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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
NOITE
DE NATAL
24 de Dezembro de 2009
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Primeira
Leitura
Isaías 9,1-6
UM
MENINO NASCEU PARA NÓS, O PRÍNCIPE DA PAZ |
Isaías
profetiza em 700 a.C. em Jerusalém. O reino do Norte
está para desaparecer e a perspectiva histórica
não oferece esperanças, mas, para o profeta,
onde houver trevas a glória de Javé voltará
e a presença e a proteção divina serão
palpáveis.
No
ano 732 a.C., Teglat Falasar III reinava na Assíria.
Tomou os territórios de Zabulon e Neftali, pertencentes
ao reino do Norte, e é para este povo dominado e sem
esperança que o profeta anuncia a libertação.
Uma nova aurora nascerá, como no início da criação,
em que houve um ordenamento do caos (Gênesis
1,3). Esta libertação gerará
paz e uma alegria experimentada como a da colheita abundante
ou a da repartição dos despojos de guerra. Deus
quebrará a canga que oprimia o povo, quebrando a vara
do capataz.
Esta
libertação será comemorada com uma grande
fogueira, em que as botas e as roupas dos soldados embebidas
de sangue (símbolo de opressão)
serão queimadas. A libertação será
comemorada com uma fogueira dos símbolos da opressão.
Israel
é um povo encarnado na história e vive sua experiência
religiosa em chave nacionalista. Por isso pinta a salvação
messiânica com tons de sucesso, onde se registrará
o fim das hostilidades, onde as fardas dos militares serão
queimadas e as armas transformadas em arados (Isaías
2,4), onde o lobo comerá com o cordeiro (Gênesis
1,30; 11,6). A vitória lembrará o episódio
de Madiã (Juízes 7,15-23),
quando Gedeão venceu o exército.
Por
fim nascerá um menino-esperança para o povo
sofrido. Ele trará em seus ombros um manto de rei.
Seu nome indica a sua identidade: Conselheiro admirável,
Deus forte, Pai para sempre, Príncipe da paz. Este
rei será mais sábio que Salomão, capaz
de fazer justiça ao povo (Conselheiro admirável).
Será mais forte que Davi, defendendo o povo das ameaças
externas, pois terá a força de Deus (Deus
forte). Terá uma liderança superior
à de Moisés, conduzindo o povo para a plena
liberdade (Pai para sempre), e assim criará
a paz que é Shalom, plenitude dos bens (Príncipe
da paz).
A
conseqüência de sua administração
será um reino sem limites, realizando as promessas
feitas a Davi. Seu reino durará para sempre, porque
é fundado na justiça.
Isaías
encerra dizendo que este é o projeto que Deus quer
para o mundo (v.66). Para o Novo Testamento
isto aconteceu com Jesus. Este oráculo foi lido à
luz do nascimento, morte e ressurreição de Jesus.
Esta realeza não se deu em nenhum dos reis de Judá
e Israel. Contudo, resta a pergunta: Por que não se
faz uma fogueira de tudo que é opressão? |
Segunda
Leitura
Tito 2,11-14
A GRAÇA DE DEUS SE MANIFESTOU! |
Esta
carta foi escrita provavelmente em 64-65. Tito é um
delegado de Paulo na ilha de Creta, um lugar onde falseavam
a palavra de Deus, pois ali o Evangelho é misturado
com as propagandas dos gregos judaicos, assim como costumes
pagãos são infiltrados e falseada a moral.
Diante
disto Paulo ensina que o cristão, vivendo neste ambiente
falso, deve manifestar a novidade do Evangelho, o que significa
uma ruptura, ou seja, o abandono das paixões mundanas,
o rompimento com os esquemas apresentados pelo “status
quo”, ou seja, a fé em Cristo
deve repercutir na práxis dos cristãos, que
vivem no mundo com justiça, piedade e equilíbrio
diante do projeto de Deus. É preciso banir da vida
do cristão a impiedade (asebeia),
que significa a falta de amor a Deus. E também a incredulidade
(apistia), ou seja, a infidelidade
a Cristo.
Paulo
coloca como fundamento deste seu ensinamento a manifestação
da graça de Deus em Cristo: “Apareceu
a graça... portadora da salvação”.
O verbo “epiphrésthai”
(manifestar-se, aparecer) e os substantivos
“charis”
(graça) e “soteria”
(salvação) pertenciam no ambiente
helenístico tanto à linguagem estritamente religiosa
quanto à linguagem celebrativa do imperador. Aqui são
aplicados à pessoa de Cristo.
