Este
é o único trecho em que o apóstolo Paulo
nomeia a Mãe de Jesus. Ele vê em Jesus o “sêmen
da mulher”, e particularmente da luta
contra o mal. Para os exegetas, este trecho expressa a realidade
histórica da encarnação. É um
texto cristológico e não mariológico.
É
indicado o advento de Cristo ao mundo, como princípio
de nossa liberdade espiritual e de nossa adoção
divina.
O
tempo (eôn) de que Paulo fala
é o tempo estabelecido por Deus para a realização
de nossa salvação. Quando enviou a plenitude
(pleroma), Deus enviou (exapesteilen),
mandou para fora, de junto de si, o seu Filho de natureza
divina para assumir através de uma mulher a condição
humana sujeita ao pecado e à Lei. Aqui teve início
uma nova fase da história da salvação.
O tempo de espera terminou, pois o Filho de Deus, com sua
encarnação, deu início ao novo tempo.
O
objetivo da encarnação é duplo:
1)
Negativo:
Para resgatar os que estavam sob a escravidão da
lei (1 Coríntios 1,30,6.20; Romanos 3,24;
Colossenses 1,14).
2) Positivo:
Para dar a liberdade e a dignidade de filhos de Deus (niothesia),
que é puro dom de Deus. A prova desta adoção
é a experiência do Espírito que os
que crêem fazem dele. O Espírito suscita
neles a oração Abba (Marcos 14,36).
Como
filhos de Deus pelo resgate da escravidão da Lei, tornamo-nos
co-herdeiros dos mesmos bens que o Pai estabeleceu para seu
Filho (Romanos 8,17). O apóstolo Paulo
usa as palavras do seu tempo para esta comunidade, onde alguns
missionários judeus pretendiam impor as práticas
judaicas, como a circuncisão. Por isso emprega palavras
como herdeiro, escravo, filho... Também utiliza as
categorias de tempo e idade: passado e presente, menoridade
e maioridade. Para Paulo, o passado é o tempo em que
o povo estava na menoridade, era escravo apesar de herdeiro.
Assim era o povo do Antigo Testamento, assim eram os gálatas
antes de conhecer Cristo e assim éramos nós
antes do Batismo. Porém Deus marcou o tempo de nossa
emancipação, de nossa maioridade, em que nos
tornamos filhos e tomamos posse de nossa herança. Por
isso não existe mais uma relação de patrão
e escravo, mas de pai e filho. Voltar atrás é
voltar a ser escravo, é jogar fora a herança,
é desprezar a graça de Deus.
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Depois
que os anjos comunicaram aos pastores a notícia alegre
do nascimento de Jesus, afastaram-se e deixaram que os pastores
divulgassem a boa nova. Os pastores foram às pressas
a Belém, o que indica o estado de ânimo deles,
e se tornaram imediatamente os anunciadores da salvação.
O pasmo dos pastores ao receber a notícia não
foi um maravilhamento diante de algo insólito, mas
a percepção de que se encontravam diante de
um mistério intransponível para os sentidos
e a razão que só podia ser aceito pela fé.
O
anúncio aos pastores mostra a opção de
Deus pelos marginalizados, e os pastores o eram. Eram mal
vistos porque não respeitavam as propriedades, invadindo-as
com seus rebanhos, e cobravam preços altos por seus
produtos. Segundo o Talmude babilônico, um pastor não
podia ser eleito para cargos, nem ser juiz ou testemunhar
nos tribunais, por causa de sua má fama.
Os
pastores reconheceram o menino como o Salvador, pois nasceu
como qualquer um deles ou de seus filhos e falava a linguagem
deles.
Maria,
diante deste fato, guarda e medita tudo em seu coração.
Ela discerne a presença de Deus nos fatos e interpreta
a ação de Deus nos acontecimentos obscuros.
Resgata a memória da solidariedade de Deus na caminhada
do povo no passado e no presente. Neste sentido ela é
exemplo para todas as pessoas ativas e contemplativas ao mesmo
tempo.
O
último versículo destaca os acontecimentos da
conversão e a imposição do nome a Jesus.
A
circuncisão era um sinal, que significava a aliança
de Deus com Abraão (Gênesis 17).
