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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Pascal
DOMINGO DA RESSURREIÇÃO
04 de Abril de 2010
Primeira Leitura
Atos dos Apóstolos
10,34.37-43
OS APÓSTOLOS, TESTEMUNHAS DO REDIVIVO

Neste capítulo temos a situação histórica da Igreja: o contato com os gentios, que era proibido pela legislação judaica. Pedro é o primeiro a romper com este esquema, destacando o modo de ser da Igreja. Ele está hospedado na casa de Simão, o curtidor de peles, tido como impuro. Também vai à casa de Cornélio e ressalta os seguintes pontos: Deus não faz distinção de pessoas. Assim, o novo povo de Deus não está ligado a uma nação. O critério para pertencer a esse povo é a prática da justiça. A função da comunidade cristã é ser testemunha de Jesus e anunciar e praticar o que ele ensinou.

O apóstolo Pedro anuncia Jesus destacando:

01) sua consagração como Messias, por obra do Espírito Santo;
02) suas obras de benfeitor, fazendo o bem a todos;
03) sua crucifixão e morte;
04) sua ressurreição. Todo o kerigma é orientado para a ressurreição e glorificação de Jesus, como evento de salvação para todos. Tudo o que Pedro anunciou está baseado em fatos históricos da vida de Jesus. Ele salienta que é testemunha disso, e não só ele: os demais apóstolos fizeram uma experiência concreta de Jesus, pois comeram com ele.

Segunda Leitura
Colossenses 3,1-4
PROCUREM AS COISAS DO ALTO

Paulo escreveu aos cristãos de Colossos, quando estava preso em Éfeso (55-57), para corrigir algumas idéias. Eles admitiam uma série de seres celestes que comandavam o ritmo do universo, comprometendo a supremacia de Cristo.

Os cristãos de Colossos são advertidos sobre os perigos dessas idéias e a necessidade de se orientarem para as coisas do alto. Devem procurar as coisas do alto, que se opõem às da terra. Paulo defende uma transformação radical do cristão em Cristo, igual à que acontece com a ressurreição.

Evangelho
João 20,1-9
ANÚNCIO DA RESSURREIÇÃO

O texto é uma catequese sobre a ressurreição de Jesus própria da comunidade do autor do 4° Evangelho. João inicia indicando o tempo: “O primeiro dia da semana”. Não é uma data meramente formal, pois neste dia teve início a nova criação que nasceu da morte e ressurreição de Jesus. Maria Madalena é uma figura simbólica: representa a comunidade sem perspectivas de fé, incapaz de assimilar a morte de Jesus. É a figura representativa de quem pensa que o túmulo é o lugar do fracasso do projeto de Deus. Diante da pedra rolada, ela pensa que o cadáver foi roubado (v.2b).

Os dois discípulos também representam a comunidade que não assimila a morte de Jesus. O evangelista dá a entender que a comunidade tinha se dispersado (16,32), por isso Maria Madalena encontra Pedro e João sozinhos.

Os dois discípulos que correm ao túmulo, justamente por serem dois, são dignos de crença. Isto valoriza o testemunho, segundo o princípio judaico (Deuteronômio 19,15). São diferentes porque um corre mais depressa, talvez por ser mais jovem (Lagrange), ou talvez por ser o discípulo predileto e o amor o fazia correr mais (Mollat), ou talvez porque, através de uma estratégia narrativa, o autor quisesse preparar o leitor para o “Viu e acreditou” (Fabris). O certo é que a fé deles recebeu uma contribuição dos eventos de que foram testemunhas: “Viram os panos de linho estendidos...” (vv.66-67). A descrição da cena quer demonstrar que não houve violação do sepulcro, nem roubo do cadáver, pois os ladrões não teriam se preocupado em dobrar os panos. Caía assim a teoria do sepulcro vazio de Maria Madalena. Era preciso encontrar outras explicações. Para João, o fato de ter entrado no sepulcro fez com que visse e acreditasse. Trata-se da fé inicial sugerida pelo sepulcro vazio, pelos panos e pelo sudário colocados de lado. O ver leva ao crer. Mas só o ver não bastou. Foi preciso entender as Escrituras.

