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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
EPIFANIA
DO SENHOR
03 de Janeiro de 2010
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Primeira
Leitura
Isaías 60,1-6
TODAS
AS NAÇÕES VIRÃO ADORAR O SENHOR |
Este
texto se refere a Jerusalém, embora seu nome não
seja mencionado. É uma mensagem de salvação
dirigida em segunda pessoa a Jerusalém como personificação
do povo. O profeta apresenta um simbolismo rico entre luz
e trevas. A luz, para a Bíblia, é símbolo
de salvação, de vida e de tudo que pertence
ao âmbito de Deus. As trevas são símbolo
de tudo que não pertence à salvação
e não é de Deus, de tudo que é sinônimo
de pecado e morte.
Nosso
texto se inspira na reconstrução de Jerusalém
e na volta dos exilados da Babilônia (538 a.C.).
O símbolo da luz é aplicado ao povo bíblico,
que Deus escolheu em Abraão, libertou do Egito e da
Babilônia e preferiu entre todos os povos do antigo
Oriente. Este povo cruza a sua história com a história
da salvação. Deus permitiu que este povo caminhasse
na luz. Isto implica que a Palavra de Deus é luz para
seus passos e os mandamentos do Sinai são “luz
no caminho”.
O
contexto é do pós-exílio, onde tudo devia
ser reconstruído, uma reconstrução amarga.
Faltam recursos para isso. Paira um clima de desânimo.
O papel do profeta é suscitar o ânimo e a esperança.
Javé teria abandonado o seu povo? Não, pois
Javé continua sendo o esposo da cidade, por causa de
seu amor por ela.
Jerusalém
será transformada em centro de convergência para
as nações e Javé a tornará fecunda
e rica. Ela será ornada de esplendor. É o marido
apaixonado que deseja todo o bem à sua esposa.
O
profeta convida a cidade a se levantar de sua prostração
e se revestir de luz, a ser uma cidade esplendorosa, porque
a glória de Javé voltou para o seu povo. O sol
não surgirá mais do Oriente, mas de Jerusalém,
porque Javé é o esplendor com sua própria
presença (Apocalipse 22,5).
O
profeta convida a cidade esposa a se levantar e contemplar
a procissão que se dirige a ela, pois Javé está
presente nela e atrairá as nações, que
se colocarão em peregrinação rumo a ela.
Jerusalém é vista como mãe cujos filhos
são reconhecidos entre todos os povos. Não serão
somente seus filhos dispersos, os judeus, que se dirigirão
a ela, mas também as nações pagãs
com seus tesouros. Jerusalém se torna sinal de unidade
de todos os povos.
A
vinda de todos os povos para Jerusalém com suas riquezas
é uma nota característica do Antigo Testamento,
chamada pelos teólogos de movimento centrípeto.
Os povos irão a Jerusalém para reconhecer a
salvação e o primado do único Deus. Trata-se
ainda de uma visão limitada da salvação,
porque vê a Jerusalém geográfica como
centro da salvação. O Novo Testamento corrigirá
esta visão estreita, insistindo no caráter missionário
e centrífugo da salvação, estendendo-a
a todo o mundo (Atos dos Apóstolos 1,8).
De fato, no Novo Testamento a vinda do Messias é luz
para iluminar os povos (Lucas 2,32).
Jerusalém
deve alegrar-se porque receberá riquezas do mar que
vêm do Oeste, da Fenícia e da Grécia.
São as riquezas que vêm do Oriente com as caravanas
de camelos e dromedários. Os dons são incenso
e ouro, que tinham como finalidade específica a instauração
do culto no Templo reconstruído. |
Segunda
Leitura
Efésios 3,2-3a.5-6
OS GENTIOS TAMBÉM SÃO CHAMADOS À SALVAÇÃO |
O
apóstolo Paulo esteve em Éfeso, centro urbano
importante daquela época (Atos dos Apóstolos
19,20), onde fundou uma comunidade. A tática
de Paulo era fundar comunidades nas grandes cidades, para
que estas depois levassem a mensagem cristã às
regiões.
Ao
escrever aos efésios, Paulo lembra que recebeu a grande
missão de proclamar o grande mistério de Deus
que ficou escondido no passado e foi revelado em Cristo. Este
mistério é a revelação do plano
divino que se realizou através da pregação
e prática de Jesus, e está condensado naquilo
que Paulo chama de Evangelho. Mediante este Evangelho, todos
são chamados à vida e à liberdade.
