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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XVII Domingo
25 de Julho de 2010

Primeira Leitura
Gênesis
18,20-32
ABRAÃO INTERCEDE EM FAVOR DE SODOMA

Abraão era amigo de Deus (Daniel 3,35). Tinha familiaridade com ele. Seu caminho de intimidade com Deus começou com sua vocação (Gênesis 12), depois com seu novo nome (Gênesis 17), e o ápice desse caminho se tornou visível na visita misteriosa dos três personagens que vem logo antes do nosso texto.

Se para Abraão as coisas iam bem, para Sodoma a situação chegou ao limite da catástrofe, e Abraão se empenhou totalmente em favor desta cidade, sede do pecado (Gênesis 13,3; Mateus 11,23).

Nosso texto serve-se de traços típicos da cultura daquele tempo e lugar, segundo a qual a pechincha e a negociação faziam parte das negociações e diálogos entre os chefes de clãs. Assim, Deus vai revelando sua misericórdia à medida que vai cedendo à pechincha de Abraão. Para Israel, Abraão era uma pessoa que sabia rezar.

O tema do diálogo entre Abraão e Deus é o pecado de Sodoma e Gomorra. O pecado destas duas cidades se concentrava nas injustiças praticadas. As queixas que chegavam ao Senhor eram um clamor por justiça e assim Deus estava prestes a tomar as medidas necessárias contra as duas cidades (v.21). Mas, antes disto, Deus revelou sua intenção a Abraão e este estava preocupado com a sorte dos justos daquela cidade. Acabou descobrindo que Deus não ia punir os justos e que estes acabariam salvando os ímpios (v.26).

Abraão é atrevido e vai além (v.27). Quer saber quantos justos serão necessários para salvar a cidade inteira. Aqui o diálogo se torna extremamente ousado, pois Abraão, diante da mesma resposta de Deus, vai reduzindo a percentagem, ou seja, o número de justos (vv.28-32), e assim estes, em número cada vez menor, continuam sendo a salvação para a cidade inteira. Com isso, o número de justos em Sodoma passa de 50 para 45, daí para 40, 30, 20, 10 e a resposta de Deus é sempre a mesma.

Neste diálogo com Deus, Abraão acabou descobrindo a misericórdia divina, aquilo que Ezequiel dirá mais tarde: “Eu não sinto prazer na morte do injusto. Se ele se converter de sua má conduta alcançará a vida” (Gênesis 18,23). Por esta atitude, Abraão acabou sendo em Israel a figura típica da pessoa que reza. Ele penetrou no fundo do ser de Deus, que estava à procura de um só homem para salvar a cidade (Jeremias 5,1), mas não o encontrou (Ezequiel 22,30).

No versículo 20, Deus diz: “Quero descer e ver”. Isto confirma a existência e a gravidade do mal, porque foi constatado pelo próprio Deus. Também em Gênesis 11,5, no episódio da torre de Babel, Deus desceu para ver.

No versículo 27, Abraão afirma ser pó e cinzas, dois símbolos de nulidade que indicam que a intercessão de Abraão não tem nada de arrogante, porque ele tem consciência de sua própria condição. Abraão confia só na bondade de Deus.

No versículo 32, Abraão considera dez o número mínimo. Abaixo disso não era lícito descer. Em Jeremias 5,1 e Ezequiel 22,30 encontramos a afirmação de que a salvação de uma comunidade pode depender apenas de um justo, que infelizmente não foi possível encontrar.

