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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
A
TEMPO PASCAL
III Domingo
08
de Maio de 2011
Dia
das Mães
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Primeira
Leitura
Atos dos Apóstolos
2,14.22-33
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PEDRO:
JESUS, QUE VOCÊS MATARAM, DEUS O RESSUSCITOU!
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O
texto faz parte do discurso de Pedro no dia de Pentecostes,
que cada um podia ouvir e entender em sua própria
língua (Atos dos Apóstolos 2,11).
O conteúdo da pregação de Pedro é
um anúncio básico às comunidades primitivas
(Atos dos Apóstolos 2,14-39; 13,12-16; 4,9-12;
5,29-32; 13,16-42). Jesus havia ordenado aos discípulos
que fossem testemunhas (Atos dos Apóstolos
1,8) de sua morte e ressurreição.
O discurso de Pedro tem essa característica. Ele
serviu-se do Salmo 16,8-11 para provar a ressurreição
de Jesus. Este Salmo de Davi falava do seu descendente no
trono. Ao pregar, Pedro fala sempre em nome do grupo, e
diante da multidão que não entende o prodígio
de “falar línguas”
anuncia que Jesus é o Messias predito pelos profetas:
“Ele recebeu do Pai
o Espírito Santo”.
A
primeira parte deste discurso corrige a opinião daqueles
que julgavam que os doze estavam bêbados de vinho
e sustenta que entre eles se cumpriu a promessa messiânica
do profeta Joel, que dizia que Deus haveria de manifestar
a efusão do seu Espírito sobre seus servos
(Atos dos Apóstolos 3,1-5).
Na
segunda parte do discurso (vv.22-36), Pedro,
com palavras que derivam da mais antiga profissão
de fé cristã, anuncia que Jesus de Nazaré
realizou prodígios conhecidos por todos e foi pregado
na cruz pelos judeus, mas Deus o ressuscitou. Os versículos
37-41 atribuem um sucesso extraordinário ao anúncio
de Pedro, sob o impulso do Espírito Santo, aumentando
o número de batizados só naquele dia para
três mil. Mostram, assim, que a Igreja é fruto
do anúncio do Evangelho e da força do Espírito
Santo.
Este
é o primeiro discurso missionário referido
pelos Atos e o contexto é o de Pentecostes. Trata-se
da festa das semanas, em que era feita a celebração
da Torá. Portanto, em Jerusalém havia muitos
judeus em peregrinação.
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Segunda
Leitura
1 Pedro
1,17-21
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RESGATADOS
PELO SANGUE DE CRISTO, A QUEM DEUS RESSUSCITOU
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O
texto é uma catequese sobre a vida pascal para quem
foi batizado, conscientizando-o sobre o significado de pertencer
ao povo de Deus. Esta carta é dirigida aos cristãos
da diáspora, que vivem em ambiente pagão.
Ao se dirigir aos estrangeiros, Pedro afirma que Deus não
faz acepção de pessoas. Esta é a força
nova do Evangelho. Jesus não pagou a condição
da nova sociedade com ouro ou prata, mas com o seu sangue,
dando a sua vida para nos libertar. Ele realizou o projeto
do Pai imolando-se como Cordeiro sacrificial, e a eficácia
salvífica deste seu sacrifício se manifesta
no fato de que Deus ressuscitou Jesus dos mortos e lhe deu
a glória.
Resgatado
por Cristo, o cristão deve viver com temor a Deus
e praticar o amor fraterno, procurando ser coerente com
o projeto de Deus, numa sociedade marcada e dividida por
injustiças.
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Evangelho
Lucas
24,13-35
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A CAMINHO DE EMAÚS |
O
episódio de Emaús é exclusivo de Lucas
e responde à pergunta: Onde e como experimentar o
Cristo vivo? Ele revela também a dificuldade de muitos
cristãos de aceitar a ressurreição.
No relato, este pensamento está explícito:
Sair de Jerusalém, lugar onde Jesus deu testemunho
com a sua morte na cruz, sem crer que ali é o lugar
da vitória de Jesus, é caminhar sem rumo,
sem sentido. Por isso, Emaús é sinônimo
de cegueira, de não compreensão do evento
pascal. Em segundo lugar, há um contraste entre o
não reconhecimento de Jesus por parte dos discípulos
(v.16) e o pleno reconhecimento (v.31).
Em terceiro lugar, o contraste está no fato de Jesus
aproximar-se e conversar com os discípulos (v.15)
e desaparecer na frente deles (v.31). Finalmente,
há um grande contraste entre os conteúdos
da conversa dos discípulos antes de Jesus caminhar
com eles (v.14) e depois de o reconhecerem
(v.32).
Os
apóstolos fundamentam o fato da ressurreição
na constatação do túmulo vazio e nos
relatos das aparições de Jesus ressuscitado.
