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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XVI Domingo
18 de Julho de 2010

Primeira Leitura
Gênesis
30,10-14
TRÊS VISITANTES ANUNCIAM A ABRAÃO
O NASCIMENTO DE ISAAC

Este texto é muito arcaico e tem como tema a hospitalidade, que no Antigo Testamento era considerada sagrada. Para o povo da Bíblia, acolher as pessoas era um ato de fé e religião. Na literatura antiga é comum encontrar estórias de deuses vagueando pelo mundo a fim de pôr à prova a hospitalidade das pessoas. Em nosso texto, a narração deve ser interpretada mais ao nível do significado do que literário. Pertence à fonte javista, a qual descreve Abraão como um amigo de Deus e por isso Deus se apresenta a ele em forma humana, visita-o e fala com ele, come e aceita sua hospitalidade. Deus está disposto a tudo, inclusive a dar a Abraão um filho (vv.9-10), uma terra e um povo para fazer sua descendência tão numerosa como as estrelas do céu e a areia do mar.

O texto é montado ao redor do cerimonial da antiga hospitalidade beduína. Abraão está sentado à entrada da tenda, na hora do calor, que era o momento para o descanso e não para visitas (v.16). Mesmo assim, Abraão corre ao encontro dos três homens fazendo-se servidor deles e os convida para serem seus hóspedes. Acolhe-os e lhes promete água para lavar os pés e pão (vv.4-5), mas na verdade lhes oferece um banquete, pão feito na hora, com a melhor farinha, um bezerro, coalhada e leite, em suma, dá-lhes o melhor que tem. Por fim fica de pé diante deles em sinal de cortesia e disponibilidade (vv.6-8). Em pleno calor do dia, movimenta seus criados e sua esposa para proporcionar uma acolhida calorosa aos visitantes.

Abraão agiu assim porque estava convencido de que acolher as pessoas era acolher o próprio Deus. Realmente, ele fala com os visitantes como se falasse com Deus: “Meu Senhor” (v.3). Além do mais, os visitantes se comportam de forma diferente em relação a ele. Com efeito, as conversas entre beduínos não comportavam perguntas sobre a mulher, pois seria uma falta de cortesia, mas os hóspedes quebraram esta regra e Abraão respondeu (v.9). Por aí se vê que ali estava a presença de Deus preocupado com a vida, pois os visitantes conheciam o nome de Sara e sabiam de sua esterilidade, e que isto tornava o casal infeliz, pois não podiam ter descendência. Ao acolher estas pessoas no momento mais inoportuno do dia, Abraão e Sara acolheram o dom da vida que vem de Deus, pois receberam a promessa de um filho (a vida).

Sendo da fonte javista, este capítulo desenvolve o tema da visita judicial da divindade aos homens, que também é amplamente documentada na literatura semítica e grega clássica.

Um elemento difícil de explicar é a relação entre os três visitantes e “JHWH”. A explicação mais plausível é que o texto queira falar do único Deus acompanhado de dois anjos. No contexto rígido do monoteísmo do Antigo Testamento, é surpreendente não haver uma explicação satisfatória para esta aparição de Deus. Os três homens que aparecem constituem um antropomorfismo para descrever Deus. Hoje os exegetas não aceitam uma referência à Trindade, como sustentaram alguns Padres antigos da Igreja, embora um ícone de Rubliv tenha feito uma interpretação sugestiva deste mistério neste sentido.

É provável, entretanto, que esta narração tenha conservado os traços de uma antiga narração mitológica que fala de três deuses que desceram para visitar um casal estéril. Trata-se de Zeus, Possêidon e Ernete, que foram hóspedes de Eliseu e de sua mulher, anciãos sem filhos, e os recompensaram proporcionando-lhes o nascimento de um filho chamado Órion. É verdade, porém, que nosso texto não concede espaço ao politeísmo mitológico.

O elemento central da narração é a exaltação do dever sagrado da hospitalidade. Por isso, o narrador se esmera em relatar minuciosamente as providências que Abraão tomou para honrar os hóspedes. Na verdade, no mundo dos nômades poder contar com a hospitalidade era questão de vida ou morte. Além do mais, no contexto desta visita, o texto põe em destaque o contraste entre a pequenez de Sara que crê não poder realizar a promessa de um filho e a grandeza de Deus que lê os pensamentos e para quem nada é impossível.

