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ANO A - São Mateus
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ADVENTO
COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
ADVENTO
Natal do Senhor
24 de Dezembro de 2010

Primeira Leitura
Isaías
9,1-6
UM MENINO NASCEU PARA NÓS,
O PRÍNCIPE DA PAZ

No ano 732 a.C., Tiglat Falasar III, rei da Assíria, tomou os territórios de Zabulão e Neftali, pertencentes ao reino do Norte. A situação do povo era de trevas e sombra da morte (9,1). O profeta anuncia a salvação para esse povo sem esperança.

Isaías descreve a libertação desses territórios em três momentos:

a) A libertação se traduz concretamente no fim da opressão, possibilitando que o povo viva em paz e na alegria. A alegria do povo libertado é semelhante àquela que se experimenta durante a colheita abundante. É como a alegria em repartir os despojos de guerra, quando o povo faz festa não só por causa da vitória, mas também porque com a vitória reconquistou o que o inimigo lhe havia roubado. Deus quebra a carga pesada que oprimia o povo, quebra a vara do capataz. A vitória dos pobres oprimidos lembra a história de Madiá (Juízes 7,15-25), quando Gedeão, liderando um grupo, venceu o exército inimigo. Isaías descreve ainda a vitória dizendo que os libertados farão uma grande fogueira com os símbolos da opressão: as botas dos soldados e os mantos embebidos de sangue.
b) Uma luz vai brilhar, uma nova aurora vai surgir, colocando ordem no caos, como ocorreu na criação (Gênesis 1,3).
c) O nascimento de um menino trará a libertação para o povo. Este é o motivo principal que explica e realiza o que havia sido anunciado. As esperanças reflorescem com esse nascimento, pois este menino-esperança tem algumas características. Traz em seus ombros o manto do rei. Sua identidade é manifestada através do seu nome, que envolverá ações em favor do povo. Sua identidade manifesta-se ainda como Conselheiro Admirável, Deus forte, Pai para sempre, Príncipe da paz. Todos esses adjetivos traduzem a ação do novo Rei: será mais sábio que Salomão, capaz de fazer justiça ao povo (Conselheiro Admirável); será mais forte que Davi, defendendo o povo das ameaças estrangeiras, pois possui a força do próprio Deus (Deus forte); será um líder que superará a liderança de Moisés, conduzindo o povo à vida definitiva (Pai para sempre) e mediante tudo isso estabelecerá a paz e a plenitude dos bens (Príncipe da paz).

Como conseqüência dessa administração justa, haverá um Reino sem limites, cumprindo as promessas feitas a Davi, um Reino que durará para sempre porque fundado na administração justa.

O Novo Testamento leu este texto à luz do nascimento, morte e ressurreição de Jesus, mesmo porque esse tipo de realeza não se realizou nos reis de Judá e de Israel.

Segunda Leitura
Tito
2,11-14

A GRAÇA DE DEUS MANIFESTOU-SE

Tito era um delegado especial de Paulo na ilha de Creta. Paulo contou com ele para organizar a comunidade de Creta. Esta carta foi escrita por volta dos anos 64-65. É uma carta pastoral e Tito defendeu a fé das teorias judaicas e dos costumes pagãos que se infiltravam. Após a fundação desta comunidade, alguns cristãos misturaram o Evangelho com teorias difundidas por grupos judaicos e os costumes pagãos falseavam a moral. Diante disso, era preciso insistir na salvação trazida por Cristo.

Paulo motiva a comunidade partindo do princípio da manifestação da graça de Deus em Cristo que dá a salvação para todos. Por isso, os cristãos são convidados a viver a novidade do Evangelho e viver isso é romper com o passado: abandonar a impiedade e as paixões mundanas, isto é, romper com os esquemas e propostas de vida apresentados pelo "status quo", o modo de viver paganizado que não se traduz na prática de uma sociedade justa e fraterna. Por isso, o cristão deve viver com equilíbrio, justiça e piedade (v.12), sintonizado com o projeto de Deus.

