| As
leituras se referem aos tempos messiânicos. O acontecimento
concreto do nascimento de uma criança é tido
como o futuro concretizado cheio de glória e tendo
Deus como protagonista. A graça de Deus é portadora
da salvação para todos os homens (Tito
2,11).
O
Natal era uma festa pagã antes de ser uma festa cristã.
Até o início do século IV era uma festa
na qual se celebrava o “Sole
Invictus”. O próprio Jesus
é definido por Zacarias como “o
Sol que surge do alto”. Ele é
o sol da nossa vida, sem ele há a morte. Com o Natal
aparece a graça de Deus que traz a salvação
a todos os homens. Com o nascimento de Jesus aprendemos que
devemos amar, e “Dieu,
premier servì”- “Deus
é o primeiro que deve ser servido”
com o nosso amor (Joana d’Arc).
Nós
todos carregamos em nossos corações remédios
adequados para curar todos os males do mundo. Não existe
um só problema que não possa ser resolvido com
o amor e o perdão (Fromm). Com o Natal
recebemos o Reino de Deus. “Nascemos
em um Reino; obedecer a Deus é a verdadeira liberdade”
(Sêneca).
As
leituras da liturgia desta noite se abrem com a frase: “O
povo que jazia nas trevas...”. As trevas
significam a condição de pecado. Este povo recebeu
a Luz, isto é, Deus. Quais são as conseqüências
práticas da presença dessa Luz?
a)
Reconhecer Jesus como único Salvador,
nosso Chefe, Guia e Rei.
b) Segui-lo
significa praticar seus ensinamentos.
c) Viver
com alegria, cujo tema permeia toda a liturgia de hoje.
Na
visita dos pastores a Jesus, reconhecemos as leis do encontro
com o Senhor.
1º)
Da oferta - Para que o homem possa encontrar
a Deus, é preciso que Deus tome a iniciativa.
2º) Do
comportamento dos pastores - Para que o homem
possa encontrar a Deus, é preciso buscá-lo.
O
nascimento de Jesus é um acontecimento que dividiu
a história em duas partes: a.C. (antes de Cristo)
e d.C. (depois de Cristo). É um acontecimento
já anunciado pelos profetas nos séculos. No
confronto com os outros personagens históricos, quem
se lembra do nascimento de Alexandre Magno, de Júlio
César, de Napoleão?
Mas
por que o nascimento de Jesus é importante? Porque
Ele não é um homem como os outros. Também
é Deus. É o Verbo de Deus feito carne há
dois mil anos, e concebido pelo Espírito Santo. Deus
se tornou homem para que o homem se tornasse Deus. Deus se
aproxima de nós para que nos aproximemos Dele. Veio
ao encontro da nossa humanidade para que fôssemos ao
encontro da sua divindade.
Eis
a síntese do Cristianismo e de toda a nossa fé:
Deus desceu do céu, tornou-se um conosco para que nos
uníssemos a Ele. A liturgia nos fala de uma troca.
Deus tomou a nossa humanidade e nos ofereceu em troca a sua
divindade. Uma troca admirável. Por isso, São
Leão Magno diz: “Agnosce,
christiane, dignitatem tuam!”.
O
ensinamento do Natal é a condescendência divina:
“Tu desces das estrelas,
Rei dos céus, e vens em uma gruta fria...”.
É o reconhecimento da dignidade e grandeza do homem.
O homem é uma criatura muito grande e nobre, e Deus
o amou ao ponto de tornar-se homem por causa d’Ele.
Eis, portanto, o respeito que devemos ter pelo homem: “Respeito
ao homem, respeito à vida humana, desde o momento da
concepção até o último suspiro.”
Esta é a grande dignidade do homem que determinou a
encarnação do Filho de Deus, tornando-o membro
da família humana.
Os
antigos comemoravam a festa do “Natalis
solis invicti”, o nascimento do sol
invencível. Para os cristãos, o verdadeiro sol
invencível é Jesus. Por isso, o seu nascimento
e a realização do plano de Deus é a maior
graça na vida dos homens, que é a sua divinização.
Por isso o Natal é:
•
Festa da nossa Salvação
- Na liturgia desta missa Deus se mostra como início
da nossa salvação. São Leão
Magno associou o Natal à Páscoa: “O
Natal é o inicio da Salvação que
se consumará na morte e ressurreição
de Jesus. Com o Natal podemos conhecer quem Deus é,
ver a sua face e receber a sua salvação”.
•
Festa da Luz - Na oração
da coleta da Missa da Aurora encontramos: “A
Luz do vosso Verbo Encarnado invade o nosso coração.
