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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Pascal
2° Domingo
11 de Abril de 2010
Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
5,12-16
AUMENTAVA A MULTIDÃO DOS QUE ACREDITAVAM NO SENHOR
Este trecho deve ser lido à luz dos versículos 1-11 e 17-23, nos quais Lucas apresenta o episódio de Ananias e Safira, que recorrem à mentira para enganar a comunidade, tentando evitar a partilha.

Nosso trecho é o terceiro sumário depois de Atos dos Apóstolos 2,42-47 e 4,32-35, onde Lucas explicita a vida das primeiras comunidades cristãs em Jerusalém. Lucas mostra que a ação de Jesus continua no modo de ser e agir dos cristãos. Descreve aí a atividade taumatúrgica dos apóstolos, que anunciam com coragem e franqueza a palavra diante do Pórtico de Salomão. Esta palavra é confirmada pela presença do Senhor, que opera milagres e prodígios. Esta era a grande força com que davam testemunho da Ressurreição (Atos dos Apóstolos 4,33). O povo reage diante da novidade e abraça a fé. A reação dos chefes dos judeus é de ódio e mandam prender os discípulos. Entretanto, na comunidade os membros estavam unidos (omothymadôn). Este era o modo de ser dos cristãos e não só dos apóstolos. Assim, este primeiro sumário evidencia a comunhão hierárquica, na qual os diversos carismas, ministérios e autoridade se alimentam de uma única fonte: Cristo ressuscitado. Este sumário explicita ainda a ação dos discípulos no meio do povo, que nada mais era do que a prática de Jesus. Assim, na comunidade cristã se pratica o mandamento do Senhor. É o lugar onde se experimenta a novidade solidária de Deus concretizada na comunhão, na partilha e na união de sentimentos.

Segunda Leitura
Apocalipse
1,9-11a.12.13.17-19
EU SOU O PRIMEIRO E O ÚLTIMO.
EU SOU AQUELE QUE VIVE.

O Apocalipse é o livro da esperança para as comunidades tentadas ao desânimo diante das prisões, sofrimentos e mortes. Foi escrito durante a perseguição de Dominicano no final do 1º século, tempo de crise para as comunidades cristãs.

Nosso texto é uma página estupenda da Cristologia Joanina, no qual Cristo aparece em suas funções de juiz escatológico e é o enviado definitivo de Deus. Nele também são comunicadas as instruções necessárias para as comunidades cristãs, provadas pelos sofrimentos como João em Patmos. O Filho do Homem aparece a João no domingo, dia sagrado para os cristãos. Ele refulge de esplendor no meio de sete candelabros de ouro, símbolo das sete Igrejas. A veste que traz significa a dignidade sacerdotal, a faixa de ouro que o cinge significa a sua realeza. A voz poderosa exclui qualquer dúvida sobre o que João ouve.

Em Patmos, pequena ilha do Egeu, João teve uma visão, num domingo, a visão de Cristo glorioso. Patmos, onde João esteve preso, era uma ilha 75 km ao sul de Éfeso. Na primeira parte da experiência João ouve uma voz forte como uma trombeta (a trombeta lembra o anúncio divino). A segunda parte da experiência consiste em voltar-se para ver, ou seja, sinal de disponibilidade e adesão plena a quem fala e à ordem emitida. Os candelabros de ouro são os anjos das sete Igrejas. João salienta que os candelabros são de ouro, metal que pertence à divindade. Isto significa que as comunidades são importantes para Deus. Entre os candelabros está alguém semelhante ao Filho do Homem (Daniel 7,13). É Cristo ressuscitado, centro de todas as comunidades cristãs, juiz e Messias. Ele tem os cabelos brancos, o que significa a eternidade. Sustenta sete estrelas, o que indica o poder soberano de Cristo sobre a Igreja. Ele é o primeiro e o último, atributos de Jesus reservados a Javé. Tem as chaves, ou seja, o domínio sobre a morte e o pecado.

Diante da visão João caiu como morto, mas Jesus investido de poder (mão direita) o conforta. A expressão “não tenha medo” (v.17b) sintetiza todas as etapas da história em que as pessoas se sentiram fracas e ameaçadas pela morte. Em todas as etapas Deus esteve presente. A mensagem de confiança é dirigida a João e por extensão a todas as comunidades. O motivo de confiança é que Jesus é o Senhor na história, o Primeiro e o Último, aquele que por sua ressurreição possui a plenitude da vida (está vivo para sempre). A morte não tem mais domínio sobre ele (ele tem as chaves da morte).

Após esta descrição minuciosa de Cristo, a ordem dirigida a João é que ele deve escrever o que está acontecendo (cap. 2-3) e o que vai acontecer depois (cap. 4-22), para que as comunidades possam sentir-se fortalecidas, animadas e capazes de resistir profeticamente, transformando a sociedade corrupta em nova Jerusalém. João deve escrever às sete Igrejas, um número sagrado que exprime a totalidade, a universalidade da Igreja.

Evangelho
João 20,19-31
OITO DIAS DEPOIS, JESUS DISSE A TOMÉ:
PARE DE DUVIDAR, E CREIA!