Paulo não exorta os cristãos a se afastarem do mundo, mas a atuarem nele “zelando pelas boas obras”. Vivendo assim, a comunidade é chamada a caminhar na expectativa da feliz esperança e na manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (v.13).

O apóstolo conclui a sua admoestação com uma breve catequese cristológica: Jesus é Aquele que se entregou ao Pai por nós. Sua morte é resgate, isto é, libertação (palavra que lembra a compra de escravos no mercado). Portanto, ser cristão é ser livre e comprometido com a liberdade e a vida, pois a morte e ressurreição de Jesus colocou o povo sob o domínio de Deus.

Evangelho
Lucas
2,1-14
HOJE NASCEU PARA VOCÊS O SALVADOR

Este texto não é um relato histórico, mas uma leitura à luz da morte e ressurreição de Jesus. Lucas desenvolve uma reflexão teológica, na qual afirma que as promessas de Deus se realizaram e ao mesmo tempo revela a dignidade superior de Jesus em relação a João Batista.

O evangelista mostra que o Salvador não entrou na história dos homens pelo caminho trilhado pelos poderosos. A ordem de fazer um recenseamento, vinda de César Augusto, o centro do poder, tinha como objetivo arrecadar taxas nas cidades.

Jesus nasceu numa gruta em Belém, nasceu pobre, recebeu a visita de pastores e a notícia do nascimento foi dada pelo Anjo. Como se vê, a salvação não vem dos palácios, dos que abusam do poder, mas de um pobre filho de marginalizados. Nasceu de uma Virgem, como primogênito (Prototokos), filho que segundo a Lei era propriedade particular de Deus e por isso devia ser resgatado com a oferta de um sacrifício no Templo (Êxodo 13,12-13; 34,19-20; Números 18,15), e seus pais, submissos a essa Lei, cumpriram o preceito plenamente (Lucas 2,22).

A segunda parte deste relato apresenta uma teofania, uma aparição do Anjo que, através da mensagem do nascimento de um menino, culmina no canto de glória. “Hoje na cidade de Davi nasceu para vocês o Salvador...”. Este era o tipo de anúncio do nascimento ou entronização dos reis e imperadores, vistos como epifania dos deuses. Mas a comunicação de Deus não se dirige aos poderosos e sim aos pastores, odiados porque não respeitavam as propriedades alheias, invadindo-as com seus rebanhos, e porque cobravam preços exorbitantes por seus produtos. Segundo o Talmude babilônico, um pastor não podia ser escolhido para o cargo de juiz ou para ser testemunha nos tribunais, por causa de sua má fama. Assim, a salvação vem de Belém e não de Jerusalém. O Salvador entra na história longe dos palácios e dos berços dourados.

REFLEXÃO

As leituras se referem aos tempos messiânicos. O acontecimento concreto do nascimento de uma criança é tido como o futuro concretizado cheio de glória e tendo Deus como protagonista. A graça de Deus é portadora da salvação para todos os homens (Tito 2,11).

O Natal era uma festa pagã antes de ser uma festa cristã. Até o início do século IV era uma festa na qual se celebrava o “Sole Invictus”. O próprio Jesus é definido por Zacarias como “o Sol que surge do alto”. Ele é o sol da nossa vida, sem ele há a morte. Com o Natal aparece a graça de Deus que traz a salvação a todos os homens. Com o nascimento de Jesus aprendemos que devemos amar, e “Dieu, premier servì”- “Deus é o primeiro que deve ser servido” com o nosso amor (Joana d’Arc).

Nós todos carregamos em nossos corações remédios adequados para curar todos os males do mundo. Não existe um só problema que não possa ser resolvido com o amor e o perdão (Fromm). Com o Natal recebemos o Reino de Deus. “Nascemos em um Reino; obedecer a Deus é a verdadeira liberdade” (Sêneca).

