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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
C
Tempo Pascal
3°
Domingo
18 de Abril de 2010 |
Primeira
Leitura
Atos dos Apóstolos
5,27b-32.40b-41
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SOMOS
TESTEMUNHAS DE QUE DEUS RESSUSCITOU JESUS! |
Este
texto contém um dos seis discursos missionários
dos apóstolos. Esses discursos têm em sua estrutura
uma introdução, o anúncio do “kerigma”
e um convite à conversão. Eles assumem uma dupla
dimensão:
a)
Transmitir de forma esquemática
o conteúdo da pregação dos apóstolos;
b) Evidenciar
que o anúncio do “kerigma”
de Jesus morto e ressuscitado é exaltado por Deus
e é o verdadeiro elemento propulsor do tempo depois
de Jesus, isto é, da Igreja.
Uma das linhas marcantes nos Atos é
a perseguição. A pregação dos
apóstolos é apresentada com duplo efeito:
de uma parte há a acolhida da multidão e de
outra a negação e a oposição
da classe dominante. Nosso texto mostra a oposição
à pregação dos apóstolos. No
centro da oposição está a negação
ao projeto de Deus realizado em Jesus. Os hebreus, embora
muito religiosos, não conseguiram acolher a pessoa
de Jesus e seu plano de salvação. Para eles,
Jesus não caminhou plenamente segundo a lei de Moisés
e as indicações da Sagrada Escritura. Portanto,
em nome de Moisés e das Escrituras, os sacerdotes
proibiram os apóstolos de difundir a mensagem de
Jesus. Mas a pregação dos apóstolos
consistiu justamente em anunciar que as Escrituras conduzem
a Jesus e que a lei de Moisés encontra a sua plena
realização no Evangelho de Jesus. Portanto,
a pregação é necessária para
anunciar a continuidade entre as Escrituras e o Evangelho
de Jesus e para assegurar que as grandes promessas e as
grandes expectativas da Bíblia se realizaram no dom
de Jesus feito homem. É preciso, portanto, obedecer
a este Deus que falou primeiro por meio dos profetas e definitivamente
em Jesus. Obedecer aos homens significa interromper esta
continuidade do agir de Deus. Significa acreditar num outro
projeto de salvação que não é
realizável.
Portanto, o conteúdo da pregação
evidencia o fato da ressurreição de Jesus,
ao qual é preciso obedecer: “É
preciso obedecer mais a Deus que aos homens foi um pequeno
credo apostólico”. Para Lucas,
o objetivo do seu ensinamento é claro: os cristãos
coerentes passarão pelas mesmas dificuldades e provações
que Jesus passou (prisão, tortura, morte...),
em vista do testemunho que têm de dar. Os apóstolos
são levados à presença das autoridades
para serem julgados como Jesus, as quais usam as mesmas
acusações do sistema opressor que matou Jesus
(Mateus 27,25). De fato, a pregação
dos apóstolos põe às claras as ações
do Sinédrio que, em vez de favorecer a vida, procuram
a morte.
Os apóstolos respondem às
acusações buscando na vitória de Jesus
sobre a morte o fundamento de suas convicções.
Ele é o novo Moisés que inaugurou um novo
Êxodo. Eles colocam o primado de Deus acima de tudo,
acima de qualquer autoridade ou concessão humana.
O texto se abre com o interrogatório
de Pedro e João pelos sumos sacerdotes, os quais
lembram a eles a proibição taxativa de não
ensinarem em nome de Jesus (Atos dos Apóstolos
4,28). Responsabilizam-nos de terem enchido Jerusalém
com suas doutrinas e de acusarem os judeus pela morte de
Jesus. Os sumos sacerdotes se negam a pronunciar o nome
de Jesus. Ao invés dizem ”aquele
nome”, em sinal de desprezo e horror
(Jesus escândalo para os judeus – 1Coríntios
1,23; Gálatas 5,11). A resposta de Pedro
é categórica: contrapõe-se ao dever
de obedecer aos homens, mesmo que estes sejam revestidos
de autoridade (1Pedro 2,13s). Eles sentem
o dever de proclamar Jesus, pois Deus ressuscitou com sua
mão poderosa Jesus morto pelos judeus e o fez chefe
e guia de um novo êxodo, ou seja, do caminho para
Deus.
O mais velho dos apóstolos, em vez
de provocar conversão, suscita indignação
e ira. Assim, os apóstolos são castigados
e depois libertados com a proibição de pregar
em nome de Jesus.
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Segunda
Leitura
Apocalipse
5,11-14
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A
GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO IMOLADO |
O
autor apresenta um quadro grandioso de todo o cosmos, entendendo
que em todas as realidades materiais e espirituais existe
um nível hierárquico. Este livro foi escrito
para as comunidades perseguidas por causa do testemunho de
Cristo. As comunidades sentiam-se incapazes de conhecer os
acontecimentos e o sentido da história que vivia.
