| Na
primeira leitura, descortina-se o quadro das primeiras comunidades
cristãs de Jerusalém, sem visões ou milagres
especiais, mas com a visão de Cristo na vida do dia-a-dia.
Nela estão os elementos mais comuns e concretos da
vida cristã, com seus quatro elementos fundamentais:
a escuta de Cristo na catequese, o cuidado dos irmãos
com a partilha dos bens, o reconhecimento de Cristo na Eucaristia
como fizeram os discípulos de Emaús e a sua
presença viva nas orações.
Na
segunda leitura, Pedro fala aos cristãos dispersos
sobre a experiência do Cristo ressuscitado, dizendo
que participam do seu mistério pascal de morte e ressurreição.
Por isso, explicita que a fé é acompanhada pela
alegria e insiste para que não fujam do sofrimento,
da hostilidade e das dificuldades, como é a tendência
comum, mas os enfrentem com fé, e estimula os cristãos
a superarem uma fé triste.
No
tempo pascal, a Igreja nos propõe, sobretudo a partir
dos Atos dos Apóstolos, que revivamos a experiência
da fé como fez a Igreja primitiva, e nos oferece como
modelo o ícone da Igreja apostólica, que viveu
uma experiência concreta com pessoas como nós,
com suas limitações e defeitos, e que se deixou
conduzir pelo Senhor no dia-a-dia. Este é o nosso modelo
depois de quase dois mil anos. O ícone da Igreja primitiva
tem um verdadeiro programa de vida, no qual estão presentes
as características essenciais de cada comunidade.
O
exemplo das primeiras comunidades mostra que os cristãos,
com alegria e a simpatia de todos, continuavam compartilhando
a vida e a prática da fé com os irmãos
hebreus, como Jesus fez durante a sua vida, compartilhando
a vida religiosa judaica, submisso à lei de Deus (Catecismo
da Igreja Católica, 531). Como Jesus, eles
conservam um respeito religioso pelo Templo (Catecismo
da Igreja Católica, 583-584).
Assim,
a novidade do cristianismo é uma continuidade e não
uma ruptura com o povo da primeira Aliança: a legislação,
o culto, as promessas e os patriarcas (839).
A Igreja é o campo onde cresce a antiga oliveira, cuja
raiz santa foram os patriarcas (Catecismo da Igreja
Católica, 755).
Pedro
mostra que a fé, para se tornar pura (Catecismo
da Igreja Católica, 164; 272), deve ser purificada
com o fogo, como o ouro. Como para Tomé, que quer ver
e tocar, também para nós a fé é
sempre um salto, uma atitude de confiança, um acreditar
nas palavras das testemunhas oculares, que se encontram com
o Ressuscitado, mas não viram a ressurreição.
O ponto de partida é ouvir e o momento fundador da
fé é o anúncio. Por isso, recebemos o
Espírito, e a missão de Cristo e do Espírito
Santo se torna a missão da Igreja.
Jesus
apareceu no centro da comunidade, porque é para ela
a fonte da vida, o ponto de esperança, o fator de unidade,
a videira na qual os ramos se enxertam (15,5),
o lugar onde resplandece a glória que os cristãos
contemplam (João 1,14; 17,24). É
o Santuário de Deus.
Um
oncologista de nossos dias dizia que “ninguém
jamais poderá dizer quantos enfartes, tumores e úlceras
foram evitados com a oração, com uma atitude
de esperança cristã, com uma meditação
sobre a vida, com uma absolvição recebida do
padre ou com um sofrimento sublimado. A nossa civilização
dá tudo, menos o essencial. Ela é um deserto
de sentimentos. Um dia ou outro terá de entender que
é este o verdadeiro mal do nosso século”
(Luigi Oreste).
Certa
vez um aluno disse: “Eu
amaria muito mais o Senhor se pudesse vê-lo”.
O professor pegou o aluno pela mão e o levou ao jardim.
Fazia um dia esplêndido e o sol brilhava forte. O professor
lhe disse: “Olhe para
o alto e procure fixar bem o sol que brilha”.
O jovem tentou uma vez, duas vezes, e não conseguiu.
Então exclamou: “Não
consigo, o sol brilha muito”. O professor
lhe deu uma lente opaca e lhe disse: “Experimente
olhar agora”. O jovem olhou e disse
admirado: “Agora, sim,
posso admirar o seu esplendor”. O professor
tornou a dizer-lhe: “Assim
como para olhar o sol luminoso precisamos de uma boa lente
opaca, para ver a Deus precisamos da fé. A fé
deixa ver a Deus somente o necessário para a nossa
mente frágil, somente o que é útil para
o nosso pequeno coração”.
São
Luiz IX, rei da França, estava em sua sala conversando
com os ministros, quando chegou ofegante um servidor e lhe
disse: “Majestade, Jesus
apareceu e todos nós o vimos. Venha à capela
real”. O rei respondeu: “Sempre
acreditei que Jesus está na igreja e por isso não
preciso ir lá para comprovar”.
Neste
2º domingo da Páscoa, Lucas apresenta os sumários
(são três), que oferecem o quadro-resumo
de uma idealização da primeira comunidade. Ele
dá o perfil da comunidade cristã como sinal
da nova humanidade que nasceu da ressurreição
de Jesus, e confessa, anuncia e testemunha Jesus como Senhor.
Esta comunhão de bens já existia, como lembra
o historiador Flávio Josefo ao relatar o estilo de
vida dos essênios de Qumran, que viviam uma vida quase
monástica. Posteriormente, a comunhão de bens
tornou-se uma prática habitual na Igreja entre os institutos
religiosos de vida consagrada.
O
que Lucas relata pode ter tido o seu fundamento entre os essênios,
mas é, sobretudo, um aperfeiçoamento da vida
e da bolsa comum que os apóstolos já haviam
praticado com Jesus. O certo é que a fé em Jesus
ressuscitado levou os cristãos a viverem a fraternidade.
Assim, os primeiros cristãos viviam em comunidade de
fé, pois a fé nasce da mensagem, e eles eram
fiéis à escuta da Palavra (Atos dos
Apóstolos 2,42). Era da mesma forma uma comunidade
de vida e amor: ninguém passava necessidade, havia
partilha, respeito e aceitação. Era também
uma comunidade eucarística e de oração:
eram constantes na fração do pão e nas
orações. A Eucaristia é a fonte e o ápice
da vida comunitária (Lumen Gentium 11,1).
Sem Eucaristia viva e eficaz não pode haver comunidade
cristã (P 06). Na Eucaristia também
culmina a oração.
Por
fim, era uma comunidade missionária, o que se expressa
na evangelização, no anúncio e no testemunho
de salvação como libertação do
pecado e reconciliação com Deus (esta
foi a missão que os apóstolos receberam de Jesus).
Por isso, a comunidade é lugar e sacramento de encontro
com Deus. |