Segunda Leitura
Colossenses
2,12-14

REDENÇÃO, RESSURREIÇÃO
E VITÓRIA FINAL DE JESUS CRISTO

Os cristãos de Colossos eram influenciados por ideologias alienantes, filosofias que começaram a gerar na comunidade uma visão fatalista da vida e da religião, agravada pela ação dos adversários de Paulo, que pregavam a necessidade da Lei para obter a salvação. Assim, pregavam a prática de uma religião alienante, baseada em ritos e sacrifícios, para acalmar as potências celestes. Os judaizantes insinuavam a idéia de um Deus distante, que só se tornaria próximo e amigo mediante a prática da Lei, cuja porta de entrada era a circuncisão. Para eles, a religião consistia no cumprimento rigoroso das normas, prescrições e proibições. Ora, tudo isso punha em risco os méritos da salvação de Cristo. De fato, não foi por causa da bondade do homem que Jesus veio ao mundo, mas por exclusiva misericórdia de Deus. Por isso, para Paulo a religião não é a prática rigorosa da Lei para agradar a Deus, mas a abertura ao amor misericordioso de Deus na pessoa de Cristo. O amor de Cristo apagou os pecados que a Lei apontava, por isso o homem não está mais sob o peso da Lei. Agora ele entra em comunhão com Cristo com a verdadeira circuncisão que é o Batismo. Sente a proximidade de Deus com o Batismo, pois com ele o homem morreu para a velha pertença adâmica (Romanos 5,1-12). Deu-se a morte total do homem velho e o nascimento do homem novo.

A Lei só apontava as transgressões do homem, mas não podia salvar. “Contra nós havia uma conta a ser paga” (v.14a), mas Cristo anulou esta conta pregando-a na Cruz (v.14b). É ele, portanto, o lugar privilegiado do nosso encontro com Deus e esse encontro se inicia com o Batismo. Nós tínhamos um documento escrito e assinado por nós que continha nossa condenação. Trata-se do famoso “chirógrafo” (escrito a mão), que denunciava nossas transgressões.

Evangelho
Lucas
11,1-13
PARÁBOLA DO HOMEM RICO:
GUARDEM-SE DA AVAREZA

Lucas apresenta Jesus como aquele que reza ao Pai, sobretudo nos momentos decisivos de sua vida, e um desses momentos se insere na viagem para Jerusalém (9,51-19,27). O evangelista gosta de falar de Jesus em oração: oração no deserto (5,16), na escolha dos doze (6,12), nas duas epifanias: a do Batismo (3,21) e a da transfiguração (9,28-29).

A oração de Jesus deve ter atraído a atenção dos discípulos e suscitado neles a vontade de rezar. Era, aliás, costume que os mestres dessem algumas diretrizes sobre a oração a seus discípulos.

Na oração de Lucas, em relação a Mateus, faltam dois pedidos: “Seja feita a vossa vontade” e “livrai-nos do mal”. São apenas cinco pedidos em vez de sete. Porém, isto não diminui em nada o seu conteúdo, já que alguns estudiosos (Jeremias e outros) vêem a oração como uma função da tradição materna.

A oração é muito rica, e foi definida na antigüidade como “síntese de todo o Evangelho” (Tertuliano). Ensina-nos um relacionamento inédito com Deus: chama-o de Pai (v.2a). É superior à forma como Abraão se relacionava com Deus: ele era amigo de Deus (1ª leitura). O cristão não é apenas amigo, mas filho de Deus. A invocação Pai manifesta a sensibilidade e a confiança do filho em relação ao Pai. Na oração pede-se para fazer os interesses do Pai, ressaltando o primado de Deus. Pede-se ao Pai que esteja ativamente presente na vida dos homens, para que estes possam reconhecer e apreciar tal presença. Pede-se que Deus seja conhecido e amado. A fórmula bíblica fala da santificação do nome (a própria pessoa de Deus) e da vinda do seu Reino, realidades já visíveis e operantes em Cristo.

Na espera e na construção diária do Reino, o cristão deve se empenhar caracterizando o NÓS da segunda parte da oração. Pede-se para todos: o pão de cada dia, em sentido material e espiritual, a capacidade de perdoar e de não cair em tentação.

Jesus lhes ensina uma oração nova. O novo está no modo como as pessoas se relacionam com Deus. Chamar Deus de Pai é uma relação nova, inédita. Deus não é tanto o Senhor, o juiz, mas o Pai. Portanto, Lucas coloca na oração do Pai-Nosso cinco pedidos. Os dois primeiros (Santificado seja o vosso nome e Venha nós o vosso reino) provocam uma abertura para Deus. Os três últimos levam à transformação das relações entre as pessoas.