Era o sinal de pertença ao povo eleito. A imposição
do nome era a expressão do compromisso que cada israelita
assumia com a circuncisão em relação
a Deus e ao seu povo. A circuncisão, feita após
oito dias, era uma determinação da Lei (Lucas
1,31). O nome Jesus (Javé salva),
que fora comunicado a Maria pelo anjo (Lucas 1,31),
exprimia a missão de Jesus que Deus lhe estabeleceu
desde a eternidade (Mateus 1,21)
Com
a circuncisão, Deus mostra sua solidariedade conosco.
Com ela Jesus assume os valores de sua gente. O nome que ele
recebeu era, na mentalidade semita, a carteira de identidade
da pessoa. |
| Nossa
liturgia, depois de nos ter indicado o modo de dar um sentido
e um conteúdo religioso a nossos cumprimentos do dia
de hoje, desenvolve a idéia de uma nova época
de bênção inaugurada pela encarnação
de Jesus através da disponibilidade de Maria, que soube
acolher a palavra que lhe foi dirigida.
Um
início de ano sempre traz o anseio de esperança
e apreensões sobre o que acontecerá pessoalmente
ou socialmente. A liturgia nos mostra que a bênção
de Deus nos espera no novo ano, pois desde o início
da humanidade o homem é objeto das bênçãos
divinas (Gênesis 1,28). Deus deu a
benção a Abraão destinando-a à
terra toda (Gênesis
12,3).
Deus nos enviou seu Filho para nos abençoar (Atos
dos Apóstolos3,26). Jesus abençoava
as crianças e os doentes, e depois de sua Ascensão
continua abençoando a sua Igreja (Efésios
1,3), e continuará a fazê-lo até
o dia em que disser: “Venham,
benditos de meu Pai” (Mateus
25,34).
Deus,
ao abençoar uma pessoa, toma-a sob sua proteção
e defende sua vida. “Mesmo
que tiver que caminhar por vales tenebrosos não temerei,
porque o Senhor está comigo”
(Salmo 22,4). O Senhor volta para nós
a sua face, isto é, olha-nos com um rosto amigo e nos
ama dando-nos a paz, o dom maior que devemos desejar a todos.
Neste
primeiro dia do ano, além da referência ao nascimento
de Jesus, que dá sentido a este tempo litúrgico,
existe uma outra ligação, pois junto com o Emanuel
aparece uma mulher, que foi protegida desde o início
da história humana: “Porei
inimizades entre você e a descendência dela”
(Gênesis 3,15). Maria nos deu Jesus,
permitindo que Deus nascesse no tempo e viesse intervir pessoalmente
na história dos homens. É certo que Jesus nasceu
na eternidade. Nasceu do Pai “antes de todos os séculos,
gerado e não criado, da mesma substância do Pai”,
mas, ao se fazer homem, nasceu no tempo no seio de Maria.
Assim, quando pensamos no mistério da encarnação,
devemos pensar necessariamente em Maria.
Depois
de ter concentrado nossas atenções em Jesus
no período natalino, a Igreja quer neste primeiro dia
do ano fixar suas atenções em Maria, para festejar
sua maternidade divina. De fato, ao contemplar esta criança
no mistério da encarnação, não
se pode separá-la de Maria. Assim, depois de ter contemplado
o Menino no presépio e de ter reconhecido nele o Verbo
feito carne, o Salvador da humanidade, queremos agora voltar
nosso olhar para a Mãe do Menino e reconhecer nela
a Mãe de Deus (Theotokos). Na verdade,
quando a Igreja proclamou Maria como Theotokos, teve a intenção
de garantir o mistério da encarnação.
Garantir a unidade pessoal de Jesus Deus e homem, unidade
tal que a maternidade de Maria em relação a
Jesus era por isso mesmo maternidade em relação
ao Filho de Deus. Maria é Mãe de Deus, porque
Jesus é Filho de Deus. É Mãe não
apenas na ordem da geração humana, mas, como
Jesus é o Filho de Deus, ela é também
Mãe de Deus.
A
maternidade de Maria nos mostra que o Verbo, Pessoa divina,
tornou-se homem pelo consórcio de uma mulher e pela
obra do Espírito Santo. Uma mulher foi associada ao
mistério da vinda do Salvador ao mundo. Graças
a Maria, o nascimento de Jesus é um verdadeiro nascimento
e sua vida na terra torna-se semelhante à de todos
os homens.
