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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XXIV Domingo
12 de Setembro de 2010

MÊS DA BÍBLIA

Primeira Leitura
Êxodo
32,7-11.13-14
MOISÉS INTERCEDE PELO
POVO CULPADO DE IDOLATRIA

Os versículos deste texto mostram que, enquanto Moisés se esforçava para selar a Aliança com Deus, para dar ao povo uma constituição capaz de gerar uma nova sociedade, o povo estava fabricando um bezerro de ouro, o “pecado original” de Israel, raiz dos outros pecados que depois são confirmados mais justamente com um ídolo colocado por Jeroboão I nos santuários de Dan e de Betel (1Reis 12,26-30).

O bezerro de ouro fabricado pelo povo representava o boi Apis, um deus do Egito do qual o povo tinha lembrança, e adorá-lo era voltar à escravidão dos ídolos causadores de opressão no Egito. Também podia tratar-se de uma divindade cananéia, responsável pela fecundidade da terra, dos animais e das pessoas, e adorá-lo era voltar a adorar os deuses opressores que impediam o povo de tomar posse da terra prometida. Podia ainda ser a representação de Javé, uma espécie de pedestal para os pés dele, e aí o erro do povo era fazer um “Deus” à sua imagem e semelhança.

Com a adoração do bezerro de ouro, Javé não mais reconhecia Israel como seu povo. Isto ficou evidente quando disse a Moisés: “Desça do monte, pois este seu povo corrompeu-se...” Em conseqüência, Deus fez uma proposta a Moisés: “Deixe que minha ira se inflame e o devore...” (v.10). Mas Moisés, como um profeta que intercede pelo seu povo (1Samuel 12,19-23; Amós 7,2-3), lembra-lhe que o povo pertence exclusivamente a ele e por isso a libertação não pode ser interrompida ali (v.11).

O touro era um emblema comum das divindades do Oriente Médio, e o erro do povo foi não ter atribuído a Javé as intervenções do Êxodo. Foi um povo de coração duro, “sklerosis”, fechado a Deus e à sua palavra, negando o projeto de Deus e buscando um projeto alternativo. O Salmo 106,20 lembra esta atitude do povo: “Trocaram a sua glória pela figura de um boi comedor de capim”.

Por isso Deus propôs a Moisés um remédio radical: destruir este povo de cerviz dura, ou seja, indócil e obstinado, e recomeçar com ele uma nova descendência. Era uma proposta sedutora para Moisés, mas, segundo ele, se Deus fizesse isso com seu povo, apareceria aos olhos das outras nações como um destruidor e colocaria em xeque a sua própria identidade. Por isso, Moisés não aceitou a oferta e solidarizou-se com o povo, arriscando ser destruído junto com ele. Então Deus manifestou sua misericórdia.

Segunda Leitura
1Timóteo
1,12-17
PAULO, OBJETO DAS ATENÇÕES DE DEUS

Alguns líderes de Éfeso foram tomados pelo sentimento do poder (1Timóteo 1,4-7). Paulo deixou Timóteo nesta comunidade para organizá-la em meio a estes conflitos. Diante disso, o apóstolo escreveu esta carta a Timóteo, procurando esclarecer algumas questões:

01) Afirma que Jesus confia no pecador, chamando-o ao serviço não por ser perfeito, mas porque Deus é bom, como demonstrou um dia ao próprio apóstolo no passado, quando era blasfemador e perseguidor (1Timóteo 1,3).
02) Afirma que só Jesus é fiel e manifestou essa fidelidade em forma de amor aos pecadores. Assim, Paulo se coloca como o menor dos apóstolos (v.15), mas Deus manifestou nele sua misericórdia.

Por fim, Paulo afirma que a credibilidade dos pregadores não está na verbosidade, mas na vocação e missão exercida em nome de Cristo, e por isso é grato a Deus pela ação dele em sua vida.