Fazei que manifestemos em ações o que brilha
pela fé em nossas mentes”.
O Natal, com a sua Luz que é o Cristo, dissipa
todas as trevas que encobrem o pecado em todas as suas
formas de injustiça, desigualdades, poder e prazer.
•
Festa da renovação
plena do homem - A divinização
do homem é o tema que mais aparece na liturgia
natalina. Por Cristo realizou-se o encontro de Deus com
o homem. Nele a natureza humana recebeu uma dignidade
incomparável, em que Deus se tornou de tal modo
um de nós, que nos tornamos eternos. Assim, Deus
se fez “homem para
que o homem se tornasse divino”
(Santo Atanásio de Alexandria).
Maria,
preparada cuidadosamente por Deus para ser a Mãe do
Messias prometido, recebeu dos cristãos o título
de “Casa de Ouro”.
Nela o Filho de Deus habitou durante nove meses e tal foi
a união com a divindade que Ela foi o Templo mais belo
da Santíssima Trindade. Nela “a
sabedoria edificou para si uma casa na terra”
(Provérbios 9,1).
O
seu coração foi a mansão santa da eternidade,
escolhida, preparada e decorada de modo especial pelo arquiteto
do universo.
Na
Roma antiga ficou famoso um santuário que Nero edificou
no Paladino. O requinte da construção se espelhava
nos jardins e em todos os cômodos. De tal forma o ouro
foi empregado nesta construção que ela recebeu
a denominação de “domus
áurea”, ou casa de ouro,
isto é, Maria.
O
clima do Natal é festivo. Entra-se numa loja e o visual
agrada. Há cartazes bem feitos, pinheirinhos iluminados,
mas onde está o Menino Jesus? As ruas das cidades estão
todas enfeitadas, mas onde está Jesus? Nos clubes,
restaurantes, salões de beleza, postos de gasolina,
rodovias, praças... tudo é muito vistoso, mas
onde está o Menino Jesus? Visitamos as residências
e encontramos quadros, tapetes, arranjos de flores, mas onde
está o Menino Jesus? Os cartões natalinos estampam
artistas, crianças, paisagens..., mas e o Menino Jesus?
Jesus poderia muito bem ser mais lembrado, pois o Natal é
tê-lo no coração. É paz, perdão,
amor, união...
Hoje
a Igreja revive em seu coração a alegria dos
patriarcas, dos profetas, de Maria, de José, de João
Batista, dos pastores e dos Anjos que anunciam a glória
de Deus. Não há espaço para a tristeza
no dia em que nasce a vida, uma vida que destrói o
medo da morte e leva às alegrias das promessas eternas.
“Exulte o Santo porque
o perdão se aproxima, alegre-se o pecador porque o
perdão lhe é oferecido, encha-se de coragem
o pagão porque é chamado à vida”
(Leão Magno).
O
nascimento de Jesus é motivo de alegria não
apenas para os homens, mas também para todo o cosmos.
É com razão que a liturgia canta: “Alegrem-se
os céus, exulte a terra, alegrem-se os campos e as
árvores das florestas”. O Natal
é, portanto, um dia de alegria.
Em
toda a liturgia natalina existe o motivo da nova Sião,
na qual se realiza um acontecimento de importância única.
Mas quem é a nova Sião? No momento histórico
do Natal era o “resto
de Israel”, o núcleo que Deus
havia escolhido para acolher o Messias. Hoje a nova Sião
é a Igreja e com ela todos os cristãos, onde
e para quem Jesus se revela.
Os
sinais da nova era messiânica são a Estrela da
Justiça, a “Lâmpada
da Salvação” que brilha
para todos. É nestes termos sugestivos de incomparável
poesia divina que se deve entender o significado do Natal.
Por meio de Jesus temos a paz, a intimidade e a familiaridade
entre o homem e Deus (Romanos 5,1). Ele é
o príncipe da paz que estabeleceu um Reino onde a paz
não terá mais fim (Isaías 9,5-6).
Com
Cristo iniciou-se a nova Aliança, que é eterna.
Iniciaram-se o novo céu e a nova terra que os profetas
anunciaram (Isaías 65,17; 66,22).
Com o Natal renova-se uma espécie de jubileu, no qual
nos é oferecido o perdão das dívidas
(Levítico 25,8-17). Assim, instaurou-se
uma nova era de relações entre o céu
e a terra.
