O
Apocalipse é o livro da esperança para as comunidades
tentadas ao desânimo diante das prisões, sofrimentos
e mortes. Foi escrito durante a perseguição
de Dominicano no final do 1º século, tempo de
crise para as comunidades cristãs.
Nosso
texto é uma página estupenda da Cristologia
Joanina, no qual Cristo aparece em suas funções
de juiz escatológico e é o enviado definitivo
de Deus. Nele também são comunicadas as instruções
necessárias para as comunidades cristãs, provadas
pelos sofrimentos como João em Patmos. O Filho do Homem
aparece a João no domingo, dia sagrado para os cristãos.
Ele refulge de esplendor no meio de sete candelabros de ouro,
símbolo das sete Igrejas. A veste que traz significa
a dignidade sacerdotal, a faixa de ouro que o cinge significa
a sua realeza. A voz poderosa exclui qualquer dúvida
sobre o que João ouve.
Em
Patmos, pequena ilha do Egeu, João teve uma visão,
num domingo, a visão de Cristo glorioso. Patmos, onde
João esteve preso, era uma ilha 75 km ao sul de Éfeso.
Na primeira parte da experiência João ouve uma
voz forte como uma trombeta (a trombeta lembra o anúncio
divino). A segunda parte da experiência consiste
em voltar-se para ver, ou seja, sinal de disponibilidade e
adesão plena a quem fala e à ordem emitida.
Os candelabros de ouro são os anjos das sete Igrejas.
João salienta que os candelabros são de ouro,
metal que pertence à divindade. Isto significa que
as comunidades são importantes para Deus. Entre os
candelabros está alguém semelhante ao Filho
do Homem (Daniel 7,13). É Cristo ressuscitado,
centro de todas as comunidades cristãs, juiz e Messias.
Ele tem os cabelos brancos, o que significa a eternidade.
Sustenta sete estrelas, o que indica o poder soberano de Cristo
sobre a Igreja. Ele é o primeiro e o último,
atributos de Jesus reservados a Javé. Tem as chaves,
ou seja, o domínio sobre a morte e o pecado.
Diante
da visão João caiu como morto, mas Jesus investido
de poder (mão direita) o conforta.
A expressão “não
tenha medo” (v.17b)
sintetiza todas as etapas da história em que as pessoas
se sentiram fracas e ameaçadas pela morte. Em todas
as etapas Deus esteve presente. A mensagem de confiança
é dirigida a João e por extensão a todas
as comunidades. O motivo de confiança é que
Jesus é o Senhor na história, o Primeiro e o
Último, aquele que por sua ressurreição
possui a plenitude da vida (está vivo para
sempre). A morte não tem mais domínio
sobre ele (ele tem as chaves da morte).
Após
esta descrição minuciosa de Cristo, a ordem
dirigida a João é que ele deve escrever o que
está acontecendo (cap. 2-3) e o que
vai acontecer depois (cap. 4-22), para que
as comunidades possam sentir-se fortalecidas, animadas e capazes
de resistir profeticamente, transformando a sociedade corrupta
em nova Jerusalém. João deve escrever às
sete Igrejas, um número sagrado que exprime a totalidade,
a universalidade da Igreja. |
João
situa a cena no tempo: é tarde do domingo da Páscoa.
Para os judeus já havia iniciado um novo dia, mas para
João é o dia da Ressurreição.
A referência à tarde de domingo reflete a práxis
da Igreja de celebrar a Eucaristia no dia do Senhor, à
tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico.
As portas fechadas mostram o aspecto negativo (o medo
dos discípulos) e um aspecto positivo (o
novo estado de Jesus Ressuscitado, para o qual não
há barreiras). Jesus se apresenta à
comunidade (referência à Eucaristia)
e a saúda com a saudação da plenitude
dos bens (Shalom). A reação
da comunidade é de alegria. Assim fortalecida com a
presença do Senhor, a comunidade está pronta
para a missão. Para João, o Pentecostes acontece
no mesmo dia da Ressurreição, e de agora em
diante os cristãos têm a responsabilidade de
continuar a missão de Cristo.
As
aparições de Jesus têm o objetivo de fundamentar
a fé pascal dos discípulos, para fazê-los
testemunhas qualificadas do anúncio da salvação
para todos os povos mediante a ação do Espírito
infundido sobre eles. De fato, Jesus lhes confia a missão:
“Eu os envio”.
A missionariedade dos discípulos tem fundamento em
Jesus Cristo ressuscitado. É dele que depende toda
a eficácia.
Depois
Jesus sopra sobre os discípulos para lhes dar o Espírito
Santo, o princípio da nova criação (Gênesis
2,7). Com este dom eles têm o poder de perdoar
os pecados, neutralizar o mal, restaurar a amizade com Deus.