Evangelho
Lucas
15,1-32
A OVELHA PERDIDA;
A MOEDA PERDIDA;
O FILHO PRÓDIGO

Este capítulo é o coração do Evangelho de Lucas. É denominado “Evangelho da Misericórdia” por causa das três parábolas sobre o que estava perdido e foi encontrado, que assinalam o ponto alto da mensagem de Jesus. Quem provocou as parábolas deste capítulo? As informações nos vêm dos versículos 1 e 2, onde os cobradores de impostos e os pecadores se aproximam de Jesus. Os fariseus e os doutores da lei contestam sua solidariedade em acolhê-los e fazer em comum com eles inclusive as refeições, correndo com isso o risco da contaminação e da má fama. De fato, os fariseus e os rabinos ensinavam: “Não se faça acompanhar por um ímpio, nem que seja para levá-lo ao estudo da lei”.

A outra informação pode ser deduzida da prática de Lucas, que acompanhou Paulo na evangelização dos pagãos: algumas pessoas de origem judaica, em vez de se alegrarem com a adesão dos pagãos, criticavam os missionários evangelizadores. Com isso podemos identificar quem são os personagens das três parábolas: o pastor que procura a ovelha perdida, a mulher que varre a casa para encontrar a moeda perdida e o pai do “filho pródigo”, que é o próprio Deus manifestando seu amor na prática de Jesus. A ovelha perdida, a moeda perdida e o filho mais moço são os pecadores que Deus procura. O filho mais velho representa Israel e os que se julgavam irrepreensíveis porque praticavam os mandamentos, entre eles os fariseus e os doutores da lei.

Na parábola do pai misericordioso, o filho mais jovem coloca o patrimônio em primeiro lugar. Exige do pai a sua parte, convencido de que irá realizar-se. Assim, dispõe-se a viver longe do pai e do irmão e, num gesto ousado, contrariando os costumes, pediu a sua parte da herança, que geralmente era dividida depois da morte do pai.

Longe da companhia do pai, a vida do filho tornou-se ambígua e ele começou a pagar por sua irresponsabilidade. Na terra estranha passou a viver como qualquer servo e em condições humilhantes, cuidando dos porcos (animais impuros para os judeus) e disputando com eles um bocado de comida para não padecer fome. Humilhado, pensou em voltar para a casa do pai e assim estudou as palavras que diria a ele quando voltasse. Reconheceu o seu erro, admitiu a perda de sua filiação e pediu para ser admitido como servo.

O pai, que jamais havia esquecido o filho, ao vê-lo encheu-se de compaixão. A palavra “splanghnizomai” exprime um sentimento materno, sentimento muito intenso e profundo. Este verbo é atribuído nos evangelhos só a Jesus. É a compaixão de Deus pelo sofrimento e pela humilhação do homem (Mateus 9,36; 14,14; 15,32; 18,27; 20,34; Marcos 1,41; 6,34; 8,2; 9,22; Lucas 7,13).

O pai, com seu gesto, visou restabelecer o seu filho perdido. Por isso, nem deixou que o filho repetisse as palavras preparadas para o encontro, evitou que fizesse o pedido para ser readmitido, agora como servo, mas deu-lhe imediatamente a dignidade de um hóspede importante. Colocou-lhe um anel no dedo, indicando que lhe conferia plenos poderes. Calçou sandálias nele, o que era sinal de liberdade adquirida. Mandou matar um boi gordo, pois o acontecimento merecia festa: havia recuperado o seu filho (em grego com o artigo, dando a impressão de que fosse filho único). Trata-se de uma verdadeira ressurreição, pois o filho havia dito duas vezes: “Vou levantar-me” (em grego “anastás), expressão que faz referência à ressurreição (anástasis), e o pai o considerou morto duas vezes.

O filho mais velho, que até então esteve fora de cena, faz declarações que o condenam. Ele não quer reconciliação, não pretende aderir ao projeto do pai. Não pauta sua vida no relacionamento “pai-filho”: “Há tantos anos eu o servi” (v.29), mas considera seu relacionamento como entre “patrão” e “empregado”. Calunia o irmão de ter dilapidado os bens da família com prostitutas (v.30) e o chama de “Este seu filho”. O pai tenta a reconciliação, mas a parábola não esclarece se o filho mais velho aceitou-a.

A parábola mostra que o amor e a misericórdia de Jesus se opõem às murmurações dos escribas e fariseus. Eles murmuravam, verbo que, na tradição bíblica, indica a oposição de Israel a Deus no deserto (Êxodo 15,24; 16,2-8; Salmo 77,19). Lucas mereceu de Dante o título de “scriba mansuetudinis Christi”.

