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ANO A - São Mateus
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
15° Domingo do Tempo Comum
10 de Julho de 2011

Primeira Leitura
Isaías
55,10-11

EFICÁCIA DA PALAVRA DIVINA:
COMO A CHUVA, NÃO VOLTA SEM EFEITO

Estes dois versículos fazem parte do chamado Dêutero-Isaías. Deus promete, por meio do profeta, que a libertação vai chegar brevemente, pois a sua Palavra não falha. A sua Palavra é comparada à chuva e à neve que, antes de evaporar, fornecem condições de vida para a terra, pondo em movimento o ciclo da vegetação e da vida. Esta imagem é muito eloqüente, se levarmos em consideração as condições climáticas de Israel, onde durante os meses de junho a outubro, período de seca, tudo se torna árido e a maior parte da vegetação morre por falta de água e, com o iniciar do período de chuvas, tudo volta à vida. Para os semitas, a água tinha a força de fecundar a terra. Ela engravida a terra, é princípio de vida.

Para o profeta, a única força capaz de gerar a vida, deste povo estéril e exilado, era a Palavra de Deus. Essa Palavra, muito mais que um som, manifesta a presença de Deus. De fato, a palavra, dabar em hebraico, é na mentalidade semita bem mais que a pronúncia de um som: significa o coração, a força, a essência de quem fala. A Palavra de Javé é, portanto, a própria essência de Deus que age nos acontecimentos, transformando tudo em libertação e vida. Ele é capaz de, mediante a sua Palavra, criar o mundo, pondo o caos em ordem (Gênesis 1). Assim, nesta situação em que o povo vive a situação de morte, no exílio, Deus poderá fecundar a vida do povo.

A palavra de Javé realizou o que anunciava. Mostrou que Javé é o Deus libertador que se tornou realidade na vida do povo.

Segunda Leitura
Romanos
8,18-23

OS SOFRIMENTOS ATUAIS NÃO TÊM PROPORÇÃO COM A VIDA FUTURA

Neste capítulo, Paulo fala da vida no Espírito. E, neste trecho, corrige uma distorção na vida da comunidade. Seus membros se deixavam conduzir pela idéia de que somos todos devedores da fatalidade, como vitimas do destino. Para Paulo, pela morte e ressurreição de Jesus ninguém é escravo do fatalismo, visto que possuímos os frutos de uma vida no Espírito.

Porém, os cristãos desta comunidade, que viviam em crises e perseguições, lamentavam-se porque não viviam a libertação. Por que sofriam? Paulo lhes ensina que viver a vida cristã é viver em tensão que se manifesta nos sofrimentos, como numa dor de parto. Portanto, os sofrimentos não são estéreis, porque darão parto a um mundo novo. Ser filho de Deus e ter os frutos do Espírito não dispensa os sofrimentos.

O motivo dominante deste capítulo é a vida em Cristo e toda ela é animada pela ação do Espírito Santo. É o Espírito que comunica a vida (vv.1-13) e por isso somos filhos de Deus (vv.14-30). Paulo traz à tona um motivo que estava presente nos profetas, os quais haviam anunciado os últimos tempos como tempos qualificantes de renovação interior, graças ao Espírito de Deus: ”Infundirei neles um Espírito novo” (Ezequiel 11,17-19). “Colocarei em vocês o meu Espírito...” (Ezequiel 30,26-27). “Sobre toda carne infundirei o meu espírito, seus filhos e filhas profetizarão, seus velhos terão sonhos, seus jovens terão visões...” (Joel 3,3). Assim, toda a Igreja tinha a convicção de que nascera do Espírito Santo (João 29,22).

Com Jesus teve início um mundo novo ainda “in fieri”, isto é, em formação. O capítulo 8 de Romanos exprime esta realidade que teve o seu início, mas ainda não chegou ao seu término. A filiação adotiva, fruto do Espírito Santo, embora sendo uma misteriosa realidade presente, ainda não chegou à sua maturação plena. A filiação divina só começa a realizar-se com a participação nos sofrimentos de Cristo, caminhando com Ele no caminho da cruz (v.17).

Portanto, Paulo corrige uma visão errada, segundo a qual se dizia que somos todos filhos do fatalismo, vítimas do destino, pois devido à morte e à ressurreição de Jesus possuímos os frutos do Espírito. Ao mesmo tempo, o apóstolo explicita que ser cristão é viver em tensão para o futuro, o que se manifesta nos sofrimentos da comunidade, e em tensão para o mundo novo, para o projeto de Deus, o que é descrito com a imagem do parto. A criação e os filhos de Deus sentem constantemente as dores do parto, em que a natureza e a humanidade estão envolvidas neste processo de dar à luz o mundo. Portanto, o sofrimento não é estéril, pois a filiação divina e a vida no Espírito não dispensam o cristão de viver em tensão contínua pela vida, pois ser filho de Deus é gerar constantemente um mundo novo.