As leituras da liturgia desta noite se abrem com a frase: “O povo que jazia nas trevas...”. As trevas significam a condição de pecado. Este povo recebeu a Luz, isto é, Deus. Quais são as conseqüências práticas da presença dessa Luz?

a) Reconhecer Jesus como único Salvador, nosso Chefe, Guia e Rei.
b) Segui-lo significa praticar seus ensinamentos.
c) Viver com alegria, cujo tema permeia toda a liturgia de hoje.

Na visita dos pastores a Jesus, reconhecemos as leis do encontro com o Senhor.

1º) Da oferta - Para que o homem possa encontrar a Deus, é preciso que Deus tome a iniciativa.
2º) Do comportamento dos pastores - Para que o homem possa encontrar a Deus, é preciso buscá-lo.

O nascimento de Jesus é um acontecimento que dividiu a história em duas partes: a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo). É um acontecimento já anunciado pelos profetas nos séculos. No confronto com os outros personagens históricos, quem se lembra do nascimento de Alexandre Magno, de Júlio César, de Napoleão?

Mas por que o nascimento de Jesus é importante? Porque Ele não é um homem como os outros. Também é Deus. É o Verbo de Deus feito carne há dois mil anos, e concebido pelo Espírito Santo. Deus se tornou homem para que o homem se tornasse Deus. Deus se aproxima de nós para que nos aproximemos Dele. Veio ao encontro da nossa humanidade para que fôssemos ao encontro da sua divindade.

Eis a síntese do Cristianismo e de toda a nossa fé: Deus desceu do céu, tornou-se um conosco para que nos uníssemos a Ele. A liturgia nos fala de uma troca. Deus tomou a nossa humanidade e nos ofereceu em troca a sua divindade. Uma troca admirável. Por isso, São Leão Magno diz: “Agnosce, christiane, dignitatem tuam!”.

O ensinamento do Natal é a condescendência divina: “Tu desces das estrelas, Rei dos céus, e vens em uma gruta fria...”. É o reconhecimento da dignidade e grandeza do homem. O homem é uma criatura muito grande e nobre, e Deus o amou ao ponto de tornar-se homem por causa d’Ele. Eis, portanto, o respeito que devemos ter pelo homem: “Respeito ao homem, respeito à vida humana, desde o momento da concepção até o último suspiro.” Esta é a grande dignidade do homem que determinou a encarnação do Filho de Deus, tornando-o membro da família humana.

Os antigos comemoravam a festa do “Natalis solis invicti”, o nascimento do sol invencível. Para os cristãos, o verdadeiro sol invencível é Jesus. Por isso, o seu nascimento e a realização do plano de Deus é a maior graça na vida dos homens, que é a sua divinização. Por isso o Natal é:

Festa da nossa Salvação - Na liturgia desta missa Deus se mostra como início da nossa salvação. São Leão Magno associou o Natal à Páscoa: “O Natal é o inicio da Salvação que se consumará na morte e ressurreição de Jesus. Com o Natal podemos conhecer quem Deus é, ver a sua face e receber a sua salvação”.

Festa da Luz - Na oração da coleta da Missa da Aurora encontramos: “A Luz do vosso Verbo Encarnado invade o nosso coração. Fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé em nossas mentes”. O Natal, com a sua Luz que é o Cristo, dissipa todas as trevas que encobrem o pecado em todas as suas formas de injustiça, desigualdades, poder e prazer.

Festa da renovação plena do homem - A divinização do homem é o tema que mais aparece na liturgia natalina. Por Cristo realizou-se o encontro de Deus com o homem. Nele a natureza humana recebeu uma dignidade incomparável, em que Deus se tornou de tal modo um de nós, que nos tornamos eternos. Assim, Deus se fez “homem para que o homem se tornasse divino” (Santo Atanásio de Alexandria).

Maria, preparada cuidadosamente por Deus para ser a Mãe do Messias prometido, recebeu dos cristãos o título de “Casa de Ouro”. Nela o Filho de Deus habitou durante nove meses e tal foi a união com a divindade que Ela foi o Templo mais belo da Santíssima Trindade. Nela “a sabedoria edificou para si uma casa na terra” (Provérbios 9,1).