É a mesma missão de Cristo.
Em
seguida João relata a profissão de fé
de Tomé, a mais explicita de todo o quarto Evangelho:
“Meu Senhor e meu Deus”.
É a primeira vez fora do prólogo onde Jesus
é chamado de Deus. Ele é reconhecido como Senhor
em pé de igualdade com Deus. “Quem
me vê, vê o Pai” (João
14,19). “Eu e
o Pai somos um” (João
10,38).
A
incredulidade de Tomé representa para a Igreja primitiva
uma prova de excepcional valor apologético. A ressurreição
não era, portanto, fruto de ilusão coletiva,
de fantasia. Assim, nossa fé se fundamenta no testemunho
de quem viu.
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| A
liturgia coloca o acento nas conseqüências da Páscoa.
O primeiro dia da semana revela a importância do domingo
na vida do cristão. Antes de ser uma questão
de preceito, é uma questão de identidade do
cristão.
No
cristianismo, o homem não consegue libertar-se sozinho,
com suas próprias forças. É preciso que
Cristo se torne presente na comunidade com seus dons, com
seu “Shalom”,
que dê o seu Espírito... Não se tornou
ser vivo depois de ter recebido o hálito de Deus. Também
o cristão se torna nova criatura mediante o dom do
Espírito de Jesus ressuscitado. Com o dom do Espírito
se inicia o tempo da Igreja e sua missão no mundo.
A partir daí, os apóstolos anunciam Jesus com
coragem ao mundo. Não que anunciassem uma nova religiosidade
ou filosofia, mas a pessoa de Jesus ressuscitado, que os acompanha
com sinais e prodígios, de modo que os pagãos
abrem seus ouvidos e chegam à fé, fazendo a
experiência de uma nova vida, não mais marcada
pelo pecado e pelo egoísmo.
Oito
dias após a ressurreição coisas grandiosas
aconteceram entre os apóstolos. Assim, a Páscoa
não pode reduzir-se para nós a um acontecimento
fossilizado, do passado. É uma ocasião para
nos empurrar para o alto, pois não caminhamos às
apalpadelas, já que Jesus nos ofereceu uma documentação
histórica de sua Ressurreição. Jesus
não é um ilusionista. Mas não basta a
documentação histórica. Jesus nos pede
para crer, para ter uma fé que se fundamenta na confiança.
Por isso rezamos “Creio”
e dizemos “Amém”.
E Jesus proclama bem-aventurado quem crê.
Os
primeiros cristãos eram solícitos em estar juntos
(Atos dos Apóstolos 5,12), sobretudo,
no dia do Senhor, festa primordial da comunidade. Nós,
com nossos costumes, não vemos o domingo como uma transformação
profunda, mas como um dia de puro descanso, lazer, passeios...
Para o cristão, o domingo, antes de ser uma questão
de preceito, é uma questão de identidade. O
cristão tem necessidade do domingo. Ausentar-se da
participação comunitária dominical, como
ensinava a Igreja antiga, implica em “diminuir
a Igreja”, reduzir os membros do Corpo
de Cristo. O domingo é o dia para o cristão
fazer de sua vida um dom, um sacrifício espiritual
agradável a Deus, pois a Eucaristia não é
apenas um rito, mas uma escola de vida. O domingo, dia cheio
do divino e do humano, deverá iluminar todos os dias
da semana. No domingo o Pai prepara uma mesa para todos os
seus filhos participarem.
Na
antigüidade, quando um rei conquistava uma cidade, voltava
para casa com os despojos, e os dividia entre os soldados
e o povo. Cristo venceu o maior inimigo do homem e de Deus,
e voltou com uma enorme carga de dons para nós. “O
dom da paz. A paz esteja convosco”.
Paz porque retirou toda barreira entre o céu e a terra.
“O dom da confiança”.
Embora os apóstolos o tenham abandonado, ele continua
confiando neles. “Como
o Pai me enviou...”. Manda-os cumprir
a mesma missão que recebeu do Pai. O dom do Espírito
Santo. “Recebam o Espírito
Santo...”. Deu-lhes a luz, a força
e o calor do Espírito Santo. “O
dom da libertação do mal e do pecado”.
“Aqueles a quem perdoarem
os pecados serão perdoados...”.
“O dom da alegria”.
Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. É
a alegria de estar junto com Jesus. “O
dom da certeza” (mediante a
incredulidade de Tomé). Jesus convida a tocá-lo,
senti-lo. “O dom da última
bem-aventurança do Evangelho”.
“Bem-aventurados os que
crêem sem ter visto...”.
Diante
de tantos dons, o cristão tem o dever de corresponder
a eles.