João situa a cena no tempo: é tarde do domingo da Páscoa. Para os judeus já havia iniciado um novo dia, mas para João é o dia da Ressurreição. A referência à tarde de domingo reflete a práxis da Igreja de celebrar a Eucaristia no dia do Senhor, à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico. As portas fechadas mostram o aspecto negativo (o medo dos discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus Ressuscitado, para o qual não há barreiras). Jesus se apresenta à comunidade (referência à Eucaristia) e a saúda com a saudação da plenitude dos bens (Shalom). A reação da comunidade é de alegria. Assim fortalecida com a presença do Senhor, a comunidade está pronta para a missão. Para João, o Pentecostes acontece no mesmo dia da Ressurreição, e de agora em diante os cristãos têm a responsabilidade de continuar a missão de Cristo.

As aparições de Jesus têm o objetivo de fundamentar a fé pascal dos discípulos, para fazê-los testemunhas qualificadas do anúncio da salvação para todos os povos mediante a ação do Espírito infundido sobre eles. De fato, Jesus lhes confia a missão: “Eu os envio”. A missionariedade dos discípulos tem fundamento em Jesus Cristo ressuscitado. É dele que depende toda a eficácia.

Depois Jesus sopra sobre os discípulos para lhes dar o Espírito Santo, o princípio da nova criação (Gênesis 2,7). Com este dom eles têm o poder de perdoar os pecados, neutralizar o mal, restaurar a amizade com Deus. É a mesma missão de Cristo.

Em seguida João relata a profissão de fé de Tomé, a mais explicita de todo o quarto Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus”. É a primeira vez fora do prólogo onde Jesus é chamado de Deus. Ele é reconhecido como Senhor em pé de igualdade com Deus. “Quem me vê, vê o Pai” (João 14,19). “Eu e o Pai somos um” (João 10,38).

A incredulidade de Tomé representa para a Igreja primitiva uma prova de excepcional valor apologético. A ressurreição não era, portanto, fruto de ilusão coletiva, de fantasia. Assim, nossa fé se fundamenta no testemunho de quem viu.

REFLEXÃO

A liturgia coloca o acento nas conseqüências da Páscoa. O primeiro dia da semana revela a importância do domingo na vida do cristão. Antes de ser uma questão de preceito, é uma questão de identidade do cristão.

No cristianismo, o homem não consegue libertar-se sozinho, com suas próprias forças. É preciso que Cristo se torne presente na comunidade com seus dons, com seu “Shalom”, que dê o seu Espírito... Não se tornou ser vivo depois de ter recebido o hálito de Deus. Também o cristão se torna nova criatura mediante o dom do Espírito de Jesus ressuscitado. Com o dom do Espírito se inicia o tempo da Igreja e sua missão no mundo. A partir daí, os apóstolos anunciam Jesus com coragem ao mundo. Não que anunciassem uma nova religiosidade ou filosofia, mas a pessoa de Jesus ressuscitado, que os acompanha com sinais e prodígios, de modo que os pagãos abrem seus ouvidos e chegam à fé, fazendo a experiência de uma nova vida, não mais marcada pelo pecado e pelo egoísmo.

Oito dias após a ressurreição coisas grandiosas aconteceram entre os apóstolos. Assim, a Páscoa não pode reduzir-se para nós a um acontecimento fossilizado, do passado. É uma ocasião para nos empurrar para o alto, pois não caminhamos às apalpadelas, já que Jesus nos ofereceu uma documentação histórica de sua Ressurreição. Jesus não é um ilusionista. Mas não basta a documentação histórica. Jesus nos pede para crer, para ter uma fé que se fundamenta na confiança. Por isso rezamos “Creio” e dizemos “Amém”. E Jesus proclama bem-aventurado quem crê.

Os primeiros cristãos eram solícitos em estar juntos (Atos dos Apóstolos 5,12), sobretudo, no dia do Senhor, festa primordial da comunidade. Nós, com nossos costumes, não vemos o domingo como uma transformação profunda, mas como um dia de puro descanso, lazer, passeios... Para o cristão, o domingo, antes de ser uma questão de preceito, é uma questão de identidade. O cristão tem necessidade do domingo. Ausentar-se da participação comunitária dominical, como ensinava a Igreja antiga, implica em “diminuir a Igreja”, reduzir os membros do Corpo de Cristo. O domingo é o dia para o cristão fazer de sua vida um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus, pois a Eucaristia não é apenas um rito, mas uma escola de vida. O domingo, dia cheio do divino e do humano, deverá iluminar todos os dias da semana. No domingo o Pai prepara uma mesa para todos os seus filhos participarem.

