| A
pobreza material não é um bem em si. Portanto,
o bem-estar não é uma aspiração
desprezível, contanto que não se realize à
custa de outros valores superiores.
Os
ídolos do coração são vários.
O dinheiro talvez seja o primeiro, mas ao lado dele estão
o poder, o domínio, o prazer e o sexo, assim como “a
avareza e a cobiça, que é uma idolatria”.
Em
nossa sociedade consumista, o ter prima sobre o ser. Somos
manipulados pela propaganda do bem-estar, que codifica a felicidade
humana pela opulência, pelo produzir e consumir, ter
e gastar. Sabemos que existem necessidades indispensáveis
para viver e subsistir, como comer, vestir, ter moradia...
Há outras necessidades que são razoáveis
e contribuem para um nível de vida digno, como a cultura,
as artes, o lazer, os esportes, as férias, os relacionamentos
sociais... Há por fim um número infindável
de necessidades artificiais e que se relacionam com o luxo
e o conforto, sem os quais muitos acreditam não poder
viver felizes porque não teriam comodidades e segurança
suficientes: uma segunda casa no campo ou na praia, seguros
para tudo, grandes contas bancárias, aparência
social, jóias, carros... Para estes vale a frase: “Estúpido
é quem juntou tesouros só para si e não
é rico diante de Deus” (Eclesiastes
2,15-21).
Somos
insensatos todas as vezes que nos esquecemos de Deus e de
compartilhar com os demais, todas as vezes que pensamos juntar
para nós mesmos e não ser ricos diante de Deus.
Para esta tendência de ter, possuir e gastar contribuem
o mundo que adora o mito do progresso ilimitado, a sociedade
de consumo, burguesa, capitalista, de opulência.
Diante
da bem-aventurança da pobreza, o “Evangelho”
do consumismo proclama a sua própria bem-aventurança:
“Felizes os que têm e gastam.” Esta é
a mensagem implícita em toda publicidade: “Só
lhe falta este produto para ser feliz. Compre-o”.
Assim, a busca desenfreada do consumismo nunca dá descanso
ao homem, que necessita cada vez mais para viver. Todo dinheiro
lhe é insuficiente, qualquer aquisição
nova é incapaz de lhe dar a satisfação
sonhada. Tudo isso acontece porque se confunde o ser com o
ter, o acumular bens com o ser pessoa e ser feliz. É
exatamente o contrário daquilo que Jesus disse (Mateus
16,19s).
Os
bens desta terra duram pouco e não satisfazem o coração
humano, por mais abundantes que sejam. Por isso Paulo exorta
a buscar as coisas do alto. Para onde conduzem tantos esforços,
se não se leva nada consigo do que se obtém
neste mundo? Tudo é vaidade (1ª leitura),
tudo se dissipa como o vento e mal deixa rastro, quando muito
uma fortuna que passa para as mãos de outros.
Entretanto,
o coração humano se inclina facilmente a procurar
as coisas daqui de baixo e se apega a elas como se fossem
a única coisa que conta. Jesus nos ensina no Evangelho
que é uma insensatez colocar o coração,
feito para a eternidade, no anseio da riqueza e do bem-estar
material. A felicidade não se fundamenta neles, pois
a “vida de cada um não
depende da abundância dos bens que possui”
(Lucas 12,15). O lavrador rico revela o seu
ideal de vida no diálogo que entabula consigo mesmo.
Está seguro de si porque possui muitos bens e baseia
neles sua estabilidade e felicidade. Viver para ele, como
para muitas pessoas, é desfrutar o máximo que
puder, trabalhar pouco, comer, beber, ter uma vida cômoda,
dispor de reservas para longos anos.
Entretanto,
tudo o que não se constrói sobre Deus está
falsamente construído. A segurança que os bens
materiais podem dar é frágil, insuficiente,
porque nossa vida só é plena com Deus. É
inútil entesourar para si e não ser rico de
Deus.
Nossa
passagem pela terra é provisória (Hebreus
13,14). O Senhor nos chamará um dia para nos
pedir contas dos bens que nos deixou em depósito para
que os administrássemos: a inteligência, a saúde,
os bens materiais... É preciso que ele nos encontre
preparados. Apegar-nos às coisas da terra e nos esquecer
de que nosso fim é a eternidade seria deformar a perspectiva
de nossa vida e viver de maneira néscia.
Somos
peregrinos “atores em
cena”. “Ninguém
se julgue rei nem rico, porque ao cair do pano seremos todos
pobres” (São João
Crisóstomo). Os bens devem ser simples meios
e nunca o fim de nossos dias na terra. Nossos dias estão
numerados e contados. Estamos nas mãos de Deus. Dentro
de algum tempo, que não será tão longo
como gostaríamos, nos encontraremos face a face com
o Senhor.