Em
vista disto, João mostra às comunidades que
a ressurreição tem o poder de dar sentido à
história, simbolizada pelos sete selos lacrados (segundo
a mentalidade judaica, a vontade de Deus está como
que fechada em um livro, que aberto manifestará o desígnio
de salvação e amor para os homens - Daniel 10,21).
A
vitória de Jesus é celebrada numa solene liturgia
universal que inicia no céu e ecoa por todo o mundo,
concluindo-se no céu. Nosso texto explicita a segunda
doxologia que é celebrada no céu por um número
incontável de anjos que circundam o trono, os seres
vivos e os anciãos. O trono simboliza a estabilidade
de Deus e o seu projeto. Os seres vivos são símbolos
do dinamismo que parte de Deus, repercutindo na história
da humanidade, e volta para Deus. Os anciãos são
figuras representativas do povo de Deus. Cada comunidade verá
neles os irmãos que os precederam no testemunho.
A
doxologia atribui a Cristo morto e ressuscitado o poder, a
riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória
e o louvor. São sete (número perfeito)
atribuições. Aplicar esses atributos a Cristo,
como se costumava fazer no Império Romano aos imperadores
que eram adorados como deuses, era idolatria para as comunidades
cristãs.
Em
resumo, o autor coloca uma “Doxologia
angélica” nos versículos
11 e 12, onde são atribuídos a Cristo sete títulos
de glória que indicam a totalidade dos tesouros divinos,
aos quais Cristo teve acesso mediante a sua imolação.
O versículo 13 faz menção a uma “Doxologia
cósmica”, onde ao coro dos anjos
se associam os seres animados e inanimados que habitam o mundo.
Esse coro cósmico celebra os louvores do seu Criador
e Senhor e do Cordeiro, que com sua glorificação
deixou à humanidade e com ela a todo o universo a comunhão
com Deus. O Cordeiro participa da glorificação
de Deus no mesmo plano de igualdade.
No
versículo 14, o autor apresenta a conclusão,
onde os quatro seres vivos exprimem com o termo litúrgico
judaico e cristão Amém sua confirmação
e ratificação solene da dupla doxologia. Os
anciãos, com um gesto ritual de prostração
adorante, confirmam tudo o que os seres vivos proclamam. É
o reconhecimento de que Deus é plenamente fiel. O reconhecimento
é acompanhado da prostração e adoração
por parte dos anciãos. Este gesto é um convite
às comunidades para adorarem somente a Deus. |
Evangelho
João 21,1-19
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APARIÇÃO
NA GALILEIA: APASCENTE AS MINHAS OVELHAS |
Este
trecho é um epílogo acrescentado posteriormente
pelo próprio autor ou por um discípulo. Busca
dar resposta à crise de identidade da comunidade em
plena missão.
O
contexto da perícope é eucarístico. É
semelhante a João 6. Começa dizendo o modo como
Jesus inicia sua missão, tendo como palco de ação
o mar de Tiberíades, nome derivado da cidade que Tibério
construiu. João se refere ao mar de Tiberíades
e não da Galileia, para indicar que a missão
dos discípulos é no meio dos gentios.
Este
capítulo é um epílogo acrescentado mais
tarde, em resposta à crise de identidade da comunidade
em missão. O contexto é de missão da
comunidade. João chama o lago de Tiberíades,
e não “mar da Galileia”.
É intencional, para mostrar que a comunidade (os
discípulos) está em plena atividade
missionária (pesca) no meio dos gentios
(representados pelo lago). O versículo
2 fala dos sete discípulos juntos. O número
sete indica a totalidade das nações. Os sete
vão pescar liderados por Pedro e têm uma noite
infrutífera. Isto indica a crise da comunidade missionária
(a pesca indica a ação missionária
dos apóstolos). A noite é uma alusão
à ausência de Jesus (João 9,4-5;
15,5).
Mas
como sair da crise? A resposta vem ao amanhecer. A palavra
de Jesus ressuscitado muda a situação. Os apóstolos
lançam as redes e apanham grande quantidade de peixes,
numa alusão à comunidade que se torna extremamente
fecunda.
Identificada
a crise da comunidade, Pedro cristaliza suas metas. Ele se
veste, o que é uma alusão ao serviço,
assim como Jesus pôs o avental para servir (João
13,4), e se joga no mar (disposição
de enfrentar os riscos). Pedro fez isto sozinho,
porque tinha o dever de se reconciliar com Cristo, a quem
havia negado três vezes.
Ao
chegarem à praia vêem o amor de Jesus por eles:
brasas, peixe e pão, e Jesus lhes pede algo do fruto
do seu trabalho. É assim que se estabelece a união
entre os homens e Deus. Plenamente reconciliado, Pedro sobe
sozinho no barco e arrasta a rede. Esta força lhe veio
da coragem de se atirar sozinho nas águas. A quantidade
de peixes foi de 153. Segundo São Jerônimo, os
zoólogos da época haviam classificado 153 espécies
de peixes. O sentido então seria este: a ação
da comunidade sob o comando de Jesus é capaz de reunir
todos os povos, sem com isso sofrer cisma (a rede
não se rompeu).
