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ANO A - São Mateus
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
Tempo do Natal
EPIFANIA DO SENHOR
02 de Janeiro de 2011

Primeira Leitura
Isaías
60,1-6
TODAS AS NAÇÕES VIRÃO ADORAR O SENHOR

Na primeira parte deste texto, o autor se refere de um lado a toda a terra com as nações envolvidas na escravidão, símbolo da negação de Deus. De outro, temos Jerusalém cheia de glória, o farol das nações, que representa a presença de Deus. A segunda parte descreve o destino da Jerusalém futura, para a qual todos os povos são atraídos por sua luz.

O texto é um apelo cheio de entusiasmo, um verdadeiro grito de alegria. Embora o destinatário não seja explicitado no texto, podemos dizer que é Jerusalém, partindo da análise de alguns textos de Isaías que falam de uma mulher em aflição que é convidada a trocar de roupas devido ao fim do luto e início de uma nova situação (Isaías 49,18; 51,17; 52,1; 54,1).

A situação de Jerusalém era desanimadora. Estamos no período do pós-exílio babilônio em 538 a.C. (Esdras 1,1-4; 6,3-5). Tudo está para ser reconstruído com grandes dificuldades. A situação de pobreza é grande (Zacarias 3; AG 1-2), com a hostilidade dos samaritanos (Esdras 4; Neemias 4–5). Jerusalém está prostrada por causa da diminuição da sua população, da falta de recursos, da dominação estrangeira (persas). Estava envolvida na escuridão.

Diante disso, o profeta suscita o ânimo do povo anunciando que Javé não abandonou a cidade e, por causa do seu amor fiel, Jerusalém será transformada em ponto de convergência das nações. O próprio Javé, como esposo, vai ornamentá-la com esplendor, torná-la fecunda. Ela se tornará uma referência universal, um farol, uma torre que lança a luz que orienta. Ela surgirá como o sol que se levanta para os povos, a fim de orientá-los. A sua universalidade não é representada apenas pela pluralidade, isto é, pelo número de povos iluminados e colocados em movimento, mas também em sentido qualitativo, do maior ao menor. Seus reis também estarão na frente dos povos.

Javé continua sendo o esposo de Jerusalém e a adorna de esplendor, torna-a fecunda em filhos e rica em presentes. Jerusalém será uma só luz resplandecente, enquanto o mundo vive nas trevas. “O sol não surgirá mais no Oriente, mas nela, porque Javé, com a sua presença, é o seu próprio esplendor”.

Depois de descrever o esplendor de Jerusalém, o profeta convida o povo a levantar-se e contemplar a romaria que se dirige a ela, tornando-a mãe de muitos filhos, e os primeiros a se dirigir a essa cidade iluminada são os filhos do exílio (Isaías 49,18; Baruc 5,5-6), que nas extremidades chegam com seus presentes. Eles não conhecem o cansaço, e as mulheres mais frágeis são carregadas no colo. Todos trazem a ela presentes que a comovem. São as riquezas do mar que vêm do Oeste, da Fenícia e da Grécia (Salmo 72,10), da costa norte-ocidental, da Península Arábica, onde se encontram Madian e Efa (Gênesis 25,1-4), e do nordeste da Arábia, onde se encontra Saba, famosa por seu incenso (Jeremias 6,20) e por seu ouro (1 Reis 10,2; Ezequias 27,22), presentes que servirão para o culto no Templo.

A realização desta visão profética está prevista para os tempos messiânicos e Mateus a vê realizar-se com os magos.

Segunda Leitura
Efésios
3,2-3a.5-6

OS GENTIOS TAMBÉM SÃO CHAMADOS À SALVAÇÃO

Esta carta foi escrita por Paulo ou por um discípulo dele às várias comunidades da região. Se foi escrita por Paulo, foi durante a sua prisão em Roma entre 61 e 63 d.C. As cópias desses textos devem ter sido lidas nos grupos de cristãos de Éfeso e arredores. Paulo não conheceu esses grupos. Éfeso era um centro urbano importante da época, e Paulo esteve lá fundando a comunidade (Atos dos Apóstolos 19,20).