Sobre a constatação do túmulo vazio,
os evangelhos concordam plenamente. Sobre as aparições
do Ressuscitado, a posição dos evangelistas
é diversificada. Para Marcos, as aparições
de Jesus ocorreram na Galiléia, segundo o mandato
do anjo às mulheres: “Digam
aos discípulos e a Pedro que Ele os precederá
na Galiléia; lá vocês o verão,
como lhes disse...” (Marcos
16,7). Já em Mateus, Lucas e João
as aparições têm um desenvolvimento
amplo e variado. Podemos falar em dois grupos de aparições:
aparições na Galileia (Mateus, Marcos
e João) e em Jerusalém (Lucas
e João).
Assim,
nas tradições primitivas existem dois blocos
diferentes. Um fala que as aparições do Ressuscitado
ocorreram na Galiléia, outro que aconteceram em Jerusalém
ou arredores. Os evangelistas utilizaram um ou outro bloco
humanizando-o com a sua teologia. O lugar das aparições
era o ponto de partida e a referência para o anúncio
do Evangelho. Para Marcos, a pátria do Evangelho
é a Galiléia, o baricentro das atividades
terrenas de Jesus. Mateus adotou a concepção
de Marcos. Já Lucas serviu-se do bloco das aparições
em Jerusalém para fazer desta cidade o lugar da irradiação
do anúncio evangélico, para dali chegar até
o fim do mundo (Atos dos Apóstolos 1,8).
João acolhe o bloco das aparições em
Jerusalém no capítulo 20 e no capítulo
21 as situa na Galiléia, sem lhes dar um significado
especial.
Neste
trecho, a narração das aparições
se desenvolve na história de um caminho catecumenal
que se conclui com a plena adesão de fé em
Cristo ressuscitado. É o dia da ressurreição
(v.13), mas os dois discípulos não
entendem os acontecimentos dos dias anteriores. Jerusalém
se apresenta a eles como o lugar da derrota de Jesus. Por
isso, seguem desanimados para Emaús, que segundo
o texto grego ficava a 11 km de Jerusalém. Para Lucas,
Jerusalém é o lugar onde Jesus venceu, mas
para os discípulos é o lugar da derrota. O
desânimo dos discípulos mostra o desânimo
da comunidade desorientada e sem forças para o testemunho.
Uma comunidade desorientada que não experimentou
a vitória da ressurreição percebe os
fatos, mas não sabe discerni-los. Na verdade, os
discípulos percebem os fatos relativos à vida
de Jesus. Eles esperavam que ele fosse o libertador e ficaram
prostrados com a sua morte (v.20). Nem
sequer a prova do túmulo vazio (vv.22-24)
merece fé, e nem mesmo a presença de Jesus
caminhando com eles é capaz de fazer com que O reconheçam.
Jesus
apresenta então o primeiro instrumento que suscita
a fé em sua pessoa de ressuscitado: a Bíblia,
onde ele se torna um exegeta do Pai (v.27).
Cativados pelas palavras dele, os discípulos o convidam
para ser seu hóspede (v.29). Este
conceito expressa o apelo da própria comunidade cristã.
Jesus aceita o convite por solidariedade e passa de convidado
a anfitrião, partindo o pão. Este é
o segundo instrumento que leva a Jesus ressuscitado: a Eucaristia,
que é o momento decisivo. Os olhos dos dois discípulos
se abrem e eles reconhecem Jesus (v.31)
com estes dois instrumentos: a Bíblia e a Eucaristia.
Como a comunidade não precisa da sua presença
física, Jesus desaparece.
O
dia da Páscoa termina com a fração
do pão e assim se passa para o amanhã da Páscoa,
que é o tempo de dar testemunho da presença
de Cristo. Esta hora se inicia imediatamente (v.33)
e os discípulos voltam para Jerusalém.
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REFLEXÃO |
| “Nós
esperávamos que Ele fosse o libertador de Israel”,
declararam os dois discípulos de Emaús durante
o percurso. No confronto com a pessoa de Cristo hoje se coloca
o mesmo problema: “Como
podemos saber que Cristo é o nosso libertador?”
Quem pode nos dizer que a vida não é apenas
um capricho do acaso? “Quem
pode nos assegurar que a morte não é um rolo
compressor que reduz a nada os bons e os maus?”.
O
que podemos afirmar é que Cristo venceu a morte, ressuscitou
e continua vivo. Podemos afirmar isto por dois meios: refletindo
sobre o que o Evangelho nos revela, confrontando a esperança
documentada no Antigo Testamento com o que se verificou em
Cristo e refletindo sobre o que aconteceu com os seguidores
de Cristo nos quais já é manifestada a ação
prodigiosa do Espírito Santo. É isto que a primeira
leitura nos ensina.
Da
mesma forma, a segunda leitura explicita uma fé profunda
em Deus como Pai e uma firme esperança Nele. A fé
e a esperança são sustentadas pela consciência
do sacrifício de Cristo.
