|
COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
| |
Ano
A
18° Domingo do Tempo Comum
31 de Julho de 2011
|
Primeira
Leitura
Isaías
55,1-3
|
A
SALVAÇÃO É OFERECIDA
GRATUITAMENTE AOS POBRES
|
Neste
trecho, o profeta anônimo, que os exegetas chamam de
Dêutero-Isaías [Isaías 40-55],
fala da situação do povo em exílio na
Babilônia: ele tem uma carência absoluta de independência
econômica, com a ausência total dos bens básicos,
passa fome e luta para sobreviver, enquanto as elites oprimem.
Este
profeta anônimo, que chamamos de Segundo Isaías,
sai às ruas imitando os vendedores ambulantes de
água, cereais, vinho e leite, convocando o povo a
matar a sede, comprar sem dinheiro, comer sem pagar, beber
vinho e leite à vontade. É um convite para
a abundância, para se libertar da opressão.
Quem
oferece esse banquete gratuito? É Javé, que
por meio do profeta suscita a memória da Aliança
selada com Davi, o rei que favoreceu a abundância.
Javé vai renovar a Aliança levando o povo
para a terra onde corre leite e mel. É um banquete
bem mais amplo.
Com
base em que o profeta anuncia isso? Primeiro, ele vê
a experiência sofrida do povo e, depois, tem certeza
de que Javé é o libertador que não
fecha os ouvidos ao clamor do povo. Por isso, pede ao povo
que escute a Deus, pois a libertação não
tardará. Javé provocará um Êxodo
maior que o anterior, pois fará jorrar água
no deserto, símbolo da vida para um povo sem esperança,
e o vinho será a bebida da terra prometida, visto
que videiras não crescem no deserto, portanto ele
é o símbolo da vida nova recebida gratuitamente.
Segundo
o profeta, a solução não está
em adotar os ídolos babilônios. Estes não
provocarão um novo Êxodo, assim como o bezerro
de ouro não o conseguiu no primeiro Êxodo.
O kérygma que este profeta anuncia é a Palavra
de Deus que será cumprida.
|
Segunda
Leitura
Romanos
35.37-39
|
NENHUMA
CRIATURA NOS AFASTARÁ DO AMOR DE DEUS
|
Neste
capítulo, Paulo apresenta dois princípios
básicos que orientam o cristão: o Espírito
que comunica a vida [vv.1-13] e a filiação
divina do cristão [vv.14-30]. Os
demais versículos [vv.31-39] são
um hino ao amor de Deus manifestado na morte e ressurreição
de Jesus. Nossos versículos pertencem a esse hino.
Paulo
escreveu aos romanos na sua terceira viagem a Corinto, quando
se considerava “prisioneiro
do Senhor” [2Coríntios
11,23-28], e descreveu os vários perigos
que enfrentou. Neste contexto, descreve a vida nova que
irrompe no cristão, uma vida na qual está
presente a Páscoa, o Espírito do ressuscitado
que une o cristão a Deus, e por isso nada consegue
interromper o amor de Deus por nós em Cristo.
Para
explicitar esta convicção, o apóstolo
argumenta: “Quem nos
separará do amor de Cristo?”.
E relata sete obstáculos externos e visíveis
que são conseqüências para o cristão
viver o profeta de Deus. Paulo viveu esses obstáculos.
São a tribulação, a angústia,
a perseguição, a fome, a nudez, o perigo e
a espada [v.35]. O anúncio do Evangelho
lhe acarretou perseguições, prisões
com suas conseqüências e por fim a morte [a
espada].
Ser
cristão é ter consciência dessas adversidades,
mas ter também a certeza da vitória. “Em
tudo isso somos mais que vencedores”
[v.37], graças ao amor de Cristo.
Por isso, nada poderá separar o cristão do
amor de Deus, nem a vida, nem a morte, nem nenhuma força
superior, nem as energias cósmicas adversas.
|
Evangelho
Mateus
14,13-21
|
A PRIMEIRA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES |
Neste
texto, Mateus tem a intenção de narrar um
milagre histórico de Jesus. Jesus retirou-se para
o deserto depois da morte de João Batista [v.13].
