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ANO A - São Mateus
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ADVENTO
COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
ADVENTO
Sagrada Família
26 de Dezembro de 2010

Primeira Leitura
Eclesiástico
3,3-7.14-17a
VIRTUDES FAMILIARES

Este livro foi escrito por Ben Sirac e traduzido para o hebraico por seu neto com o objetivo de mostrar aos judeus que moravam fora do país a riqueza da tradição do seu povo. É um livro que ajuda a recuperar as raízes do povo ameaçado de perder suas tradições e sua identidade, pois o povo, vivendo em terra estrangeira, ia perdendo aos poucos a ligação com suas tradições, a riqueza da cultura e da ideologia do passado. Entre as diversas normas de vida, algumas diziam respeito ao relacionamento entre pais e filhos, à experiência familiar. De fato, Deus revelou-se a Israel e tal revelação passou de boca em boca de pai para filho.

Este livro foi composto em 180 a,C. e traduzido do grego no ano 132 a.C. Ben Sirac era um sábio dedicado ao estudo e à reflexão da Torá mosaica, tanto que foi considerado por muitos exegetas como o primeiro escriba. Neste contexto, a Palestina estava sob o domínio dos selêucidas desde 198 a.C., e o rei Antíoco IV havia imposto pela força a helenização a Jerusalém, assim como a introdução de cultos e costumes estrangeiros, o que veio gerar a revolta dos Macabeus.

Devido ao perigo da contaminação da fé, Ben Sirac propõe fidelidade à tradição, incutindo um profundo respeito ao Templo e ao culto. Por isso, o livro contém uma rica coleção de máximas que favorecem a vida serena e coerente.

O hagiógrafo inculca o amor dos filhos aos pais, lembrando o Decálogo mosaico (Êxodo 20,12; Deuteronômio 5,16): “Honre seu pai e sua mãe, de modo a prolongar a sua vida...”. O mandamento está ligado à promessa de vida longa, mas acrescentam-se ainda outras duas promessas: ser atendido nas orações e obter o perdão dos pecados.

Com base em Êxodo 21,7 e Neemias 5,5 alguns rabinos sustentavam que os filhos em relação aos pais se encontravam numa posição de escravos, e inclusive em Gênesis 22,2-10 e 2Reis 23,10 sustentavam que os pais tinham o direito de vida e de morte sobre os filhos.

Os hebreus viviam longe do Templo, lugar onde ofereciam os sacrifícios pelas culpas cometidas. Viam o perdão dos pecados não mais como um ritual externo, mas como uma atitude traduzida no amor aos pais, sobretudo quando estes estavam velhos. Amar e respeitar os pais era amar e respeitar a Deus.

Segunda Leitura
Colossenses
3,12-21

A VIDA DA FAMÍLIA CRISTÃ

O texto é tomado da sessão parenética de 3,5 a 4,6. São conclusões que Paulo tira do fato de que com o Batismo nos tornamos criaturas novas. Por isso ele dá um imperativo: “Revistam-se de misericórdia” (v.12b), que se traduz em bondade, humildade, mansidão, tolerância, prudência, perdão (vv.12c-13a). Coloca a excelência no exercício da caridade (v.14), que é o vínculo da perfeição, síntese de todas as virtudes, que cria a coesão na comunidade. Sabemos que na comunidade de Colossos havia conflitos de correntes e idéias filosóficas e religiosas que formavam um sincretismo. Com isso, o caminho espiritual da comunidade na caridade fraterna estava sendo ameaçado. O primado universal de Cristo era ofuscado com fantasias de concepções de forças celestes no mundo. Diante disso, a prática cristã sofria com as restrições ascéticas e a observância de calendários particulares.

Paulo foi informado da situação desta comunidade quando se encontrava em Roma entre os anos 61 e 63. Ao enviar esta carta, ressalta a supremacia de Cristo: tudo foi criado por meio Dele... E, servindo-se da experiência batismal, propõe aos cristãos de Colossos uma autêntica práxis cristã elencando cinco virtudes da práxis cristã. Porém, deixa claro que os três pilares da vida cristã são: a “caridade fraterna”, que é o vínculo da perfeição; a “paz”, que deve reinar no coração como expressão do dom de Deus; e a “Palavra de Cristo”, que o faz presente na vida.

