Colossos
era uma cidade da Frígia, na Ásia Menor, distante
aproximadamente 200 km de Éfeso e próxima de
Hierápolis e Laodicéia (Colossenses
4,13.16). Paulo não visitou esta comunidade
pessoalmente (Colossenses 2,1). Ela foi fundada
por Épafras, discípulo de Paulo (Colossenses
1,7; 4,13), enquanto este se encontrava em Éfeso.
Os
cristãos de Colossos eram provenientes do paganismo
e costumavam reunir-se em casas de família, como a
de Ninfas (Colossenses 4-15) e de Arquétipo
(Colossenses 4,17; Filêmon 2).
Esta
carta foi escrita na prisão, provavelmente em Éfeso,
entre os anos 55 e 57 (Atos dos Apóstolos 19).
Épafras
havia informado Paulo sobre a situação dos cristãos
em Colossos (1,8). Estes estavam ameaçados
por uma heresia que misturava elementos pagãos, judaicos
e cristãos. Seus seguidores davam muita importância
aos poderes angélicos, às forças cósmicas
e a outros seres intermediários entre Deus e o homem
que teriam papel importante no destino de cada pessoa.
Essas
idéias traziam como conseqüência a busca
do conhecimento de um mundo fascinante e misterioso que domina
os homens e, ao lado disso, depositavam confiança numa
série de observâncias religiosas que garantem
a benevolência desses poderes superiores, observâncias
como festas anuais, mensais e sábados; leis alimentares
(2,16-21) e ascéticas (2,23)
como o culto aos anjos (2,18) e às
forças cósmicas (2,8). Tudo
isto comprometia seriamente a pureza da fé cristã.
Nosso
texto é um hino cristológico tirado provavelmente
da liturgia batismal. Com ele Paulo quer mostrar que Cristo
é a plenitude do humano e do divino e os cristãos
só podem encontrar Deus na pessoa de Jesus. Portanto,
não precisam servir-se de seres angélicos para
obter a salvação, pois o sangue de Cristo derramado
na cruz trouxe paz, reconciliando-nos com Deus (v.20).
Depois
da profissão de fé (vv.13-14)
para celebrar o primado de Cristo, o sujeito do hino é
o Filho dileto do Pai. Somente Cristo enquanto Filho é
a imagem perfeita de Deus invisível. Esta concepção
é greco-helenística. Segundo ela, a imagem é
irradiação, participação real
do arquétipo de sua própria natureza, portanto
Cristo é a perfeita manifestação consubstancial
de Deus, a imagem mais perfeita de Deus. Ele é o ícone
do Pai (“eiron”
= imagem). É o rosto histórico de Deus,
aquele que o manifesta de modo exclusivo e definitivo, é
a irradiação da glória do Pai e o sinal
de sua substância (Hebreus 1-3), porque
nele se vê o Pai (João 1,18; 14,9).
Nesta
primeira parte do hino (1,15-17) Jesus é
descrito em seu primado na criação, e apresentado
em sua preexistência eterna como Criador, imagem de
Deus invisível, que manifestou o esplendor da imagem
divina que o pecado havia ofuscado e restituiu ao homem o
direito à glória perdida com o pecado. Esta
glória Cristo a possui como primogênito da criação,
com o primado de excelência de causa e de tempo.
Cristo
é o primogênito (“pròtokos”),
gerado antes de toda criatura que participou do gesto criativo
de Deus.
A
segunda parte do hino (1,18-20) ressalta
o primado da redenção. Seu primado na redenção
resulta do fato de ser chefe da Igreja, que é o seu
corpo. Cristo é o chefe em sua prioridade no tempo,
pois ele é o primeiro dos ressuscitados e nele habita
toda a plenitude da divindade (Colossenses 2,9).
Cristo é a origem e a causa (“arché”)
da nova humanidade a caminho e, por residir nele toda a divindade,
ele tem também toda autoridade. A contemplação
de Cristo é cósmica. O universo inteiro se revestiu
de sua presença salvadora e criadora. A encarnação
e a ressurreição de Cristo colocam sua natureza
humana à frente não só da Igreja e da
família humana, mas também de todo o universo
criado. |
A
parábola do bom samaritano é própria
de Lucas e é colocada no contexto da viagem de Jesus
a Jerusalém. Tem sua origem no “Sermão
da Planície”: “Sejam
misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso”
(6,36). Neste contexto, Jesus se preocupa
com seus discípulos instruindo-os.
O
nosso texto se articula em dois momentos:
01)
contém a enunciação
do grande mandamento;
02) tem
a sua exemplificação prática na parábola
do bom samaritano.
Para
Lucas, o especialista em leis não tem boas intenções
em relação a Jesus e por isso lhe propõe
uma questão a fim de pô-lo à prova ou
em apuros (v.25). O doutor da lei está
apegado a um código de leis que não traduz vida.