Deus havia prometido a Abraão terras e descendência, mas até aquele momento ele não tinha terras nem filhos. Ao acolher estas pessoas, Abraão estava convencido de que acolhia Deus. A mensagem que o texto passa é que acolher Deus é acolher a vida.

Segunda Leitura
Colossenses
1,24-28
MISSÃO DE PAULO ENTRE OS PAGÃOS

Paulo está na prisão. O fato de anunciar Jesus lhe trouxe humilhações, torturas e difamações. Isso fez com que ele vivesse próximo de Jesus e de sua paixão (v.24). Depois de apresentar o mistério de Deus em sua manifestação a todos os homens, Paulo lembra o chamado ao serviço deste mistério e o empenho em difundi-lo entre os pagãos. É a continuação do hino de abertura desta carta.

Parece que os problemas mais importantes que esta carta aborda são: autenticidade paulina, que nos faz pensar que o autor dela venha do círculo de Paulo, e talvez seja seu discípulo direto. A doutrina combatida nesta carta é claramente sincretista, ou seja, composta por numerosos e desagregados elementos religiosos e filosóficos, não faltando um forte acento judaico.

O tema dominante nesta carta é o primado de Cristo, proclamado como único Salvador de todos os homens, dominador supremo das forças cósmicas, em quem “reside a plenitude da divindade”. Este tema é exposto e desenvolvido em polêmica contínua com os conturbadores da verdadeira fé, que falavam em potências cósmicas (tronos, senhores, príncipes, potências) que precisam ser aplacadas com celebrações religiosas periódicas e com a abstinência de alguns alimentos e bebidas.

O sacrifício de Cristo foi completo, não precisava de complemento, mas o texto no versículo 24 quer dizer que os sofrimentos do apóstolo a favor da Igreja são uma participação nas tribulações que marcam esta fase histórica da Igreja.

Paulo se apresenta como um ministro da palavra e por meio dele as comunidades cristãs ampliam seus horizontes abrindo-se para os não judeus, entre os quais se encontram os cristãos de Colossos. O Evangelho pregado por Paulo é chamado de “mistério escondido nos séculos”. É uma terminologia da literatura sapiencial e apocalíptica. Aqui serve para explicitar a centralidade e a transcendência da pessoa de Cristo, que é visto presente no plano eterno da salvação e considerado sempre ativo.

Paulo alerta, portanto, os cristãos de Colossos para o perigo de se desviarem do mistério de Cristo com uma filosofia falsa (Colossenses 2,4-5) e de o esvaziarem com práticas superficiais, sem a participação do mistério pascal (2,16-33).

O apóstolo se apresenta como um herói. Não se entrega nem mesmo nas prisões, não se faz de vítima, mas acredita na pessoa de Cristo. Não busca seus interesses pessoais, mas a construção da Igreja, e põe todas as suas forças a serviço da Palavra.

O texto também apresenta a primogenitura de Cristo sob dois aspectos: ele é a imagem do Deus invisível, como a sabedoria (Sabedoria 7,26), é o Verbo Criador (João 1,3-18). É o chefe do corpo que é a Igreja, na qual reconcilia e dá plenitude a todas as coisas (João 1,6).

Evangelho
Lucas
10,38-42
MARIA E MARTA

Este texto faz parte da longa viagem de Jesus a Jerusalém (9,51-19,28), porém não tem ligação com o que o procede (parábola do bom samaritano), nem com o que o segue (ensinamento sobre a oração). Não se encontra também nos outros sinóticos e só sabemos que as duas irmãs de Lázaro moravam em Betânia através de João (12,1ss).

A estada de Jesus na casa de Marta e Maria permite ao evangelista apontar a necessidade de ouvir a palavra de Deus. Marta faz as vezes de dona-de-casa acolhendo Jesus, porém está preocupada com os serviços domésticos. Maria, ao contrário, senta-se aos pés de Jesus para escutá-lo. Sentar-se é uma atitude de escuta, disponibilidade e atenção, uma postura característica dos discípulos diante dos rabinos. Neste sentido Jesus quebrou a tradição, que proibia às mulheres o uso da Torá. Na literatura rabínica posterior se dizia: “Queimem-se as palavras da Torá, mas não sejam comunicadas às mulheres” (Sota 19a).

