| No
Templo de Jerusalém o povo gritava a bênção
de Deus. E nós, para quem vamos voltar os nossos olhos,
o nosso coração, a nossa mente?
Cada
ano que começa é uma possibilidade para verificarmos
que o tempo voa e vai nos levando. Estamos todos dentro de
um vagão e viajamos rumo a uma estação.
A vida é como uma flecha que partiu de um arco tenso.
Somos esta flecha rumo à eternidade. Como um rio cujas
águas correm para o mar, nós corremos para Deus.
A vida é uma aventura maravilhosa, digna de ser bem
vivida. Nessa vida maravilhosa que passa, Deus operou em nós
um enxerto do absoluto, da eternidade, pois com o seu nascimento
Jesus injetou na história um progresso espiritual e
temporal. Com Jesus realizou-se a bênção
do Antigo Testamento, pois o desejo de paz, prosperidade e
vida tem em Jesus o cume de realização. Somos
libertados do pecado, não somos mais escravos, pois
na plenitude dos tempos Jesus realizou a obra anunciada pelos
profetas. Nele e por ele podemos chamar Deus de Pai.
Com
a nova Aliança, Deus nos deu a possibilidade de colaborar
com o seu Reino, e Maria e José foram os primeiros
colaboradores. Maria encarnou as promessas messiânicas
do povo e através dela as bênçãos
prometidas se realizaram. Através dela a presença
de Deus tornou-se carne na nossa história. Por isso,
não poderíamos começar um novo ano senão
com o sorriso de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
A
festa litúrgica celebrada hoje é atestada na
história desde o século XVIII em algumas Igrejas.
Depois foi estendida a toda a Igreja por Pio XII, por ocasião
da comemoração do centenário do Concílio
de Éfeso, que se realizou em 431. O calendário
litúrgico de 1969 a fixou no dia 1º de janeiro,
pois o nascimento de Jesus e a maternidade de Maria são
eventos correlatos e indissociáveis. Assim, o clima
natalino é o que melhor se apresenta para honrar a
Mãe de Deus.
Maria
é a Mãe de Deus, como declarou o Concílio
de Éfeso com a palavra “Theotòkos”,
Mãe da Divindade, Mãe de Cristo, Homem Deus,
Pessoa divina (DSD 250 – 263). Maria
deu à luz fisicamente o Verbo que se fez carne. Assim,
esta solenidade não parte de um fato abstrato, mas
de um fato histórico que é um mistério.
Esta festa da oitava do Natal é um prolongamento do
Natal.
O
Concílio de Éfeso afirmou no ano de 341 que
a Virgem Maria é “Theotòkos”,
“porque deu à luz segundo a lei da carne o Verbo
de Deus encarnado”. No Credo professamos: “E
encarnou-se no seio da Virgem Maria e se fez homem...”.
Quando falamos que o Filho de Deus nasceu de uma mulher, afirmamos
com Paulo que na encarnação Ele é realmente
e totalmente humanizado. Integrou-se totalmente no processo
de geração que está na base da existência
de cada homem. Isto quer dizer que Jesus não está
distante da nossa realidade, pois compartilhou plenamente
a condição humana. Com a encarnação,
o Filho de Deus se uniu de certo modo a cada homem, pois trabalhou
com mãos humanas, amou com coração de
homem e, ao nascer da Virgem Maria, fez-se um de nós
em tudo, exceto no pecado (GS 22).
Além
disso, afirmamos o laço forte que Maria teve com a
vida e a missão salvífica de Jesus. Se o homem
vem normalmente ao mundo numa família, e por isso pode-se
dizer que deve a ela o fato de existir como homem, assim a
vida e a obra salvífica de Jesus revelam esta relação
com a Mãe de Deus. É significativo que o Anjo
tenha dito a Maria que ela daria à luz um filho, ao
qual poria o nome de Jesus. A sua maternidade não se
desenvolveu apenas no plano biológico, fundamental
e importante, mas também no plano da identificação
com o seu filho. O nome salvífico de Jesus é
querido por Deus, mas será a Mãe que o chamará
assim.
