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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
A
Tempo do Natal
EPIFANIA
DO SENHOR
02 de Janeiro de 2011
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Primeira
Leitura
Isaías
60,1-6
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TODAS
AS NAÇÕES VIRÃO ADORAR O SENHOR |
Na
primeira parte deste texto, o autor se refere de um lado
a toda a terra com as nações envolvidas na
escravidão, símbolo da negação
de Deus. De outro, temos Jerusalém cheia de glória,
o farol das nações, que representa a presença
de Deus. A segunda parte descreve o destino da Jerusalém
futura, para a qual todos os povos são atraídos
por sua luz.
O
texto é um apelo cheio de entusiasmo, um verdadeiro
grito de alegria. Embora o destinatário não
seja explicitado no texto, podemos dizer que é Jerusalém,
partindo da análise de alguns textos de Isaías
que falam de uma mulher em aflição que é
convidada a trocar de roupas devido ao fim do luto e início
de uma nova situação (Isaías
49,18; 51,17; 52,1; 54,1).
A
situação de Jerusalém era desanimadora.
Estamos no período do pós-exílio babilônio
em 538 a.C. (Esdras 1,1-4; 6,3-5). Tudo
está para ser reconstruído com grandes dificuldades.
A situação de pobreza é grande (Zacarias
3; AG 1-2), com a hostilidade dos samaritanos (Esdras
4; Neemias 4–5). Jerusalém está
prostrada por causa da diminuição da sua população,
da falta de recursos, da dominação estrangeira
(persas). Estava envolvida na escuridão.
Diante
disso, o profeta suscita o ânimo do povo anunciando
que Javé não abandonou a cidade e, por causa
do seu amor fiel, Jerusalém será transformada
em ponto de convergência das nações.
O próprio Javé, como esposo, vai ornamentá-la
com esplendor, torná-la fecunda. Ela se tornará
uma referência universal, um farol, uma torre que
lança a luz que orienta. Ela surgirá como
o sol que se levanta para os povos, a fim de orientá-los.
A sua universalidade não é representada apenas
pela pluralidade, isto é, pelo número de povos
iluminados e colocados em movimento, mas também em
sentido qualitativo, do maior ao menor. Seus reis também
estarão na frente dos povos.
Javé
continua sendo o esposo de Jerusalém e a adorna de
esplendor, torna-a fecunda em filhos e rica em presentes.
Jerusalém será uma só luz resplandecente,
enquanto o mundo vive nas trevas. “O
sol não surgirá mais no Oriente, mas nela,
porque Javé, com a sua presença, é
o seu próprio esplendor”.
Depois
de descrever o esplendor de Jerusalém, o profeta
convida o povo a levantar-se e contemplar a romaria que
se dirige a ela, tornando-a mãe de muitos filhos,
e os primeiros a se dirigir a essa cidade iluminada são
os filhos do exílio (Isaías 49,18;
Baruc 5,5-6), que nas extremidades chegam com seus
presentes. Eles não conhecem o cansaço, e
as mulheres mais frágeis são carregadas no
colo. Todos trazem a ela presentes que a comovem. São
as riquezas do mar que vêm do Oeste, da Fenícia
e da Grécia (Salmo 72,10), da costa
norte-ocidental, da Península Arábica, onde
se encontram Madian e Efa (Gênesis 25,1-4),
e do nordeste da Arábia, onde se encontra Saba, famosa
por seu incenso (Jeremias 6,20) e por seu
ouro (1 Reis 10,2; Ezequias 27,22), presentes
que servirão para o culto no Templo.
A
realização desta visão profética
está prevista para os tempos messiânicos e
Mateus a vê realizar-se com os magos.
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Segunda
Leitura
Efésios
3,2-3a.5-6
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OS
GENTIOS TAMBÉM SÃO CHAMADOS À SALVAÇÃO
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Esta
carta foi escrita por Paulo ou por um discípulo dele
às várias comunidades da região. Se
foi escrita por Paulo, foi durante a sua prisão em
Roma entre 61 e 63 d.C. As cópias desses textos devem
ter sido lidas nos grupos de cristãos de Éfeso
e arredores. Paulo não conheceu esses grupos. Éfeso
era um centro urbano importante da época, e Paulo
esteve lá fundando a comunidade (Atos dos
Apóstolos 19,20).