O apóstolo fala de “Mistério”, que quer dizer a revelação do plano de Deus realizado na prática e na pregação de Jesus, condensados naquilo que ele chama de “Evangelho” e através dele todos são chamados à vida e à liberdade trazidas por Jesus.

É deste Evangelho que Paulo se tornou anunciador missionário, dedicando-se à evangelização dos gentios, os quais pela adesão a Cristo não são mais estrangeiros, mas concidadãos do céu, membros da família de Deus.

Paulo foi destinatário da revelação, isto é, de um dom divino particular, que lhe abriu o acesso ao mistério, um plano secreto de salvação projetado e querido pelo Pai e proclamado pelo Evangelho (1 Coríntios 1,23; 2,2).

Este mistério de salvação deseja a separação de uma visão da humanidade segundo as coordenadas religiosas do hebraísmo que previam uma separação clara entre o povo eleito e o resto da humanidade, isto é, os pagãos. Entende-se esse mistério lendo Efésios 2,14-18. No centro do mistério está a reconciliação operada por Cristo, que elimina qualquer barreira em nível pessoal, que impede o homem de elevar-se até Deus, e em nível horizontal elimina o muro que impede a comunicação e a confraternização. Assim, o fruto do sacrifício de Jesus é o surgimento desta nova humanidade. Jesus se torna o ponto de encontro de todos os homens, o espaço vital desta comunhão.

As conseqüências da nova realidade operada em Cristo estão condensadas no versículo 6. Daí resulta que os pagãos são co-herdeiros, não apenas Israel e os judeus convertidos. Os pagãos são membros do mesmo corpo que é a Igreja. São participantes da promessa em Cristo, pois a salvação é um oferecimento gratuito de Jesus para todos sem distinção. Realiza-se assim a promessa feita a Abraão (12,39), pela qual todos entrariam na descendência do patriarca, participando de suas bênçãos. Basta para isso conferir a perspectiva universalista da salvação em Isaías 2,2-5; Miqueias 4,1-3; Isaías 42,1-4; 49,6; 56,6-8; 60,1-14; Zacarias 8,20-23.

Evangelho
Mateus
2,1-12
ESTRANGEIROS PAGÃOS (“MAGOS”) ENCONTRAM O SALVADOR

Este capítulo quer mostrar a missão de Jesus que se concentra na salvação dos pagãos, aqui representados pelos magos. O texto indica o cumprimento das profecias messiânicas em Jesus e também aponta a escolha ou a negação dele.

O versículo 1 põe em cena os principais personagens: Jesus e Herodes, Jerusalém e Belém.

Já no versículo 2 os magos chamam Jesus de “rei dos judeus”, que querem adorar. Ele não é um rei violento, prepotente e politiqueiro como Herodes, o idumeu, lacaio do poder opressor romano, mas um recém-nascido que tem suas raízes no poder popular, isto é, é Rei à semelhança do rei Davi. De fato, Mateus destaca que a salvação não vem de Jerusalém, onde mora o tirano, mas de Belém, cidade do pastor Davi.

O versículo 6 reúne dois textos bíblicos, o de Miquéias 5,1 e o de 2 Samuel 5,2, os quais situam o nascimento do rei dos judeus em Belém e caracterizam a função desse rei: um chefe que apascentará o povo de Israel. A salvação, portanto, não vem da ação violenta dos poderosos, nem da falsa religião patrocinada pelos líderes religiosos a serviço do prepotente Herodes, mas sim da periferia de Jerusalém.

A pergunta que os magos fizeram ao chegar em Jerusalém contém uma definição importante sobre Jesus. Ele é o “Rei dos judeus”. A importância dessa afirmação está ligada à identidade messiânica de Jesus, que foi apresentada por ocasião do seu ingresso triunfal em Jerusalém. Na ocasião, Mateus lembra o oráculo messiânico de Zacarias 9,9 (Mateus 21,5), que permite identificar Jesus como aquele que é reconhecido como Messias na aclamação do povo: “Hosana ao filho de Davi”. Este apelativo volta outras vezes em Mateus para mostrar a mansidão de Jesus, isto é, a sua identidade de pacífico que se preocupa com os sofredores e os últimos. Com esse titulo o invocam os cegos para serem curados (Mateus 9,27; 20,30-31), suplica a cananéia a cura de sua filha endemoniada (Mateus 15,22), saúdam-no as crianças no Templo (Mateus 21,14), usa-o o povo no ímpeto da admiração (Mateus 12,33), e com esse título será apresentado Jesus crucificado (Mateus 27,37).