Portanto, como cristãos, possuímos as primícias do Espírito e elas prometem uma colheita com os frutos do Espírito da melhor qualidade. Porém, para gerar um mundo novo é necessária a nossa participação.

Evangelho
Mateus
13,1-23
A PARÁBOLA DO SEMEADOR
Este capítulo explicita o tema chamado “Mistério do Reino”, por trás do qual está o tema do conflito entre Jesus e as lideranças políticas religiosas do seu tempo. Portanto, é com esta ótica que devemos ler a parábola do Semeador. Além do mais, é importante levar em consideração a situação de crise vivida pelas comunidades da Síria e do norte da Palestina, onde o evangelho de Mateus surgiu: uma situação de conflito com o judaísmo ortodoxo e de desânimo das comunidades.

Na parábola, a atenção se concentra no semeador e na sorte da semente semeada. No relato da parábola, o que interessa é apenas o resultado final da semeadura, isto é, a boa ou a má colheita obtida pelo semeador. O interesse da narração se concentra, portanto, na sorte da semente.

O pano de fundo (a negação das lideranças) é o desânimo das comunidades, isto é, a rejeição do Reino de Deus e a crise das comunidades siro-palestinas. É fácil entender que a semente é a palavra do anúncio evangélico. Ao mesmo tempo, Mateus quer assegurar que as diversas formas padecidas pelo anúncio do Evangelho, ou da palavra, não levarão ao insucesso completo.

A semente possui em si todos os germes de vida, assim como a palavra de Jesus e a sua prática de justiça, que leva à vida e aos frutos. Por isso, apesar do aparente fracasso, da rejeição, o sucesso da colheita está garantido. Haverá forças contrárias para abafar o poder de vida das sementes (pássaros, terreno pedregoso, espinhos...), porém Jesus, como lavrador experiente, sabe que no semear um pouco se perde, porém o sucesso da colheita não fica abalado e as possíveis perdas serão compensadas com um produto abundante. Basta lembrar que, na Palestina do tempo de Jesus, o normal de uma colheita não ia além da proporção de dez por um e na parábola essa proporção é incrivelmente maior. Na Palestina, o terreno não era completamente cultivável e semeava-se antes de lavrar a terra. Portanto, era compreensível que o lavrador contasse com a perda de uma parte das sementes. Desta maneira, pode-se concluir que o sucesso da colheita vem, mesmo passando pelo insucesso e pelo risco.

A explicação da parábola é uma adaptação pastoral à crise das comunidades siro-palestinas.

Em outras palavras, Mateus perguntava a estas comunidades: Como estão acolhendo a Palavra? Qual o compromisso de justiça com o Reino? Que tipo de terreno vocês são?

A primeira explicação do tipo de terreno é a da estrada de chão batido onde a semente não nasce, vêm os pássaros e comem as sementes, como o Maligno que ”rouba o que foi semeado no coração”. É a superficialidade ou a insensibilidade: a opção por Jesus não foi suficientemente forte para atingir a profundidade.

O segundo obstáculo são as perseguições, representadas pelo terreno pedregoso, onde a Palavra é acolhida com alegria, mas não tem raiz em si e é inconstante, cedendo diante das tribulações e perseguições e desanimando facilmente.

O terceiro obstáculo são as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza. O terreno cheio de espinhos deixa a Palavra sufocar com as “preocupações do mundo” ou com o “engano das riquezas”. Isto mostra que o cristão vive num contexto em que as estruturas políticas e econômicas fascinam e seduzem. Elas sufocam e tornam estéril e ineficaz o poder da Palavra.

O terreno bom que “dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por cento”, é aquele que ouve a Palavra de Deus e a compreende.

REFLEXÃO

Hoje não é difícil encontrar quem considere a missão de Jesus um fracasso; outros, uma utopia. Dois mil anos depois, os cristãos são minoria e estão desmembrados em Igrejas e igrejinhas discordantes entre si nos pontos essenciais. É verdade que a Igreja, sobretudo a do passado, transformou a fé em instrumento de guerra, o que os fatos comprovam. Devemos admitir com humildade que todos temos culpa. Porém, a validade divina da mensagem evangélica pode ser anulada por culpa dos cristãos? A aceitação e a prática do Evangelho não são fruto de um caminho da História, não se devem a um puro desenvolvimento da civilização. O Evangelho só pode dar frutos se o homem não se iludir a si mesmo achando que é o absoluto, não reivindicando para si autonomia total. Onde a possibilidade de Deus é cancelada não há lugar para o Evangelho.