O
apóstolo fala de “Mistério”,
que quer dizer a revelação do plano de Deus
realizado na prática e na pregação
de Jesus, condensados naquilo que ele chama de “Evangelho”
e através dele todos são chamados à
vida e à liberdade trazidas por Jesus.
É
deste Evangelho que Paulo se tornou anunciador missionário,
dedicando-se à evangelização dos gentios,
os quais pela adesão a Cristo não são
mais estrangeiros, mas concidadãos do céu,
membros da família de Deus.
Paulo
foi destinatário da revelação, isto
é, de um dom divino particular, que lhe abriu o acesso
ao mistério, um plano secreto de salvação
projetado e querido pelo Pai e proclamado pelo Evangelho
(1 Coríntios 1,23; 2,2).
Este
mistério de salvação deseja a separação
de uma visão da humanidade segundo as coordenadas
religiosas do hebraísmo que previam uma separação
clara entre o povo eleito e o resto da humanidade, isto
é, os pagãos. Entende-se esse mistério
lendo Efésios 2,14-18. No centro do mistério
está a reconciliação operada por Cristo,
que elimina qualquer barreira em nível pessoal, que
impede o homem de elevar-se até Deus, e em nível
horizontal elimina o muro que impede a comunicação
e a confraternização. Assim, o fruto do sacrifício
de Jesus é o surgimento desta nova humanidade. Jesus
se torna o ponto de encontro de todos os homens, o espaço
vital desta comunhão.
As
conseqüências da nova realidade operada em Cristo
estão condensadas no versículo 6. Daí
resulta que os pagãos são co-herdeiros, não
apenas Israel e os judeus convertidos. Os pagãos
são membros do mesmo corpo que é a Igreja.
São participantes da promessa em Cristo, pois a salvação
é um oferecimento gratuito de Jesus para todos sem
distinção. Realiza-se assim a promessa feita
a Abraão (12,39), pela qual todos
entrariam na descendência do patriarca, participando
de suas bênçãos. Basta para isso conferir
a perspectiva universalista da salvação em
Isaías 2,2-5; Miqueias 4,1-3; Isaías 42,1-4;
49,6; 56,6-8; 60,1-14; Zacarias 8,20-23.
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Evangelho
Mateus
2,1-12
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ESTRANGEIROS
PAGÃOS (“MAGOS”) ENCONTRAM O SALVADOR |
Este
capítulo quer mostrar a missão de Jesus que
se concentra na salvação dos pagãos,
aqui representados pelos magos. O texto indica o cumprimento
das profecias messiânicas em Jesus e também
aponta a escolha ou a negação dele.
O
versículo 1 põe em cena os principais personagens:
Jesus e Herodes, Jerusalém e Belém.
Já
no versículo 2 os magos chamam Jesus de “rei
dos judeus”, que querem adorar. Ele
não é um rei violento, prepotente e politiqueiro
como Herodes, o idumeu, lacaio do poder opressor romano,
mas um recém-nascido que tem suas raízes no
poder popular, isto é, é Rei à semelhança
do rei Davi. De fato, Mateus destaca que a salvação
não vem de Jerusalém, onde mora o tirano,
mas de Belém, cidade do pastor Davi.
O
versículo 6 reúne dois textos bíblicos,
o de Miquéias 5,1 e o de 2 Samuel 5,2, os quais situam
o nascimento do rei dos judeus em Belém e caracterizam
a função desse rei: um chefe que apascentará
o povo de Israel. A salvação, portanto, não
vem da ação violenta dos poderosos, nem da
falsa religião patrocinada pelos líderes religiosos
a serviço do prepotente Herodes, mas sim da periferia
de Jerusalém.
A
pergunta que os magos fizeram ao chegar em Jerusalém
contém uma definição importante sobre
Jesus. Ele é o “Rei
dos judeus”. A importância dessa
afirmação está ligada à identidade
messiânica de Jesus, que foi apresentada por ocasião
do seu ingresso triunfal em Jerusalém. Na ocasião,
Mateus lembra o oráculo messiânico de Zacarias
9,9 (Mateus 21,5), que permite identificar
Jesus como aquele que é reconhecido como Messias
na aclamação do povo: “Hosana
ao filho de Davi”. Este apelativo
volta outras vezes em Mateus para mostrar a mansidão
de Jesus, isto é, a sua identidade de pacífico
que se preocupa com os sofredores e os últimos. Com
esse titulo o invocam os cegos para serem curados (Mateus
9,27; 20,30-31), suplica a cananéia a cura
de sua filha endemoniada (Mateus 15,22),
saúdam-no as crianças no Templo (Mateus
21,14), usa-o o povo no ímpeto da admiração
(Mateus 12,33), e com esse título
será apresentado Jesus crucificado (Mateus
27,37).
