O
nosso texto é uma continuação do contexto
do evangelho do domingo passado. A parábola do joio
no meio do trigo continua o tema da parábola do semeador.
Na
parábola de hoje Jesus critica a pressa dos discípulos
em querer separar os bons dos ruins. Jesus condena a impaciência
messiânica dos discípulos, os quais, como faziam
os fariseus e os essênios, queriam formar comunidades
puras, fugindo da realidade [essênios]
ou considerando-se sabedores de tudo [fariseus].
Esta
parábola mostra que a sociedade é um campo
de semeaduras diferentes e contrastantes. O semeador tem
o dever de semear a boa semente. Porém, no meio do
terreno cresce também o joio, uma erva que no início
se parece com o trigo e só se diferencia quando o
trigo já está na fase do amadurecimento. Ela
não possui espigas, por isso é impossível
extirpá-la. É preciso esperar a colheita para
fazer a separação.
Junto
com o trigo convivia o joio. Com a prática da justiça
convivia a injustiça, e aí estava a perplexidade
dos discípulos. Se Jesus é Deus Conosco, o
Mestre de Justiça, como se explica o crescimento
da injustiça? Por que não intervir e arrancar
tudo [1ª leitura]? Esse questionamento
era óbvio nas primeiras comunidades, para as quais
a vinda do Messias teria extirpado o mal. O próprio
João Batista falava: “Com
a peneira na mão limpará sua eira e recolherá
o trigo no celeiro, queimando as palhas num fogo que não
se apaga” [Mateus 3,12].
Os seguidores de Jesus concordavam com essa idéia.
Jesus, porém, não tinha essa idéia.
Diante
desta impaciência, Jesus responde que a separação
não se faz agora, mas no final, pois se fosse feita
agora haveria o perigo de arrancar o trigo junto com o joio.
A seleção final será feita através
do critério dos frutos [prática ou
não da justiça - Mateus 5].
Ficava,
porém, a interrogação: O Reino não
se mostrava impotente diante do mal? Jesus explica com a
parábola da semente de mostarda, a menor de todas
as sementes que se torna a maior de todas as plantas, a
ponto de abrigar os pássaros em seus ninhos. Esta
semente, na sua insignificância, atingia quando árvore
de 4 a 9 metros de altura, e os pássaros, que aqui
representam as nações, se aninha em suas árvores.
Assim será a justiça do Reino de Deus. Espere
para ver.
Na
seqüência vem a parábola do fermento.
Ela explicita que três porções de farinha,
aproximadamente 42 quilos, eram misturadas a um punhado
insignificante de fermento. O fermento some no meio da farinha
[a mulher esconde o fermento na farinha]
e a transforma. Assim é a justiça do Reino
de Deus, pois tem o poder de contagiar toda a massa, tem
um poder revolucionário.
Nos
versículos 34-35, Mateus faz um comentário
para mostrar porque Jesus anuncia o Reino em parábolas.
Tem-se a impressão de que o povo não as entendia.
A função das parábolas é revelar
o mistério escondido anteriormente.
Estudos
bíblicos afirmam que Jesus contava as parábolas
com três objetivos:
01)
Explicativo:
para explicar de maneira simples as coisas difíceis;
02) Argumentativo:
para reforçar suas posições;
03) Provocativo:
para que também seus interlocutores tomassem posição.
Esse terceiro motivo é muito evidente nas parábolas
do tesouro escondido e da pedra preciosa, como também
na da rede lançada ao mar e na conclusão
do discurso em parábolas que forma o texto de hoje.
A
primeira parábola, a do tesouro escondido no campo,
não compara o Reino com o tesouro, mas mostra o estado
de ânimo de quem encontra um tesouro, comparando-o
a um valor absoluto para a vida. O descobridor do tesouro
não o estava procurando, apenas o encontrou sem esforço.
O Reino da justiça também não é
objeto de buscas intermináveis, mas está ao
nosso alcance. A reação de quem descobriu
o tesouro é de alegria e por isso faz de tudo para
obtê-lo. A esse achado inesperado correspondem a alegria
e o desprendimento total de tudo. Não se trata de
renunciar para obter o Reino, mas este é uma conseqüência.
