cordeiro. É Deus quem restaura um novo mundo, uma nova humanidade. O novo céu e nova terra (Isaías 65,17) indicam a renovação do povo pela obra do Cordeiro, em que o mundo é transfigurado. Também Paulo fala em Romanos 8,19-22 da renovação de toda a criação, que um dia será libertada da escravidão.

O mar não existirá mais”. O mar, para os hebreus, era como o símbolo do mal, lugar onde vivia Leviatã, o grande monstro. A salvação tem dimensões cósmicas. Na nova terra aparecerá a nova Jerusalém messiânica, a qual será edificada por Deus (“ex Theou”). Não haverá mais necessidade do Templo, pois Javé estará sempre presente, e a Aliança será para sempre.

O próprio Deus (voz que vem do Trono) proclama Jerusalém como a Tenda de Deus. A tenda lembra o tempo em que Israel viveu no deserto, tempo de namoro e intimidade com Deus. Deus estará no meio do seu povo, caminhando com ele. Assim a antiga “sêkinàh”, presença de YHWH no meio do seu povo, torna-se profunda com a encarnação do Messias. Inicia-se uma nova criação, suprimindo o luto, o clamor e a dor (v.4). A nova Jerusalém é resultado do Cristo em nosso meio. Esta renovação universal já havia sido anunciada por Isaías 66,22.

Evangelho
João 13,31-35
EU LHES DOU UM NOVO MANDAMENTO

Este trecho é a conclusão da primeira parte do “livro do adeus”, no qual Jesus apresenta o seu testemunho. Estamos diante de uma síntese da vida de Jesus, na qual Jesus exprime sua relação íntima com o Pai.

O Evangelho de João é dividido em duas grandes partes:

01) Livro dos Sinais (1-12)
02) Livro da Hora ou da Glória (13,20).

A segunda parte se abre com dois monólogos. No primeiro Jesus anuncia sua partida do mundo e sua volta para o Pai. No segundo relata a saída de Judas Iscariotes do Cenáculo, com o início da Paixão e da glorificação do Filho de Deus.

Nosso texto relata a introdução do discurso da despedida, no qual Jesus apresenta o seu testemunho antes de voltar para o Pai.

Os versículos 31-32 insistem na expressão “manifestar a glória”. A glória de Jesus é a revelação do projeto de Deus concretizado em sua humanidade desde o nascimento até a cruz. No Antigo Testamento a glória se manifestava com a presença de Deus revestida de diversas formas sensíveis: na nuvem do deserto (Êxodo 16,7-12), no Sinai (Êxodo 24,15-16), no fogo (Êxodo 24,17), na coluna de fogo que acompanhava o povo pelo deserto (Êxodo 40,38). A glória de Deus enchia o Templo (Êxodo 40,34-35; 1 Reis 8,10-11). Sua glória (“kabod” / ”doxa”) era o reflexo de sua realidade divina.

No Novo Testamento a glória de Deus é o modo como ele se manifesta, sobretudo, em Cristo. Jesus é o pleno de glória (1,14). Para João, a glória de Deus é Jesus humano.

Diante da partida iminente, Jesus se dirige aos discípulos chamando-os de “filhinhos”. É a única vez que Jesus chama seus discípulos com essa expressão, que é sinal de afeto e ternura. Diante da partida de Jesus, resta à comunidade apenas um caminho para estar unida a ele: viver o amor. Este é o estatuto de quem pretende viver unido a ele. A herança que Jesus deixou à comunidade é o mandamento novo. Existem dois tipos de novidade segundo o grego no Novo Testamento: “neós” = é o novo em sentido cronológico, portanto sinônimo de jovem; “kairós” = é o quantitativamente novo. O mandamento de Jesus se apresenta novo no segundo sentido, pelo original ponto de comparação: “Como eu os amei”. De fato, o preceito do amor ao próximo não faltava no Antigo Testamento (Levítico 19,18), mas estava circunscrito ao povo ou à própria religião. Não dizia respeito aos inimigos.

REFLEXÃO

No tempo pascal, a liturgia permanece ancorada no evento da ressurreição de Jesus e nos chama a descobrir o valor deste evento convidando-nos a um empenho efetivo.

Neste domingo, a liturgia nos propõe esta mensagem: a Páscoa é um novo evento que quer renovar todas as coisas, portanto nos envolve e nos impulsiona para a novidade última e definitiva.

Qual é a novidade? É o mandamento novo, que é graça e empenho. Novo porque em Jesus tornou-se compreensível e realizável.

O significado de Jerusalém é multíplice. Geograficamente, é uma cidade antiga da Palestina. Etimologicamente, significa paz. Historicamente, é o lugar para onde Davi transportou a Arca da Aliança a fim de guardá-la e para a qual Salomão, seu filho, construiu o Templo. Tornou-se, assim, o lugar onde Deus marcava encontro com seu povo três vezes por ano: na Páscoa, no Pentecostes e nas Cabanas. Ainda historicamente, é o lugar onde Jesus nasceu, morreu e ressuscitou, subiu aos céus e deu o Espírito Santo à sua Igreja. Mas Jerusalém tem também um significado profético: é a Igreja. Por isso os profetas a descreviam como lugar de reunião de todos os povos, lugar de luz, paz e felicidade; lugar espiritual. Por isso, a nova Jerusalém descrita por João é a Igreja, lugar definitivo de Deus e dos homens.

A Igreja é uma realidade presente na terra que deve ser coroada nos céus, onde será perfeita. Cristo é o fundador dela, para que depois todos tenham a felicidade perfeita (Lumen Gentium 5,7,8).