Por fim, Paulo mostra alguns meios para que a comunidade atinja a comunhão: a “Eucaristia” (sejam agradecidos), a “escuta da Palavra”, a partilha e o louvor. E finaliza dando instruções para as famílias, recomendando que as esposas sejam dóceis aos maridos. A autoridade do marido era fora de discussão, segundo a concepção piramidal da época. A submissão ao marido, como o verbo “hipotasso” indica, é uma submissão voluntária, fundada no amor e não na escravidão. Isto é confirmado quando Paulo pede aos maridos que amem suas esposas sem arrogância. O amor de que ele fala é o ágape, que exprime o desejo do bem e da felicidade para a pessoa amada, e não a instrumentalização. Ele pede também aos filhos que obedeçam aos pais, pois assim agradam a Deus, e aos pais que usem a pedagogia encorajando os filhos.

Evangelho
Mateus
2,13-15.19-23
OBEDIÊNCIA DE JOSÉ

Este trecho faz parte do Evangelho da Infância. Não é uma curiosidade nem uma crônica anedótica, mas o resultado maduro da reflexão teológica da Igreja sobre o mistério de Cristo.

Jesus aparece na narrativa materna da infância como o novo Moisés que é perseguido por Herodes, outro faraó, mas Deus cuida dele e o livra do tirano. Ele renovará os feitos de Moisés, realizando um verdadeiro êxodo através do sofrimento e do sacrifício da própria vida.

A fuga da Sagrada Família para o Egito lembra a fuga de Jacó para o mesmo país (Gênesis 46,1-4). O evangelista vê este fato como o início do processo libertador que depois Jesus inaugurará.

No tempo de Jesus esperava-se que o Messias, ao chegar, reeditasse os tempos de Moisés, inaugurando o êxodo definitivo de liberdade e vida. Mateus vê esta expectativa como o cumprimento desta esperança: “Para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Do Egito chamei o meu Filho'” (Mateus 2,15; Oseias 11,1; Êxodo 4,22). Assim, Jesus é o novo Moisés libertador.

Um Anjo aparece em sonho a José. É a comunicação divina com a qual José se conforma. Deus intervém para salvar a vida de Jesus contra as maquinações de Herodes. O Egito representa para Israel a terra de escravidão, mas também o refúgio providencial para os perseguidos (1Reis 11,40; Jeremias 26,21).

Mateus releu também a cristologia de Oséias capítulo 11, versículo 1, onde o profeta lembra a libertação de Israel como sinal da bondade de Deus.

Outro detalhe de Mateus é a comunicação que José recebeu do Anjo no Egito de que Herodes havia morrido. José não é um robô. O Anjo apenas lhe indicou que devia voltar para a terra de Israel (v.20a). Coube a José o discernimento. Por isso, ele investiga a situação e comprova que Arquelau está no poder. Volta então, indo morar em Nazaré da Galiléia. Arquelau era tetrarca da Judéia, da Samaria e da Idunéia. Era cruel e já no início do seu reinado trucidou três mil hebreus. No ano 6 d.C. foi deposto e exilado na Gália.

Mateus viu na ida de Jesus para Nazaré o cumprimento da profecia: “Ele será chamado nazareno”. A palavra nazareno deriva de “nazir”, que significa “consagrado” (Juízes 13,5-7), ou também pode vir da raiz “neçer”, que significa “broto ou rebento” (Isaías 11,1), aliada à palavra “çemah”, que significa “germe” (Jeremias 23,5; 33,15). Mostra que Jesus é a árvore da vida, o Messias que trouxe a liberdade e a vida para todos.

A raiz “nazareno” também pode vir de “nácar”, que significa “guardar” (Isaías 42,6; 49,8). Desta palavra se originou “naçor”, que significa “resto”. Jesus é aquele que assume e guarda os que são considerados como “resto” do povo, os pobres e oprimidos.