REFLEXÃO

O domingo da Páscoa é o dia mais importante e mais bonito do calendário, pois todo o cristianismo se baseia na ressurreição de Jesus, no fato de que Jesus de Nazaré, depois de crucificado, morto e sepultado, deixou o sepulcro para não morrer mais. Este é o acontecimento central da nossa fé, pois, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé” (1 Coríntios 15,14).

A ressurreição é a prova da nossa fé. É um fato histórico. Três dias depois de sua morte o sepulcro estava vazio. Em seguida Jesus apareceu durante quarenta dias aos discípulos. Estes não só o viram, mas comeram e beberam com ele. É nesta experiência dos discípulos que nossa fé se fundamenta.

Os discípulos não foram vítimas de alucinações, não foram visionários. Sensíveis aos últimos acontecimentos, estavam profundamente prostrados devido à tragédia da Sexta-Feira Santa e, do ponto de vista psicológico, não estavam nem mesmo dispostos a acreditar na ressurreição de Jesus. Tomé havia dito: “Se eu não colocar meus dedos em suas chagas...”.

O que fez, então, que eles saíssem daquele estado de inércia, readquirindo a esperança e tornando-se pregadores do Messias ressuscitado e sofrendo o martírio por causa dele? Que fato os fez passar da incredulidade à fé, da tristeza à alegria, do medo à coragem? Não foi outro a não ser o de “TEREM VISTO” o Senhor Ressuscitado. “Ele ressuscitou e somos testemunhas disto”. Este é o anúncio que farão ressoar por toda a extensão do Império Romano, anúncio que convenceu o mundo a ser cristão. O nascimento e a difusão do cristianismo após o fracasso da cruz não pode ser explicado senão pelo fato histórico e real da ressurreição. Se o mundo tivesse se convertido ao cristianismo, este seria um milagre que superaria todos os outros.

A ressurreição é o fundamento da vida cristã. Mas a ressurreição não é só prova da fé (aspecto apologético). É também fundamento de nossa vida cristã (aspecto teológico).

É graças à ressurreição que o cristianismo não é uma filosofia, um sistema de pensamento, um conjunto de verdades abstratas, mas encontro com uma pessoa viva.

Surexit Dominus vere”. O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Este é o fundamento de nossa esperança. Por isso, se no túmulo de um mortal se pode colocar a inscrição “Aqui jaz”, no sepulcro de Jesus ao invés os anjos cantam: “Ressuscitou, não está mais aqui”. Pedro e João constataram esta verdade com seus próprios olhos.

Se Cristo ressuscitou, o cristão não tem mais razão para ficar triste. O filósofo Zaratustra, com quem muita gente aprendeu a desprezar Jesus, vendo certo dia alguns cristãos tristes, disse: “Os cristãos precisariam cantar-me outras canções, para fazer com que eu creia no Salvador deles”.

Ressuscitados com Cristo, devemos buscar as coisas do alto. Portanto, devemos cultivar em nossa vida o espírito de oração, a humildade, a participação na comunidade, ações concretas de amor, de ajuda ao próximo etc. Senão nos comportaremos como o exemplo que São Bernardino de Sena descreve: “Se você mostra a um burro um feixe de feno, ele virá atrás de você. Se o presenteia com um punhado de moedas de ouro, ele não dará um passo. Igual ao burro é todo aquele que busca as coisas da terra e nega as do céu”.

É Páscoa do Senhor! É Páscoa sim, a Páscoa, a glória da Trindade. É para nós a festa das festas, a solenidade das solenidades. Como o sol supera as estrelas com seu brilho, assim a Páscoa supera todas as outras festas, e não só as dos homens, que são puramente terrenas, mas também as que são de Cristo e se celebram em sua honra.

