O
texto é uma catequese sobre a ressurreição
de Jesus própria da comunidade do autor do 4° Evangelho.
João inicia indicando o tempo: “O
primeiro dia da semana”. Não
é uma data meramente formal, pois neste dia teve início
a nova criação que nasceu da morte e ressurreição
de Jesus. Maria Madalena é uma figura simbólica:
representa a comunidade sem perspectivas de fé, incapaz
de assimilar a morte de Jesus. É a figura representativa
de quem pensa que o túmulo é o lugar do fracasso
do projeto de Deus. Diante da pedra rolada, ela pensa que
o cadáver foi roubado (v.2b).
Os
dois discípulos também representam a comunidade
que não assimila a morte de Jesus. O evangelista dá
a entender que a comunidade tinha se dispersado (16,32),
por isso Maria Madalena encontra Pedro e João sozinhos.
Os
dois discípulos que correm ao túmulo, justamente
por serem dois, são dignos de crença. Isto valoriza
o testemunho, segundo o princípio judaico (Deuteronômio
19,15). São diferentes porque um corre mais
depressa, talvez por ser mais jovem (Lagrange),
ou talvez por ser o discípulo predileto e o amor o
fazia correr mais (Mollat), ou talvez porque,
através de uma estratégia narrativa, o autor
quisesse preparar o leitor para o “Viu
e acreditou” (Fabris).
O certo é que a fé deles recebeu uma contribuição
dos eventos de que foram testemunhas: “Viram
os panos de linho estendidos...” (vv.66-67).
A descrição da cena quer demonstrar que não
houve violação do sepulcro, nem roubo do cadáver,
pois os ladrões não teriam se preocupado em
dobrar os panos. Caía assim a teoria do sepulcro vazio
de Maria Madalena. Era preciso encontrar outras explicações.
Para João, o fato de ter entrado no sepulcro fez com
que visse e acreditasse. Trata-se da fé inicial sugerida
pelo sepulcro vazio, pelos panos e pelo sudário colocados
de lado. O ver leva ao crer. Mas só o ver não
bastou. Foi preciso entender as Escrituras.
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| O
domingo da Páscoa é o dia mais importante e
mais bonito do calendário, pois todo o cristianismo
se baseia na ressurreição de Jesus, no fato
de que Jesus de Nazaré, depois de crucificado, morto
e sepultado, deixou o sepulcro para não morrer mais.
Este é o acontecimento central da nossa fé,
pois, “se Cristo não ressuscitou, vã
é a nossa fé” (1 Coríntios
15,14).
A
ressurreição é a prova da nossa fé.
É um fato histórico. Três dias depois
de sua morte o sepulcro estava vazio. Em seguida Jesus apareceu
durante quarenta dias aos discípulos. Estes não
só o viram, mas comeram e beberam com ele. É
nesta experiência dos discípulos que nossa fé
se fundamenta.
Os
discípulos não foram vítimas de alucinações,
não foram visionários. Sensíveis aos
últimos acontecimentos, estavam profundamente prostrados
devido à tragédia da Sexta-Feira Santa e, do
ponto de vista psicológico, não estavam nem
mesmo dispostos a acreditar na ressurreição
de Jesus. Tomé havia dito: “Se
eu não colocar meus dedos em suas chagas...”.
O
que fez, então, que eles saíssem daquele estado
de inércia, readquirindo a esperança e tornando-se
pregadores do Messias ressuscitado e sofrendo o martírio
por causa dele? Que fato os fez passar da incredulidade à
fé, da tristeza à alegria, do medo à
coragem? Não foi outro a não ser o de “TEREM
VISTO” o Senhor Ressuscitado. “Ele
ressuscitou e somos testemunhas disto”. Este
é o anúncio que farão ressoar por toda
a extensão do Império Romano, anúncio
que convenceu o mundo a ser cristão. O nascimento e
a difusão do cristianismo após o fracasso da
cruz não pode ser explicado senão pelo fato
histórico e real da ressurreição. Se
o mundo tivesse se convertido ao cristianismo, este seria
um milagre que superaria todos os outros.
A
ressurreição é o fundamento da vida cristã.
Mas a ressurreição não é só
prova da fé (aspecto apologético).
É também fundamento de nossa vida cristã
(aspecto teológico).
É
graças à ressurreição que o cristianismo
não é uma filosofia, um sistema de pensamento,
um conjunto de verdades abstratas, mas encontro com uma pessoa
viva.
“Surexit
Dominus vere”. O Senhor ressuscitou
verdadeiramente. Este é o fundamento de nossa esperança.
Por isso, se no túmulo de um mortal se pode colocar
a inscrição “Aqui
jaz”, no sepulcro de Jesus ao invés
os anjos cantam: “Ressuscitou,
não está mais aqui”. Pedro
e João constataram esta verdade com seus próprios
olhos.
Se
Cristo ressuscitou, o cristão não tem mais razão
para ficar triste. O filósofo Zaratustra, com quem
muita gente aprendeu a desprezar Jesus, vendo certo dia alguns
cristãos tristes, disse: “Os
cristãos precisariam cantar-me outras canções,
para fazer com que eu creia no Salvador deles”.