O
título de Mãe de Deus põe em evidência
a encarnação, mas também a dignidade
suprema de Maria. Assim, os que acreditam que Jesus é
o Filho de Deus não podem deixar de crer que Maria
é Mãe de Deus.
Só
o título Mãe de Deus nos coloca diante de um
mistério surpreendente: o Filho que é Deus na
eternidade e em sua divindade, que foi gerado só pelo
Pai, introduziu-se no mundo nascendo de uma mulher. Esta mulher
recebeu dele uma dignidade incomparável, pois ela é
mãe daquele que é Deus. É uma grandeza
que o espírito humano jamais poderia imaginar para
uma criatura. Daí se compreende porque no século
V surgiu uma controvérsia sobre este assunto. Quando
a invocação Theotokos já estava difundida
e havia entrado no uso da piedade cristã, alguns teólogos
tiveram uma certa dúvida sobre esta idéia difundida
e tentaram frear o movimento, afirmando que Maria era mãe
só do homem Jesus e não se podia qualificá-la
como Mãe de Deus. O Concílio de Éfeso
condenou esta posição e declarou solenemente
Maria como Theotokos. Justamente porque Jesus é o Filho
de Deus encarnado em seu seio virginal, ela é Mãe
deste Filho de Deus e por isso Mãe de Deus.
A
dignidade concedida a Maria mostra até que ponto Deus
levou a reconciliação do homem com ele. Devemos
lembrar que, depois do pecado, Deus assegurou que faria uma
aliança com uma mulher para assegurar a vitória
sobre o inimigo (Gênesis 3,16). A mulher
fora destinada a tornar-se aliada de Deus na luta contra o
Demônio. Ela seria mãe daquele que calcaria o
inimigo a seus pés.
O
descendente desta Mulher que concretiza o oráculo profético
não é simplesmente um homem. É um homem
graças a Maria, de quem é filho, mas ao mesmo
tempo é Filho de Deus. Assim, a aliança feita
entre Deus e a Mulher assume nova dimensão. Maria entra
nesta aliança como Mãe do Filho de Deus. No
lugar da imagem da mulher que pecara, Deus fez surgir uma
mulher perfeita, que recebe uma maternidade divina, elevando-a
a uma altura inatingível.
Ficamos
pasmados ante o fato de que uma mulher tenha colocado no mundo
aquele que é Deus, que tenha recebido a missão
de educá-lo como qualquer mãe faz com seu filho.
Maria foi uma educadora admirável, pois Jesus lhe era
submisso, e isto indica que a presença materna de Maria
influiu profundamente no desenvolvimento humano do Filho de
Deus.
O
Filho de Deus, ao se rebaixar para tornar-se carne e ser igual
ao homem em tudo, menos no pecado, elevou a humanidade ao
nível de Deus. Com Jesus encarnado Deus não
só restabeleceu a integridade e pureza da vida do homem,
mas também lhe comunicou uma vida divina e lhe abriu
pleno acesso à familiaridade do homem com ele.
Por
isso, Maria nos faz compreender a grandeza do amor divino.
Ela nos introduziu na obra divina, na qual Deus não
se limitou a curar a humanidade das chagas do pecado, mas
nos deu um destino superior de união íntima
com ele.
Maria
é a Senhora, cheia de graças e de virtudes,
Mãe de Deus e nossa Mãe. É a mais excelsa
de todas as criaturas, a bendita, a “cheia
de graça”, aquela que todas as
gerações chamarão bem-aventurada. Ela
ocupa depois de Cristo o lugar mais elevado e mais próximo
de nós, em função de sua maternidade
divina. Ela, pela graça de Deus, depois de seu Filho,
foi exaltada sobre todos os anjos e todos os homens. Por ela
chegaram ao seu cumprimento os oráculos dos profetas
que anunciaram a vinda do Messias e, permanecendo virgem,
o gerou.