A postura de Maria não é passiva, mas interiormente ativa. O verbo “preocupar-se” (“merimnào”) liga-se ao pensamento de Jesus: “Não se preocupem com o que comer e beber” (Mateus 6,25).

Desde os tempos dos Padres da Igreja, Marta passou a ser o tipo da pessoa cheia de atividades e Maria o tipo da pessoa contemplativa.

REFLEXÃO

A familiaridade de Abraão com Deus deve ser recuperada em nosso tempo. Deus não está distante de nós: ele partilha sua vida conosco. Ele nos ofereceu sua amizade em Jesus e muitas vezes o homem não percebe a presença de Deus em sua vida porque é distraído.

O cristianismo não é tanto a religião do fazer, não é um conjunto de práticas a serem executadas, mas é antes de tudo a religião da união com Deus. É participação de sua graça, da intimidade de Deus.

O bem-aventurado João Ruysbroeck dizia: “Se no meio de um êxtase um doente lhe pedir para levar-lhe um prato de sopa, deixe o êxtase e corra a atender o doente”. Numa outra passagem ele compara o equilíbrio entre a vida contemplativa e ativa como um movimento de dois remos num barco: “Se for usado apenas um dos remos, há o risco de girar em volta de si mesmo, sempre em volta de si”.

Na rua de um vilarejo passavam duas carroças puxadas por dois burros. Numa das carroças, que andava devagar e em silêncio, havia um tonel cheio de vinho tinto. Na outra carroça havia um tonel vazio, que saltava e fazia um grande barulho. Assim, todos olhavam curiosos para saber de onde vinha aquele barulho, e o tonel vazio pensava satisfeito: “Todos se interessam por mim porque sou importante e simpático”. Mas o outro tonel pensava consigo: “Falar, somente falar é o que você sabe fazer, mas por dentro você está vazio. Espere e veremos qual de nós dois o patrão apreciará!”. De fato, no momento de descarregar, todos ficaram em volta do tonel cheio, e o descarregaram e transportaram com cuidado para a cantina. O outro tonel ficou jogado num canto” (Ivan Krylow). Assim é nossa vida, que precisa estar cheia de Deus para ser apreciada.

Quando Jesus disse a Marta que Maria escolheu a melhor parte não estava desqualificando o trabalho, a ação. Sua intenção não foi apresentar uma disjuntiva excludente entre a ação e a contemplação, para ficar somente com a contemplação, embora no passado se pensasse assim, vendo a superioridade da vida religiosa contemplativa. Jesus não condena o trabalho de Marta, mas a adverte sobre o perigo da inquietação e lhe sugere que aproveite a oportunidade de ouro que Maria aproveitava.

Não pode haver oposição excludente entre contemplação e ação, oração e trabalho, pois são dois aspectos que se incluem na bem-aventurança da palavra: a escuta e o cumprimento. “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas 11,28). Não se trata, portanto, de escolher uma alternativa isolada. São Bento recomendava: “Ora et labora”, oração e trabalho, e Dom José Marello dizia: “Sejam cartuxos em casa e apóstolos fora de casa”. Assim fizeram os contemplativos da história, e por isso mesmo Henri Bergson dizia que os místicos são os mais realistas de todos os homens. A oração não aliena o cristão dos problemas, do empenho pela justiça e pelos valores, como dizia Gandhi (1869-1948): “Não pude ser feliz sem a oração!”.

Os afazeres de cada um são justamente o lugar onde encontramos Deus, “o eixo sobre o qual nosso chamado à santidade se assenta. Por isso devemos compreender que Deus se torna presente nas tarefas cotidianas. Deus nos espera cada dia no laboratório, na sala de operação de um hospital, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho” (José Maria Escrivá).

Jesus disse a Marta: “Uma só coisa é necessária”. Foi como lhe dissesse: Você anda ocupada com muitas coisas, mas está se esquecendo de mim, está descuidando do essencial, e isto não é bom quando faz perder a presença de Deus. Jesus não poderia também nos dirigir esta censura carinhosa?

Não podemos trocar o “senhor das coisas pelas coisas do Senhor”. Devemos fazer com que o trabalho nos leve a estar na presença de Deus.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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