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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Pascal
4° Domingo
25 de Abril de 2010
Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
13,14.43-52
EU O DESIGNEI PARA LEVAR A SALVAÇÃO ATÉ OS CONFINS DA TERRA
Esta perícope assinala um episódio chave do ministério de Paulo e da primeira difusão do cristianismo entre os pagãos: inicia-se a efetiva universalização da Igreja. Faz parte da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé depois de terem pregado em Chipre e convertido o procônsul Sérgio Paulo. Chegam em Perge e dali vão para a Antioquia da Pisídia. No sábado seguinte, Paulo fez seu primeiro discurso na Sinagoga. Foi um discurso solene. Nosso texto não relata o discurso, mas fala da opção de Paulo de se dirigir aos pagãos que o acolhem com entusiasmo.

Paulo anuncia o Evangelho aos judeus, primeiros depositários das promessas. Devido à Diáspora, eles estavam espalhados por todo o Império Romano, e tinham sinagogas nos lugares importantes. O discurso de Paulo teve um duplo efeito:

01) imediato e positivo, com a conversão de muitos judeus e simpatizantes pagãos, os prosélitos;
02) negativo, acontecido na semana seguinte com a reação dos judeus que tinham inveja de Paulo e Barnabé. Esta inveja fez com que ambos se dirigissem aos pagãos. Foi uma virada decisiva na pregação de Paulo e diante da atitude invejosa dos judeus se dá a alegria dos pagãos que abraçam a fé. Os judeus tinham inveja porque Paulo e Barnabé concorriam no proselitismo.

O texto manifesta a teologia lucana da universalidade da salvação, pois também os pagãos são chamados a fazer parte das promessas de Israel. É a primeira vez nos Atos que Paulo se dirige aos pagãos. Nas etapas seguintes, Paulo falará aos pagãos em Icônio, Tessalônica, Corinto, Éfeso e Roma. Por isso, o que fez em Antioquia constituiu uma espécie de protótipo da sua missão. Lucas lembra a mesma estratégia de Jesus, que rompeu com os judeus.

Na verdade, a negação dos judeus ao Evangelho não foi total. Muitos o aceitaram (Atos dos Apóstolos 2,41-47; 4,4; 6,1-7; 18,11; 28,24). Os judeus invejavam Paulo e Barnabé não porque perdiam judeus para o cristianismo, mas porque o cristianismo pregava a salvação para todos, sem exigir deles a observância da Lei, tirando deste povo o privilégio que sempre foi sua glória e o distinguia dos demais povos.

Para Lucas, a negação dos judeus não deve bloquear a obra da salvação para todos, já que Israel havia sido apontado como luz para as nações (Isaías 49,6).

O entusiasmo dos pagãos, a difusão surpreendente da Palavra, a alegria dos missionários na perseguição, o gesto de sacudir o pó dos pés indicam momentos felizes da obra missionária.

Os missionários não se intimidaram com as injúrias dos judeus. Ao contrário, encheram-se de ousadia (paresia) e revelaram o projeto de Deus sem temor.

Segunda Leitura
Apocalipse
7,9.11-17
VI UMA GRANDE MULTIDÃO QUE NINGUÉM PODIA CONTAR

O texto faz parte da seção do Apocalipse que está sob o sinal dos sete selos que o Cordeiro pode romper, ele que é a chave para cumprir os desígnios de Deus. Antes da abertura do sétimo selo, João apresenta uma visão dupla: na terra, onde o povo de Deus se reúne no número perfeito de 144 mil, e no céu, onde se contempla a assembléia de todos os eleitos.

O texto, portanto, encerra a seção dos selos (Apocalipse 6,1-7.17). A abertura dos quatros primeiros selos mostra como é a humanidade, marcada pela ambição, violência, política e exploração econômica. No quinto selo, os mártires clamam por justiça e a abertura do sexto selo provoca a chegada do grande dia da ira (Apocalipse 6,17) e a intervenção do Cordeiro como resposta aos mártires. O grande dia da ira será terrificante e encerra o capítulo sexto com a pergunta: “Quem poderá ficar de pé?”.