A referência indireta pode ser percebida na afirmação dos magos: “Vimos uma estrela”. É uma referência a Números 24,17, no qual Balaão pronuncia o seu oráculo de bênção sobre Israel. Balaão, assim como os magos, vem do Oriente, tem poderes mágicos e foi enviado por Barak, rei de Maob, para amaldiçoar os israelitas acampados em seu território. Balaão sente, porém, um impulso interior para abençoar em vez de amaldiçoar, e diz que viu uma estrela que desponta de Jacó e um centro que surge em Israel. Esta profecia coloca-se em relação com o nascimento de Jesus em Belém.

Além desta referência, a estrela também desempenha uma função na narração. É um simples elemento natural e, olhando para ela, os magos, pagãos, colocam-se a caminho para encontrar o Salvador. Como Paulo dirá em Romanos 1,19-20; 2,14-15, a criação é um livro aberto diante dos pagãos para que cheguem ao conhecimento de Deus. Porém, os magos não podem encontrar o Salvador apenas com a indicação da estrela. Assim, a parada em Jerusalém representa para eles o encontro com as Escrituras. Ali lhes virá comunicar a profecia (Miqueias 5,1; Mateus 2,6). Não é possível chegar a um autêntico conhecimento do Cristo sem o encontro com as Escrituras, que anunciaram e prepararam a sua vinda.

Em Jerusalém, a busca dos magos tem um salto de qualidade. Ali encontram o indispensável para encontrar e reconhecer o Messias. Por outro lado, este fato nos mostra um paradoxo, próprio daqueles que têm as Escrituras nas mãos: os sacerdotes, os escribas e os judeus não reconhecem o Messias, enquanto os pagãos sim. O paradoxo é real. É a situação da evangelização pós-pascal que se reflete na narração de Mateus.

No centro do relato está a citação de Miqueias 5,1, ligeiramente reelaborada por Mateus e com o acréscimo no final de um dístico tomado de 2 Samuel 5,2. Na carta de identidade do Messias, o lugar do nascimento tinha importância máxima, aliás, não podia apresentar-se como Messias quem não tivesse origem betlemita. Colocar Belém na origem da sua narração equivale para Mateus a oferecer uma prova incontestável da realeza e messianidade de Jesus. As citações antigas foram reelaboradas por Mateus de maneira a colocar em evidência duas características: Chefe e Pastor. Estas eram justamente as qualidades de Davi. Jesus é o verdadeiro Messias, porque, além da proveniência de Belém, possui também as qualidades do fundador da dinastia.

O evangelista ressalta que os magos foram tomados por uma grande alegria, um sentimento previsto para os tempos messiânicos (Sofonias 3,14; Zacarias 9,9), e deste sentimento participam os pagãos. Tanto Mateus como Lucas destacam a presença de Maria, enquanto José, que segundo Mateus é o protótipo do judeu justo (Mateus 1,19), não é lembrado.

A adoração dos magos, com a prostração, era um gesto de homenagem máxima aos personagens de grandíssimo nível. É o significado do reconhecimento da divindade de Jesus.

No que diz respeito aos presentes oferecidos – ouro, incenso e mirra –, eles fazem parte dos costumes orientais que previam a oferta de presentes numa visita de cortesia. O ouro de Ofir era muito procurado, assim como o incenso da Arábia. Da mesma forma era muito apreciada a mirra da Etiópia. A tradição que associa os três dons à realeza, divindade e sofrimento de Jesus é do tempo de Irineu de Lião e foi acolhida e cultivada pelos textos litúrgicos, mas não há certeza de que tenha sido esta a idéia de Mateus. É melhor limitar-se ao fato de que esses dons ressoam o texto de Isaias 50,5-6, que descreve dons universais. O certo é que Mateus usa o texto do Antigo Testamento para evidenciar o cumprimento das profecias messiânicas.