A mensagem do evangelho de hoje ainda nos ensina que o simples anúncio de uma mensagem não garante o seu sucesso. Na parábola está claramente previsto que esse anúncio muitas vezes e por diversas circunstâncias será em vão.

Por que existe tanta diversidade na correspondência à Palavra de Deus? Mateus explicita os vários modos como a Palavra é recebida. São pessoas áridas, sem abertura (como o chão batido). Talvez tenham ouvido a Palavra, mas não a entenderam. São pessoas que se alegram em escutar o Senhor, e até se comovem, mas são inconstantes. São pessoas com respeito humano, com medo de se tornarem muito cristãs. Existem pessoas tomadas pelas preocupações e pelo engano das riquezas. Possuem escolas, natação, línguas, bailes, televisão, esportes, porém não dão atenção às coisas de Deus. É difícil ser cristão numa sociedade de bem-estar. Por fim, um certo número de cristãos ouvem a Palavra e a colocam em prática, produzindo frutos.

A parábola do semeador reproduz a situação agrícola da região onde o terreno era acidentado e cheio de colinas e vales. O semeador espalhou as sementes pelos quatro cantos. Assim se explica que uma parte das sementes caiu na estrada e foi comida pelos pássaros. As sementes que caíram em terreno pedregoso também correspondem à realidade. Por causa de sua pouca profundidade a semente brotou mais rapidamente, mas, por não ter raízes profundas, o calor a secou com rapidez. O terreno onde a boa semente caiu é o coração de cada homem.

Também Deus derrama com o seu amor a semente divina em nossa vida. O fruto dependerá do estado do terreno onde a semente é lançada. Portanto, há uma responsabilidade nossa em preparar-nos para corresponder à graça de Deus.

As sementes que caíram na estrada são as almas dissipadas, vazias, completamente voltadas para o exterior, incapazes de acolher a Palavra. São almas sem nenhum cultivo, que nunca foram aradas, são corações duros. Escutam a Palavra, mas com imensa facilidade ela lhes é arrancada da alma pelo demônio, que sempre está alerta para arrebatar o dom que Deus nos concede.

Devemos esforçar-nos para não ser como os que “se assemelham ao caminho onde a semente caiu: negligentes, tíbios, desdenhosos”.

O terreno pedregoso representa aqueles que são superficiais, inconstantes, com pouca profundidade interior, incapazes de perseverar. Chegam a receber a graça com alegria, mas quando deparam com uma dificuldade retrocedem, não são capazes de empenhar-se, de cumprir os propósitos, e morrem sem dar frutos. Falta-lhes ânimo, deixam de lutar. Portanto, é necessária constância nos propósitos, espírito de sacrifício diante das dificuldades. Devemos recomeçar sempre com obstinação.

A parte das sementes que caiu entre os espinhos indica o amor às riquezas, a ânsia desordenada por influência e poder, excessiva preocupação com o bem-estar e o conforto. São pessoas obcecadas pelas coisas materiais. Têm o coração apegado ao dinheiro, às influências, ao aplauso, às comodidades, ao supérfluo. Estes, como diz Paulo, estão cometendo uma espécie de idolatria (Colossenses 3,5). Para eles, é difícil viver a mortificação. São instigados pela sensualidade à fuga dos bens sobrenaturais, pois seus corações estão voltados para seus tesouros (Lucas 12,34).

Deus quer que sejamos terreno que acolhe a sua graça e dê frutos. Não podemos ser uma estrada, uma pedreira nem um cardo, mas terra boa. Que o nosso coração não seja uma estrada onde o inimigo arrebata a graça de Deus em nós, nem uma pedreira com pouca terra que faça germinar imediatamente o que o sol queimará, nem carrascal de paixões humanas... (São João Crisóstomo).

Todo homem, mesmo com um passado nefasto, pode converter-se em terreno bom para acolher a graça de Deus.

Deus nos dá a sua graça porque confia em nós, pois qualquer alma pode transformar-se em um vergel ainda que tenha sido deserto, pois a graça de Deus não nos falta.

Já que contamos com a graça, os frutos só dependem do homem, que é livre de corresponder ou não. Sendo a terra boa, as sementes boas e o mesmo semeador, por que uma produziu cem, outra sessenta e outra trinta? A diferença depende também de quem recebe, porque mesmo onde a terra é boa há diferenças entre uma parcela e outra. Portanto, a culpa não é do lavrador, nem da semente, mas da terra.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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