A
referência indireta pode ser percebida na afirmação
dos magos: “Vimos uma
estrela”. É uma referência
a Números 24,17, no qual Balaão pronuncia
o seu oráculo de bênção sobre
Israel. Balaão, assim como os magos, vem do Oriente,
tem poderes mágicos e foi enviado por Barak, rei
de Maob, para amaldiçoar os israelitas acampados
em seu território. Balaão sente, porém,
um impulso interior para abençoar em vez de amaldiçoar,
e diz que viu uma estrela que desponta de Jacó e
um centro que surge em Israel. Esta profecia coloca-se em
relação com o nascimento de Jesus em Belém.
Além
desta referência, a estrela também desempenha
uma função na narração. É
um simples elemento natural e, olhando para ela, os magos,
pagãos, colocam-se a caminho para encontrar o Salvador.
Como Paulo dirá em Romanos 1,19-20; 2,14-15, a criação
é um livro aberto diante dos pagãos para que
cheguem ao conhecimento de Deus. Porém, os magos
não podem encontrar o Salvador apenas com a indicação
da estrela. Assim, a parada em Jerusalém representa
para eles o encontro com as Escrituras. Ali lhes virá
comunicar a profecia (Miqueias 5,1; Mateus 2,6).
Não é possível chegar a um autêntico
conhecimento do Cristo sem o encontro com as Escrituras,
que anunciaram e prepararam a sua vinda.
Em
Jerusalém, a busca dos magos tem um salto de qualidade.
Ali encontram o indispensável para encontrar e reconhecer
o Messias. Por outro lado, este fato nos mostra um paradoxo,
próprio daqueles que têm as Escrituras nas
mãos: os sacerdotes, os escribas e os judeus não
reconhecem o Messias, enquanto os pagãos sim. O paradoxo
é real. É a situação da evangelização
pós-pascal que se reflete na narração
de Mateus.
No
centro do relato está a citação de
Miqueias 5,1, ligeiramente reelaborada por Mateus e com
o acréscimo no final de um dístico tomado
de 2 Samuel 5,2. Na carta de identidade do Messias, o lugar
do nascimento tinha importância máxima, aliás,
não podia apresentar-se como Messias quem não
tivesse origem betlemita. Colocar Belém na origem
da sua narração equivale para Mateus a oferecer
uma prova incontestável da realeza e messianidade
de Jesus. As citações antigas foram reelaboradas
por Mateus de maneira a colocar em evidência duas
características: Chefe e Pastor. Estas eram justamente
as qualidades de Davi. Jesus é o verdadeiro Messias,
porque, além da proveniência de Belém,
possui também as qualidades do fundador da dinastia.
O
evangelista ressalta que os magos foram tomados por uma
grande alegria, um sentimento previsto para os tempos messiânicos
(Sofonias 3,14; Zacarias 9,9), e deste
sentimento participam os pagãos. Tanto Mateus como
Lucas destacam a presença de Maria, enquanto José,
que segundo Mateus é o protótipo do judeu
justo (Mateus 1,19), não é
lembrado.
A
adoração dos magos, com a prostração,
era um gesto de homenagem máxima aos personagens
de grandíssimo nível. É o significado
do reconhecimento da divindade de Jesus.
No
que diz respeito aos presentes oferecidos – ouro,
incenso e mirra –, eles fazem parte dos costumes orientais
que previam a oferta de presentes numa visita de cortesia.
O ouro de Ofir era muito procurado, assim como o incenso
da Arábia. Da mesma forma era muito apreciada a mirra
da Etiópia. A tradição que associa
os três dons à realeza, divindade e sofrimento
de Jesus é do tempo de Irineu de Lião e foi
acolhida e cultivada pelos textos litúrgicos, mas
não há certeza de que tenha sido esta a idéia
de Mateus. É melhor limitar-se ao fato de que esses
dons ressoam o texto de Isaias 50,5-6, que descreve dons
universais. O certo é que Mateus usa o texto do Antigo
Testamento para evidenciar o cumprimento das profecias messiânicas.