Com a presença de Herodes delineia-se o tema de Jesus, novo Moisés, perseguido por um tirano, novo faraó. O autor da verdadeira infância análoga à do primeiro libertador e legislador.

O texto termina mostrando que o caminho da salvação não passa por Jerusalém, e menos ainda tem a ver com o aparato político repressor do despótico Herodes. Os magos voltam para casa por outro caminho, rompendo com Herodes e Jerusalém. O texto diz que foram avisados em sonhos. Foi uma intuição profunda, iluminada pela presença do Messias que adoraram.

REFLEXÃO

Se observarmos bem, um fio liga as leituras do Salmo responsorial de hoje e toda a liturgia da Epifania.

1º) A salvação é para todos os povos, coisa que para nós pode parecer uma banalidade, mas não era para Paulo; esta é um mistério de Deus revelado. Mistério revelado pelo Terceiro Isaías, que vê Jerusalém como cidade mãe da nossa Aliança: “Te adorarão, Senhor, todos os povos da Terra” (Salmo 71). No Evangelho os magos são as primícias dos povos que chegam a Jesus.
2º) A evangelização, isto é, a adesão a Jesus Cristo comporta a aceitação da cruz, a negação do poder do “stablishment” judaico.
3º) Todos os povos são chamados a caminhar na Luz. Esta profecia de Isaías parece uma miragem no nosso tempo de confusão. Contudo, este é o desejo de Deus evidenciado na Epifania. É preciso buscar antes de tudo um empenho pela unidade, rezando para que tudo não se resuma apenas à concórdia e ao bom entendimento.

Jesus pediu ao Pai a unidade dos que Nele crêem modelada na comunhão divina da Trindade, pela qual Ele e o Pai, na unidade do Espírito Santo, são uma só coisa (João 17,20-21). Esta é uma meta que só pode ser atingida com a ajuda divina, daí a necessidade da oração. Além disso, é preciso um empenho ativo para conhecer os problemas, debatê-los, valorizando o diálogo respeitoso, e neste caminho corajoso para a unidade ter a lucidez e a providência da fé que nos impõe evitar o falso “irenismo” e a não observância das normas da Igreja. Finalmente, a estrada para a unidade não pode ser concretizada sem a capacidade que é a confiança, a paciência, o encorajamento, a alegria e o amor.

O evangelho de Mateus que ouvimos é permeado pelo gênero “Midrashico”, isto é, por uma meditação eficiente sobre um texto sagrado do Antigo Testamento. É uma reinterpretação do texto bíblico aplicado ao presente. Por isso, a presença dos magos, mais do que um dado histórico, é vista com um significado moral.

A vinda dos magos à Palestina é pelo lado histórico algo admirável, pois os hebreus viviam em todos os lugares do Oriente e nada impede que os magos, membros da aristocracia oriental e dedicados ao estudo religioso-astrológico, estivessem ao par das expectativas messiânicas israelitas. Por outro lado, era viva naquele tempo em todo o mundo a expectativa de um Salvador, por isso é possível que uma caravana de magos tivesse ido à Judéia à procura do Salvador.

A estrela é interpretada não tanto como um fenômeno natural, mas como um símbolo teológico da vontade divina ou da realeza do recém-nascido. Certamente, as coisas aconteceram em tom menor do que aquilo que Mateus apresentou, pois ele quis destacar Belém como o lugar profético do nascimento do Messias, assim como a atitude de negação e de indiferença dos representantes do povo e também para apresentar Jesus na sua realidade transcendente, anunciada por Isaías 60 e realizada historicamente nos três dons dos magos.

A fé nos faz encontrar o Salvador, Jesus Salvador, que reúne todos os povos sem distinção. Assim também o período natalino tem a tarefa de nos mostrar o mistério do amor infinito de Deus na pessoa de Cristo. Por isso, hoje a liturgia nos convida a responder a este amor universal de Deus e cooperar com ele.