Na
segunda parábola, a da pérola de grande valor,
vê-se que nesta, à diferença da pérola
perdida, o comprador esta à procura e não
há referência à alegria ao vender todos
os seus bens. Contudo, o significado é o mesmo da
anterior. Ele vendeu tudo para possuí-la, porque
valia a pena. Porém, o Reino não pode ser
comprado como um campo que esconde um tesouro. As parábolas
ressaltam, portanto, que nada faz falta a quem descobre
o sentido e o valor da luta pela justiça.
Na
terceira parábola, a da rede lançada ao mar,
há um prolongamento do tema da parábola do
joio e do trigo, que tem um valor escatológico. Na
sociedade convivem peixes bons e ruins [no livro
do Levítico 11,9-12 e do Deuteronômio 14,9
havia prescrições sobre quais peixes podiam
ou não ser comidos]. É Deus quem
lança a rede e faz a triagem.
No
final Jesus pergunta: Quem entendeu o significado das parábolas?
Entender significa assumir o ensinamento de Jesus e praticá-lo.
Trata-se de compreender o mistério do Reino que se
manifesta no ensinamento de Jesus e se prolonga na práxis
da comunidade cristã numa sociedade conflitiva.
O
nosso trecho é o terceiro dos cinco discursos pragmáticos
de Jesus em Mateus. É um discurso sobre o Reino de
Deus em estilo literário de parábolas [Mashal],
que consiste em explicar uma verdade profunda mediante comparações
e imagens.
O
esquema doutrinal deste terceiro discurso é:
•
Parábola
do Semeador: A Igreja nasce e espalha
a Palavra.
• Parábola
da Cizânia: A crise e a infidelidade
da Igreja no mundo.
• Parábola
da Mostarda e do Fermento: O crescimento
e o dinamismo do Reino; as conquistas da Igreja.
• Parábola
do Tesouro e da Pérola: O Reino
no íntimo da consciência.
• Parábola
da Rede: A realização final
do Reino.
Mateus
mostra a concepção do Reino de uma forma revolucionária:
o Reino não se impõe com violência,
mas através da opção livre da pessoa,
a qual coexiste com oposições, luta contra
o mal [cizânia] e não é
uma conquista imediata, mas um triunfo lento e gradual [mostarda].
Não oferece exterioridade, mas transforma o mundo
por dentro [fermento], apagando as fortes
exigências do coração humano, ao preço,
porém, de uma renúncia superior [pérola].
No fim haverá o triunfo [rede].
No
Reino convivem bons e maus e nesta dinâmica se manifesta
a paciência de Deus, a “makrothumia”,
isto é, a longanimidade, onde é sempre apresentada
a possibilidade de os bons melhorarem e os maus mudarem.
|
| As
três parábolas falam do Reino de Deus [Mateus,
ao falar de Deus, respeita o mandamento: “Não
pronuncie o nome de Deus em vão” - Êxodo
20,7; Deuteronômio 5,11]. Por isso, ele não
fala Reino de Deus, mas Reino dos céus. O Reino de
Deus não é um lugar geográfico onde Deus
exercita o seu poder e autoridade, mas sim o “comportamento”
de Deus oferecido a todos.
As
leis da antropologia cristã não são as
da botânica. Ninguém nasce semente boa ou cizânia,
mas se torna livremente. Esta é a história de
cada um de nós. Pela graça de Deus cada pecador
pode ser o “grão”
para o graneleiro de Deus. Por isso, Deus busca sempre o pecador
como a ovelha perdida. Eis o sacramento da reconciliação,
saúde depois da doença, luz depois das trevas,
vida depois da morte. É um nascimento. “Como
é bela a confissão. Eu sinto no coração
algo mais que a simples alegria” [F.
Soldi].
O
Reino é o tesouro e a pedra preciosa que o homem tem
a sorte de descobrir quando encontra Cristo e para conquistá-lo
vale a pena gastar todas as energias.
Os
tesouros do Reino de Deus estão escondidos na realidade
humana. O campo é o mundo e o tesouro são os
valores das pessoas, da família, da sociedade, do corpo,
da sexualidade, do Espírito etc. O mercado para esse
tesouro representa o trabalho, as comunicações,
as viagens, o comércio, os que se empenham em todas
as atividades humanas. A pérola são os relacionamentos
interpessoais, a solidariedade humana, os corações
das pessoas, o desenvolvimento da sociedade.
