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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
TEMPO PASCAL
II Domingo
01 de Maio de 2011

Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
2,42-47

COMO A PRIMEIRA COMUNIDADE CRISTÃ VIVIA

Nos cinco primeiros capítulos deste livro Lucas apresenta três sumários, que são uma espécie de fotografia das co-munidades (Atos dos Apóstolos 2,42-47; 4,32-37; 5,12-16). O nosso texto é um deles e apresenta a comunidade caminhando sobre quatro rodas: o ensino dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e as orações (v.42). Es-ses quatro pilares tornaram os cristãos um só coração e uma só alma, isto é, uma única vida. Portanto, a vida no Cristo ressuscitado se fundamentava na assiduidade à ca-tequese apostólica, na “koinonia”, na celebração eucarística e nas orações.

O ensino dos apóstolos (Didaké - v.43): “Por causa dos inúmeros prodígios que os apóstolos realizavam”.
A comunhão fraterna (koinoniavv.44-46): “Todos abra-çavam a fé, viviam unidos e tinham tudo em comum”. Esta comunhão ia até a partilha dos bens.
A Eucaristia ou fração do pão (v.46): um rito especial da nova fé celebrado nas casas com alegria e simplicidade de coração.
A oração (vv.46-47): participavam do culto no Templo e nas sinagogas, tendo um espírito ecumênico e missionário, cativando a simpatia de todos.

A catequese dos apóstolos provocou uma mudança nas relações sociais, políticas e econômicas: o poder foi substituído pela fraternidade e o acúmulo pela partilha.
Segunda Leitura
1 Pedro
1,3-9

DEUS NOS FEZ RENASCER PELA RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO

Esta carta foi escrita aos cristãos dispersos que viviam como estrangeiros nas regiões da Ásia Menor. Eram migrantes fora da sua pátria (1,17): tinham ido procurar trabalho ou eram escravos. Deixaram suas raízes, suas famílias, e viviam isolados, longe do aconchego da sua terra. Sofriam perseguições e injúrias por serem estrangeiros e cristãos. Viviam na diáspora do mundo greco-romano.

Os versículos 3-5 são provavelmente um hino das comunidades antigas cantado por ocasião do Batismo. Esse hino lembra a ação de Deus por meio de Cristo que, com a sua ressurreição, nos deu uma herança que não perde o valor e não murcha (v.4).

Em seguida, Pedro fala do novo relacionamento entre o homem e Deus, relacionamento de amor que supera os conflitos (vv.6-9). Por isso, Pedro exorta os cristãos a viverem a resistência da fé e do amor diante das dificuldades em que viviam.

Evangelho
João
20,19-31
OITO DIAS DEPOIS, JESUS DIZ A TOMÉ: NÃO SEJA INCRÉDULO!

João lembra neste trecho a primeira experiência do Cristo Ressuscitado que os apóstolos fizeram em duas aparições sucessivas. A primeira aparição (vv.19-23) é precedida pela notícia de Maria Madalena: “Eu vi o Senhor...” (João 20,18). Os apóstolos tinham medo e estavam com as portas fechadas, mas Jesus ressuscitado lhes deu ânimo e incentivo para evangelizar o mundo inteiro.

Era tarde do domingo da Páscoa, mas para os judeus um novo dia já havia começado, enquanto para João ainda era o dia da Ressurreição. A referência à tarde do domingo reflete a práxis cristã de celebrar a Eucaristia no dia do Senhor à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico e Jesus saúda os apóstolos com o Shalom.

A reação da comunidade é de alegria. O Shalom de Jesus se realiza mediante a remoção dos pecados e o dom do Espírito Santo, e neste contexto ele transmite aos apóstolos a missão que recebeu do Pai e que foi anunciada por João Batista (João 1,29-33). Jesus sopra sobre eles e lhes comunica o Espírito Santo regenerador do homem. Graças a ele os apóstolos podem erradicar o pecado pela raiz.