Com
a presença de Herodes delineia-se o tema de Jesus,
novo Moisés, perseguido por um tirano, novo faraó.
O autor da verdadeira infância análoga à
do primeiro libertador e legislador.
O
texto termina mostrando que o caminho da salvação
não passa por Jerusalém, e menos ainda tem
a ver com o aparato político repressor do despótico
Herodes. Os magos voltam para casa por outro caminho, rompendo
com Herodes e Jerusalém. O texto diz que foram avisados
em sonhos. Foi uma intuição profunda, iluminada
pela presença do Messias que adoraram.
|
REFLEXÃO |
| Se
observarmos bem, um fio liga as leituras do Salmo responsorial
de hoje e toda a liturgia da Epifania.
1º)
A salvação é para
todos os povos, coisa que para nós pode parecer
uma banalidade, mas não era para Paulo; esta é
um mistério de Deus revelado. Mistério revelado
pelo Terceiro Isaías, que vê Jerusalém
como cidade mãe da nossa Aliança: “Te
adorarão, Senhor, todos os povos da Terra”
(Salmo 71). No Evangelho os magos são
as primícias dos povos que chegam a Jesus.
2º) A
evangelização, isto é, a adesão
a Jesus Cristo comporta a aceitação da cruz,
a negação do poder do “stablishment”
judaico.
3º) Todos
os povos são chamados a caminhar na Luz. Esta profecia
de Isaías parece uma miragem no nosso tempo de
confusão. Contudo, este é o desejo de Deus
evidenciado na Epifania. É preciso buscar antes
de tudo um empenho pela unidade, rezando para que tudo
não se resuma apenas à concórdia
e ao bom entendimento.
Jesus
pediu ao Pai a unidade dos que Nele crêem modelada na
comunhão divina da Trindade, pela qual Ele e o Pai,
na unidade do Espírito Santo, são uma só
coisa (João 17,20-21). Esta é
uma meta que só pode ser atingida com a ajuda divina,
daí a necessidade da oração. Além
disso, é preciso um empenho ativo para conhecer os
problemas, debatê-los, valorizando o diálogo
respeitoso, e neste caminho corajoso para a unidade ter a
lucidez e a providência da fé que nos impõe
evitar o falso “irenismo”
e a não observância das normas da Igreja. Finalmente,
a estrada para a unidade não pode ser concretizada
sem a capacidade que é a confiança, a paciência,
o encorajamento, a alegria e o amor.
O
evangelho de Mateus que ouvimos é permeado pelo gênero
“Midrashico”,
isto é, por uma meditação eficiente sobre
um texto sagrado do Antigo Testamento. É uma reinterpretação
do texto bíblico aplicado ao presente. Por isso, a
presença dos magos, mais do que um dado histórico,
é vista com um significado moral.
A
vinda dos magos à Palestina é pelo lado histórico
algo admirável, pois os hebreus viviam em todos os
lugares do Oriente e nada impede que os magos, membros da
aristocracia oriental e dedicados ao estudo religioso-astrológico,
estivessem ao par das expectativas messiânicas israelitas.
Por outro lado, era viva naquele tempo em todo o mundo a expectativa
de um Salvador, por isso é possível que uma
caravana de magos tivesse ido à Judéia à
procura do Salvador.
A
estrela é interpretada não tanto como um fenômeno
natural, mas como um símbolo teológico da vontade
divina ou da realeza do recém-nascido. Certamente,
as coisas aconteceram em tom menor do que aquilo que Mateus
apresentou, pois ele quis destacar Belém como o lugar
profético do nascimento do Messias, assim como a atitude
de negação e de indiferença dos representantes
do povo e também para apresentar Jesus na sua realidade
transcendente, anunciada por Isaías 60 e realizada
historicamente nos três dons dos magos.
A
fé nos faz encontrar o Salvador, Jesus Salvador, que
reúne todos os povos sem distinção. Assim
também o período natalino tem a tarefa de nos
mostrar o mistério do amor infinito de Deus na pessoa
de Cristo. Por isso, hoje a liturgia nos convida a responder
a este amor universal de Deus e cooperar com ele.