O seu coração foi a mansão santa da eternidade, escolhida, preparada e decorada de modo especial pelo arquiteto do universo.

Na Roma antiga ficou famoso um santuário que Nero edificou no Paladino. O requinte da construção se espelhava nos jardins e em todos os cômodos. De tal forma o ouro foi empregado nesta construção que ela recebeu a denominação de “domus áurea”, ou casa de ouro, isto é, Maria.

O clima do Natal é festivo. Entra-se numa loja e o visual agrada. Há cartazes bem feitos, pinheirinhos iluminados, mas onde está o Menino Jesus? As ruas das cidades estão todas enfeitadas, mas onde está Jesus? Nos clubes, restaurantes, salões de beleza, postos de gasolina, rodovias, praças... tudo é muito vistoso, mas onde está o Menino Jesus? Visitamos as residências e encontramos quadros, tapetes, arranjos de flores, mas onde está o Menino Jesus? Os cartões natalinos estampam artistas, crianças, paisagens..., mas e o Menino Jesus? Jesus poderia muito bem ser mais lembrado, pois o Natal é tê-lo no coração. É paz, perdão, amor, união...

Hoje a Igreja revive em seu coração a alegria dos patriarcas, dos profetas, de Maria, de José, de João Batista, dos pastores e dos Anjos que anunciam a glória de Deus. Não há espaço para a tristeza no dia em que nasce a vida, uma vida que destrói o medo da morte e leva às alegrias das promessas eternas. “Exulte o Santo porque o perdão se aproxima, alegre-se o pecador porque o perdão lhe é oferecido, encha-se de coragem o pagão porque é chamado à vida” (Leão Magno).

O nascimento de Jesus é motivo de alegria não apenas para os homens, mas também para todo o cosmos. É com razão que a liturgia canta: “Alegrem-se os céus, exulte a terra, alegrem-se os campos e as árvores das florestas”. O Natal é, portanto, um dia de alegria.

Em toda a liturgia natalina existe o motivo da nova Sião, na qual se realiza um acontecimento de importância única. Mas quem é a nova Sião? No momento histórico do Natal era o “resto de Israel”, o núcleo que Deus havia escolhido para acolher o Messias. Hoje a nova Sião é a Igreja e com ela todos os cristãos, onde e para quem Jesus se revela.

Os sinais da nova era messiânica são a Estrela da Justiça, a “Lâmpada da Salvação” que brilha para todos. É nestes termos sugestivos de incomparável poesia divina que se deve entender o significado do Natal. Por meio de Jesus temos a paz, a intimidade e a familiaridade entre o homem e Deus (Romanos 5,1). Ele é o príncipe da paz que estabeleceu um Reino onde a paz não terá mais fim (Isaías 9,5-6).

Com Cristo iniciou-se a nova Aliança, que é eterna. Iniciaram-se o novo céu e a nova terra que os profetas anunciaram (Isaías 65,17; 66,22). Com o Natal renova-se uma espécie de jubileu, no qual nos é oferecido o perdão das dívidas (Levítico 25,8-17). Assim, instaurou-se uma nova era de relações entre o céu e a terra.

Deus, ao humanizar-se, divinizou a humanidade. A união hipostática das duas naturezas é qualificada como um matrimônio entre Deus e a natureza humana. “No seio de Maria deram-se as núpcias entre o Esposo e a Esposa, o Verbo o Esposo e a carne a Esposa” (Santo Agostinho). Aconteceu um intercâmbio admirável, o Salvador tomou o nosso corpo e nos deu a divindade. O homem foi elevado à dignidade perene.

A encarnação não só divinizou o homem, mas também sacralizou todas as realidades cósmicas, porque Deus estabeleceu que todas as coisas existentes se unissem a Cristo (Efésios 1,9-10).

O Natal é considerado a grande meta para a qual se encaminhavam todos os séculos e milênios, desde o início do mundo, mas é também o novo ponto de partida para o futuro. Cada Natal é para o cristão a “plenitude dos tempos”, em que volta a ocasião para gozar os dons da salvação.