Assim, o cristão tem a missão de continuar o projeto do Pai, isto é, de perdoar os pecados, remover a ordem injusta e manifestar as obras do amor gratuito e generoso do Pai (9,4).

A segunda aparição parece ter uma destinação especial. Os discípulos falam do Ressuscitado a Tomé com o mesmo anúncio de Maria Madalena: “Vimos o Senhor...”. João mencionou este episódio provavelmente para eliminar um mal-entendido que havia na comunidade, segundo a qual as testemunhas oculares estariam num plano superior em relação aos que não viram o Senhor Ressuscitado pessoalmente. Tomé não havia feito a experiência do Cristo Ressuscitado nem havia recebido o Espírito (v.24). Sua fé era fraca e dependia de sinais extraordinários.

A referência ao oitavo dia indica o contexto eucarístico. O quarto evangelista colocou na boca de Tomé a maior profissão de fé do seu evangelho. Ele reconheceu Jesus como Senhor em igualdade com o Pai. É a primeira vez fora do prólogo que Jesus é chamado de Deus. Por fim, João privilegia os que crêem sem terem visto.

REFLEXÃO

Na primeira leitura, descortina-se o quadro das primeiras comunidades cristãs de Jerusalém, sem visões ou milagres especiais, mas com a visão de Cristo na vida do dia-a-dia. Nela estão os elementos mais comuns e concretos da vida cristã, com seus quatro elementos fundamentais: a escuta de Cristo na catequese, o cuidado dos irmãos com a partilha dos bens, o reconhecimento de Cristo na Eucaristia como fizeram os discípulos de Emaús e a sua presença viva nas orações.

Na segunda leitura, Pedro fala aos cristãos dispersos sobre a experiência do Cristo ressuscitado, dizendo que participam do seu mistério pascal de morte e ressurreição. Por isso, explicita que a fé é acompanhada pela alegria e insiste para que não fujam do sofrimento, da hostilidade e das dificuldades, como é a tendência comum, mas os enfrentem com fé, e estimula os cristãos a superarem uma fé triste.

No tempo pascal, a Igreja nos propõe, sobretudo a partir dos Atos dos Apóstolos, que revivamos a experiência da fé como fez a Igreja primitiva, e nos oferece como modelo o ícone da Igreja apostólica, que viveu uma experiência concreta com pessoas como nós, com suas limitações e defeitos, e que se deixou conduzir pelo Senhor no dia-a-dia. Este é o nosso modelo depois de quase dois mil anos. O ícone da Igreja primitiva tem um verdadeiro programa de vida, no qual estão presentes as características essenciais de cada comunidade.

O exemplo das primeiras comunidades mostra que os cristãos, com alegria e a simpatia de todos, continuavam compartilhando a vida e a prática da fé com os irmãos hebreus, como Jesus fez durante a sua vida, compartilhando a vida religiosa judaica, submisso à lei de Deus (Catecismo da Igreja Católica, 531). Como Jesus, eles conservam um respeito religioso pelo Templo (Catecismo da Igreja Católica, 583-584).

Assim, a novidade do cristianismo é uma continuidade e não uma ruptura com o povo da primeira Aliança: a legislação, o culto, as promessas e os patriarcas (839). A Igreja é o campo onde cresce a antiga oliveira, cuja raiz santa foram os patriarcas (Catecismo da Igreja Católica, 755).

Pedro mostra que a fé, para se tornar pura (Catecismo da Igreja Católica, 164; 272), deve ser purificada com o fogo, como o ouro. Como para Tomé, que quer ver e tocar, também para nós a fé é sempre um salto, uma atitude de confiança, um acreditar nas palavras das testemunhas oculares, que se encontram com o Ressuscitado, mas não viram a ressurreição. O ponto de partida é ouvir e o momento fundador da fé é o anúncio. Por isso, recebemos o Espírito, e a missão de Cristo e do Espírito Santo se torna a missão da Igreja.