Na
primeira leitura, o profeta da escola isaiana revela o desejo
divino de reunir todos os povos no Reino, superando a barreira
do ódio e a divisão. O hagiógrafo, ao
escrever esta idéia, provavelmente estava sendo tomado
por um sol brilhante sobre Jerusalém, um grande espetáculo
cheio de contraste diante dos vales que circundam a cidade
ainda tomados pelas sombras e os muros de Jerusalém
já iluminados pelos reflexos do sol. Assim, ele transportou
este fato natural e visual para a descrição
da cidade santa sob a ação vivificante de Javé
como luz para toda a humanidade.
A
Epifania é a festa da pré-evangelização,
seja porque se verifica antes da vida pública de Jesus,
seja porque os protagonistas se colocam fora da estrutura
explícita da salvação.
Os
magos eram homens sábios e se deram conta de que lhes
faltava algo na vida, e chegaram à conclusão
de que o que lhes faltava estava em Deus. Por isso o procuraram
através dos sinais e assim iniciaram uma caminhada
difícil pelo deserto, cheia de obstáculos, viagem
feita com a mente e o coração sedento de salvação,
e assim saborearam a felicidade ao ver o rosto de Deus. Como
os magos, devemos procurar a Deus.
Tagore,
para exemplificar a nossa tarefa de buscar a Deus, conta que
numa manhã um grupo de ascetas se dispuseram a procurar
a Deus pelas estradas sem nem mesmo se aperceber das pessoas
que nela encontravam. Já era meio-dia e estavam firmes
na busca, e assim o tempo passava e mais eles se esforçavam.
Um deles, cansado de tanto caminhar, ao ver um pastor dormindo
tranqüilo à beira da estrada, parou e deitou-se
à sombra, ao lado do pastor. Os companheiros irrequietos
insistiram com ele para prosseguir o caminho, e por fim o
deixaram e continuaram buscando a Deus. A sombra, a paz e
a meditação difundiram-se no coração
daquele asceta, de forma que, quando ele acordou, viu Deus
ao longo da estrada e exclamou: “Deus,
eu pensava que o caminho fosse longo e cansativo, que a caminhada
para chegar até vós era dura. Eu imaginava encontrá-lo
ao longo das estradas a percorrer, mas estás tão
perto do meu coração e da minha vida”.
Assim,
o nosso coração de filhos tem em si o fruto
do sangue de Deus. Na nossa carne estão as impressões
digitais do Criador, como a nossa vida tem uma bússola
do amor que a estrela de Deus não nos engana. Encontramos
a Deus na pessoa do irmão, e doamos Deus ao outro com
a nossa pessoa.
O
jovem Marcos Riva, antes de suicidar-se, escreveu este bilhete:
“Não peço
perdão pelo que fiz. Foi uma decisão meditada,
uma escolha precisa, a única alternativa que restava
para a minha vida, que era só de angústias,
dores, sem significado... Acho que cada um tem o direito de
dispor de sua vida. Há situações em que
é melhor morrer do que continuar com a vida que é
um inferno. Eu tinha muita vontade de viver, amar e ser amado.
Não foi a negação da minha vida, mas
a impossibilidade da minha vida, a minha realidade que me
fez escolher a morte. Tenho 20 anos e não permitirei
que ninguém diga que esta idade é a mais bonita
da vida. Gostaria que esta frase de Paul Nizon fosse escrita
na lápide do meu túmulo. “Hoje as trevas
cobrem a terra, são situações difíceis,
problemas materiais, desemprego, dificuldade de relações
de amizade, hostilidades... Falta de sentido para a vida,
desorientação dos valores... Tudo isso esvazia
o coração e a inteligência”.
Santo
Irineu tinha razão ao dizer que “a
Glória de Deus é que o homem seja pleno de vida
e a verdadeira vida é conhecer a Deus”.
Encontramos o verdadeiro sentido da nossa vida no coração
do Filho de Deus, como os magos. Por isso, “reconheçamos
nos magos que adoram Cristo as primícias da nossa vocação
na fé e celebremos cheios de alegria o início
da nossa esperança” (Leão
Magno).
Todo
homem possui em seu coração um potencial para
possuir a Luz de Deus e espalhá-la. Se numa praça
escura todos têm uma vela na mão, mas não
um fósforo para acendê-la, todos ficarão
na escuridão. Basta que alguém tenha um fósforo
e toda a praça pode transformar-se num mar de luz.