Na primeira leitura, o profeta da escola isaiana revela o desejo divino de reunir todos os povos no Reino, superando a barreira do ódio e a divisão. O hagiógrafo, ao escrever esta idéia, provavelmente estava sendo tomado por um sol brilhante sobre Jerusalém, um grande espetáculo cheio de contraste diante dos vales que circundam a cidade ainda tomados pelas sombras e os muros de Jerusalém já iluminados pelos reflexos do sol. Assim, ele transportou este fato natural e visual para a descrição da cidade santa sob a ação vivificante de Javé como luz para toda a humanidade.

A Epifania é a festa da pré-evangelização, seja porque se verifica antes da vida pública de Jesus, seja porque os protagonistas se colocam fora da estrutura explícita da salvação.

Os magos eram homens sábios e se deram conta de que lhes faltava algo na vida, e chegaram à conclusão de que o que lhes faltava estava em Deus. Por isso o procuraram através dos sinais e assim iniciaram uma caminhada difícil pelo deserto, cheia de obstáculos, viagem feita com a mente e o coração sedento de salvação, e assim saborearam a felicidade ao ver o rosto de Deus. Como os magos, devemos procurar a Deus.

Tagore, para exemplificar a nossa tarefa de buscar a Deus, conta que numa manhã um grupo de ascetas se dispuseram a procurar a Deus pelas estradas sem nem mesmo se aperceber das pessoas que nela encontravam. Já era meio-dia e estavam firmes na busca, e assim o tempo passava e mais eles se esforçavam. Um deles, cansado de tanto caminhar, ao ver um pastor dormindo tranqüilo à beira da estrada, parou e deitou-se à sombra, ao lado do pastor. Os companheiros irrequietos insistiram com ele para prosseguir o caminho, e por fim o deixaram e continuaram buscando a Deus. A sombra, a paz e a meditação difundiram-se no coração daquele asceta, de forma que, quando ele acordou, viu Deus ao longo da estrada e exclamou: “Deus, eu pensava que o caminho fosse longo e cansativo, que a caminhada para chegar até vós era dura. Eu imaginava encontrá-lo ao longo das estradas a percorrer, mas estás tão perto do meu coração e da minha vida”.

Assim, o nosso coração de filhos tem em si o fruto do sangue de Deus. Na nossa carne estão as impressões digitais do Criador, como a nossa vida tem uma bússola do amor que a estrela de Deus não nos engana. Encontramos a Deus na pessoa do irmão, e doamos Deus ao outro com a nossa pessoa.

O jovem Marcos Riva, antes de suicidar-se, escreveu este bilhete: “Não peço perdão pelo que fiz. Foi uma decisão meditada, uma escolha precisa, a única alternativa que restava para a minha vida, que era só de angústias, dores, sem significado... Acho que cada um tem o direito de dispor de sua vida. Há situações em que é melhor morrer do que continuar com a vida que é um inferno. Eu tinha muita vontade de viver, amar e ser amado. Não foi a negação da minha vida, mas a impossibilidade da minha vida, a minha realidade que me fez escolher a morte. Tenho 20 anos e não permitirei que ninguém diga que esta idade é a mais bonita da vida. Gostaria que esta frase de Paul Nizon fosse escrita na lápide do meu túmulo. “Hoje as trevas cobrem a terra, são situações difíceis, problemas materiais, desemprego, dificuldade de relações de amizade, hostilidades... Falta de sentido para a vida, desorientação dos valores... Tudo isso esvazia o coração e a inteligência”.

Santo Irineu tinha razão ao dizer que “a Glória de Deus é que o homem seja pleno de vida e a verdadeira vida é conhecer a Deus”. Encontramos o verdadeiro sentido da nossa vida no coração do Filho de Deus, como os magos. Por isso, “reconheçamos nos magos que adoram Cristo as primícias da nossa vocação na fé e celebremos cheios de alegria o início da nossa esperança” (Leão Magno).