Jesus apareceu no centro da comunidade, porque é para ela a fonte da vida, o ponto de esperança, o fator de unidade, a videira na qual os ramos se enxertam (15,5), o lugar onde resplandece a glória que os cristãos contemplam (João 1,14; 17,24). É o Santuário de Deus.

Um oncologista de nossos dias dizia que “ninguém jamais poderá dizer quantos enfartes, tumores e úlceras foram evitados com a oração, com uma atitude de esperança cristã, com uma meditação sobre a vida, com uma absolvição recebida do padre ou com um sofrimento sublimado. A nossa civilização dá tudo, menos o essencial. Ela é um deserto de sentimentos. Um dia ou outro terá de entender que é este o verdadeiro mal do nosso século” (Luigi Oreste).

Certa vez um aluno disse: “Eu amaria muito mais o Senhor se pudesse vê-lo”. O professor pegou o aluno pela mão e o levou ao jardim. Fazia um dia esplêndido e o sol brilhava forte. O professor lhe disse: “Olhe para o alto e procure fixar bem o sol que brilha”. O jovem tentou uma vez, duas vezes, e não conseguiu. Então exclamou: “Não consigo, o sol brilha muito”. O professor lhe deu uma lente opaca e lhe disse: “Experimente olhar agora”. O jovem olhou e disse admirado: “Agora, sim, posso admirar o seu esplendor”. O professor tornou a dizer-lhe: “Assim como para olhar o sol luminoso precisamos de uma boa lente opaca, para ver a Deus precisamos da fé. A fé deixa ver a Deus somente o necessário para a nossa mente frágil, somente o que é útil para o nosso pequeno coração”.

São Luiz IX, rei da França, estava em sua sala conversando com os ministros, quando chegou ofegante um servidor e lhe disse: “Majestade, Jesus apareceu e todos nós o vimos. Venha à capela real”. O rei respondeu: “Sempre acreditei que Jesus está na igreja e por isso não preciso ir lá para comprovar”.

Neste 2º domingo da Páscoa, Lucas apresenta os sumários (são três), que oferecem o quadro-resumo de uma idealização da primeira comunidade. Ele dá o perfil da comunidade cristã como sinal da nova humanidade que nasceu da ressurreição de Jesus, e confessa, anuncia e testemunha Jesus como Senhor. Esta comunhão de bens já existia, como lembra o historiador Flávio Josefo ao relatar o estilo de vida dos essênios de Qumran, que viviam uma vida quase monástica. Posteriormente, a comunhão de bens tornou-se uma prática habitual na Igreja entre os institutos religiosos de vida consagrada.

O que Lucas relata pode ter tido o seu fundamento entre os essênios, mas é, sobretudo, um aperfeiçoamento da vida e da bolsa comum que os apóstolos já haviam praticado com Jesus. O certo é que a fé em Jesus ressuscitado levou os cristãos a viverem a fraternidade. Assim, os primeiros cristãos viviam em comunidade de fé, pois a fé nasce da mensagem, e eles eram fiéis à escuta da Palavra (Atos dos Apóstolos 2,42). Era da mesma forma uma comunidade de vida e amor: ninguém passava necessidade, havia partilha, respeito e aceitação. Era também uma comunidade eucarística e de oração: eram constantes na fração do pão e nas orações. A Eucaristia é a fonte e o ápice da vida comunitária (Lumen Gentium 11,1). Sem Eucaristia viva e eficaz não pode haver comunidade cristã (P 06). Na Eucaristia também culmina a oração.

Por fim, era uma comunidade missionária, o que se expressa na evangelização, no anúncio e no testemunho de salvação como libertação do pecado e reconciliação com Deus (esta foi a missão que os apóstolos receberam de Jesus). Por isso, a comunidade é lugar e sacramento de encontro com Deus.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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