A
maternidade de Maria se estende em certa medida também
a nós, pois Paulo diz que Deus enviou o seu Filho nascido
de mulher para que recebêssemos a adoção
de filhos. Isto quer dizer que nossa filiação
divina está associada à obra daquela que colaborou
de maneira decisiva para a humanização do Filho
de Deus. “Ela se tornou
nossa Mãe na ordem da graça”.
Paulo
destaca a humanidade plena do Filho de Deus, nascido de mulher,
mas pretende também, como é próprio da
mentalidade grega e hebraica, ressaltar a “kenósis”
de Jesus, cuja maneira de vir ao mundo não foi só
a mais normal possível, mas também a mais humilhante,
evocando assim a necessidade fisiológica da gestação
e do parto.
Maria
é “Mãe de
Deus, não porque a natureza do Verbo ou a sua divindade
tenha tido origem da Santa Virgem, mas porque dela nasceu
o corpo ao qual o Verbo está unido substancialmente,
por isso se diz que o Verbo nasceu segundo a carne”
(DS 250 Éfeso).
A
festa da Maternidade divina é antiga. Está ligada
ao Natal porque não é possível deixar
de associar a ele a Mãe, que é a protagonista
e artífice do nascimento de Jesus. Todavia, não
é só um protagonismo biológico que deve
ser lembrado. Lucas insiste num aspecto que parece constituir
o perfil essencial de Maria, tal como ele a pinta. Ele diz:
“Maria conservava todas
essas coisas em seu coração”,
apresentando Maria como ouvinte da vontade de Deus. A sua
fé é capaz de reflexão, alimenta-se da
memória. Ela guarda no coração não
apenas as afirmações admiráveis dos pastores,
como também a sua alegria, a maravilha do evento que
testemunha com José, mas guarda acima de tudo a singularidade
da sua vocação, da sua maternidade virginal.
Faz a memória de tornar-se próxima de Deus,
“que olhou para a humildade
de sua serva” (Lucas 1,48).
A
sua maternidade não é um simples e mecânico
ato de gerar. “O fato
de Maria ser a Mãe de Deus não é, na
verdade, uma função entre tantas, mas a sua
função única e fundamental. Ela é
ativa na história da salvação, ativa
no Corpo de Cristo que é a Igreja, justamente por força
da sua maternidade divina" (MC
19).
Tudo
isso foi possível a Maria pela força da acolhida
da palavra, da adesão à vontade de Deus. Foi
porque assumiu esta função que Maria transignifica
a sua maternidade segundo a carne.
A
sua maternidade divina não se exaure num fechamento
egoísta em si mesma e em seu filho, pois ela é
a mulher que com a sua ação favorece a fé
da comunidade cristã (MC 37). E porque
Jesus concretizou a expectativa do Antigo Testamento, devemos
pensar antes de tudo que são dirigidas a ela e a José
as palavras do Antigo Testamento da primeira leitura de hoje:
“O Senhor te abençoe
e te proteja, o Senhor faça resplandecer sobre vós
a sua face e vos seja propício..."
(Números 6,24-27).
São
Leonardo Murialdo (1828-1899), ao dar os
votos de feliz ano novo aos seus clérigos, escrevia:
“Seja devotadíssimo
de Maria e terá resolvido todas as dificuldades do
próximo ano”. O bem-aventurado
Clemente Marchisco (1833-1903) disse a alguém
que lhe perguntou: “Como
posso ficar tranqüilo quando sou ofendido terrivelmente?
- Vá, disse ele, reze três Ave-Marias por aquela
pessoa e voltará com a paz no coração”.
Por seu lado, Piero Bergellini dizia: “O
culto à Virgem Maria é como o óleo da
lâmpada eucarística. Alimenta o nosso coração
para Jesus”. E o bem-aventurado José
Marello (1844-1895) afirmava: “O
título mais importante de Maria é Mãe
de nosso Senhor Jesus Cristo”. Todo
o seu privilégio, inclusive o da Imaculada Conceição
e da Assunção, é conseqüência
do fato de ser a Mãe de Jesus. Em seu seio a divindade
se uniu indissoluvelmente à humanidade. O Filho de
Deus “Non horruisti
Virginis uterum”. Não teve
pavor do útero da Virgem. Deus não teve pavor
do homem.
