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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XVIII Domingo
01 de Agosto de 2010

Primeira Leitura
Eclesiastes
1,2; 2,21-23
A VAIDADE DA CONDIÇÃO HUMANA

Vanitas vanitatum et omnia vanitas”. A vaidade, para o hebreu, correspondia à fumaça, ao vapor, àquele vapor que expiramos quando faz frio e depois desaparece. Indica a precariedade.

O livro do Eclesiastes desempenha na Bíblia o papel de “advogado do diabo”, no sentido de que nos coloca diante dos problemas mais difíceis e insolúveis ligados à existência humana e aos quais mesmo a fé em Deus dificilmente sabe dar uma resposta.

Este trecho, pelo fato de que o homem não consegue realizar o que pretende, indica a contradição entre o querer e o poder. Coloca-nos diante da contradição da vida como pessoas que trabalham com tanto afã como as abelhas para conseguir alguma coisa na vida e não conseguem. Este coloca um enorme capital de energia, trabalho, tempo e inteligência para realizar alguma coisa e não consegue nada. Ao invés, aquele não investe nada e de repente é dono de uma fortuna.

O Eclesiastes é um livro da literatura sapiencial escrito no século III a.C. Nosso trecho se inicia com o termo vaidade, que se repete sessenta e quatro vezes neste livro. Ele relativiza sua impressão de niilismo pessimista que despreza tudo, com o objetivo de afirmar que este mundo não é o descanso final do anseio humano. A sabedoria é não programar a vida apenas para este sonho fugaz, mas contar com os valores eternos que a fé representa em Deus.

O autor afirma a incapacidade do homem de conhecer as leis da natureza e de modificá-la com o trabalho ou com a sabedoria. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Com isso, o autor pretende indicar a inconsistência das coisas e sua incapacidade de revelar ao homem o desígnio de Deus. Daí surge a pergunta: Qual é o sentido da vida? O autor chega à conclusão de que o homem não sabe porque Deus coloca as tribulações e o sofrimento neste mundo. Este pessimismo é superado mais tarde, com a conclusão de que o homem pode chegar à felicidade quando sabe usar os bens e as riquezas na vida com moderação. A felicidade do homem não está nas riquezas, que não são consistentes, mas em comunicar continuamente a presença de Deus.

A mensagem fundamental do texto é ensinar o desapego dos bens da terra e o raciocínio é que o homem trabalha e se enriquece, mas quando chega ao final da vida deve deixar tudo. Sua mensagem não é um incentivo ao ócio ou à preguiça, mas um redimensionamento útil das riquezas.

Segunda Leitura
Colossenses
3,1-5.9-11

VIDA NOVA EM JESUS CRISTO:
SE VOCÊS RESSUSCITARAM...

Paulo faz uma exortação expondo as motivações profundas da moral cristã a partir de nossa condição de batizados. Como filhos, temos uma vida nova, uma vida de acordo com a vida em Cristo.

Na primeira parte Paulo apresenta o contraste entre o que é celeste e o que é terreno. O celeste refere-se a Jesus ressuscitado, sentado no trono, decidindo a sorte do mundo. É o Cristo Pantocrator, o Soberano.

Na segunda parte (vv.9-11) delineia o contraste entre o velho e o novo. O homem velho não corresponde ao desígnio primordial de Deus, à “imagem do criador”. O homem novo se apresenta com capacidade de reconhecer a Deus, vê-lo e entendê-lo.

O cristão está unido a Cristo glorioso. Por isso, suas aspirações e seus desejos devem dirigir-se para o céu. As coisas do alto são aquelas que pertencem à vida nova em Cristo em oposição às coisas daqui. Não se trata de desvalorizar as coisas da terra, mas de não descer depois de ter subido ao alto com Cristo. Para o cristão, esta participação na vida gloriosa de Cristo continua escondida e se manifestará gloriosamente na parusia. A condição ontológica de Cristo é dada com o Batismo, mas o cristão deve adaptar-se a esta realidade pelo trabalho e pelas mortificações de todos os vícios da antiga lei pagã.

O Batismo efetuou uma mudança radical: o despojamento de uma personalidade e o revestimento de outra. O homem novo oposto ao velho não é uma realidade estática, mas uma extensão para o futuro através da ação que tem como fim a conformidade com a imagem de Deus.

Evangelho
Lucas
12,13-21
PARÁBOLA DO HOMEM RICO:
GUARDEM-SE DA AVAREZA

Neste trecho Jesus adverte o homem sobre a tentação séria do consumismo. Na parábola do rico insensato (exclusiva de Lucas), a tônica é para o desapego e o bom uso dos bens materiais. Na parábola, alguém no meio do povo pediu que Jesus interviesse em seu favor: “Mestre, diga a meu irmão mais velho que reparta a herança comigo” (Lucas 12,13). Jesus se recusou e aproveitou para pronunciar uma sentença de cunho universal: “Fujam de toda avareza. Porque, mesmo que tenha uma grande fortuna, a vida da pessoa não depende de suas riquezas” (Lucas 12,15). Jesus se negou a exercer o papel de juiz. Naquele tempo havia anciãos sentados junto à porta da cidade, ou um funcionário do rei, ou um mediador, ou ainda um rabi cheio de conhecimentos jurídicos que desempenhavam a função de juiz.