Em seguida vem uma parábola para elucidar a confiança na oração. A cena é tirada da vida familiar da Palestina. No tempo de Jesus, uma família de condição modesta possuía um único cômodo, que à noite se transformava em quarto para todos. Por isso há resistência ao vizinho que pede três pães, pois estava perturbando os que dormiam. Mas, diante da insistência dele, o pedido é atendido e assim se infunde uma confiança serena na intervenção de Deus, concluindo com a bondade do Pai que doa muito mais, ou seja, o Espírito Santo.

REFLEXÃO

O homem que reza tem as mãos no timão da história” (São João Crisóstomo). É o que nos dizem as leituras de hoje. A intimidade de Abraão com Deus não o isola nem o distrai. Ele intervém para orientar de outro modo o curso da história de Sodoma. A preocupação de Abraão não surtirá o efeito desejado e Sodoma será destruída. O trecho conserva, porém, o valor da intimidade com Deus que abre o homem generosamente para os outros na tentativa de tirá-los da morte. Se há um fracasso na tentativa de Abraão, ele está na impossibilidade de atingir o mínimo necessário de justos e não na mediação ou na força da oração. Abraão pôde intervir em benefício dos outros porque era íntimo de Deus.

As leituras nos orientam para a confiança na oração e a necessidade de insistir. Às vezes podemos perder o gosto pela oração porque a entendemos como uma relação mecânica com Deus. O Pai-Nosso nos ensina que devemos buscar primeiro o primado de Deus em nossa vida (Santificado seja o vosso nome), e com esta luz estaremos em condições de aceitar também que nossa oração não seja atendida.

O Pai nosso "Abba" é a palavra chave da oração de Jesus. Ele suscita em nosso coração um sentimento filial, que deve animar e vivificar nosso relacionamento vivo com Deus expresso nas palavras e no comportamento. “Que estais nos céus”. Ele está no alto, é totalmente Santo, tremendo, inacessível, porém é invocado como Pai que se aproxima de nossa pequenez e nos eleva até ele com ternura amorosa, “como alguém que levanta uma criança ao seu rosto” (Oséias 11,4).

A primeira coisa que Jesus nos faz pedir é a santificação do nome de Deus. Sua santidade encontra dificuldade de se manifestar devido ao nosso pecado. A beleza de Deus é o esplendor de sua santidade que quer irradiar-se, mas com o pecado nos opomos a essa irradiação e nos tornamos impenetráveis aos raios de sua beleza. Portanto, a primeira coisa que pedimos é que ele vença a opacidade de nossa miséria e nos faça transparentes à sua irradiação divina. Pedimos que seu nome não seja dito com blasfêmia, mas conhecido, aclamado e bendito e brilhe luminoso na santidade de nossa vida. Em suma, pedimos que nossa vida seja santa, porque o homem é um reflexo de Deus, criado à sua imagem e semelhança. Por isso deve ser santo como Deus é Santo.

Devemos colocar a santidade de Deus em nossa vida e transformar-nos com a escolha do amor aquilo que ele é. Devemos empenhar-nos em glorificar a Deus entrando no raio de sua glória e beneficiando-nos com o esplendor de sua beleza.

Venha a nós o vosso Reino”, “Seja feita a vossa vontade”. De fato, o Reino está no cumprimento de sua vontade, vontade salvífica que se manifesta e se realiza em Cristo. É como se disséssemos: “Cumpra-se em nós a vossa vontade, que é também o desejo do vosso Filho!”. A vontade de Deus é o projeto que ele tem para nós desde toda a eternidade.

Venha a nós o vosso Reino”. Este Reino já está presente, e é Cristo, e seu seguimento é norma de vida. Ele deve ser acolhido e amado, ou seja, devemos reconhecer a plena sabedoria de Cristo em tudo.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. O pão indica tudo aquilo que é necessário para nossa existência temporal: alimento, roupa, casa, saúde, trabalho... Pedimos que ele nos ensine a repartir o pão que ele destina a todos. O obstáculo para o advento do Reino e da partilha fraterna é o pecado. Por isso, invocamos sua misericórdia e também nos dispomos a dá-la.