Todo homem possui em seu coração um potencial para possuir a Luz de Deus e espalhá-la. Se numa praça escura todos têm uma vela na mão, mas não um fósforo para acendê-la, todos ficarão na escuridão. Basta que alguém tenha um fósforo e toda a praça pode transformar-se num mar de luz. Por isso, devemos comunicar a nossa luz ao coração do outro. A nossa luz pode ser um pontinho ínfimo, mas produzirá efeito como o grande pintor Rafael ao pintar Nossa Senhora de São Sisto. Ele não pensava que aquela obra se tornaria causa da conversão de Zacarias Weuner (1768-1823), que se converteu tornando-se sacerdote, escritor e poeta, pois um dia, ao visitar a galeria da pinacoteca de Dresdem, ficou fascinado com o olhar de Nossa Senhora estampado naquela obra.

A estrela do mundo antigo era identificada com alguma divindade humana. Era o símbolo das rainhas e representava uma série complexa de significados no mundo da astrologia. No Evangelho adquiriu função simbólica de luz, sinal, orientação. Os magos eram chefes religiosos da antiga Pérsia (Irã), que se dedicavam aos estudos astronômicos e à prática da astrologia. Foi com base em alguns versículos de Isaías 49,23 e do Salmo 71,10 que foram chamados de reis. Eles simbolizam os sábios e chefes religiosos do mundo antigo e não dos hebreus. O ouro, o incenso e a mirra eram na antigüidade presentes trocados entre os reis. Comumente tinham função alegórica e de augúrio. Com o ouro se auguravam riquezas, preciosidade solar, valor e poder. Com o incenso se indicava um futuro de alegria, prazer e honras. Com a mirra desejava-se saúde, beleza e um futuro feliz na imortalidade. “Os magos com o incenso reconheceram Jesus como Deus, com o ouro o aceitaram como rei e com a mirra exprimiram a fé; aquele que deveria morrer” (Pedro Crisólogo, PL 52,620.621).

Com o reconhecimento de Jesus pelos magos, Deus se tornou visível em Jesus. Para expressar melhor esta idéia, lembremos que uma professora na sala de aula de religião pediu a seus alunos que pensassem como desenhar ou esculpir Deus. Eis as respostas:

Pedro - “Eu pintaria Deus como um homem muito alto e esbelto, porque Deus é semelhante a nós, mas muito mais forte e maior”.

Ana - “Eu pintaria Deus como um rei, porque Ele governa todo o mundo e todos os homens”.

Henrique - “Eu pintaria Deus numa folha com muitas pontas coloridas, para significar que Deus é bonito e maravilhoso”.

Andréia - “Eu não o pintaria. Devolveria a folha em branco, porque Deus não pode ser representado”.

Camila - “Eu desenharia Jesus Cristo, porque Deus veio a nós na sua pessoa. Quem vê Jesus vê a Deus”.

A catequista achou todas as respostas interessantes. Todas exprimiam uma qualidade de Deus: força, grandeza, beleza, proteção... Mas a resposta mais bela foi a de desenhar Jesus.

Uma menina estava desenhando com um giz e sua mãe perguntou-lhe: “O que está desenhando de bonito?”. “Estou desenhando Deus”, disse a menina. “Mas Deus ninguém nunca viu”, respondeu a mãe. “É verdade, respondeu-lhe, que ninguém viu a Deus, mas Jesus é o seu Filho, por isso Ele é semelhante”.

Deus é uma luz inextinguível, conta-nos um velho patriarca que estava contemplando o céu em frente de sua tenda. Quando veio a noite, ele viu uma estrela brilhante e disse: “Esta será o meu senhor!”. Mas, quando a estrela se escondeu, exclamou: “Não amarei quem se esconde!”. Viu depois a lua prateada despontar com sua luz branca iluminando a terra e disse: “Esta será o meu senhor!”. Porém, a luz também desapareceu e ele disse novamente: “Se este senhor desaparece, não saberei orientar o meu caminho e me perderei”. Viu depois o sol levantar-se glorioso, mas também este se escondeu, e o patriarca concluiu: “Voltarei o meu rosto para aquele que fez o céu e a terra, e não servirei outro além Dele. Ele é a Luz que não conhece ocaso”.