Ressuscitados
com Cristo, devemos buscar as coisas do alto. Portanto, devemos
cultivar em nossa vida o espírito de oração,
a humildade, a participação na comunidade, ações
concretas de amor, de ajuda ao próximo etc. Senão
nos comportaremos como o exemplo que São Bernardino
de Sena descreve: “Se
você mostra a um burro um feixe de feno, ele virá
atrás de você. Se o presenteia com um punhado
de moedas de ouro, ele não dará um passo. Igual
ao burro é todo aquele que busca as coisas da terra
e nega as do céu”.
“É
Páscoa do Senhor! É Páscoa sim, a
Páscoa, a glória da Trindade. É para
nós a festa das festas, a solenidade das solenidades.
Como o sol supera as estrelas com seu brilho, assim a
Páscoa supera todas as outras festas, e não
só as dos homens, que são puramente terrenas,
mas também as que são de Cristo e se celebram
em sua honra.
Ontem
os cordeiros eram imolados e os umbrais das portas aspergidos
com o sangue. Enquanto o Egito chorava seus primogênitos,
nós, protegidos por aquele sangue precioso, fugíamos
do anjo exterminador, a quem aquele sinal incutia temor
e respeito. Hoje deixamos definitivamente o Egito, a tirania
do faraó cruel e a opressão dos soldados.
Fomos libertados do trabalho da argila e dos tijolos.
Ninguém pode nos impedir de celebrar a alegria
do Senhor, nosso Deus, a festa do Êxodo, e de celebrá-la
“não
com o fermento velho da malícia e da maldade, mas
com o pão ázimo da sinceridade e da verdade”.
Porque agora não trazemos mais conosco o fermento
ímpio do Egito.
Ontem
fui humilhado com Cristo, hoje sou glorificado com ele.
Ontem morri com ele, hoje com ele volto à vida.
Ontem fui sepultado com ele, hoje com ele ressuscito.
Ofereçamos,
portanto, nossos dons àquele que morreu e ressuscitou
por nós. Vocês talvez pensem que falo de
ouro e prata, de tecidos ou pedras preciosas, matérias
efêmeras da terra, destinadas a ficarem aqui em
baixo. Ofereçamos, sim, a nós mesmos, porque
estas são as riquezas mais agradáveis a
Deus e dignas dele. Restituamos à imagem de Deus
que possuímos todo o seu esplendor. Reconheçamos
nossa dignidade. Prestemos honra ao modelo original.
Procuremos
entender o poder deste mistério e o objetivo porque
Cristo morreu. Procuremos ser semelhantes a Cristo, já
que ele se fez semelhante a nós. Tornemo-nos Deus
por meio dele, visto que ele se fez homem por nossa causa.
Ele assumiu o que era mais terreno para nos dar o que
de melhor existe. Fez-se pobre para nos enriquecer com
sua riqueza. Tomou forma de escravo para que conseguíssemos
a liberdade. Desceu para que fôssemos elevados.
Foi tentado para que superássemos a prova. Foi
desprezado para que tivéssemos a glória.
Morreu para que fôssemos salvos. Subiu ao céu
para atrair a si os que estavam na terra, caídos
no pecado.
Cada
um dê sem reservas. Ofereça tudo àquele
que, substituindo-nos, deu-se a si mesmo como preço
de nossa redenção. Penetrando no mistério,
podemos dar nada mais nada menos que nós mesmos,
tornando-nos para Cristo tudo aquilo que ele se tornou
por nós”.
(Homilia pela Santa Páscoa,
Patrologia Grega de
Migne Gregório Nazianzeno)
A
ressurreição de Jesus é o começo
de uma vida nova a partir da morte, que não é
a volta à vida de um cadáver reanimado, como
aconteceu com Lázaro, o filho da viúva de Naim
e a filha de Jairo, que foram reanimados e continuaram com
o mesmo ritmo biológico, a mesma natureza física
e corporal de antes. Jesus ressuscitou para não morrer
nunca mais (Romanos 6,5). Tem uma vida totalmente
nova e transformada. Para os apóstolos, Jesus ressuscitado
tinha um novo modo de existência, e eles não
tinham palavras para descrevê-lo.
A
ressurreição de Jesus é tão importante
que os apóstolos são antes de tudo “testemunhas
da ressurreição de Jesus”
(Atos dos Apóstolos 1,22; 2,32; 3,15).
Este foi o núcleo da pregação apostólica.
Os apóstolos declararam que Jesus se manifestou “com
muitas provas” (Atos dos Apóstolos
1,3) e muitos deles morreram para dar testemunho
dessa verdade. O Papa Leão Magno diz que Jesus se apressou
em ressuscitar porque tinha pressa em consolar sua Mãe
e os apóstolos. Esteve no túmulo os três
dias profetizados e ressuscitou “quando
ainda estava escuro, antecipando o amanhecer com sua luz própria”.
Uma
tradição muito antiga da Igreja diz que Jesus
apareceu primeiro e a sós a Maria. Em primeiro lugar
porque ela era a primeira e principal co-redentora do gênero
humano. A sós porque esta aparição tinha
uma razão de ser bem diferente das demais aparições
às mulheres e aos discípulos. A estes o Senhor
tinha de confortar e conquistar definitivamente para a fé,
enquanto com Maria isto não era preciso.
Tomás
de Aquino aconselhava todos os anos seus ouvintes a não
deixarem de felicitar a Virgem pela ressurreição
de seu Filho. É o que faremos no tempo pascal, rezando
o Regina Coeli em vez do Angelus. |