Paulo
expõe neste trecho o plano da salvação
divina e lembra aos cristãos de Éfeso que ele
tem a missão de anunciar esta Boa Nova da salvação
também aos pagãos. Os frutos do anúncio
deste Evangelho são o universalismo da salvação,
em que os gentios não são mais estrangeiros,
mas concidadãos dos santos. Por isso, os gentios são
co-herdeiros, e não apenas Israel e os judeus convertidos.
Assim, os gentios se tornam membros do mesmo corpo, ou seja,
da Igreja, pois se tornaram participantes das promessas de
Cristo. Assim, a salvação é acessível
a todos. Jesus é o Salvador de todos.
Este
é um mistério de graça (oikonomia
= economia), derivado da práxis administrativa
e distributiva da salvação e das graças.
Isto não por uma intervenção milagrosa
de Deus, como aconteceu no Antigo Testamento, mas através
da pregação do Evangelho pela Igreja. Por isso,
Paulo sente-se anunciador e missionário deste Evangelho
aos gentios. Deus lhe revelou este mistério (mysterion
= projeto de salvação) pensado por
Deus e realizado em Jesus Cristo, para a salvação
de todos), no caminho de Damasco (Atos dos Apóstolos
9,15ss; 2 Coríntios 12,2-7). |
Evangelho
Mateus 2,1-12
PAGÃOS ESTRANGEIROS (MAGOS)
ENCONTRAM O SALVADOR |
O
esquema de narração de Mateus no Evangelho da
Infância (Mateus 1-2) é constituído
em torno de duas estruturas: as profecias realizadas e a Cristologia.
As profecias são do Antigo Testamento e se realizaram
em Jesus. Assim, nosso texto é baseado em Miqueias
5, e nele Mateus ressalta o cumprimento desta profecia. A
Cristologia une o Evangelho da Infância a todo o conjunto
do Evangelho. O Menino que foi perseguido por Herodes é
o Cristo que não foi acolhido pelos seus. A criança
que foi adorada pelos magos é o “Kyrios”.
Ressuscitado, ele é adorado pela comunidade. A fuga
para o Egito é a não aceitação
de Cristo em sua terra.
Nosso
trecho expressa uma teologia do evangelista com base na tradição
cultural latente em todo o Oriente: a estrela como sinal de
um acontecimento, na tradição popular, uma estrela
guia.
Neste
capítulo, Mateus quer mostrar a missão de Jesus
que se concentra na salvação dos pagãos,
aqui representados pelos magos. O evangelista quer mostrar
que o verdadeiro rei dos judeus não é o violento,
prepotente e politiqueiro Herodes, mas o recém-nascido,
que é rei à semelhança do rei Davi. De
fato, para Mateus a salvação não vem
de Jerusalém, onde mora o tirano Herodes, mas de Belém,
cidade do pastor Davi. Ele é o chefe que apascentará
o povo de Israel. Portanto, o líder-pastor nasce em
Belém. A salvação não vem do tirano,
nem da religião patrocinada pelos líderes religiosos
a serviço de Herodes.
Os
magos intuíram esse poder que nasce do pobre e logo
vieram adorar o Deus Menino. Estes magos (magoi)
pertenciam à classe sacerdotal persa. Podem também
ser interpretados como pessoas conhecedoras da arte da magia
(sentido pejorativo), Mateus usa o primeiro
sentido. Aqui os magos têm um sentido mais profundo,
um significado mais específico, como membros de uma
casta especial da qual já falava Heródoto a
propósito dos persas. Outra fonte se refere aos magos
como membros de uma casta de sacerdotes e sábios, cultores
da astronomia, que naquele tempo não se distinguia
bem da astrologia. Mateus fala de observadores de astros vindos
do Oriente. É importante lembrar que, para os hebreus,
eram do Oriente todos aqueles que viviam além do Jordão.
Mateus faz notar a coerência dos pagãos, que
reconheceram este Menino da periferia como o Salvador e se
prostraram diante dele para adorá-lo. Aderiram ao projeto
de Deus que salva as pessoas a partir do pequeno e do pobre,
e não dos poderosos e violentos como Herodes, o grande
tirano, que ficou perturbado e deu ordem para matar os inocentes.
Neste detalhe de Mateus vemos a incredulidade de Israel, em
contraposição à disposição
dos magos. Estes adoram o Salvador-Messias. É a adoração
dos pagãos. Em contraste com Lucas, que privilegia
os judeus como primeiros adoradores de Jesus, Mateus privilegia
os pagãos (os magos).
Assim,
a Epifania é a manifestação de Jesus
ao mundo, revelando o projeto do Pai a todos, segundo o qual
Deus não é um Deus de poucos, mas de todos.
Os
magos foram conduzidos por uma estrela para encontrar o Messias.
Ao falar da estrela, Mateus lembra Números 24,17: “Uma
estrela desponta de Jacó e um cetro surge em Israel”.