Deus,
ao humanizar-se, divinizou a humanidade. A união hipostática
das duas naturezas é qualificada como um matrimônio
entre Deus e a natureza humana. “No
seio de Maria deram-se as núpcias entre o Esposo e
a Esposa, o Verbo o Esposo e a carne a Esposa”
(Santo Agostinho). Aconteceu um intercâmbio
admirável, o Salvador tomou o nosso corpo e nos deu
a divindade. O homem foi elevado à dignidade perene.
A
encarnação não só divinizou o
homem, mas também sacralizou todas as realidades cósmicas,
porque Deus estabeleceu que todas as coisas existentes se
unissem a Cristo (Efésios 1,9-10).
O
Natal é considerado a grande meta para a qual se encaminhavam
todos os séculos e milênios, desde o início
do mundo, mas é também o novo ponto de partida
para o futuro. Cada Natal é para o cristão a
“plenitude dos tempos”,
em que volta a ocasião para gozar os dons da salvação.
Com
a paz de Constantino iniciou-se o costume de celebrar a missa
à meia-noite em Belém. A missa da Aurora era
no início celebrada pelo Papa na Igreja de Santa Anastácia,
junto com a colônia bizantina de Roma. A missa durante
o dia era celebrada pelo Papa na Basílica de São
Pedro.
Com
o Natal foi lançada a ponte entre o céu e a
terra, superando o abismo de separação. Por
isso, o Natal não é uma simples lembrança,
embora sugestiva e emocionante, mas é a erupção
de Deus na história do homem para transformá-la
e salvá-la. Uma inserção de Deus na história,
de maneira simples, sem sinais grandiosos.
Os
pastores reconheceram no Menino o sinal de Deus e com a força
desse sinal anunciaram a Deus. Ninguém pode anunciar
Cristo se não fizer a experiência d’Ele,
pois Ele não é um sistema, um programa, uma
idéia, mas uma pessoa.
“O
que mais impressiona no mistério da encarnação
não é o movimento de alto para baixo, mas o
movimento de baixo para o alto, pelo qual toda a humanidade
é assumida por Cristo para ser divinizada”
(Jean Pireau). Com a encarnação,
o homem é o novo rosto de Deus e Deus o novo rosto
do homem.
Em
nossa liturgia, o Natal é uma das celebrações
mais solenes, não por uma simples tradição
religiosa ou folclórica. Não é a celebração
de ritos, nem a comemoração de um grande evento
do passado. É, sim, a atualização do
mistério de Deus e dos profundos conteúdos humanos
e divinos no coração do homem. Com o Natal Jesus
revestiu-se de nossa pele e transformou o homem. Todavia,
“se Cristo nasce mil vezes
em Belém, mas não em você, em mim, não
teremos salvação e estaremos perdidos eternamente”
(Silésio).
O
Natal é o encontro íntimo com Cristo que encontramos
visivelmente na terra nos irmãos, especialmente nos
pobres, marginalizados, doentes, oprimidos, nos quais ele
continua a viver, sofrer e morrer. O Natal é, portanto,
um convite para procurar estes nossos irmãos. Jesus,
como na noite em que nasceu, encontra-se numa favela, entre
os indigentes. No Natal, Cristo que nasce para nós
deve apresentar-se com o nosso rosto, as nossas mãos...
O
nascimento de Deus para nós é um acontecimento
usual. Já nos acostumamos a tal ponto com ele que não
nos surpreende mais. É preciso recuperar a novidade
do Natal. Celebrar o Natal significa anunciar a boa nova ao
mundo que se esqueceu do sentido desta festa.
Cristo,
ao encarnar-se, tornou-se tudo para nós. “Se
desejas curar tuas feridas, Ele é o Médico.
Se queimas de febre, Ele é a fonte restauradora. Se
estás oprimido pela culpa, ele é a justiça.
Se tens necessidade de ajuda, Ele é a força.
Se temes a morte, Ele é a vida. Se desejas o caminho,
Ele é a Vida. Se foges da escuridão, Ele é
a Luz. Se procuras alimento, Ele é o nutrimento”
(Santo Ambrósio).
A
encarnação de Cristo é um grande mistério:
Deus se fez homem. Por isso, nos primeiros séculos
do cristianismo as controvérsias cristológicas
foram acentuadas com uma série de erros sobre Jesus
Cristo, negando a sua divindade. O expoente máximo
desta corrente foi um sacerdote alexandrino chamado Ário,
o qual no século IV colocou Cristo como um ser intermediário
entre Deus e os homens. O 1º Concílio de Nicéia
(325) condenou o arianismo e definiu a divindade
de Cristo afirmando: “Deus
de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado
e não criado, consubstancial ao Pai”.