Na liturgia de hoje, Mateus narra e interpreta um acontecimento de Jesus em forma de “Midrash haggádico”, isto é, enriquece a narrativa com referências e citações do Antigo Testamento. O dado da estrela vista pelos magos é uma referência à estrela de Jacó profetizada por Balaão, um pagão não judeu (Números 24,17). A estrela de Balaão passou na tradição judia a ser a estrela de Davi com um sentido nacionalista.

É importante lembrar que o evangelho de Mateus é datado dos anos 80 d.C., após a destruição de Jerusalém e do Templo por Tito (ano 70), quando a ruptura entre a Sinagoga judaica e a Igreja cristã já estava consumada e nas comunidades já se conhecia a eclesiologia e a cristologia de Paulo. Portanto, os magos representam os pagãos que aceitaram a fé em Jesus, enquanto as autoridades religiosas o recusam. Para Mateus, Jesus é o Messias, rejeitado pelos judeus e aceito pelos pagãos que constituíram o novo povo de Deus.

Na verdade, os temas do nascimento e da infância de Jesus, isto é, a sua origem, foram incluídos no anúncio da catequese da fé, por um lado, em razão da reflexão das primeiras comunidades cristãs que à luz da Páscoa questionavam a origem de Jesus e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento principalmente entre os cristãos de origem judaica que viviam a tensão inicial com a Sinagoga; por outro lado, em razão das polêmicas cristológicas suscitadas pelos agnósticos sob a influência do platonismo e do docetismo por sua aversão ao campo e à matéria que apresentavam dificuldades sobre a humanidade de Cristo, Messias Filho de Deus, isto sobretudo entre os cristãos convertidos do paganismo ou dos gentios herdeiros da cultura helenista. Diante disso, o Evangelho da Infância de Jesus em Mateus e em Lucas colocam os sinais da messianidade e divindade de Jesus conforme um gênero literário chamado “Midrash”, um estilo freqüente na literatura semita de tradições rabínica e sinagogal, que consistia em reelaborar ou reinterpretar com liberdade um texto ou um fato, enriquecendo-o com novas referências devido a uma finalidade didática ou catequética. São referências simbólicas e tipológicas, isto é, em conexão com os fatos, situações ou pessoas do Antigo Testamento, em particular Adão, Jacó, Moisés, a saída do Egito, Davi, Salomão...

Portanto, aqui a intenção do evangelista não é escrever história, mas transmitir um testemunho de fé na história da salvação realizada em Cristo a partir do “kerigma”. Isto não quer dizer que o Evangelho da Infância seja um mito enriquecido com referências históricas ou profecias antigas. Há um fundo histórico (Jesus, José, Maria, Herodes...), assim como detalhes cronológicos (a dominação romana) e geográficos (Belém, Nazaré...), e neste fundo básico está a intencionalidade teológica e o significado messiânico e salvador de Jesus. Embora o Anjo do anúncio, sonhos e aparições, pastores, estrela, magos etc. pertençam ao gênero literário midrástico, isso não afeta o conteúdo essencial da revelação, que continua sendo a encarnação de Jesus, Filho de Deus, no seio de Maria, o seu nascimento e a sua vida na Palestina, a sua messianidade e divindade e o cumprimento das profecias à universalidade da salvação, a sua solidariedade com a humanidade etc.

Muitos em Belém viram Jesus como uma simples criança. Os magos, ao contrário, viram nele o Menino Deus esperado. Por isso, foram os primeiros entre os gentios a adorá-lo. Encontraram Deus na normalidade da vida. Por isso o adoraram como o Messias, o mesmo Deus que encontramos na Eucaristia.

Os magos lhe ofereceram seus presentes. Também nós devemos oferecer-lhe o ouro fino de nossas boas ações, o incenso, isto é, nossos desejos que sobem até ao Senhor de levar uma vida nobre da qual se desprende o perfume de Cristo (2 Coríntios 2,15), isto é, com a prática da justiça, fidelidade, generosidade, alegria... Como os magos, devemos oferecer-lhe também a mirra, que se traduz em pequenos sacrifícios como sorrir para quem nos aborrece, suprimir o supérfluo, ouvir o outro etc.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
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