O
evangelho dá ainda um toque sobre os elementos fornecidos
pelas duas leituras. Depois de repetir a leitura do acontecimento
terreno de Jesus no quadro de toda a história da salvação
contida na Bíblia, lembra que os cristãos fazem
uma experiência contínua da presença de
Cristo ressuscitado na Igreja. Os cristãos o experimentam
presente e ativo nos sinais sacramentais, e o maior deles
é a fração do pão. Portanto, não
fica sem resposta a pergunta se Jesus é verdadeiramente
o nosso libertador.
Lucas
narra a experiência dos discípulos de Emaús,
que haviam deixado Jerusalém tristes e perdidos, aparentando
estar profundamente desiludidos com Jesus. A experiência
que haviam vivido com Jesus parecia um capítulo encerrado.
Tudo havia terminado, embora tivessem acreditado Nele e considerado
que era um profeta poderoso em palavras e obras. Eles esperavam
o libertador de Israel como todo israelita, mas a cruz quebrou
a sua esperança. Os chefes dos sacerdotes O haviam
condenado à morte e Ele havia terminado na cruz como
um escravo condenado.
Os
discípulos alimentavam a esperança de uma intervenção
do alto, porque esperavam que Jesus fosse o Messias, mas nada
disso aconteceu. Portanto, a noite daquele dia representava
o pôr do sol de todas as esperanças. Eles inclusive
acenaram para algumas notícias transmitidas pelas mulheres,
que afirmavam tê-lo visto vivo, mas não deram
crédito a elas. Assim, só restava desilusão
e tristeza para eles.
Mas
no caminho Jesus juntou-se a eles. Eles não o reconheceram,
porque estavam obtusos e com a mente fechada às palavras
dos profetas, que diziam que o Cristo devia padecer. Por isso,
durante a conversa Jesus esclareceu a verdade. Inicialmente
falou de Moisés, percorrendo os profetas e explicando
tudo o que dizia respeito ao Messias, para fazer entender
que tudo o que havia acontecido em Jerusalém fazia
parte do plano de Deus. Os dois sentiam seus corações
cheios de ardor e não conseguiram separar-se do viajante.
Chegando ao local de destino, um deles lhe ofereceu um jantar.
À mesa, o hóspede presidiu à refeição
e iniciou o jantar pronunciando sobre os alimentos a oração
do ritual. E foi neste momento que os dois reconheceram o
Cristo.
Lucas
narra o fato usando um vocabulário com o qual os Atos
indicam a Eucaristia. A narração orienta para
o que acontece na missa: a liturgia da palavra vem antes da
liturgia eucarística. Jesus é anunciado com
a palavra e depois se torna presente na Eucaristia. Em Emaús
o rito da missa é atualizado. É na Eucaristia
que Jesus manifesta a sua presença pascal. É
na Eucaristia que Ele se torna presente. É, sobretudo,
através da fé que o reconhecemos e o encontramos,
e encontrá-lo é fazer a experiência do
amor “que arde no coração”,
pelo qual a fome é saciada com a manducação
da Ceia. João diz que a experiência de Jesus
em nós é fruto da manducação da
Eucaristia. “Quem come
a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele”
(João 6,56).
Os
olhos dos discípulos de Emaús se abriram e eles
reconheceram Jesus. O mesmo deveria acontecer conosco na Eucaristia.
A atualização da presença do Senhor deve
passar do rito para a existência e isto é uma
questão de fé.
Por
falta de fé talvez mereçamos a repreensão:
“Gente sem inteligência!
Como vocês demoram a entender...”
(Lucas 24,25). Também nós precisamos
purificar o nosso espírito e não viver uma existência
irredenta. Pedro nos assegurou que a nossa vida foi libertada
da nossa conduta vazia (1Pedro 1,18), isto
é, foi resgatada da miséria e colocada na perspectiva
da liberdade de filhos de Deus. Assim, nossa fé e esperança
estão ancoradas em Deus. Por isso, a nossa vida deve
ser iluminada por uma fé que não desilude. Devemos,
portanto, viver a nossa vida em chave pascal.
Enquanto
os discípulos de Emaús ainda contavam a experiência
com Jesus ressuscitado ao grupo dos apóstolos, ele
apareceu novamente. O grupo teve medo e resistiu a acreditar
no que estava vendo. Pensavam que era um fantasma, uma alucinação
coletiva. Foi assim também quando Jesus lhes apareceu
no lago da Galiléia (Mateus 14,22).
Diante disso, Jesus apresentou outra prova da sua identidade
messiânica (v 44-48) e, ao mostrar suas mãos
e pés com chagas, os discípulos começaram
a entender o mistério de Jesus. No versículo
44, Jesus propõe uma interpretação messiânica
do Antigo Testamento: um Messias servo sofredor que dá
a vida pelo povo (para os judeus, era impossível
um Messias fracassado). A fé não é,
portanto, fruto de um simples raciocínio, nem uma atitude
racional, mas um dom de Deus. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
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