Por isso, devemos comunicar a nossa luz ao coração
do outro. A nossa luz pode ser um pontinho ínfimo,
mas produzirá efeito como o grande pintor Rafael ao
pintar Nossa Senhora de São Sisto. Ele não pensava
que aquela obra se tornaria causa da conversão de Zacarias
Weuner (1768-1823), que se converteu tornando-se
sacerdote, escritor e poeta, pois um dia, ao visitar a galeria
da pinacoteca de Dresdem, ficou fascinado com o olhar de Nossa
Senhora estampado naquela obra.
A
estrela do mundo antigo era identificada com alguma divindade
humana. Era o símbolo das rainhas e representava uma
série complexa de significados no mundo da astrologia.
No Evangelho adquiriu função simbólica
de luz, sinal, orientação. Os magos eram chefes
religiosos da antiga Pérsia (Irã),
que se dedicavam aos estudos astronômicos e à
prática da astrologia. Foi com base em alguns versículos
de Isaías 49,23 e do Salmo 71,10 que foram chamados
de reis. Eles simbolizam os sábios e chefes religiosos
do mundo antigo e não dos hebreus. O ouro, o incenso
e a mirra eram na antigüidade presentes trocados entre
os reis. Comumente tinham função alegórica
e de augúrio. Com o ouro se auguravam riquezas, preciosidade
solar, valor e poder. Com o incenso se indicava um futuro
de alegria, prazer e honras. Com a mirra desejava-se saúde,
beleza e um futuro feliz na imortalidade. “Os
magos com o incenso reconheceram Jesus como Deus, com o ouro
o aceitaram como rei e com a mirra exprimiram a fé;
aquele que deveria morrer” (Pedro
Crisólogo, PL 52,620.621).
Com
o reconhecimento de Jesus pelos magos, Deus se tornou visível
em Jesus. Para expressar melhor esta idéia, lembremos
que uma professora na sala de aula de religião pediu
a seus alunos que pensassem como desenhar ou esculpir Deus.
Eis as respostas:
Pedro
- “Eu pintaria Deus como
um homem muito alto e esbelto, porque Deus é semelhante
a nós, mas muito mais forte e maior”.
Ana
- “Eu pintaria Deus como
um rei, porque Ele governa todo o mundo e todos os homens”.
Henrique
- “Eu pintaria Deus numa
folha com muitas pontas coloridas, para significar que Deus
é bonito e maravilhoso”.
Andréia
- “Eu não o pintaria.
Devolveria a folha em branco, porque Deus não pode
ser representado”.
Camila
- “Eu desenharia Jesus
Cristo, porque Deus veio a nós na sua pessoa. Quem
vê Jesus vê a Deus”.
A
catequista achou todas as respostas interessantes. Todas exprimiam
uma qualidade de Deus: força, grandeza, beleza, proteção...
Mas a resposta mais bela foi a de desenhar Jesus.
Uma
menina estava desenhando com um giz e sua mãe perguntou-lhe:
“O que está desenhando
de bonito?”. “Estou
desenhando Deus”, disse a menina. “Mas
Deus ninguém nunca viu”, respondeu
a mãe. “É
verdade, respondeu-lhe, que ninguém viu a Deus, mas
Jesus é o seu Filho, por isso Ele é semelhante”.
Deus
é uma luz inextinguível, conta-nos um velho
patriarca que estava contemplando o céu em frente de
sua tenda. Quando veio a noite, ele viu uma estrela brilhante
e disse: “Esta será
o meu senhor!”. Mas, quando a estrela
se escondeu, exclamou: “Não
amarei quem se esconde!”. Viu depois
a lua prateada despontar com sua luz branca iluminando a terra
e disse: “Esta será
o meu senhor!”. Porém, a luz
também desapareceu e ele disse novamente: “Se
este senhor desaparece, não saberei orientar o meu
caminho e me perderei”. Viu depois o
sol levantar-se glorioso, mas também este se escondeu,
e o patriarca concluiu: “Voltarei
o meu rosto para aquele que fez o céu e a terra, e
não servirei outro além Dele. Ele é a
Luz que não conhece ocaso”.