Em suma, Mateus vê Jesus como o novo legislador da nova Aliança, o cumpridor das promessas.

REFLEXÃO

A família é um dos bens mais preciosos da humanidade. É nela que se dá a rede de relações pessoais, mediante a qual cada pessoa é introduzida na família humana. Foi dentro de um lar que Jesus experimentou a condição humana em suas múltiplas facetas. Também para Jesus a família foi a primeira escola de bondade, de compreensão recíproca, de humanidade autêntica.

Quando, durante o seu ministério público, Jesus falar sobre a figura do Pai celeste, bom e misericordioso, ensinando os discípulos a invocá-lo como "Abba", é evidente que esta referência estava impregnada pela experiência que teve em sua família. Sua acolhida alegre das crianças e a delicadeza com as mulheres marginalizadas na sociedade eram reflexo dos sentimentos de carinho e respeito por sua mãe.

As três leituras insistem no aspecto do relacionamento familiar:

1º) Honrar os pais é uma exigência de Deus e assegura a bênção;
2º) Paulo pede respeito à ordem hierárquica da família, obediência e amor recíproco.

A festa da Sagrada Família nos lembra que Jesus, ao encarnar-se, santificou a natureza humana em todos os aspectos, entre eles a família. A família necessita sempre de atenção, pois é passível de crises. Ela é uma comunidade de pessoas onde deve reinar o amor e o respeito. Deve ser a “escola de bondade mais rica e mais completa” (Paulo VI).

A liturgia nos faz celebrar o mistério do Verbo encarnado que assumiu a nossa condição humana. Por isso Jesus teve um pai e uma mãe. Daí a necessidade da família. Todos os esforços para construir uma sociedade serão inúteis se não se conseguir dar salubridade moral e força interior às famílias, e moralidade na família significa ter em consideração as leis de Deus. Desobedecer a elas é caminhar para a ruína.

Nesta liturgia, a Igreja reza para que haja no seio da família a graça de Deus e a paz. A família consegue isto com mais facilidade se viver a Eucaristia, que é fonte de amor e unidade, assim como com a oração, na qual a família se torna santuário doméstico da presença e ação de Deus. Uma família sábia saberá combater os inimigos do seu verdadeiro bem, entre os quais o egoísmo, o hedonismo, o materialismo, a pouca educação moral e social, o autoritarismo, a ausência de ideais e de espírito crítico (Gaudium et Spes 48).

O modelo autêntico para a família é a Santíssima Trindade. Em conseqüência, o amor é o fundamento para cada família (Gaudium et Spes 49).

Deus decidiu habitar entre os homens de modo mais completo do que quando estava na tenda-tabernáculo no deserto, na arca ou no Templo. Ele se encarnou e isto aconteceu no âmbito de uma família. Deus compartilhou e assumiu todas as situações e condições da família humana. Ali cresceu como criança, adolescente e jovem e no lar doméstico preparou-se para a sua tarefa messiânica, crescendo em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens.

No contexto familiar, Maria conservava tudo em seu coração. Sua fé não era privada de obscuridade, porque o caráter do mistério entra na natureza própria da fé. Assim, no “iter” daquele que crê há primeiro o “intellectum quaerens fidem”, isto é, a mente que se orienta para a fé e a aceita, depois vem a “fides quaerens intellectum”, em que a mente se esforça para se elevar à contemplação de Deus e compreender o que acolheu. Maria também seguiu este processo de descoberta e aprofundamento progressivo da fé.

A grande lei para a felicidade de uma família está nas palavras de Paulo: “Acima de tudo reine entre vocês o amor, que é o vínculo da perfeição, e a paz de Cristo reine em seus corações”. Esta paz significa a exclusão de divisões, o reconhecimento e a prática por parte de cada um de seus deveres. Significa reconstruir cada dia o afeto mútuo, a libertação do egoísmo, do calculismo, da frieza.