Ontem os cordeiros eram imolados e os umbrais das portas aspergidos com o sangue. Enquanto o Egito chorava seus primogênitos, nós, protegidos por aquele sangue precioso, fugíamos do anjo exterminador, a quem aquele sinal incutia temor e respeito. Hoje deixamos definitivamente o Egito, a tirania do faraó cruel e a opressão dos soldados. Fomos libertados do trabalho da argila e dos tijolos. Ninguém pode nos impedir de celebrar a alegria do Senhor, nosso Deus, a festa do Êxodo, e de celebrá-la “não com o fermento velho da malícia e da maldade, mas com o pão ázimo da sinceridade e da verdade”. Porque agora não trazemos mais conosco o fermento ímpio do Egito.

Ontem fui humilhado com Cristo, hoje sou glorificado com ele. Ontem morri com ele, hoje com ele volto à vida. Ontem fui sepultado com ele, hoje com ele ressuscito.

Ofereçamos, portanto, nossos dons àquele que morreu e ressuscitou por nós. Vocês talvez pensem que falo de ouro e prata, de tecidos ou pedras preciosas, matérias efêmeras da terra, destinadas a ficarem aqui em baixo. Ofereçamos, sim, a nós mesmos, porque estas são as riquezas mais agradáveis a Deus e dignas dele. Restituamos à imagem de Deus que possuímos todo o seu esplendor. Reconheçamos nossa dignidade. Prestemos honra ao modelo original.

Procuremos entender o poder deste mistério e o objetivo porque Cristo morreu. Procuremos ser semelhantes a Cristo, já que ele se fez semelhante a nós. Tornemo-nos Deus por meio dele, visto que ele se fez homem por nossa causa. Ele assumiu o que era mais terreno para nos dar o que de melhor existe. Fez-se pobre para nos enriquecer com sua riqueza. Tomou forma de escravo para que conseguíssemos a liberdade. Desceu para que fôssemos elevados. Foi tentado para que superássemos a prova. Foi desprezado para que tivéssemos a glória. Morreu para que fôssemos salvos. Subiu ao céu para atrair a si os que estavam na terra, caídos no pecado.

Cada um dê sem reservas. Ofereça tudo àquele que, substituindo-nos, deu-se a si mesmo como preço de nossa redenção. Penetrando no mistério, podemos dar nada mais nada menos que nós mesmos, tornando-nos para Cristo tudo aquilo que ele se tornou por nós”.

(Homilia pela Santa Páscoa,
Patrologia Grega de
Migne Gregório Nazianzeno
)

A ressurreição de Jesus é o começo de uma vida nova a partir da morte, que não é a volta à vida de um cadáver reanimado, como aconteceu com Lázaro, o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo, que foram reanimados e continuaram com o mesmo ritmo biológico, a mesma natureza física e corporal de antes. Jesus ressuscitou para não morrer nunca mais (Romanos 6,5). Tem uma vida totalmente nova e transformada. Para os apóstolos, Jesus ressuscitado tinha um novo modo de existência, e eles não tinham palavras para descrevê-lo.

A ressurreição de Jesus é tão importante que os apóstolos são antes de tudo “testemunhas da ressurreição de Jesus” (Atos dos Apóstolos 1,22; 2,32; 3,15). Este foi o núcleo da pregação apostólica. Os apóstolos declararam que Jesus se manifestou “com muitas provas” (Atos dos Apóstolos 1,3) e muitos deles morreram para dar testemunho dessa verdade. O Papa Leão Magno diz que Jesus se apressou em ressuscitar porque tinha pressa em consolar sua Mãe e os apóstolos. Esteve no túmulo os três dias profetizados e ressuscitou “quando ainda estava escuro, antecipando o amanhecer com sua luz própria”.

Uma tradição muito antiga da Igreja diz que Jesus apareceu primeiro e a sós a Maria. Em primeiro lugar porque ela era a primeira e principal co-redentora do gênero humano. A sós porque esta aparição tinha uma razão de ser bem diferente das demais aparições às mulheres e aos discípulos. A estes o Senhor tinha de confortar e conquistar definitivamente para a fé, enquanto com Maria isto não era preciso.

Tomás de Aquino aconselhava todos os anos seus ouvintes a não deixarem de felicitar a Virgem pela ressurreição de seu Filho. É o que faremos no tempo pascal, rezando o Regina Coeli em vez do Angelus.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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