João
Crisóstomo nos diz que o livro dos Atos é tão
útil quanto os evangelhos, porque, enquanto os evangelhos
nos trazem muitas previsões a respeito de Jesus, os
Atos documentam suas realizações. Os Atos nos
dizem pouco sobre a divindade de Jesus, mas muito sobre sua
messianidade, paixão, ressurreição e
ascensão, daí a sua presença no tempo
pascal.
As
aparições confirmam o fato do sepulcro vazio,
suscitam e confirmam a fé dos apóstolos e da
comunidade. Os relatos das aparições são
profissões de fé pascal que contêm uma
linguagem teológica. São “kérigmas”.
A intenção não é fazer uma crônica
fiel, uma reportagem sobre o acontecimento da ressurreição,
embora não seja uma mera criação litúrgica.
As aparições são contatos pessoais com
o próprio Jesus ressuscitado, vivo em pessoa. São
experiências de fé com bases objetivas. Das aparições
seguem como efeito imediato a fé e a transformação
dos apóstolos, que se tornaram propagadores principais
delas. “Cristo ressuscitou”.
O
número de aparições soma umas dez. Algumas
são destinadas pessoalmente a algumas pessoas, mas,
a maioria, são comunitárias, dirigidas a grupos.
Algumas são localizadas, outras não. Entre as
particulares estão à Maria Madalena (João
20,11), às mulheres (Mateus 28,9),
aos discípulos de Emaús (Lucas 24,13),
a Pedro e Tiago (1 Coríntios 15,5-7; Lucas
24,34). Entre as coletivas estão aos onze
em Jerusalém (Lucas 23,36), aos mesmos
no monte da Galiléia (Mateus 25,17),
aos discípulos à margem do Tiberíades
(João 21,1). Em Marcos 16,9-14 há
um apanhado de algumas aparições já citadas.
Em
todas as aparições a iniciativa foi de Jesus.
Ele aparece e desaparece de maneira inesperada. Nenhuma delas
acontece de noite e em sonhos, nem é provocada por
ilusão ou alucinação do grupo. Elas não
são subjetivas, fruto da lembrança saudosa do
Mestre ausente, uma criação do subconsciente,
projeção encenada de um grupo desejoso de tornar
a vê-lo, como nos sucede com a perda de um ente querido,
como quis afirmar a crítica racionalista. Os apóstolos,
pescadores rudes, gente iletrada em sua quase totalidade,
não eram homens inclinados a especulações
e montagens ideológicas. Com a pedra do sepulcro ficaram
sepultados seus sonhos messiânicos. Por isso, num primeiro
momento não acreditaram nas notícias das mulheres
que voltaram do sepulcro com mensagens de anjos sobre a ressurreição
de Jesus.
Num
primeiro momento, quando Jesus lhes aparece, não é
reconhecido. Mostram-se duros em crer, e até incrédulos.
Foi preciso que Jesus mostrasse sinais de sua identidade (mãos,
pés, chagas, come com eles...). Isto demonstra
que a figura corpórea de Jesus não era mais
a mesma de antes da ressurreição. Seu corpo
é real, pois não é um fantasma, mas um
corpo espiritual, corpo imaterial capaz de atravessar paredes,
portas fechadas, aparecendo e desaparecendo. O processo de
fé dos discípulos no reconhecimento de Jesus
ressuscitado foi lento, até se definirem como testemunhas
da ressurreição. A ressurreição
de Jesus, portanto, é um fato independente da fé
dos apóstolos. Não é fruto dessa fé,
mas causa dela, apesar de suas resistências pessoais.
A
maioria das aparições acentua o mandato missionário
dos apóstolos para a evangelização. Para
esta missão Jesus lhes dá o dinamismo do Espírito.
Portanto, as aparições fazem os apóstolos
vencerem as dúvidas e resistências e se certificarem
da ressurreição. A finalidade concreta das aparições
era suscitar e dar aval à fé dos apóstolos
e dos primeiros cristãos. Mas os relatos das aparições
foram escritos para os cristãos da segunda geração
e seguintes, ou seja, para nós. Para que creiamos que
Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Assim, somos os
herdeiros da bem-aventurança da fé, que brotou
dos lábios de Jesus quando concluiu sua conversa com
Tomé.
As
dúvidas de Tomé serviriam para confirmar a fé
dos que mais tarde haveriam de crer nele. “Porventura
pensais que foi por simples acaso que aquele discípulo
escolhido estivesse ausente e depois, ao voltar, ouvisse relatar
a aparição e, ao ouvir, duvidasse e, ouvindo,
apalpasse e, apalpando, acreditasse? Não foi por acaso,
mas por disposição divina que isso aconteceu.
A divina clemência agiu de modo admirável quando
este discípulo que duvidava tocou as feridas na carne
do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da
incredulidade... Foi assim, ouvindo e tocando, que o discípulo
se tornou testemunha da verdadeira ressurreição”
(São Gregório Magno). |