Como
homem Jesus nasceu, “foi
feito” de Maria. Por isso São
Cirilo dizia: “Muito me
admira que haja alguém que tenha alguma dúvida
de que a Virgem Santíssima deva ser chamada Mãe
de Deus. Se Jesus é Deus, por que a Santíssima
Virgem, que o deu à luz, não há de ser
chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que
os discípulos do Senhor nos transmitiram, ainda que
não tenham empregado esta expressão”.
Quando
Maria disse Sim ao desígnio que Deus lhe revelou, o
Verbo divino assumiu a natureza humana, com uma alma racional
e um corpo formado no seio de Maria. A natureza humana e a
divina se uniram numa única pessoa: Jesus Cristo verdadeiro
Deus e verdadeiro Homem.
Sua
maternidade é perpétua, para sempre, pois, ao
ser elevada aos céus, não deixou essa missão
salvadora. Continuou obtendo junto de seu Filho a nossa salvação.
Com seu amor materno cuida de seus filhos que ainda peregrinam
na terra.
“Conhecendo
Cristo, alimentando-o, apresentando-o ao Pai no templo, padecendo
com ele na Cruz, cooperou com a obra do Salvador mediante
sua obediência na fé”
Visto
que Maria deve ser considerada o caminho pelo qual chegamos
a Cristo, quem a encontra não pode igualmente deixar
de encontrar o Cristo. O povo cristão sempre teve a
convicção de que se chega a Deus através
de Maria.
Hoje
também lembramos o primeiro dia do ano. Isto significa
que o tempo passa, mas devemos aprender a contar os tempos
eternos, pois com a encarnação de Jesus Deus
operou em nós um enxerto de absoluto, de eternidade,
fazendo com que tenhamos um pedaço da eternidade. O
Menino que hoje recebe o nome de Jesus, ou seja, de Salvador,
injetou em nossa história a dádiva divina, a
possibilidade de o homem progredir na eternidade e sentir-se
eterno.
Começar
um novo ano é recomeçar a viver a ânsia
da esperança, pois todos aguardamos tempos melhores,
e a liturgia mostra que no novo ano Deus quer continuar derramando
sua bênção sobre nós, pois desde
o início o homem é objeto da bênção
de Deus.
O
início de um novo ano sempre foi celebrado com solenidade
pelos povos em todas as religiões, porque está
ligado ao mistério das origens do mundo e do homem.
Para nós, esta comemoração lembra a bênção
de Deus dada a todos os seres criados na origem e depois derramada
constantemente sobre o povo ao longo da história da
salvação. Deus enviou seu Filho para nos abençoar.
Como
hoje é comemorado o dia mundial da Paz, a Igreja nos
convida a iniciar este ano com a bênção
de Deus, a viver a paz, que não é fruto da ausência
de guerra, mas da presença pascal de Cristo na história,
em que os outros não são vistos como inimigos
a serem combatidos, mas como irmãos a serem amados,
colaborando assim para que surja um mundo mais justo, numa
nova dimensão de relacionamento.
A
paz é para os cristãos um edifício a
ser construído sempre. É um bem supremo. Na
missa rezamos “Paz na
terra aos homens de boa vontade”, e
Jesus disse que são bem-aventurados os promotores da
paz. Antes da comunhão repartimos a paz num gesto de
fraternidade. No término ecoa em nossos ouvidos a saudação
final: “Ide em paz e o
Senhor vos acompanhe”. A paz é
fruto da obra de justiça, e não efeito de uma
dominação despótica, nem deve ser reduzida
a um equilíbrio estável das forças adversas.
Por isso, conquistar a paz exige de cada um de nós
um domínio constante das paixões. A paz também
é fruto do amor.
Portanto,
a liturgia de hoje nos convida, no meio de tanto barulho em
nossa vida, a fazer um silêncio, um vazio dentro de
nós, como Maria fez, e em seu silêncio Deus falou
e ela concebeu o próprio Deus. Maria se apresenta a
nós hoje como aquela que oferece Deus ao mundo.
Ao
longo deste ano que apenas iniciamos, procuremos imitar o
exemplo do famoso escritor Dostoyevski, que passava horas
e horas contemplando um famoso quadro de Nossa Senhora numa
galeria, porque, segundo ele, contemplar aquele quadro o ajudava
a não perder as esperanças na humanidade. Também
nós olhemos para Maria, a única que não
decepcionou Deus, a criatura pela qual Deus chegou até
nós.
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