Esta
atitude de Cristo é a “escola
da encarnação”, que o
Natal nos propõe continuamente.
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Evangelho
Lucas 2,1-14
HOJE O SALVADOR NASCEU PARA VOCÊS |
É
o relato do Evangelho da Infância. O objetivo do evangelista
não é de caráter histórico, ou
preencher um vazio deixado na narração do Evangelho.
O Messias não entra no mundo pelo caminho trilhado
pelos poderosos. A salvação não vem dos
poderosos que dominam e abusam do poder. Vem de um pobre,
filho de marginalizados e explorados.
Jesus
nasce no abandono: “Hoje,
na cidade de Davi nasceu-nos o Salvador...”.
Esta maneira de noticiar era conhecida naquele tempo. Esta
expressão era usada para anunciar o nascimento de um
imperador, interpretado como epifania dos deuses.
Se
o nascimento de João Batista interessou a seus parentes
(Lucas 1,57-58) e colocou interrogações
e novas perspectivas à fé dos habitantes da
Judéia (Lucas 1,65-66), o nascimento
de Jesus interessa a toda a terra. No recenseamento de César
Augusto (Lucas 2,15) se completaram os dias
de Maria (Lucas 2,6-11). É um sinal
proclamado pelos anjos e divulgado pelos pastores (Lucas
2,12-20). |
REFLEXÃO |
O
nascimento de Jesus é o compromisso radical de Deus
com o homem. É a mais alta promoção
do homem. O Menino que nasce fraco em Belém divide
a história em duas partes: antes e depois dele. Nenhum
calendário resistiu-lhe: nem o da dinastia do Egito,
nem o da Grécia (Olimpíadas),
nem o da fundação de Roma.
O
Natal é festa do homem, diz João Paulo II,
pois quando Jesus assume a carne dignifica e eleva a natureza
humana. Efetua-se a humanização de Deus e
a divinização do homem. Deus está conosco
e é homem. Ele crê no homem a ponto de encarnar-se.
Sua presença no meio de nós é germe
de esperança. Deus enobreceu nossa humanidade.
O
Natal nos convida a entender melhor a mensagem envolvente
da gruta de Belém. A encarnação é
o anúncio mais agradável que o homem pode
ouvir, pois o divino manifesta sua presença na história
dos homens.
A
vinda deste Messias não ocorre num palácio,
mas numa gruta. O Cristo no presépio é uma
imagem que sempre comoveu artistas e santos, mas é
um evento em que somos chamados a compreender o seu significado.
A gruta não é o lugar ideal para os homens,
mas é o lugar onde ainda vivem milhares de homens.
Cristo escolheu esta situação, embora fosse
rico (2 Coríntios 8,9), para partilhar
a situação dos pobres. Não por amor
à pobreza, mas por amor ao homem pobre.
A
criança que contemplamos no presépio não
é um menino como os outros. É o “Deus
poderoso”, o “Pai
para sempre”, o “Príncipe
da Paz”, o “Salvador”.
Deus assumiu o semblante humano, o sorriso de uma criança.
Fez-se homem para ser amado e reconhecido por nós.
Por nós e pela nossa salvação, ele
desceu do céu. Poderia chegar até nós
de outra forma, mas escolheu esta porque o homem é
importante para Deus. É o centro da criação,
é o fim da Redenção. “Só
no mistério do Verbo encarnado encontra verdadeira
luz o mistério do homem” (Gaudium
et Spes 22). O Verbo se fez homem para todos. “Não
existe mais judeu, nem grego, nem escravo, nem livre, nem
homem e nem mulher”. Ele é
um Deus vizinho e não distante (Jeremias),
e demonstrou isto assumindo tudo aquilo que é tipicamente
humano: alegrias, dores, liberdade, amizade, esperança,
morte... Não existe religião que tenha um
Deus tão perto como o nosso. Um Deus que nasce perto
dos animais, que senta à mesa com os pecadores, que
participa da festa de casamento, que conhece o cansaço
do trabalho, que cultiva a amizade...
O
Natal não é apenas uma celebração
alegre, mas também um evento que vem do céu.
É a erupção de Deus na história
do homem, um evento que envolve a vida do homem. Por se
fazer pequeno, acessível, simples, Deus conosco,
elevou o homem à dimensão divina, aproximou
o homem de Deus.