Outro
erro cristológico teve como protagonista Apolinário
de Laudicéia. Ele afirmou que Cristo era um simples
corpo humano, animado não pela alma humana, mas pela
divindade. Esta heresia foi chamada de apolinarismo.
Depois
houve o monofisismo, afirmando que Jesus era somente natureza
(physis) divina. O docetismo afirmava
que Jesus teria apenas aparência de homem.
Contra
todos esses erros o Concílio de Calcedônia, em
451, definiu: “Um só
e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade
e na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, composto
de alma racional e de corpo, consubstancial a nós segundo
a humanidade, em tudo semelhante a nós exceto no pecado,
gerado pelo Pai antes dos séculos”.
Em
431, o Concílio de Éfeso definiu Maria como
Mãe de Deus, indo contra Nestório, patriarca
de Constantinopla, o qual afirmava que havia duas pessoas
em Jesus, defendendo com isso que de Maria teria nascido a
pessoa humana de Jesus. Contra este erro o Concílio
de Calcedônia definiu: “Confessamos
um só e mesmo Filho Unigênito, em duas naturezas
sem confusão e mudança, sem divisão nem
separação...”.
Portanto,
Jesus é Pessoa, Filho de Deus, subsistente em duas
naturezas, unidas e não confusas, distintas e não
separadas. Isto se chama união hipostática.
Mas
as disputas em torno do mistério de Jesus não
cessaram. O 3º Concílio de Constantinopla, em
681, foi contra o monotelismo (uma só vontade)
para salvaguardar a impecabilidade de Jesus, pois esta heresia
negava a vontade humana de Jesus, diminuindo assim a sua natureza
humana. Por isso, o Concílio definiu que em Cristo
subsistem duas vontades, a divina e a humana, distintas como
duas naturezas, mas perfeitamente harmônicas entre si.
Celebramos
o maior acontecimento da história. Jesus é hoje
um personagem de quem todo mundo fala, e sem ele a nossa vida
é vazia. Por isso:
•
Somos convidados como os pastores a ir ao encontro de
Jesus não mais em Belém, mas dentro de nós,
para despertar nossos corações da apatia,
do egoísmo, do pecado...
• Jesus se torna solidário com o homem. Entre
nós e Deus em Jesus se dá uma comunhão
de existência, uma identidade de destino que é
Deus.
• Jesus feito homem é a expressão
mais alta do amor de Deus por nós. Ele veio para
estar conosco e estar para nós.
• Deus se aproximou de nós, esposou a nossa
condição, vindo restituir a grandeza humana.
O
nascimento de Jesus foi enfocado pelos evangelistas de maneira
rica e até diversificada. Todos eles narram o mistério
contido neste evento escondido através dos tempos e
agora revelado.
Lucas
focaliza Jesus menino em Belém como Rei-Messias, esperado
pelo povo, cumprindo as promessas antigas, trazendo a paz
e a justiça.
João
deixa de lado a crônica dos fatos históricos
e constrói uma teologia do Natal, apresentando Deus
que se faz homem e renova o mundo. Jesus se faz solidário
conosco, assume a nossa carne, a nossa própria existência,
assume na nossa história tudo que é bonito,
heróico e grande, mas também o que é
mesquinho, sofrível, triste e trágico.
Os
pastores voltaram glorificando a Deus. Devemos também
voltar para o “mundo”
glorificando Deus em nossa vida, levando a notícia
alegre da salvação, da esperança.
Se
Deus esposou a nossa condição humana, quis com
isto dizer que somos dignos dele, somos capazes de possuí-lo.
Com isso podemos ter um relacionamento pessoal com ele, dialogar
com ele, abrir-nos para acolhê-lo.
A
presença de Deus em nosso meio cria um novo tipo de
relacionamento entre os homens. Não só no nível
humano, mas no da fraternidade com a posse da mesma dignidade
do Filho de Deus.
Não
continuamos a ser filhos de Deus se não somos todos
irmãos, se não adotamos para com todos a mesma
atitude de Deus, isto é, um amor gratuito, livre, até
ao sacrifício.
Ao
relatar o nascimento de Jesus, Lucas se refere ao imperador
romano Augusto. Não existe uma data precisa a respeito
do censo ordenado por Quirino. Ele foi realizado provavelmente
entre os anos 6 e 4 a.C. Há uma divergência de
datas entre o nascimento de Jesus e o início da era
cristã devido a um erro de cálculo de Dionísio
Exíguo (século VI), que estabeleceu
a data inicial da era cristã em relação
aos anos da fundação de Roma, baseando-se em
Lucas 3,1-23. Jesus nasceu uns seis anos antes do começo
da nossa era. |