A
liturgia nos lembra também a circuncisão de
Jesus, que era o rito de introdução no povo
de Israel, assim como é o Batismo para os cristãos.
Através desse rito Jesus entrou de direito no povo
da Aliança, foi reconhecido como descendente de Abraão
e herdeiro das promessas de Deus. Podemos dizer que com a
circuncisão Deus não escolheu apenas ser homem
na pessoa de Jesus, mas escolheu sê-lo num momento,
num lugar e numa cultura bem precisos.
Hoje
comemoramos o primeiro dia do ano, e nenhum homem pode parar
por um só instante os ponteiros do relógio.
Deus entrou na história, no espaço e no tempo,
e neste contexto manifestou a sua bondade em relação
aos homens. Ele é o infinito presente na história
dos homens.
Hoje
também lembramos o Dia Mundial da Paz, uma iniciativa
de Paulo VI. É “uma
ocasião propícia para renovar a adoração
ao Néo-nato, príncipe da paz, para voltar a
ouvir o alegre anúncio angélico, para implorar
de Deus o dom supremo da paz. Por isso, na feliz coincidência
da oitava do Natal com o dia de votos de primeiro de janeiro,
instituímos o Dia Mundial da Paz”
(M. Cultus). “A
paz é apenas um ruído de palavras quando não
se estabelece numa ordem fundada na verdade, constituída
segundo a justiça, vivificada e integrada na caridade
e colocada em ação na liberdade”
(Pacem in terris, João XXIII).
O
início de um ano foi sempre celebrado com solenidade
por todas as religiões, porque está ligado ao
mistério das origens do mundo e do homem. Por isso,
exerce um fascínio, tem um sabor especial. Lembra a
origem da criação e do tempo, da vida e da história.
Para nós, esta festa evoca a bênção
de Deus criador dada a cada ser vivo no início do mundo
(Gênesis 1,28).
Por
tamanha benevolência de Deus em favor do homem, a única
resposta do homem deve ser o amor. Para ilustrar este fato,
contamos uma estória. Uma festa foi organizada para
Deus e toda a criação procurou dar um presente
para Ele, o mais bonito que pudesse encontrar. O castor achou
nozes bem crocantes, o coelho feixes de verdura bem fresca,
e assim por diante. Todos os animais encontraram um presente
bonito para Deus, menos o homem, que nada encontrou de digno
para doar a Deus e as coisas que lhe pareciam mais apropriadas
já haviam sido escolhidas pelos animais.
O
homem percorreu o mundo para encontrá-lo, mas voltou
de mãos vazias. Já estava preocupado. Havia
objetos até de outros planetas, já que toda
a criação havia sido convidada para a festa,
mas o homem não conseguia pensar em nada que pudesse
presentear a Deus.
Finalmente
chegou o momento de entregar os presentes e todas as criaturas
entraram na fila. O homem ficou por último, pois não
tinha nada para presentear. Quando na fila faltavam apenas
uns vinte animais, o homem começou a se desesperar.
E, quando chegou a sua vez, lembrou-se de uma coisa em que
não havia pensado. Então fez um gesto em que
nenhum animal havia pensado. Correu para junto de Deus, ajoelhou-se
diante Dele, sussurrou algo em seu ouvido e lhe deu um beijo.
Imediatamente o rosto de Deus iluminou-se, pois o homem havia
sussurrado no ouvido de Deus apenas três palavras: “Eu
te amo”.
A
liturgia de hoje nos propõe várias idéias:
a oitava do Natal, a circuncisão e o nome de Jesus,
a maternidade divina de Maria, o ano novo e o Dia Mundial
da Paz. Uma idéia muito cara ao mundo atual é
a paz. Por meio de Maria recebemos o Príncipe da Paz.
Realizou-se assim a bênção de Deus. Por
isso, Paulo VI instituiu em 1968 o Dia Mundial da Paz.