Por
isso, o Natal se traduz em empenho cristão, não
num fato sociológico ou cultural, mas eclesial. Deus
encurtou as distâncias para conviver conosco. Disse
sim ao homem e ao mundo.
As
leituras de hoje nos sugerem atenção e disponibilidade
como as dos pastores, empenho constante, humilde e generoso
como o de José e Maria e a colaboração
com a graça como nos pedem Paulo e Isaías.
Quando
Jesus nasceu, o mundo estava envolto nas trevas, no erro,
na culpa. Deus iluminou aquela noite com o esplendor de
Cristo, verdadeira Luz do mundo. Uma iniciativa divina,
que não abandonou o homem em sua culpa, mas apareceu
na plenitude dos tempos para restaurar o que o homem havia
estragado com o pecado. A Luz veio para ensinar aos homens
a verdade, o caminho, a vida.
Jesus
veio para nos fazer participar da glória do céu.
Este é o aspecto profundo do Natal.
O
Natal lembra o dom de Deus para nós, um dom de luz
para iluminar nosso caminho, mostrando a grandeza do homem,
o sentido da vida. Veio para nos dar o dom da paz, que é
amor fraterno, bênção de Deus, uma dimensão
do espírito fundada na verdade, na justiça
e na bondade.
O
Natal não diz respeito somente à aproximação
de Deus da terra, mas também à elevação
do homem à categoria divina. “Vocês
não conhecem a sua origem...”,
dizia Paulo no Areópago. Somos da estirpe de Deus
(Atos dos Apóstolos 17,28s). “Agnosce,
christiane, dignitatem tuam”,
dizia São Gregório Magno. Dignidade vista
não tanto pela antropologia, quanto pela consideração
de que o divino e o humano não somente se abraçam,
mas se operam na mesma pessoa.
Jesus
não é um Deus disfarçado de homem,
nem um homem que absorveu a divindade, mas o filho de Maria,
que viveu para os outros.
O
Natal nos mostra um fato surpreendente, pois Deus, que reina
no céu, estabelece sua morada em nosso meio, escolhendo
uma gruta para irradiar sua glória.
O
Natal é o mistério da presença de Deus
em nossa vida, presença que renova e redime o homem
e o faz participar da vida divina. É o encontro de
Deus amigo com o homem. Este encontro é capaz de
despertar em nós sentimentos verdadeiros e profundos.
O
Natal nos anuncia que chegou até nós uma nova
presença, a do inocente. Sua estada entre nós
cria uma presença nova e absoluta.
“Num
dia de calor, três peregrinos cansados pararam diante
de uma fonte bem fresca. Beberam muita água. Depois
sentaram a uma sombra e avistaram uma inscrição:
“A fonte seja
o teu modelo”. O que esta frase significava
para aqueles peregrinos? O primeiro peregrino, homem de
negócios, disse: “Esta inscrição
adverte que a fonte forma o córrego, este desemboca
no rio, o qual por sua vez deságua no mar. A água
corre, cria energia e riqueza. Assim deve ser o homem:
produzir para ser rico”. O segundo peregrino
disse: “Será que poderíamos
ter bebido desta água, se ela fosse suja e quente?
Não. A inscrição adverte que o homem
deve se conservar puro como esta água para poder
ajudar o outro”. O terceiro peregrino, velho,
que até então havia escutado os dois companheiros,
acrescentou: “Para mim, esta água
fala uma linguagem mais rica ainda: Ofereço gratuitamente
esta água para quem precisar. Você, homem,
faça o mesmo e caminhará como eu entre as
margens floridas e chegará ao imenso azul do amor
de Deus”.
Ser
cristão não significa aceitar o Credo, a autoridade
religiosa, algumas práticas do culto e algumas normas
de moral. Ser discípulo de Jesus é também
encarnar-se como ele na entrega ao irmão, especialmente
aos mais necessitados. Só assim será Natal
e o celebraremos como cristãos, não porque
tem uma alegria superficial de luzes e barulho, de felicitações
e visitas, passeios e presentes. Se for só isso,
existe o perigo de que se realize a triste constatação
de João 1,11: “O
Verbo veio para junto dos seus e os seus não o receberam!”.
O
Natal é a humanização de Deus para
a divinização do homem. Celebrar o Natal é
compartilhar a alegria do Deus conosco, com autoridade e
em comunhão com os outros, e sair do nosso egoísmo
para encontrar o irmão que Deus ama, em especial
o mais necessitado.
Deus
se humilhou para que possamos nos aproximar dele, para que
possamos corresponder ao seu amor com nosso amor.
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Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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