Com a paz de Constantino iniciou-se o costume de celebrar a missa à meia-noite em Belém. A missa da Aurora era no início celebrada pelo Papa na Igreja de Santa Anastácia, junto com a colônia bizantina de Roma. A missa durante o dia era celebrada pelo Papa na Basílica de São Pedro.

Com o Natal foi lançada a ponte entre o céu e a terra, superando o abismo de separação. Por isso, o Natal não é uma simples lembrança, embora sugestiva e emocionante, mas é a erupção de Deus na história do homem para transformá-la e salvá-la. Uma inserção de Deus na história, de maneira simples, sem sinais grandiosos.

Os pastores reconheceram no Menino o sinal de Deus e com a força desse sinal anunciaram a Deus. Ninguém pode anunciar Cristo se não fizer a experiência d’Ele, pois Ele não é um sistema, um programa, uma idéia, mas uma pessoa.

O que mais impressiona no mistério da encarnação não é o movimento de alto para baixo, mas o movimento de baixo para o alto, pelo qual toda a humanidade é assumida por Cristo para ser divinizada” (Jean Pireau). Com a encarnação, o homem é o novo rosto de Deus e Deus o novo rosto do homem.

Em nossa liturgia, o Natal é uma das celebrações mais solenes, não por uma simples tradição religiosa ou folclórica. Não é a celebração de ritos, nem a comemoração de um grande evento do passado. É, sim, a atualização do mistério de Deus e dos profundos conteúdos humanos e divinos no coração do homem. Com o Natal Jesus revestiu-se de nossa pele e transformou o homem. Todavia, “se Cristo nasce mil vezes em Belém, mas não em você, em mim, não teremos salvação e estaremos perdidos eternamente” (Silésio).

O Natal é o encontro íntimo com Cristo que encontramos visivelmente na terra nos irmãos, especialmente nos pobres, marginalizados, doentes, oprimidos, nos quais ele continua a viver, sofrer e morrer. O Natal é, portanto, um convite para procurar estes nossos irmãos. Jesus, como na noite em que nasceu, encontra-se numa favela, entre os indigentes. No Natal, Cristo que nasce para nós deve apresentar-se com o nosso rosto, as nossas mãos...

O nascimento de Deus para nós é um acontecimento usual. Já nos acostumamos a tal ponto com ele que não nos surpreende mais. É preciso recuperar a novidade do Natal. Celebrar o Natal significa anunciar a boa nova ao mundo que se esqueceu do sentido desta festa.

Cristo, ao encarnar-se, tornou-se tudo para nós. “Se desejas curar tuas feridas, Ele é o Médico. Se queimas de febre, Ele é a fonte restauradora. Se estás oprimido pela culpa, ele é a justiça. Se tens necessidade de ajuda, Ele é a força. Se temes a morte, Ele é a vida. Se desejas o caminho, Ele é a Vida. Se foges da escuridão, Ele é a Luz. Se procuras alimento, Ele é o nutrimento” (Santo Ambrósio).

A encarnação de Cristo é um grande mistério: Deus se fez homem. Por isso, nos primeiros séculos do cristianismo as controvérsias cristológicas foram acentuadas com uma série de erros sobre Jesus Cristo, negando a sua divindade. O expoente máximo desta corrente foi um sacerdote alexandrino chamado Ário, o qual no século IV colocou Cristo como um ser intermediário entre Deus e os homens. O 1º Concílio de Nicéia (325) condenou o arianismo e definiu a divindade de Cristo afirmando: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”.

Outro erro cristológico teve como protagonista Apolinário de Laudicéia. Ele afirmou que Cristo era um simples corpo humano, animado não pela alma humana, mas pela divindade. Esta heresia foi chamada de apolinarismo.

Depois houve o monofisismo, afirmando que Jesus era somente natureza (physis) divina. O docetismo afirmava que Jesus teria apenas aparência de homem.