Assim, o evangelista inseriu os fatos da vida de Jesus no
quadro do Antigo Testamento, para que os hebreus destinatários
compreendessem que Jesus é o Messias prometido e esperado
e que nele se realizam as profecias messiânicas e os
oráculos mais importantes do Antigo Testamento.
Os
magos foram conduzidos pela estrela, mas ao mesmo tempo procuraram
se colocar a caminho. Em seus corações havia
o anseio, o desejo de encontrar o Deus Menino. “Aquele
que eles desejavam e ao qual aspiravam, diz Santo Agostinho,
guiava a busca deles, e a estrela era apenas um sinal externo
do desejo interno deles”. O encontro com o
Deus Menino foi fruto de uma busca dos magos.
Como
gesto de reconhecimento, os magos ofertaram o que de melhor
havia em seu país: ouro, incenso e mirra. Estas substâncias
evocam o tema veterotestamentário da salvação
oferecida aos povos pagãos, que se exprime no oferecimento
de suas riquezas ao Senhor. O ouro simboliza a realeza de
Jesus, o incenso sua divindade e a mirra sua paixão
e morte.
Também
a estrela guia é carregada de simbolismo. Para o Apocalipse,
a estrela é o próprio Jesus: “Eu
sou a raiz de Davi, a estrela esplêndida da manhã”
(Apocalipse 22,16; 2 Pedro 1,19). Da mesma
forma, no judaísmo era símbolo de realeza messiânica.
A estrela se encontrava nas moedas cunhadas na insurreição
judaica contra Roma, e ainda hoje se encontra na bandeira
do estado de Israel. Na base deste simbolismo também
está o oráculo de Balaão (Números
24,17). “Uma
estrela surgirá de Jacó e um cetro se erguerá
em Israel”.
Segundo
Mateus, a estrela foi interpretada pelos magos como sinal
do nascimento do Messias. Ela oferece uma indicação
de tipo cronológico e não espacial. O mundo
pagão também acreditava que o instante do nascimento
de uma pessoa estava ligado a uma estrela. Estes magos, vindos
provavelmente da Pérsia, informaram-se sobre o lugar
onde nasceu o rei dos judeus, que segundo as crenças
antigas, atestadas por Tácito e Suetônio, haveria
de dominar o mundo. Os magos viram a estrela (alusão
à estrela de Jacó de Números 24,17)
e se puseram a caminho, a fim de encontrá-lo e adorá-lo. |
REFLEXÃO |
| Durante
todo o período natalino, a liturgia nos leva a tomar
consciência do mistério do amor infinito de Deus
que se manifestou em Jesus. Hoje, particularmente, nos mostra
que a salvação veio para todos, sem distinção.
A
Epifania faz a festa do Natal chegar a toda a humanidade.
Deus se fez homem para salvar a todos. Esta mensagem é
dada mediante sinais concretos a cada destinatário,
parecendo quase uma inculturação do Evangelho.
Aos pastores, que representam os humildes, os pobres e os
pequenos, a notícia é anunciada com sinais que
eles podem entender: a gruta, a manjedoura etc. Aos magos,
pela estrela, interpretada como guia por estes homens de cultura
e ciência. Para Herodes e o povo de Israel, pelas estações
da Sagrada Escritura. Esta é a pedagogia divina.
A
Epifania é por definição a “primeira
jornada missionária” do calendário
cristão. Cristo veio ao mundo para revelar sua missão,
estabelecida pelo Pai. É a manifestação
luminosa do profeta de Deus em nossa história, que
tem como missão elevar todos os homens à dignidade
de filhos de Deus, reunir todos numa só família,
doar a todos a luz de sua glória.
A
Epifania nos lembra que o projeto de Deus é o homem,
a quem ele quer salvar. Mas para isso é preciso buscá-lo
sem se cansar. Deus, que nos criou sem nossa participação,
não pode nos salvar sem nossa colaboração
(Santo Agostinho).
O
verdadeiro povo de Deus nasce da fé em Jesus. A fé
não é um corpo de doutrina do qual devemos servir-nos,
mas é uma força misteriosa que, como os magos,
nos impulsiona a seguir a estrela, ou seja, os caminhos ou
sinais que nos levam a Jesus. É o dom de Deus que constitui
o ponto de partida para buscar Jesus. É disposição
para se pôr a caminho, fazer o percurso, enfrentar as
dúvidas, incertezas e enganos, os sofismas e artimanhas
do mundo que querem nos desviar do caminho e nos fazer acreditar
que a salvação, a alegria, a satisfação
plena se encontram no palácio de Herodes, marcado pelo
consumismo, pelo sensualismo, pelo poder, pela força,
e não na choupana de Belém.