O autor procura responder à pergunta abrindo uma janela para o presente e outra para o futuro, mostrando uma grande e festiva celebração no céu, da qual tomam parte pessoas de todas as tribos e nações, povos e línguas. João convida os cristãos em grande tribulação a contemplar a meta final de sua perseguição: uma grande e festiva liturgia em honra ao Cordeiro, numa atmosfera de alegria e triunfo. É a festa da multidão imensa reunida de todas as partes do mundo para participar da glória de Cristo, Cordeiro imolado e exaltado no Paraíso. Esta multidão estava de pé diante do trono, atitude que indica a vitória e o serviço ao rei, portanto a Deus. Tem as vestes brancas, que indicam o triunfo, cor que denota a vitória de Cristo ressuscitado. Tem palmas nas mãos, que indicam sinal de vitória (os generais romanos celebravam as vitórias de pé e com palmas nas mãos).

Quem são esses vitoriosos? De onde vieram? Qual foi sua vitória? Um ancião responde: “Estes são os que vieram da grande tribulação, que lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v.14). Tribulação significa resistência ativa às perseguições (alusão às perseguições de Nero e Dioclesiano; cf. Marcos 13,19; 2Tessalonicenses 2,10.12). São os que resistiram às injustiças, embora tenham morrido de forma violenta. O sangue do Cordeiro purifica suas vestes. É a eficácia do sacrifício de Cristo expiando os pecados. Pelo sangue do Cordeiro imolado e ressuscitado (1,5; 3,6.9; 12,11) foram libertados dos pecados e constituídos como povo de Deus (5,10; 20,6).

Evangelho
João 10,27-30
AS MINHAS OVELHAS OUVEM A MINHA VOZ

Este capítulo continua a temática do capítulo 9, que relata a cura do cego de nascença, evidenciando quem são os verdadeiros cegos: a instituição judaica, com seu aparato legal e seus articuladores políticos hostis a Jesus.

O episódio relatado neste capítulo se desenrola no Templo. É o epílogo do capítulo ambientado na festa dos Tabernáculos, na qual Jesus é apresentado diante dos chefes como o bom Pastor que conhece suas ovelhas e é conhecido por elas.

O contexto: são os últimos dias de Jesus na terra, quando os judeus procuravam motivos para matá-lo. Era durante a festa da Dedicação, celebrada em meados de dezembro. Nesta festa se comemorava a purificação do Templo profanado por Antíoco IV nos anos 167 a 164 a.C. Ele colocou uma estátua de Júpiter Olímpico no altar do holocausto. Esta festa também se associava à alegria e aos motivos da Festa das Cabanas. A leitura do capítulo 34 de Ezequiel naquela ocasião ofereceu a Jesus a oportunidade de se apresentar como bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas. A festa da Dedicação (Hannukah) durava oito dias e na ocasião Jesus se encontrava nos Pórticos de Salomão.

Para João o cristão deve acolher Jesus, obedecer-lhe e aceitar a sua guia. Este é o primeiro sinal de que lhe pertence. Escutá-lo implica em que Jesus o conheça, ou seja, ame-o pessoalmente, e dispor-se a segui-lo, ser sua ovelha, aderir ao seu projeto. O resultado é a vida eterna com Deus. Assim se cumpre a vontade de Jesus de doar a sua vida para que todos possam ter a vida eterna. Jesus garante que não é um ladrão que veio trazer a ruína (João 10,10), nem um mercenário (João 10,12). À sua frente está o Pai, dono das ovelhas, que as confiou a ele para vigiá-las.

REFLEXÃO

Este é o domingo do bom Pastor, um título que não é romântico, mas algo denso de significado teológico e de implicações espirituais que merecem nossa reflexão. É o domingo dedicado às vocações.