Jesus
toma a iniciativa e convida a comunidade para a Eucaristia.
É a refeição na qual estão presentes
todos os povos (153 peixes). A partir deste
gesto sabem que é Jesus quem está ali.
Neste
trecho o amor é o centro das atenções.
A condição para seguir Jesus é o amor
incondicional, e isto trará conseqüências
para a própria vida. Pedro teve que estender as mãos,
gesto que os condenados tinham de fazer ao serem crucificados:
eles abriam os braços para carregar a parte superior
da cruz. “Deixar-se cingir”
é uma alusão à corda atada aos que são
conduzidos à morte.
Nosso
texto tem um sentido alegórico, segundo os Padres da
Igreja. Jesus, depois da Páscoa, encontra-se na terra
firme da eternidade, enquanto os discípulos se encontram
diante das dificuldades e misérias no mar do mundo.
Abandonados, eles não podem fazer nada, mas com Jesus
pescam todos os homens que Deus destinou para a eternidade.
Por isso, Jesus se doa como Deus Salvador, porque o peixe
assado é o Cristo crucificado: “Piscis
assus, Christus passus” (Santo
Agostinho). |
REFLEXÃO |
| A
liturgia da palavra diz que Jesus já não aparece
num domingo, mas num dia comum da semana, dia de trabalho.
Indica que a ação do cristão não
deve ocorrer somente nas festas, mas todos os dias.
A
ação de Pedro, ao dizer: “vou
pescar”, é um gesto que fazemos
todos os dias de manhã: “Vou
trabalhar”. Tomamos o ônibus ou
vamos a pé, encontramos as pessoas... Enfrentamos problemas,
dificuldades e indiferenças que nos colocam à
prova e às vezes até pensamos que Jesus se afastou
de nós. Porém a leitura nos mostra que Cristo
não nos abandonou.
Esta
é a terceira manifestação de Jesus. Na
primeira e na segunda, os discípulos estavam fechados
no cenáculo. Nesta estão às margens do
mar. O mar, com seus perigos, é o símbolo do
mundo. Jesus se apresenta às margens deste mar. Sua
presença é significativa e consoladora, porque
ele traz alimentos: “Sem
mim vocês nada podem fazer”. O
Ressuscitado continua sendo o Emanuel, aquele que caminha
ao nosso lado.
Vimos
que os discípulos descobriram sua verdadeira vocação
missionária após a ressurreição.
Por isso, pregam apesar das proibições do Sinédrio.
Assim também nós devemos nos encorajar e proclamar
o Evangelho, sem nos deixar abater pelas perseguições.
A
certeza da ressurreição ocorre para os apóstolos
mediante a experiência do Espírito Santo. Eles
haviam voltado à labuta da pesca, mas a aparição
de Jesus no Tiberíades com a pesca, a partilha do pão
e do peixe, o primado de Pedro e o convite para segui-lo lhes
dá um novo alento. A presença de Jesus ressuscitado
na Igreja lembra sua vocação missionária
e assegura o sucesso e a condição de que o amor
a ele é a mola mestre de toda ação.
Apesar
das dificuldades (os discípulos tiveram choques
com as autoridades), o Reino faz caminho. João
contempla o seu cumprimento final e escreve uma palavra de
conforto aos irmãos desanimados na fé. Cristo
é vencedor e vive na glória do Pai.
A
presença de Jesus ressuscitado é sempre motivo
de alegria. As mulheres ouviram o anjo anunciar que Jesus
havia ressuscitado e correram com grande alegria para dar
a notícia (Mateus 28,8). Os dois discípulos
de Emaús sentiram o coração arder enquanto
caminhavam com Jesus ressuscitado (Lucas 24,32).
Quando os discípulos estavam no Cenáculo, a
aparição de Jesus foi motivo de tanta alegria
que quase não acreditaram que Jesus estava ali em pessoa
(Lucas 24,14). Depois da Ascensão,
os discípulos voltaram a Jerusalém com grande
alegria (Lucas 24,52).
Também
nós devemos provar esta alegria para renovar a juventude
de nosso espírito, para sentir o dom da filiação
divina, para nos sentir como cidadãos dos céus.
Os
discípulos deram testemunho de Jesus ressuscitado.
Um dos grandes testemunhos que podemos dar de Jesus é
nossa oração, pois infelizmente hoje se reza
pouco e mal. “Nosso dia
começa às 04h30 horas com a meditação,
a oração e a missa. Depois vem o trabalho. E
hoje assistimos mais de 200.000 pessoas. Às 18h30 horas
temos uma hora de oração diante do Santíssimo.
Pela manhã ele nos dá força para o dia
e à tarde agradecemos o pouco de bem que fizemos”
(Madre Teresa de Calcutá).
“Se
se reflete sobre a tríplice aparição
de Jesus segundo a interpretação semita, existe
a manifestação de um fato que fica fora de qualquer
dúvida. Então, com a expressão terceira
vez fica selada a última certeza sobre a fé
na ressurreição de Cristo”
(Laepple). |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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