O
tema “Reino de Deus”
reúne todos os temas da reflexão deste domingo.
O Antigo Testamento já falava do Reino de Deus, mas
com uma visão terrena. Jesus mudou a perspectiva dessa
concepção, e a verdade religiosa do Reino de
Deus é o núcleo central do seu anúncio.
“O tempo já chegou,
o Reino está próximo, convertam-se...”
[Marcos 1,15]. Até a vinda de Jesus
houve uma preparação para o Reino, agora se
exige conversão para entrar nele.
O
Reino contém em si um mistério. É o plano
salvífico de Deus para o mundo que é revelado
aos discípulos [Mateus 13,11]. O Reino
é um dom, um bem de ordem sobrenatural que só
Deus pode dar. “Há
eunucos que assim se fizeram em vista do Reino dos céus”
[Mateus 19,52]; “Não
tema, pequeno rebanho, porque o Pai lhe dará o Reino”
[Lucas 12,32]. Jesus, ao praticar os exorcismos
com sucesso, confirma que o Reino já chegou: “Se
é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios,
então o Reino já chegou a vocês”
[Mateus 12,28]; “O
Reino é para todos” [Mateus
20,1-15; 22,2-10]. Para possuí-lo é
preciso romper com o passado: “Quem
põe a mão no arado e olha para trás...”
[Lucas 9,61]. É preciso ter simplicidade
e confiança como as crianças: “Quem
não acolhe o Reino como uma criança não
entrará nele” [Mateus
10,15]. Por isso, as preocupações com
as coisas materiais não devem ser a prioridade [Mateus
19,44-45].
Este
Reino tem perspectiva escatológica: “Venham,
benditos de meu Pai, receber o Reino preparado para vocês...”
[Mateus 25,33-34]. Por isso vale a pena empenhar
tudo por ele. “É
melhor entrar coxo no Reino de Deus do que ser jogado na geena”
[Marcos 9,47]. A Páscoa se cumpre
no Reino [Lucas 22,16; 28,39]. Só
os justos brilharão como o sol no Reino do Pai [Mateus
13,43].
Portanto,
o Reino comporta duas fases: uma atual, freqüentemente
apresentada no mistério da humildade, e outra na glória
de Deus. Por isso, Jesus deu uma resposta aos fariseus sobre
o momento em que o Reino se realizará: “O
Reino está no meio de vocês”
[Lucas 17,20-21].
As
comunidades cristãs entenderam o Reino nas duas fases:
histórica e escatológica. A histórica
é confirmada em Colossenses 1,11-13; 4,11; Romanos
14,17. A escatológica em 1Tessalonicenses 1,12; 2Tessalonicenses
1,3-5.
No
pensamento de Jesus o Reino de Deus é:
1.
O desígnio de salvação
do homem concebido por Deus;
2. A realização
parcial e terrestre na humanidade [aspecto histórico]
e a realização definitiva na glória
[aspecto escatológico];
3. O Reino
realizou-se plenamente nele;
4. Realiza-se
progressivamente na Igreja.
O Catecismo da Igreja Católica fala do Reino de Deus
em seu aspecto histórico e escatológico nos
números 672 e 2.818. Na Igreja, nº 541-551; 671;
763-765. Para todos: nº 543-546. Ele é Jesus:
nº 549-550; 2.816. O Vaticano II fala sobre o Reino em
Gaudium et Spes 40b,c, 9c; 35a; 45a; Lumen Gentium 5a,b,c,
36a.
Para
alcançar o Reino é preciso mexer-se para procurá-lo.
“Toda manhã uma
gazela acorda na África e sabe que deve correr mais
rápido que o leão, senão será
a sua presa. Toda manhã um leão acorda na África
e sabe que deverá correr mais rápido que uma
gazela para matar a sua fome. Quando o sol nasce não
importa quem você é: um leão ou uma gazela.
É melhor que comece a correr. Se isto vale para o mundo
dos animais, do comércio etc., vale também para
o campo do Espírito, onde é preciso correr para
achar o bem, fugir do mal, lutar para ter a vida, a vida eterna”.