Antes Herodes havia oferecido um banquete por ocasião
do seu aniversário, um banquete dos poderosos, um
banquete de morte.
Depois
disso Jesus retirou-se para o deserto. O deserto lembra
o Êxodo, onde a nova sociedade se forjou. Assim, a
partir do deserto Jesus vai inaugurar o novo mundo, dando
vida em vez de opressão. O povo saiu da cidade à
sua procura [a cidade indica o lugar onde Herodes
impera com o seu sistema opressor].
O
povo encontra Jesus no deserto e Jesus se compadece dele,
atitude diferente da de Herodes, que oprime e mata. Ele
se apresenta como o verdadeiro pastor anunciado por Ezequiel
que cumpriu o plano de Deus: “Irei
em busca da ovelha desgarrada, apascentarei a que está
ferida e curarei a que está doente”
[Ezequiel 34,16].
O
povo sem comida pede aos discípulos que voltem à
cidade para comprar alguma coisa para comer [v.15].
Comprar significa voltar à sociedade que explora
e cria dependência. Jesus propõe que os discípulos
dêem de comer [v.16], isto é,
quebrem o mecanismo de exploração. Os discípulos
sentem-se impotentes para cumprir a proposta de Jesus [v.17].
Jesus
toma a frente e ordena que o povo sente-se para comer [v.19].
Sentar para as refeições era privilégio
dos livres. Jesus pega os cinco pães e os dois peixes
e os abençoa, reconhecendo com esse gesto que o alimento
é um dom de Deus e deve ser partilhado, e não
objeto de exploração.
Todos
comeram e ficaram satisfeitos e ainda houve sobras: o amor
partilhado garante a abundância. À luz do Antigo
Testamento, esse milagre de Jesus lembra o milagre da multiplicação
dos vinte pães com os quais Elizeu saciou cem pessoas
[2Reis 4,42-44]. É uma alusão
também ao maná com o qual Deus saciou de modo
extraordinário o povo no deserto [Êxodo
16].
À
luz da ceia do Senhor, alguns gestos têm o mesmo procedimento
de um rito: o rito da ceia do Senhor que era celebrado com
a comunidade.
À
luz da missão da Igreja, revelam que os discípulos
estão presentes de forma ativa. Têm a tarefa
da mediação entre Jesus e o povo.
|
REFLEXÃO |
| A
narração do Evangelho faz referência à
multiplicação dos pães para saciar a
fome da multidão em que se manifesta a graça
messiânica de Jesus. Nela se manifestou a solidariedade
de Jesus com os pobres e marginalizados. Jesus ensinou que
é preciso distribuir os bens, que os pobres são
objeto do amor divino. Vemos continuamente cenas chocantes
de injustiça, notícias trágicas nos jornais,
mas logo as esquecemos. “É
possível falar de Deus", disse
Gandhi, “quando se fez
um bom almoço e se espera fazer um melhor amanhã,
mas é impossível aquecer-se ao sol da luz de
Deus quando milhares de famintos batem às suas portas”.
Por isso, muitas ações na Igreja não
começam com a catequese, mas com o ambulatório,
a escola da economia doméstica...
Este
milagre de Jesus teve uma grande importância na comunidade
primitiva por causa de sua enorme carga semiótica,
isto é, por seu longo alcance de sinal. De fato, o
sinal dos pães e dos peixes adquiriu desde o início
um lugar de destaque na simbologia e iconografia cristã,
presente em mosaicos e afrescos das catacumbas.
No
milagre de hoje cumpre-se em plenitude o que a primeira leitura
anunciava [Isaías 55,1-3]. Este texto
foi composto durante o Exílio na Babilônia [597-538
a.C.] e previa Deus alimentando o povo gratuitamente
e em abundância. Além desse sinal messiânico,
este milagre aponta para a Eucaristia como alimento do povo
de Deus. Este milagre mostra em seu simbolismo que a presença
de Jesus era para todo o povo de Israel, pois o número
cinco mil indicava todo o povo de Israel. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
|
|