REFLEXÃO

Moisés pede perdão porque o seu povo reduziu Deus a um ídolo morto. É um povo de cabeça dura, que havia presenciado os prodígios do mar Vermelho, o maná e a água no deserto... Na súplica Moisés lembra Abraão, Isaac e Jacó, pois estes tinham a promessa de um povo numeroso como as estrelas do céu, povo que teria a terra como herança. E Deus desistiu do projeto de destruir este povo. Assim, Moisés é figura profética de Jesus que intercede junto ao Pai, o qual não só nos tirou do destino da perdição, mas nos deu o Espírito Santo fazendo-nos seus filhos.

O povo hebreu não mostrou ter cabeça dura somente no deserto, mas também na Palestina, quando Jesus realizou as profecias messiânicas e ele as negou. Entre eles estava Paulo de Tarso (2ª leitura). Porém, Deus usou de misericórdia com ele, fazendo-o o maior dos apóstolos.

Moisés rezou e Deus perdoou o povo, Estêvão rezou e perdoou e Paulo tornou-se o grande apóstolo. Não sabemos, então, que a salvação de nossos irmãos depende de nós? De nosso testemunho, de nossa palavra, de nossa oração?

Os protestantes afirmam que o único mediador é Cristo e o homem não tem nada para fazer. Nós, ao contrário, cremos no ensinamento de Paulo que afirma que completamos em nossa carne os sofrimentos que faltam a Cristo, a favor do seu corpo que é a Igreja (Colossenses 1,20-24). Portanto, posso fazer algo por meu irmão.

Compreendo que o abuso da liberdade não é liberdade. Fora da casa do Pai, da sua lei, do seu amor não há liberdade, mas vazio, não há luz, mas trevas, não há felicidade, mas desespero. Sair da casa do Pai não nos leva à libertação, pois a liberdade dos instintos não é liberdade, a explosão do egoísmo não nos faz homens, mas animais.

Deus, porém, não se distancia do pecador, e sua lembrança permanece sempre, talvez num canto escondido do coração. Santo Agostinho, lembrando o tempo em que vivia no pecado, diz: “Tu, meu Deus, estavas dentro de mim e eu te procurava fora”. O homem em pecado experimenta sua fragilidade, precariedade e incapacidade. Por isso, a voz de Deus deve ser ouvida sempre, porque nos leva sempre a ter esperança como o filho pródigo: “Levantar-me-ei e irei a meu pai...”. O homem em pecado encontra seu único recurso em Deus, na casa de quem ser servo já é um privilégio. Quando o filho desviado resolve voltar para o pai, este o recebe como filho e faz festa. O pai não só fica contente com a volta do seu filho, mas quer que também o filho mais velho fique feliz com a volta do irmão.

Nas parábolas desta liturgia, Jesus revela o rosto misericordioso do Pai. Deus é apresentado como um pastor solícito com todas as ovelhas, como uma mulher cuidadosa que cuida do que possui. Não é um Deus solitário, mas se alegra com seus filhos.

Deus é um pastor que procura seus filhos. Não só os perdoa, mas lhes dá condições para viver. Numa das catacumbas de Roma, a de São Calixto, há um afresco que figura o pastor com uma ovelha nos ombros. Na figura há um detalhe fundamental: o pastor traz nas mãos um balde cheio de leite para matar a fome do animal assim que o encontrar.