Esta parábola demonstra a insensatez que a idolatria dos bens e o dinheiro geram. O solilóquio do homem rico que possuía um graneleiro revela sua superficialidade. É um homem ingenuamente iludido, confiando sua vida (alma) aos seus bens (grãos). O pecado deste rico fazendeiro não é ser rico nem garantir o seu futuro, mas se esquecer de Deus, a quem não agradece, e não compartilhar sua riqueza com os irmãos. Não sabe dar à sua vida mais sentido que o desfrute egoísta. Por isso é um néscio.

Nesta parábola há uma referência escatológica, ou seja, uma referência ao juízo de Deus que surpreende o rico despreocupado com seu futuro: “Nesta mesma noite sua vida vai ser requisitada. Para quem vai ficar o que você ajuntou?“. Não se trata de pressionar com base no medo, pois o ensinamento da parábola não se refere à morte repentina, mas ao julgamento escatológico.

REFLEXÃO

A pobreza material não é um bem em si. Portanto, o bem-estar não é uma aspiração desprezível, contanto que não se realize à custa de outros valores superiores.

Os ídolos do coração são vários. O dinheiro talvez seja o primeiro, mas ao lado dele estão o poder, o domínio, o prazer e o sexo, assim como “a avareza e a cobiça, que é uma idolatria”.

Em nossa sociedade consumista, o ter prima sobre o ser. Somos manipulados pela propaganda do bem-estar, que codifica a felicidade humana pela opulência, pelo produzir e consumir, ter e gastar. Sabemos que existem necessidades indispensáveis para viver e subsistir, como comer, vestir, ter moradia... Há outras necessidades que são razoáveis e contribuem para um nível de vida digno, como a cultura, as artes, o lazer, os esportes, as férias, os relacionamentos sociais... Há por fim um número infindável de necessidades artificiais e que se relacionam com o luxo e o conforto, sem os quais muitos acreditam não poder viver felizes porque não teriam comodidades e segurança suficientes: uma segunda casa no campo ou na praia, seguros para tudo, grandes contas bancárias, aparência social, jóias, carros... Para estes vale a frase: “Estúpido é quem juntou tesouros só para si e não é rico diante de Deus” (Eclesiastes 2,15-21).

Somos insensatos todas as vezes que nos esquecemos de Deus e de compartilhar com os demais, todas as vezes que pensamos juntar para nós mesmos e não ser ricos diante de Deus. Para esta tendência de ter, possuir e gastar contribuem o mundo que adora o mito do progresso ilimitado, a sociedade de consumo, burguesa, capitalista, de opulência.

Diante da bem-aventurança da pobreza, o “Evangelho” do consumismo proclama a sua própria bem-aventurança: “Felizes os que têm e gastam.” Esta é a mensagem implícita em toda publicidade: “Só lhe falta este produto para ser feliz. Compre-o”. Assim, a busca desenfreada do consumismo nunca dá descanso ao homem, que necessita cada vez mais para viver. Todo dinheiro lhe é insuficiente, qualquer aquisição nova é incapaz de lhe dar a satisfação sonhada. Tudo isso acontece porque se confunde o ser com o ter, o acumular bens com o ser pessoa e ser feliz. É exatamente o contrário daquilo que Jesus disse (Mateus 16,19s).

Os bens desta terra duram pouco e não satisfazem o coração humano, por mais abundantes que sejam. Por isso Paulo exorta a buscar as coisas do alto. Para onde conduzem tantos esforços, se não se leva nada consigo do que se obtém neste mundo? Tudo é vaidade (1ª leitura), tudo se dissipa como o vento e mal deixa rastro, quando muito uma fortuna que passa para as mãos de outros.

Entretanto, o coração humano se inclina facilmente a procurar as coisas daqui de baixo e se apega a elas como se fossem a única coisa que conta. Jesus nos ensina no Evangelho que é uma insensatez colocar o coração, feito para a eternidade, no anseio da riqueza e do bem-estar material. A felicidade não se fundamenta neles, pois a “vida de cada um não depende da abundância dos bens que possui” (Lucas 12,15). O lavrador rico revela o seu ideal de vida no diálogo que entabula consigo mesmo. Está seguro de si porque possui muitos bens e baseia neles sua estabilidade e felicidade. Viver para ele, como para muitas pessoas, é desfrutar o máximo que puder, trabalhar pouco, comer, beber, ter uma vida cômoda, dispor de reservas para longos anos.

Entretanto, tudo o que não se constrói sobre Deus está falsamente construído. A segurança que os bens materiais podem dar é frágil, insuficiente, porque nossa vida só é plena com Deus. É inútil entesourar para si e não ser rico de Deus.