A liturgia nos propõe honrar os pais, o que é uma lei da natureza e, portanto, de Deus. Honrar os pais proporciona bênçãos divinas. A família é uma célula da sociedade, mas também o seu espelho (Gaudium et Spes 47). Por isso Paulo coloca alguns segredos da coesão familiar: a misericórdia, a humildade e a caridade. Esses três elementos devem ser semeados através de uma técnica espiritual, que para o apóstolo é a Palavra de Deus, e também através da oração.

A oração da coleta da missa de hoje propõe a Sagrada Família como “exemplos maravilhosos” para o povo cristão, digna de ser imitada em suas virtudes, em seus valores fundamentais de amor e união.

A família do passado tinha um cunho patriarcal: o pai era a autoridade e a mãe estava ligada aos afazeres domésticos e ao cuidado dos filhos. As relações eram verticais, havia um caráter sacral, era uma escola de valores tradicionais, com estabilidade local, uma instituição auto-suficiente na função procriativa, educacional, econômica e socializadora. A mulher, no lar, vivia em total dependência econômica e submissão, com tendência para a anulação da sua personalidade humana, jurídica e social.

A família atual tem relações horizontais e democráticas. Dá-se preferência ao diálogo, à igualdade, à co-responsabilidade, à amizade. O caráter sacral da família foi substituído pelo secular. Ela perdeu a coesão habitacional com o conseqüente enfraquecimento do núcleo familiar, com independência.

Nesta transição e crise da identidade familiar, com um novo modelo de família diante do pluralismo e das mudanças sociais, devemos perguntar-nos o que deve permanecer como básico na família. Respondemos que permanece como básico o amor que sempre foi e será a alma da família, um amor autenticamente interpessoal, fiel, exclusivo. Deve-se ainda cultivar os valores cívicos e religiosos, o altruísmo, a solidariedade, a responsabilidade, a fraternidade (Gaudium et Spes 51).

Só assim a família testemunhará os valores evangélicos e contribuirá para a santificação do mundo, sendo a “Igreja doméstica”, uma expressão feliz de João XXIII com eco na tradição patrística e eclesial que o Vaticano II assumiu (Lumen Gentium 11,2; AA 11,4), tornando-se assim uma comunidade de salvação como lugar de encontro de Deus com o homem e vice-versa. Uma comunidade humana de “amor” e mistério cristão que reflete e torna visível o amor que Deus tem, em Cristo, ao seu povo, à Igreja e à humanidade. Comunidade de “vida” e vocação cristã. Comunidade de “missão” eclesial e de testemunho social dos valores evangélicos a serviço da fraternidade.

Os pais devem ser para os filhos os primeiros educadores da fé, mediante a palavra e o exemplo” (Lumen Gentium 11), como foram os pais de Jesus. Jesus aprendeu com eles as orações, os versículos da Bíblia etc. Por isso, Paulo VI pergunta aos pais: “Vocês ensinam a suas crianças as orações dos cristãos? Preparam seus filhos para os sacramentos da primeira idade: confissão, comunhão, confirmação? Acostumam-nos, quando estão doentes, a pensar em Cristo que sofre, a invocar a ajuda de Nossa Senhora e dos santos? Recitam o terço em família? Sabem rezar com seus filhos, em toda a comunidade doméstica, ao menos de vez em quando? O exemplo que derem com a sua retidão de pensamento e de ação, apoiado em alguma oração em comum, valerá por uma lição de vida... Lembrem-se que assim edificam a Igreja” (FC 60).

Os lares que imitarem a família de Nazaré serão lares luminosos e alegres. A família é a escola de virtudes e o lugar habitual onde devemos encontrar a Deus, pois uma família assim é uma “Igreja doméstica”. A família é a ”escola de todas as virtudes sociais”, a sementeira da vida social, pois é nela que se pratica a obediência, a preocupação com os outros, o senso de responsabilidade, a compreensão, a ajuda mútua. Por isso, a saúde de uma sociedade se mede pela saúde da família.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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