Não nos deixeis cair em tentação”. Deus não move o homem para a tentação, mas pode colocá-lo à prova, para ver o que há em seu coração, ou seja, as tentações que nascem do mal que já está dentro dele. O Demônio pode aproveitar para nos deixar confusos. Portanto, pedimos que ele nos dê forças para vencer os obstáculos.

Rezar é sempre difícil. Pois é difícil falar com alguém que não se vê. Por isso, os discípulos pediram a Jesus que lhes ensinasse a rezar. Rezar é como um avião que toma velocidade: os motores são acelerados ao máximo porque devem levantar da terra muitas toneladas. Rezar é levantar-se da terra para subir aos céus.

Sabemos que rezar não é fácil, sobretudo hoje. Muitos não rezam porque não sentem necessidade, outros porque pensam que isso leva à alienação, ou porque é uma ocupação inútil, improdutiva. Porém, por mais que o mundo progrida, o homem sempre terá necessidade do encontro pessoal com Deus.

Hoje as pessoas rezam pouco e mal. Muitos afirmam que não têm tempo por causa do ritmo vertiginoso do mundo, das preocupações com a família, do trabalho, das viagens, do lazer... Por isso há uma crise da oração, abandonando-se as práticas de piedade (missa, novena, via-sacra, visita ao Santíssimo...), assim como as fórmulas de oração (Rosário, Ângelus, Salmos...). As pessoas se esquecem de rezar ao levantar-se, ao deitar-se, ao iniciar uma refeição ou o trabalho. Porém, a oração não é monopólio dos contemplativos.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus nos ensina a chamar Deus de nosso Pai, algo até então inaudito para o povo judeu, pois, nas milhares de vezes que Deus é mencionado no Antigo Testamento, apenas catorze vezes lhe é dado o nome de Pai. Ao chamarmos Deus de Pai vemo-nos todos como irmãos.

O Senhor se torna fiador de nossa oração: “Todo aquele que pede recebe, e aquele que busca encontra...”. Só partiremos de mãos vazias se formos auto-suficientes, pois o Senhor “encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lucas 1,53).

Devemos recorrer ao Senhor no sacrário como pessoas muito necessitadas diante daquele que tudo pode, como acorriam a Jesus os leprosos, os cegos, os paralíticos... “Rezar significa sentir a insuficiência pessoal nas diversas necessidades que se apresentam ao homem e fazem parte de sua vida: a própria necessidade de pão a que Cristo se refere, dando como exemplo o homem que acorda o amigo à meia-noite para pedi-lo a ele” (João Paulo II).

Ter a humildade de nos sentir limitados, pobres, carentes de tantos bens, e a confiança em Deus que é Pai incomparável que está sempre atento a seus filhos são as primeiras disposições com que devemos recorrer diariamente à oração. “Aprender quem é o Pai significa adquirir a certeza absoluta de que ele não poderá rejeitar nada”.

Quem pede recebe. Devemos pedir antes de tudo os bens da alma, com desejos firmes de amar cada vez mais o Senhor. Desejos autênticos de santidade em meio às circunstâncias em que nos encontramos. Devemos pedir bens materiais (saúde, bens econômicos, etc.) na medida em que servem para nos encontrar com Deus. Santo Agostinho disse: “Peçamos bens materiais discretamente e tenhamos a certeza, se os recebermos, de que são dados por quem sabe o que nos convém”.

Devemos pedir e desejar que se cumpra a vontade de Deus. “Senhor, não quero nada além do que tu queres. Não me dês nem mesmo aquilo que venho te pedindo, se me afasta um milímetro da tua vontade” (Scrivá).

Na primeira leitura de hoje, Abraão tenta salvar Sodoma regateando com Deus e invoca diante dele o tesouro imenso que são alguns justos. Dez justos seriam suficientes para que Deus salvasse Sodoma e Gomorra, pois as obras desses justos, colocadas numa balança, pesariam mais que todos os pecados daqueles pecadores. Por isso, devemos contar com as boas obras em vez de nos afligir com o mal. Deus tem outras medidas. “A oração de Abraão é muito atual nos tempos em que vivemos. É necessária uma oração assim, para que todo homem justo trate de resgatar o mundo da injustiça” (João Paulo II).

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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