Hoje
a saudação das pessoas traz o desejo da paz:
“Feliz Ano Novo”, “Um
ano cheio de saúde, paz e bem-estar”.
Paz que o mundo tanto deseja e sente tão pouco. Segundo
um pesquisador, em quatro mil anos da história conhecida,
foi de apenas dezessete anos o período mais longo de
paz, sem que houvesse guerra em alguma parte do mundo. O século
XX nem chegou a essa cifra.
Desde
o crime de Caim, a guerra está presente na humanidade.
Guerras feitas não só de bombas, mas também
de guerra fria, violência, assaltos, terrorismo, violação
dos direitos humanos, exploração do homem, agressividade...
Por isso, em nosso mundo tecnicizado a paz é vista
como “equilíbrio
de forças”, a sua base é
a filosofia do medo, com a conseqüente corrida armamentista
visando a defesa nacional. Por isso, é certo o ditado
romano: “Se queres a paz,
prepara a guerra”.
A
paz armada é um negócio que envolve bilhões
de dólares, milhares de cérebros de cientistas,
tudo visando a destruição e a morte, em detrimento
da saúde, da educação, da alimentação
etc., inclusive nos países do Terceiro Mundo. Milhões
de pessoas estão subalimentadas, milhões de
pessoas morrem de fome cada dia, enquanto o custo de um porta-aviões
se iguala ao custo anual da alimentação de uma
cidade de 400 mil habitantes. Dinheiro gasto em armamentos
e instrumentos bélicos é dinheiro a menos para
construir hospitais, escolas, pontes, casas, bibliotecas...
A
paz não é a ausência de guerra, ou a conseqüência
do equilíbrio de forças, mas a instauração
de uma ordem querida por Deus (P.P. 76) na
construção de uma escola de paz nas famílias,
educando os jovens para a convivência, o serviço,
a fraternidade, a solidariedade, o respeito ao outro...
A
Igreja ensina que, depois de Cristo, Maria ocupa o lugar mais
alto e mais próximo de nós, em função
da sua maternidade divina. “Pela
graça de Deus, depois do seu Filho, ela foi exaltada
sobre todos os Anjos e todos os homens”
(LG 63). Foi através de Maria que
chegaram ao seu cumprimento os oráculos dos profetas
que anunciaram Cristo. Jesus enquanto homem foi feito de Maria.
Assim, se Jesus é Deus, por que a Santíssima
Virgem, que o deu à luz, não há de ser
chamada Mãe de Deus? diz São Cirilo. E foi o
que definiu o Concílio de Éfeso.
Por
isso Maria, “ao conceber
Cristo, gerá-lo, alimentá-lo, apresentá-lo
ao Pai no Templo, ao padecer com seu Filho morrendo na cruz,
cooperou de forma ímpar com a obra do Salvador, mediante
a obediência, a fé, a esperança e a caridade
ardente, a fim de restaurar a vida sobrenatural das almas.
Por isso ela é nossa Mãe na ordem da graça”
(LG 61).
Por
ser nossa Mãe, Maria está constantemente presente
na vida de cada cristão. Ela intervém com a
sua ajuda nos momentos de dificuldades: “Quando
me ponho a considerar todas as graças que recebi de
Maria Santíssima, parece-me que sou um desses santuários
marianos cujas paredes estão cobertas de “ex-votos”
em que se lê somente esta inscrição: “Por
uma graça recebida de Maria”. Assim, parece que
estou escrito em todos os lados: “Por graças
recebidas de Maria”. Todos os bons pensamentos, todas
as boas vontades, todos os bons sentimentos do meu coração:
“Por graças de Maria” (Vida
de São Leopoldo de Porto Maurício).
Por
isso Maria recebeu da Igreja os títulos de “Advogada,
Auxiliadora, Socorro e Medianeira”,
porque intercede junto do seu Filho. Com o seu amor maternal,
ela se encarrega de nos alcançar as graças de
que necessitamos e se torna o caminho que nos conduz a Cristo:
“Ad Jesum per Maria”.
É fácil chegar até Deus através
da Mãe. |