O
Reino de Deus não pode ser entendido por um coração
duro que parece estar envolvido por uma proteção
metálica que o deixa impermeável. Ele não
é revolucionário, conforme nossas categorias
mentais. Não se afirma com a força, mas com
o amor. Todavia, o dinamismo interno desse Reino vence as
dificuldades, embora às vezes pareça o contrário,
quando a força do mal triunfa. Mas Deus tem paciência
e é misericordioso e pode transformar um pecador em
santo, como fez com Agostinho de Hipona, e um perseguidor
em mártir, como aconteceu com Paulo de Tarso.
Conta-se
que uma jovem muito feia e antipática foi procurar
um pintor para fazer um retrato. Depois de um mês de
trabalho, o pintor conseguiu terminar a obra. Ela ficou tão
bonita que todos que viam o retrato ficavam admirados com
a graciosidade de expressão da fisionomia. E perguntavam
ao pintor como havia conseguido fazer uma obra tão
graciosa. O pintor explicou: “Enquanto
eu pintava, contava-lhe histórias alegres, suscitando
em seu coração sentimentos suaves e bons, e,
quando via a bondade e os afetos brilharem em seu rosto, fixava
aquela expressão na tela. Portanto, não embelezei
nada, apenas descobri o belo e o bem que nele se achava escondido”
[Lenda russa]. Portanto, se o mal existe,
devemos suscitar o bem testemunhando Jesus.
Deus
cuida de cada um de seus filhos: “O
Pai leva esculpido no seu coração o nome de
cada um de nós. Ele nos criou e nos chama cada um pelo
nome” [Mazzolari].
Portanto, Ele está presente em nossa vida, e não
como pensavam os propagadores de uma doutrina denominada dos
“Lantitudinários”,
que surgiu no fim do ano de 600 e início do ano de
700 na Inglaterra com Matthews, Tindal, John Toland, Antony,
Collins... os quais nivelavam o sobrenatural com o natural,
excluindo tudo o que era prodigioso, procurando explicar com
a ciência e dizendo que o mundo se basta a si mesmo,
não precisa de Deus, pois ele não se interessa
pelos homens, está fechado em seu mistério e
em sua felicidade infinita. Ele é misericórdia,
governa com grande indulgência e tem paciência
com seus filhos [o joio e o trigo].
Deus
é tolerante e nos ensina que devemos ter paciência
com os outros. Não devemos ter olhos de lince para
ver o cisco no olho do outro e ser míopes para ver
nossos erros. Ninguém pode sentir-se tão bom
a ponto de não ter nenhum joio, pois somente Deus é
bom [Mateus 19,17].
A
presença de joio na plantação de trigo
era muito temida pelos camponeses do Oriente, pois chegava
a inutilizar a colheita, e muitas vezes isso acontecia por
vingança pessoal. Muitos cristãos dormiram e
permitiram que o inimigo semeasse a má semente, e assim
surgiram erros de fé e de moral. Temos de vigiar para
não sermos surpreendidos, sobretudo, vigiar o nosso
coração. Os inimigos de Deus usam todos os meios,
aproveitam a ignorância do povo. “O
meu povo definha por falta de conhecimento”
[Oséias 4,6]. Por isso, os inimigos
muitas vezes instilam notícias que denigrem a Igreja,
e outras vezes silenciam; propagam idéias demolidoras
sobre o divórcio, a infidelidade, a eutanásia,
ridicularizam a castidade, semeiam desconfiança sobre
os sacramentos, dão uma visão pagã da
vida.
Portanto,
o dever do cristão é testemunhar o valor da
vida cristã e esclarecer, informar, aconselhar a todos
com simpatia, amabilidade, serenidade e segurança,
pois, como disse Tertuliano: “Deixam
de odiar os que deixam de ignorar”.
Portanto, não devemos perder a oportunidade de semear
a boa semente, pois precisamos vencer o mal com o bem, sobretudo
num mundo imerso no materialismo, no hedonismo e no ateísmo,
onde se arma uma perseguição sutil aos homens
de fé, condenando a Igreja a morrer de inanição,
expulsando-a da vida pública, impedindo-a de agir na
educação, na cultura, na família.
Qual
é o modo mais fácil de conquistar o céu?
Perguntou-lhe certa vez a irmã de Tomás de Aquino.
O irmão respondeu-lhe numa folha somente com esta frase:
“Basta querer”. |