Na antigüidade, quando um rei conquistava uma cidade, voltava para casa com os despojos, e os dividia entre os soldados e o povo. Cristo venceu o maior inimigo do homem e de Deus, e voltou com uma enorme carga de dons para nós. “O dom da paz. A paz esteja convosco”. Paz porque retirou toda barreira entre o céu e a terra. “O dom da confiança”. Embora os apóstolos o tenham abandonado, ele continua confiando neles. “Como o Pai me enviou...”. Manda-os cumprir a mesma missão que recebeu do Pai. O dom do Espírito Santo. “Recebam o Espírito Santo...”. Deu-lhes a luz, a força e o calor do Espírito Santo. “O dom da libertação do mal e do pecado”. “Aqueles a quem perdoarem os pecados serão perdoados...”. “O dom da alegria”. Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. É a alegria de estar junto com Jesus. “O dom da certeza” (mediante a incredulidade de Tomé). Jesus convida a tocá-lo, senti-lo. “O dom da última bem-aventurança do Evangelho”. “Bem-aventurados os que crêem sem ter visto...”.

Diante de tantos dons, o cristão tem o dever de corresponder a eles.

João Crisóstomo nos diz que o livro dos Atos é tão útil quanto os evangelhos, porque, enquanto os evangelhos nos trazem muitas previsões a respeito de Jesus, os Atos documentam suas realizações. Os Atos nos dizem pouco sobre a divindade de Jesus, mas muito sobre sua messianidade, paixão, ressurreição e ascensão, daí a sua presença no tempo pascal.

As aparições confirmam o fato do sepulcro vazio, suscitam e confirmam a fé dos apóstolos e da comunidade. Os relatos das aparições são profissões de fé pascal que contêm uma linguagem teológica. São “kérigmas”. A intenção não é fazer uma crônica fiel, uma reportagem sobre o acontecimento da ressurreição, embora não seja uma mera criação litúrgica. As aparições são contatos pessoais com o próprio Jesus ressuscitado, vivo em pessoa. São experiências de fé com bases objetivas. Das aparições seguem como efeito imediato a fé e a transformação dos apóstolos, que se tornaram propagadores principais delas. “Cristo ressuscitou”.

O número de aparições soma umas dez. Algumas são destinadas pessoalmente a algumas pessoas, mas, a maioria, são comunitárias, dirigidas a grupos. Algumas são localizadas, outras não. Entre as particulares estão à Maria Madalena (João 20,11), às mulheres (Mateus 28,9), aos discípulos de Emaús (Lucas 24,13), a Pedro e Tiago (1 Coríntios 15,5-7; Lucas 24,34). Entre as coletivas estão aos onze em Jerusalém (Lucas 23,36), aos mesmos no monte da Galiléia (Mateus 25,17), aos discípulos à margem do Tiberíades (João 21,1). Em Marcos 16,9-14 há um apanhado de algumas aparições já citadas.

Em todas as aparições a iniciativa foi de Jesus. Ele aparece e desaparece de maneira inesperada. Nenhuma delas acontece de noite e em sonhos, nem é provocada por ilusão ou alucinação do grupo. Elas não são subjetivas, fruto da lembrança saudosa do Mestre ausente, uma criação do subconsciente, projeção encenada de um grupo desejoso de tornar a vê-lo, como nos sucede com a perda de um ente querido, como quis afirmar a crítica racionalista. Os apóstolos, pescadores rudes, gente iletrada em sua quase totalidade, não eram homens inclinados a especulações e montagens ideológicas. Com a pedra do sepulcro ficaram sepultados seus sonhos messiânicos. Por isso, num primeiro momento não acreditaram nas notícias das mulheres que voltaram do sepulcro com mensagens de anjos sobre a ressurreição de Jesus.

Num primeiro momento, quando Jesus lhes aparece, não é reconhecido. Mostram-se duros em crer, e até incrédulos. Foi preciso que Jesus mostrasse sinais de sua identidade (mãos, pés, chagas, come com eles...). Isto demonstra que a figura corpórea de Jesus não era mais a mesma de antes da ressurreição. Seu corpo é real, pois não é um fantasma, mas um corpo espiritual, corpo imaterial capaz de atravessar paredes, portas fechadas, aparecendo e desaparecendo. O processo de fé dos discípulos no reconhecimento de Jesus ressuscitado foi lento, até se definirem como testemunhas da ressurreição. A ressurreição de Jesus, portanto, é um fato independente da fé dos apóstolos. Não é fruto dessa fé, mas causa dela, apesar de suas resistências pessoais.

A maioria das aparições acentua o mandato missionário dos apóstolos para a evangelização. Para esta missão Jesus lhes dá o dinamismo do Espírito. Portanto, as aparições fazem os apóstolos vencerem as dúvidas e resistências e se certificarem da ressurreição. A finalidade concreta das aparições era suscitar e dar aval à fé dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Mas os relatos das aparições foram escritos para os cristãos da segunda geração e seguintes, ou seja, para nós. Para que creiamos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Assim, somos os herdeiros da bem-aventurança da fé, que brotou dos lábios de Jesus quando concluiu sua conversa com Tomé.

As dúvidas de Tomé serviriam para confirmar a fé dos que mais tarde haveriam de crer nele. “Porventura pensais que foi por simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente e depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse e, ouvindo, apalpasse e, apalpando, acreditasse? Não foi por acaso, mas por disposição divina que isso aconteceu. A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas na carne do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade... Foi assim, ouvindo e tocando, que o discípulo se tornou testemunha da verdadeira ressurreição” (São Gregório Magno).

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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