Na
liturgia de hoje, Mateus narra e interpreta um acontecimento
de Jesus em forma de “Midrash
haggádico”, isto é,
enriquece a narrativa com referências e citações
do Antigo Testamento. O dado da estrela vista pelos magos
é uma referência à estrela de Jacó
profetizada por Balaão, um pagão não
judeu (Números 24,17). A estrela de
Balaão passou na tradição judia a ser
a estrela de Davi com um sentido nacionalista.
É
importante lembrar que o evangelho de Mateus é datado
dos anos 80 d.C., após a destruição de
Jerusalém e do Templo por Tito (ano 70),
quando a ruptura entre a Sinagoga judaica e a Igreja cristã
já estava consumada e nas comunidades já se
conhecia a eclesiologia e a cristologia de Paulo. Portanto,
os magos representam os pagãos que aceitaram a fé
em Jesus, enquanto as autoridades religiosas o recusam. Para
Mateus, Jesus é o Messias, rejeitado pelos judeus e
aceito pelos pagãos que constituíram o novo
povo de Deus.
Na
verdade, os temas do nascimento e da infância de Jesus,
isto é, a sua origem, foram incluídos no anúncio
da catequese da fé, por um lado, em razão da
reflexão das primeiras comunidades cristãs que
à luz da Páscoa questionavam a origem de Jesus
e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento principalmente
entre os cristãos de origem judaica que viviam a tensão
inicial com a Sinagoga; por outro lado, em razão das
polêmicas cristológicas suscitadas pelos agnósticos
sob a influência do platonismo e do docetismo por sua
aversão ao campo e à matéria que apresentavam
dificuldades sobre a humanidade de Cristo, Messias Filho de
Deus, isto sobretudo entre os cristãos convertidos
do paganismo ou dos gentios herdeiros da cultura helenista.
Diante disso, o Evangelho da Infância de Jesus em Mateus
e em Lucas colocam os sinais da messianidade e divindade de
Jesus conforme um gênero literário chamado “Midrash”,
um estilo freqüente na literatura semita de tradições
rabínica e sinagogal, que consistia em reelaborar ou
reinterpretar com liberdade um texto ou um fato, enriquecendo-o
com novas referências devido a uma finalidade didática
ou catequética. São referências simbólicas
e tipológicas, isto é, em conexão com
os fatos, situações ou pessoas do Antigo Testamento,
em particular Adão, Jacó, Moisés, a saída
do Egito, Davi, Salomão...
Portanto,
aqui a intenção do evangelista não é
escrever história, mas transmitir um testemunho de
fé na história da salvação realizada
em Cristo a partir do “kerigma”.
Isto não quer dizer que o Evangelho da Infância
seja um mito enriquecido com referências históricas
ou profecias antigas. Há um fundo histórico
(Jesus, José, Maria,
Herodes...), assim como detalhes cronológicos
(a dominação romana)
e geográficos (Belém,
Nazaré...), e neste fundo básico
está a intencionalidade teológica e o significado
messiânico e salvador de Jesus. Embora o Anjo do anúncio,
sonhos e aparições, pastores, estrela, magos
etc. pertençam ao gênero literário midrástico,
isso não afeta o conteúdo essencial da revelação,
que continua sendo a encarnação de Jesus, Filho
de Deus, no seio de Maria, o seu nascimento e a sua vida na
Palestina, a sua messianidade e divindade e o cumprimento
das profecias à universalidade da salvação,
a sua solidariedade com a humanidade etc.
Muitos
em Belém viram Jesus como uma simples criança.
Os magos, ao contrário, viram nele o Menino Deus esperado.
Por isso, foram os primeiros entre os gentios a adorá-lo.
Encontraram Deus na normalidade da vida. Por isso o adoraram
como o Messias, o mesmo Deus que encontramos na Eucaristia.
Os
magos lhe ofereceram seus presentes. Também nós
devemos oferecer-lhe o ouro fino de nossas boas ações,
o incenso, isto é, nossos desejos que sobem até
ao Senhor de levar uma vida nobre da qual se desprende o perfume
de Cristo (2 Coríntios 2,15), isto
é, com a prática da justiça, fidelidade,
generosidade, alegria... Como os magos, devemos oferecer-lhe
também a mirra, que se traduz em pequenos sacrifícios
como sorrir para quem nos aborrece, suprimir o supérfluo,
ouvir o outro etc. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
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