Esta
é a lógica de Deus que devemos aceitar, se quisermos
encontrar Jesus. Não é a lógica que privilegia
o dinheiro, o poder, a chamada sabedoria mundana, pois a sabedoria
de Deus é o serviço. Por isso, a grandeza dos
magos não está tanto no fato de terem seguido
uma estrela na caminhada, mas de não ficarem desiludidos,
ao chegarem ao final da peregrinação e encontrarem
uma criança numa gruta. De não ficarem desiludidos
por se terem prostrado e adorado um Menino pobre, oferecendo-lhe
seus dons.
Esta
é a provocação da Epifania: prostrar-se
diante de Deus que está escondido em silêncio
nas aparências do pão e do vinho. Mas também
prostrar-se diante de todos os “Jesus”
escondidos e que têm necessidades. Reconhecê-lo
no pobre, no doente, no velho etc., para lhes dar nossos dons,
nossa acolhida e nós próprios.
A
manifestação de Jesus ao mundo nos ensina que
nada, nenhum obstáculo, dificuldade, distância
ou posição, deve impedir nossa caminhada para
encontrar Deus.
“As
trevas recobrem a terra e a neblina envolve as nações”,
mas o coração do homem tem um desejo de luz
e, quando consegue ver um ponto luminoso em seu caminho, caminha
para chegar a ele. Deus colocou esta necessidade profunda
de luz no coração do homem. Mas onde esta luz
se encontra? O profeta a percebia, embora confusamente e de
longe, em Jerusalém. O evangelista, servindo-se do
episódio dos magos e das alusões das antigas
profecias, proclama decididamente que essa luz é o
Menino Jesus. Ele é a estrela de Davi, o Messias esperado,
aquele através de quem Deus realiza o seu plano.
Hoje
esta luz chega aos homens não através dos astros
esplêndidos do universo, mas por meio da pregação
da Palavra (2ª leitura), portanto através
de nós, homens. A estrela é ele, o Deus conosco,
mas somos também nós, convidados a ser luz para
os outros. O profeta convidava Jerusalém a revestir-se
de luz e a tornar-se luz, pois a glória de Deus não
devia aparecer apenas sobre Jerusalém, mas também
dentro dela. Também nós devemos ser luz: “Vocês
são a luz do mundo” (Mateus
5,14). A luz de Jesus deve resplandecer através
de nossas obras. Como os magos, devemos percorrer os caminhos
em busca da luz, usando diversos meios, mas sobretudo a contemplação
e a oração. Iluminada por esta luz, nossa vida
se torna dom, como os dons dos magos, refletindo nossa personalidade,
nossa criatividade e tudo o que de melhor soubermos realizar.
Deus
fez os magos conhecerem o nascimento de Jesus através
de uma estrela. Esta estrela existe também para nós.
Trata-se da fé. Somos privilegiados porque ganhamos
esta fé desde o nosso nascimento. Depois nossos pais,
catequistas etc. nos ajudaram a aprofundar esta fé.
A missa na qual participamos todos os domingos escutando a
palavra é um meio eficaz para sustentar e alimentar
nossa fé.
Muitos
afirmam ter fé, mas ela se limita a invocar os santos,
acender uma vela ou fazer promessas... Bem diferente foi a
fé dos magos. Ela os conduziu até Jesus. A verdadeira
fé transforma a vida do cristão, ilumina, faz
conhecer e estimula a fazer a vontade de Deus.
A
Epifania, que significa a manifestação de Jesus
ao mundo inteiro, nos ensina a humildade e a simplicidade
de Deus. “Os magos não
se admiraram por terem sido conduzidos a uma aldeia, nem porque
a estrela se deteve diante de uma gruta”.
Vêm de longe para ver o rei e são conduzidos
a uma gruta. Podemos correr o perigo de não perceber
até que ponto Deus está perto de nós.
Deus se apresenta a nós sob a aparência insignificante
de um pedaço de pão, desliza sobre nossa vida
como uma sombra, em vez de retumbar o seu poder sobre as coisas.
Os
magos souberam reconhecer na criança de Belém
o Menino Deus, a quem desde então todos os séculos
adoram. Sua fé lhes valeu um privilégio, o de
serem os primeiros gentios a adorá-lo, quando o mundo
ainda o desconhecia. Devemos deixar-nos dirigir por esta luz,
que permite quebrar a monotonia dos dias iguais e encontrar
Jesus em nossa vida normal. Além do mais, Jesus presente
no sacrário é o mesmo que os magos encontraram
nos braços de Maria.
Os
magos ofereceram a Deus dons preciosos, o melhor que possuíam. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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