O pai do filho pródigo é paciente. Seu amor é misericordioso. O escritor J. Tharaud narra que um rei chamado Renato e sua bela esposa Alda passavam em sua viagem de lua de mel por Toulouse, quando na praça principal estava para ser enforcado um malfeitor. A rainha ficou muito triste com a cena e o rei, lembrando seu casamento e a festa de todo o seu reino, perguntou se era possível agraciar o condenado. Os magistrados responderam que não, pois “as antiquíssimas leis de Toulouse estabelecem que, se um homem sobe no tablado da forca, ninguém pode salvá-lo”. Então um dos conselheiros lembrou que uma outra tradição antiquíssima de Toulouse admitia que qualquer condenado podia ser resgatado com mil ducados de ouro. Mas quem teria ali uma soma tão fabulosa? O rei colocou a mão no bolso e conseguiu juntar 800 ducados. A bela Alda conseguiu mais 50 moedas de ouro e as juntou generosamente às do seu marido. Então os magistrados disseram: “Não são suficientes! Devem ser mil ducados”. Diante disto e em consideração à rainha, todos os membros da corte procuraram vir em socorro do condenado. Foram contadas todas as moedas recolhidas entre os presentes e somaram 997 ducados de ouro. A rainha perguntou então aos magistrados: “Por três ducados de ouro vocês vão matar este homem?“. “Não somos nós que fazemos a exigência”, rebateram as rígidas autoridades de Toulouse. “É uma lei e ninguém pode desobedecer a uma lei tão antiga”. E fizeram sinal ao carrasco para dar início ao enforcamento do condenado. Mas a rainha fez um sinal e disse: “Um momento! Antes façam uma revista neste pobre homem. Quem sabe não tenha pelo menos três moedas de ouro”. O carrasco obedeceu e, apalpando a cintura do condenado, encontrou os três ducados necessários para lhe salvar a vida.

Assim, no dia do juízo ninguém se salvará, nem com a mediação de Cristo, nem com a intercessão de Nossa Senhora, nem com os méritos dos santos, se não tiver com ele pelo menos três ducados de ouro de bondade, de amor. Sabemos que “trazemos em nosso coração curativos suficientes para curar todos os males do mundo. Não existe um só problema que não possa ser resolvido com o amor e o perdão” (Erich Fromm).

A misericórdia não é manchete que aparece nos jornais, porém ela é necessária para todo homem. Entretanto, vemos muitas vezes alguns que se consideram melhores que os outros, têm o complexo da ortodoxia, porque são praticantes, não divorciados, não drogados, luxuosos etc. Por pensarem assim são intransigentes, intolerantes, incapazes de amar, críticos de tudo... Com suas parábolas, Jesus condena toda discriminação classista e suas conseqüências, pois o puritanismo não é cristão nem libertador, mas inversão dos valores evangélicos. O amor não discrimina, não marginaliza, não vê incômodos, não pede carinho e compreensão, não espera que o necessitado venha pedir ajuda, mas vai ao encontro de seus problemas. Perdemos tempo quando não amamos, porque só encontraremos Deus na pessoa dos pobres, dos marginalizados... (Mateus 25,40).

Felizmente, existem no mundo milhões de pessoas que se entregam à tarefa fascinante de amar o próximo, que estendem suas mãos para libertar o pobre, que consomem desinteressadamente suas vidas pelos irmãos, saindo continuamente de si mesmas em busca dos doentes, drogados, famintos, encarcerados, emigrantes, desempregados, anciãos, órfãos, oprimidos e explorados, tristes e abandonados. Através delas, Cristo continua curando os doentes, limpando os leprosos, ressuscitando os mortos, tornando presente no mundo o amor concreto do Pai. São tantos Cristos ignorados, que vamos descobrir somente no fim dos tempos, em tantos cristãos heróicos que dão testemunho do amor.

A liturgia deste domingo propõe à nossa consideração a misericórdia inesgotável de Deus, que perdoa e manifesta sua alegria por um pecador que se converte. Clemente de Alexandria diz que, em seu grande amor pela humanidade, Deus vai atrás do homem como a mãe voa sobre o passarinho quando este cai do ninho e a serpente começa a devorá-lo. Ela esvoaça gemendo sobre seus filhotes (Deuteronômio 32,11). Assim Deus busca paternalmente a criatura, levanta-a em sua queda, persegue o réptil e recolhe o filho, animando-o a voltar, a voar para o ninho.

O pecado do filho pródigo foi a rebelião contra Deus, ou pelo menos o esquecimento ou a indiferença em relação a ele e ao seu amor, no desejo néscio de viver fora do amparo de Deus, de emigrar para uma terra distante, longe da casa paterna. Mas depois sentiu necessidade e se viu obrigado a voltar. Ele, que nasceu para a liberdade, viu-se obrigado a servir os porcos.

O filho mais velho oferece um contraste com o coração magnânimo do pai. É a imagem do justo que se torna míope a ponto de não compreender que servir a Deus e gozar de sua amizade e presença é uma festa contínua, que no fundo servir é reinar como ele vivia até então. É a figura daquele que esquece que estar com Deus, nas coisas grandes e pequenas, é uma honra merecida.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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