Por
isso precisamos aproveitar bem o nosso tempo para repararmos
nossos pecados, “redimentes tempus”, recuperando
o tempo perdido. Um dia qualquer será o nosso último
dia. Hoje milhares de pessoas morreram nas circunstâncias
mais diversas e nunca imaginaram que já não
teriam outros dias para se enriquecer um pouco mais com os
bens eternos.
O
destino que nos espera na eternidade é conseqüência
da atitude que adotamos em nossa passagem pela terra. Daí
a advertência do Senhor para ficarmos vigilantes, pois
a morte não é o final da existência, mas
o começo de uma vida nova. “Tempus
breve est”. Como é breve
a duração de nossa passagem pela terra!
Para
o cristão coerente, esta afirmação ressoa
no mais íntimo do seu coração como uma
censura à falta de generosidade e como um convite constante
para que seja leal. Realmente é curto o tempo para
amar, para dar, para desagravar. E iremos aproveitá-lo
deixando que nosso coração se apegue às
coisas da terra?
As
três leituras se referem a um tema comum: a relação
do homem com seus bens. O homem que quer mais não pode
garantir para si uma posse duradoura dos bens. Para o homem
moderno, o ter implica possuir segurança, prestígio,
poder, alegria, prazer... e assim ele se afeiçoa às
coisas que possui e quando as perde parece que perdeu parte
de si mesmo.
Contudo,
existe uma grande diferença entre o que se possui e
o que se é. O ter pode se transformar numa espécie
de tirania quando a pessoa não é mais capaz
de dominar as coisas, mas é dominada por elas. Por
isso, os grandes homens lutaram contra a escravidão
do ter. Erich Fromm diz: “Sou
o que sou e não o que tenho. O meu centro está
dentro de mim. Minha capacidade de exprimir meus poderes essenciais
é parte integrante de minha estrutura e depende de
mim.”
“Vanitas
vanitatum et omnia vanitas” é
o grito do mercador do absoluto do Antigo Testamento que soa
como uma sirene de alarme na história dos homens.
“Você
se lembrará que foi dominado pelas coisas insignificantes,
entenderá que não havia nenhuma relação
entre elas e você. Não existe nada na terra que
seja digno de você. Não existe neste mundo nenhum
prazer que seja digno de seu apego, nenhuma dor que seja digna
de sua aflição. Tudo está além”
(Julien Green, Contre les catholiques de France).
O
pensamento leigo elaborado pelo MIT (Massachusetts
Institute of Technology) descobriu a validade
da modéstia e da mortificação na vida
do homem de hoje. E Galbraith sustentou a tese do “limite
do desenvolvimento”, segundo a qual
a humanidade deve construir uma barreira ante o “progresso”,
sob pena de se autodestruir. Também grandes expoentes
da humanidade, como McLuhan, Klapper, Tofler e outros, aconselham
a modéstia e a temperança no uso dos bens. O
Clube de Roma lançou um grito de alerta contra a industrialização
selvagem que ameaça o habitat do homem, a desagregação
do mundo, a possibilidade de uma catástrofe ecológica.
Sabemos
que uma das necessidades fundamentais do homem é a
segurança própria. Segundo a mentalidade moderna
difundida pelos MCS, essa defesa só se consegue com
o dinheiro, porque o dinheiro é tudo, é o poder.
Esta é uma ilusão que contagia todo o mundo.
Se o dinheiro se torna um “deus”,
se as pessoas fazem tudo para obtê-lo, tornam-se escravas,
roubam, seqüestram, criam a máfia, traficam drogas,
cometem homicídios, crimes, exploração,
prostituição, enfim tudo o que produz a idolatria
do dinheiro que bloqueia a vida e com isso cessa a atenção
à família, aos amigos, aos filhos, à
sociedade, a Deus...
Para
o sábio do Eclesiastes tudo é vaidade, pois
nenhuma realidade material pode saciar o desejo de felicidade
que está no coração do homem. Há
uma força que transcende as necessidades terrestres.
As realidades terrestres, quando encaradas como um fim para
o homem, o desiludem, mas se, ao invés, tornam-se um
meio para um fim superior, então têm um valor
(Lumen Gentium 366 / Gaudium et Spes 39).
Os
meios são um valor quando ordenados para um fim. Somos
criados para Deus e para a sua glória. Este é
o fim do homem, esta é a sua felicidade, pois a vida
do homem encontra sua realização em conformidade
com o projeto de Deus.
Por
fim, Paulo nos fala hoje para orientarmos nossas energias
tendo uma vida inspirada no modelo Jesus, e não sermos
prisioneiros das realidades terrenas, mas pensarmos nas coisas
do alto, pois a “imitatio
Christi” leva à “consecratio
mundi”. |