Jesus é o bom Pastor que nos conduz para a vida eterna. Certamente a imagem do bom Pastor não é mais percebida em sua eficácia em nossa sociedade industrializada, mas é uma imagem muito antiga para exprimir, mesmo fora do mundo bíblico, a solicitude que um governante deve ter.

Nas antigas inscrições assírio-babilônicas e egípcias o rei era apresentado como Pastor e esta imagem era muito mais clara para os descendentes de Davi (Jeremias 23,4; Ezequiel 34).

Jesus se coloca como aquele que defende as ovelhas dos lobos com a força de Deus. Ele e o Pai são um e entre as ovelhas e o pastor existe um relacionamento de amor. Ele conhece as ovelhas e estas ouvem a sua voz. Jesus é o Cordeiro a quem devemos a vida por nos guiar à fonte da vida eterna, o Cordeiro que derramou seu sangue para expiar nossos pecados. Ele, o Servo sofredor, carregou nossos pecados.

Escutar a voz do Pastor implica a disposição de se deixar guiar por ele, ter diante dos olhos as indicações do Pastor, cuja voz ressoa de muitas maneiras (Palavra, santos, sacerdotes...).

O seguimento é, portanto, uma adesão prática, efetiva e real às indicações do pastor, sobretudo quando se tem a tentação de deixar-se guiar por outros guias.

O discurso de Pedro tem todas as conotações das homilias primitivas. É o anúncio do “kerigma”, o mistério pascal do Cristo morto, ressuscitado, elevado à glória e constituído Senhor de todas as coisas. Este anúncio foi dirigido a todos, mas muitos o rejeitaram, enquanto os pagãos e os gentios o aceitaram.

Este mesmo convite é feito a nós hoje. Somos convidados a abrir o coração e as portas de nossa vida a Deus que nos fala, convidando-nos a segui-lo, a escutar sua voz.

O discurso de Pedro na Pisídia não é o testemunho mais famoso por sua grandeza, mas talvez um dos mais explícitos, embora apresentado num quadro de humildade, mesmo porque Pisídia não era uma cidade importante e brilhante.

Jesus como bom Pastor exerce uma atividade ininterrupta de governo e direção em sua Igreja e, portanto, sobre nós. Ele guia e nutre seus fiéis com sua Palavra, o magistério, seu corpo e sangue e nos dá o seu Espírito.

Por surpreendente que possa parecer, o ministério de Jesus limitou-se quase que exclusivamente ao mundo judaico (Mateus 15,24). Por que a evangelização não se voltou aos pagãos desde o início? Por que ela, durante um certo tempo, limitou-se aos hebreus? A oferta da salvação foi oferecida primeiramente aos hebreus, porque a eles fora destinada havia milênios, porque este povo fora escolhido por Deus como ponte para o mundo pagão. “De Sião sairá a Lei e de Jerusalém a Palavra do Senhor” (Isaías 2,3). Por isso, no princípio, Paulo adotou o método de ir primeiro aos judeus (Atos dos Apóstolos 13,5-14; 14,1; 16,3; 17,2-10.17; 18,4-19; 19,8) e os apóstolos anunciaram primeiro aos judeus.

A mensagem do Evangelho de hoje é que Jesus é a fonte de vida para aqueles que o seguem. Para isso é preciso conhecê-lo como Pastor e ouvir sua voz. Os Atos dos Apóstolos aludem muitas vezes ao Messias como Bom Pastor que alimentará, regerá e governará o povo de Deus abandonado. Estas profecias se cumpriram em Jesus. Por isso, os primeiros cristãos manifestam uma grande predileção pela imagem do bom Pastor, atestada em inúmeras pinturas murais, relevos, desenhos em epitáfios, mosaicos e esculturas, nas catacumbas e nos veneráveis edifícios da Antigüidade.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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