É uma Igreja terrestre militante, está em progresso e é composta de inúmeras comunidades unidas na fé e na missão.

Paulo e Barnabé percorriam a Ásia Menor anunciando o Evangelho da salvação, fundando comunidades, pregando, jejuando... Mas não estavam sozinhos, pois Deus estava com eles, e assim abriram as portas da fé aos pagãos. Esta tarefa continua mais do que nunca hoje. É preciso abrir as portas da fé a uma sociedade paganizada. É preciso empenhar-se numa nova evangelização, com o testemunho cristão diante do neopaganismo. Uma empreitada que não é impossível, porque o cristão conta com a ajuda de Deus.

Como nos ensina o Evangelho, a conversão do mundo passa sobretudo pelo testemunho do amor: “Nisto todos saberão que vocês são meus discípulos”.

As comunidades de Antioquia e Éfeso não eram uma união de cristãos, mas propulsoras da vida cristã. “De vocês espalhou-se a fama de Cristo” (1Tessalonicenses 1,8), afirmou Paulo em Tessalônica. O mesmo acontece em Antioquia, para onde foram enviados como missionários para a evangelização.

A comunidade cristã não existe por suas doutrinas, ou por aquilo que celebra, embora, tudo isto seja muito importante. A Igreja é feita de cristãos que dão testemunho para todos. Jesus não fundou uma comunidade, mas uma família de filhos de Deus. Ele não chama seus seguidores de discípulos, mas de amigos (João 15,15), de filhos (João 13,13). Para os cristãos, Deus é Pai (João 14,2-6). Portanto, somos irmãos em Cristo. Por isso, o amor fraterno é fundamental para o cristão. Em conseqüência, um homem mutilado em sua fraternidade é uma árvore sem raízes, sem ramos, uma planta estéril.

O cristão deve ter o seu distintivo, que é o amor, assim como se reconhece um time de futebol, um soldado, um aviador, um médico... pelo seu distintivo. É muito pouco para o cristão ser batizado, fazer a primeira comunhão, obedecer ao magistério... Sem amor tudo isso é inútil.

O amor se faz de gestos concretos.

- Frei Diogo de Acalá (1400-1449), um dos santos mais populares da Espanha, é representado como um humilde frade franciscano com um molho de chaves na cintura e um cesto nas mãos. Era porteiro do convento (chaves) e benfeitor dos pobres (cesto). A história conta que, quando ainda era pequeno, seus pais haviam colocado para ele um pouco de alimento num cesto. Compadecido de um pobre, ele lhe deu toda a comida, que com fome comeu tudo. Quando seus pais abriram o cesto para verificar se Diogo havia comido tudo, o cesto estava cheio de rosas perfumadas.

- O bem-aventurado Álvaro de Córdoba (1370-1420) era confessor do rei de Castilha. Vivendo num convento de Córdoba, havia sido proibido de levar doentes para o convento dominicano devido ao perigo de contágio de doenças infecciosas. Mas um dia, quando voltava para casa, não conseguiu deixar um leproso à beira da estrada. Pegou-o e envolveu-o em seu manto preto e o carregou para o convento. Quando chegou em casa com aquela carga nas costas, o Superior quis ver o que ele trazia debaixo da capa. O santo abriu o manto e dentro havia uma grande estátua de Jesus crucificado sem a cruz.

Jesus faz o seu testamento como um pai e em sua despedida limita-se ao essencial: manda cumprir o amor fraterno, que traz a sua originalidade, porque antes de tudo o amor que Jesus preceitua é universal, pois é dirigido a todos os homens, inclusive aos inimigos. Além do mais, a medida deste amor não fica no “como você mesmo”, mas no “como eu os tenho amado”. Daí a importância do amor fraterno, que se equipara ao amor a Deus (João 22,34ss). Por isso o sinal distintivo do cristão é o amor. Além do mais, a originalidade do mandamento de Jesus está em seu modelo frontal, ou seja, o amor do Pai ao Filho, assim como no próprio amor prático de Jesus.

A vivência do amor cristão não ocorre porque se pertence a uma comunidade eclesial, mas é antes de tudo o elemento constitutivo dessa comunidade. O distintivo do cristão não é antes de tudo pertencer a uma Igreja ou confissão religiosa com seus dogmas e tradições cultuais e devocionais, dar o dízimo ou esmolas, trazer consigo objetos religiosos. O que nos constitui pessoalmente cristãos é o amor que Deus Pai tem por nós em Cristo e o que nos identifica como tais é o amor de Cristo que comunicamos aos irmãos.

Quem buscasse hoje um cristão, onde deveria encontrá-lo? Na igreja, no culto, na missa? Ou na vivência do amor concreto? O que se espera de alguém que crê em Jesus é que viva e testemunhe o mandamento do amor. No início do cristianismo, os cristãos eram exemplo de amor e de união (Atos dos Apóstolos 4,32ss). Um século e meio mais tarde, segundo Tertuliano (155-220), essa continuava sendo a opinião das pessoas na rua: “Vejam como eles se amam!”. Muitos séculos mais tarde, o poeta hindu Tagore (1861-1941), após uma viagem pela Europa, voltou para a Índia afirmando decepcionado que Jesus deveria ter vivido às margens do rio Gânges, pois sua mensagem de amor e fraternidade teria sido captada com muito mais sensibilidade e muito melhor praticada pelos povos orientais que pelos ocidentais.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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