Nossa passagem pela terra é provisória (Hebreus 13,14). O Senhor nos chamará um dia para nos pedir contas dos bens que nos deixou em depósito para que os administrássemos: a inteligência, a saúde, os bens materiais... É preciso que ele nos encontre preparados. Apegar-nos às coisas da terra e nos esquecer de que nosso fim é a eternidade seria deformar a perspectiva de nossa vida e viver de maneira néscia.

Somos peregrinos “atores em cena”. “Ninguém se julgue rei nem rico, porque ao cair do pano seremos todos pobres” (São João Crisóstomo). Os bens devem ser simples meios e nunca o fim de nossos dias na terra. Nossos dias estão numerados e contados. Estamos nas mãos de Deus. Dentro de algum tempo, que não será tão longo como gostaríamos, nos encontraremos face a face com o Senhor.

Por isso precisamos aproveitar bem o nosso tempo para repararmos nossos pecados, “redimentes tempus”, recuperando o tempo perdido. Um dia qualquer será o nosso último dia. Hoje milhares de pessoas morreram nas circunstâncias mais diversas e nunca imaginaram que já não teriam outros dias para se enriquecer um pouco mais com os bens eternos.

O destino que nos espera na eternidade é conseqüência da atitude que adotamos em nossa passagem pela terra. Daí a advertência do Senhor para ficarmos vigilantes, pois a morte não é o final da existência, mas o começo de uma vida nova. “Tempus breve est”. Como é breve a duração de nossa passagem pela terra!

Para o cristão coerente, esta afirmação ressoa no mais íntimo do seu coração como uma censura à falta de generosidade e como um convite constante para que seja leal. Realmente é curto o tempo para amar, para dar, para desagravar. E iremos aproveitá-lo deixando que nosso coração se apegue às coisas da terra?

As três leituras se referem a um tema comum: a relação do homem com seus bens. O homem que quer mais não pode garantir para si uma posse duradoura dos bens. Para o homem moderno, o ter implica possuir segurança, prestígio, poder, alegria, prazer... e assim ele se afeiçoa às coisas que possui e quando as perde parece que perdeu parte de si mesmo.

Contudo, existe uma grande diferença entre o que se possui e o que se é. O ter pode se transformar numa espécie de tirania quando a pessoa não é mais capaz de dominar as coisas, mas é dominada por elas. Por isso, os grandes homens lutaram contra a escravidão do ter. Erich Fromm diz: “Sou o que sou e não o que tenho. O meu centro está dentro de mim. Minha capacidade de exprimir meus poderes essenciais é parte integrante de minha estrutura e depende de mim.”

Vanitas vanitatum et omnia vanitas” é o grito do mercador do absoluto do Antigo Testamento que soa como uma sirene de alarme na história dos homens.

Você se lembrará que foi dominado pelas coisas insignificantes, entenderá que não havia nenhuma relação entre elas e você. Não existe nada na terra que seja digno de você. Não existe neste mundo nenhum prazer que seja digno de seu apego, nenhuma dor que seja digna de sua aflição. Tudo está além” (Julien Green, Contre les catholiques de France).

O pensamento leigo elaborado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) descobriu a validade da modéstia e da mortificação na vida do homem de hoje. E Galbraith sustentou a tese do “limite do desenvolvimento”, segundo a qual a humanidade deve construir uma barreira ante o “progresso”, sob pena de se autodestruir. Também grandes expoentes da humanidade, como McLuhan, Klapper, Tofler e outros, aconselham a modéstia e a temperança no uso dos bens. O Clube de Roma lançou um grito de alerta contra a industrialização selvagem que ameaça o habitat do homem, a desagregação do mundo, a possibilidade de uma catástrofe ecológica.

Sabemos que uma das necessidades fundamentais do homem é a segurança própria. Segundo a mentalidade moderna difundida pelos MCS, essa defesa só se consegue com o dinheiro, porque o dinheiro é tudo, é o poder. Esta é uma ilusão que contagia todo o mundo. Se o dinheiro se torna um “deus”, se as pessoas fazem tudo para obtê-lo, tornam-se escravas, roubam, seqüestram, criam a máfia, traficam drogas, cometem homicídios, crimes, exploração, prostituição, enfim tudo o que produz a idolatria do dinheiro que bloqueia a vida e com isso cessa a atenção à família, aos amigos, aos filhos, à sociedade, a Deus...

Para o sábio do Eclesiastes tudo é vaidade, pois nenhuma realidade material pode saciar o desejo de felicidade que está no coração do homem. Há uma força que transcende as necessidades terrestres. As realidades terrestres, quando encaradas como um fim para o homem, o desiludem, mas se, ao invés, tornam-se um meio para um fim superior, então têm um valor (Lumen Gentium 366 / Gaudium et Spes 39).

Os meios são um valor quando ordenados para um fim. Somos criados para Deus e para a sua glória. Este é o fim do homem, esta é a sua felicidade, pois a vida do homem encontra sua realização em conformidade com o projeto de Deus.

Por fim, Paulo nos fala hoje para orientarmos nossas energias tendo uma vida inspirada no modelo Jesus, e não sermos prisioneiros das realidades terrenas, mas pensarmos nas coisas do alto, pois a “imitatio Christi” leva à “consecratio mundi”.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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