Contra todos esses erros o Concílio de Calcedônia, em 451, definiu: “Um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, composto de alma racional e de corpo, consubstancial a nós segundo a humanidade, em tudo semelhante a nós exceto no pecado, gerado pelo Pai antes dos séculos”.

Em 431, o Concílio de Éfeso definiu Maria como Mãe de Deus, indo contra Nestório, patriarca de Constantinopla, o qual afirmava que havia duas pessoas em Jesus, defendendo com isso que de Maria teria nascido a pessoa humana de Jesus. Contra este erro o Concílio de Calcedônia definiu: “Confessamos um só e mesmo Filho Unigênito, em duas naturezas sem confusão e mudança, sem divisão nem separação...”.

Portanto, Jesus é Pessoa, Filho de Deus, subsistente em duas naturezas, unidas e não confusas, distintas e não separadas. Isto se chama união hipostática.

Mas as disputas em torno do mistério de Jesus não cessaram. O 3º Concílio de Constantinopla, em 681, foi contra o monotelismo (uma só vontade) para salvaguardar a impecabilidade de Jesus, pois esta heresia negava a vontade humana de Jesus, diminuindo assim a sua natureza humana. Por isso, o Concílio definiu que em Cristo subsistem duas vontades, a divina e a humana, distintas como duas naturezas, mas perfeitamente harmônicas entre si.

Celebramos o maior acontecimento da história. Jesus é hoje um personagem de quem todo mundo fala, e sem ele a nossa vida é vazia. Por isso:

• Somos convidados como os pastores a ir ao encontro de Jesus não mais em Belém, mas dentro de nós, para despertar nossos corações da apatia, do egoísmo, do pecado...
• Jesus se torna solidário com o homem. Entre nós e Deus em Jesus se dá uma comunhão de existência, uma identidade de destino que é Deus.
• Jesus feito homem é a expressão mais alta do amor de Deus por nós. Ele veio para estar conosco e estar para nós.
• Deus se aproximou de nós, esposou a nossa condição, vindo restituir a grandeza humana.

O nascimento de Jesus foi enfocado pelos evangelistas de maneira rica e até diversificada. Todos eles narram o mistério contido neste evento escondido através dos tempos e agora revelado.

Lucas focaliza Jesus menino em Belém como Rei-Messias, esperado pelo povo, cumprindo as promessas antigas, trazendo a paz e a justiça.

João deixa de lado a crônica dos fatos históricos e constrói uma teologia do Natal, apresentando Deus que se faz homem e renova o mundo. Jesus se faz solidário conosco, assume a nossa carne, a nossa própria existência, assume na nossa história tudo que é bonito, heróico e grande, mas também o que é mesquinho, sofrível, triste e trágico.

Os pastores voltaram glorificando a Deus. Devemos também voltar para o “mundo” glorificando Deus em nossa vida, levando a notícia alegre da salvação, da esperança.

Se Deus esposou a nossa condição humana, quis com isto dizer que somos dignos dele, somos capazes de possuí-lo. Com isso podemos ter um relacionamento pessoal com ele, dialogar com ele, abrir-nos para acolhê-lo.

A presença de Deus em nosso meio cria um novo tipo de relacionamento entre os homens. Não só no nível humano, mas no da fraternidade com a posse da mesma dignidade do Filho de Deus.

Não continuamos a ser filhos de Deus se não somos todos irmãos, se não adotamos para com todos a mesma atitude de Deus, isto é, um amor gratuito, livre, até ao sacrifício.

Ao relatar o nascimento de Jesus, Lucas se refere ao imperador romano Augusto. Não existe uma data precisa a respeito do censo ordenado por Quirino. Ele foi realizado provavelmente entre os anos 6 e 4 a.C. Há uma divergência de datas entre o nascimento de Jesus e o início da era cristã devido a um erro de cálculo de Dionísio Exíguo (século VI), que estabeleceu a data inicial da era cristã em relação aos anos da fundação de Roma, baseando-se em Lucas 3,1-23. Jesus nasceu uns seis anos antes do começo da nossa era.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
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