Não se interessa pela prática da misericórdia,
embora tenha chegado a uma síntese do significado do
ser humano: “Amarás
ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, com
toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda
a tua inteligência” (Deuteronômio
6,5) e amarás “o
teu próximo como a ti mesmo”.
Ele conseguiu associar em dois pólos a religião
e a ética, mas não é capaz de sair de
si mesmo, porque lhe falta o mais importante: a misericórdia.
Ele está interessado em saber quem é o seu próximo
(v.29). Na mentalidade de então, próximo
era aquele que pertencia à mesma família ou
à mesma nação e no máximo um estrangeiro
inserido na comunidade.
Jesus
aprovou a resposta do doutor da lei, mas, em vez de lhe dar
uma definição de quem é o “próximo”,
mostrou-lhe que o seu próximo é o outro, e para
isso contou-lhe uma parábola, apresentando um caso
típico de prática da misericórdia. Um
judeu caiu nas mãos dos assaltantes e ficou quase morto.
Ele descia de Jerusalém para Jericó, numa estrada
propícia a emboscadas, pois era deserta aproximadamente
30 km.
O
primeiro a passar por ali foi um sacerdote ainda preocupado
com o culto e com o Templo e temendo o risco de tornar-se
impuro se tivesse contato com um cadáver. Para ele
Deus estava trancado no Templo e só lá era encontrado.
O segundo era um levita, que como o sacerdote estava apegado
ao código das leis. Como o sacerdote, ele tinha pressa
e passou adiante (v.32). O terceiro era um
samaritano, que não estava apegado ao código
da lei. Era um membro da comunidade cismática, desprezada
pelos judeus. Este teve compaixão (“splagchnizomai”).
Compadecer-se
é um gesto eminentemente divino que traduz solidariedade
com os marginalizados. O samaritano não quis saber
a identidade do seu próximo, mas solidarizou-se com
ele.
O
sacerdote e o levita eram personagens muito respeitados e
dedicados ao serviço do Templo. O samaritano, ao contrário,
era tido como estrangeiro, desprezado pelo seu culto pouco
heterodoxo (João 4,20). Ele teve a
mesma atitude que Jesus tinha para com os doentes e pecadores.
A
parábola apresenta três tentativas de viver a
religião (v.36). O doutor da lei pensa
filtrar a religião através do código
de lei. O levita e o sacerdote pensam encontrar Deus e manifestar
sua fé dentro do recinto do Templo. O samaritano, ao
contrário, vê em seu inimigo o seu próximo
mais próximo e se solidariza com ele e ali encontra
a verdadeira religião. |
| A
primeira leitura nos convida a observar os mandamentos não
só exteriormente, mas com espírito de conversão.
Não se trata portanto de algo impessoal, porque Deus
colocou a lei no fundo do coração do homem.
Esta lei é o seu plano de amor.
Jesus
apresenta o samaritano como um homem movido pela piedade,
que é o ato de amor pelo próximo. O samaritano
é um homem que incomoda, pois age imediatamente sem
perguntar porque os outros não fizeram sem julgá-los
ou criticá-los. É um homem misericordioso que
reparte, pagando as despesas do assaltado com dinheiro do
seu próprio bolso.
O
homem assaltado representa hoje os irmãos derrubados
violentamente, assaltados em sua dignidade de pessoas e que
precisam de compaixão. Os padres da Igreja também
viram na figura do samaritano o símbolo de Jesus que
cruzou nossa estrada, nos encontrou no caminho feridos pelo
pecado e se inclinou sobre nós para nos salvar.
O
sacerdote e o levita vêem o homem assaltado (no
tempo de Jesus, os assaltantes mais comuns eram os zelotas,
que lutavam para libertar a Palestina das mãos dos
romanos e procuravam os meios de subsistência com os
assaltos, escondidos nas cavidades rochosas da Palestina)
e passam à frente. Tiveram apenas um gesto de comiseração.
Não fizeram nada que podiam fazer para ajudá-lo.
Talvez este seja um gesto comum em nossa sociedade. Enquanto
o samaritano, considerado pecador e desprezado, é o
único que pára, não calcula as dificuldades
de tempo, dinheiro, posições... Hoje talvez
tenhamos “construído
muitos muros e poucas pontes entre os homens”
(Newton). Por isso devemos fazer Deus viver
em nós em cada pequeno gesto, em cada dedicação,
em cada sacrifício. Assim poderíamos aceitar
a definição de Gioberti: “O
homem é um Deus que começa”.
“O
homem não pode viver sem amor, pois sem ele fica por
si mesmo incompreensível, sua vida fica sem sentido
se o amor não lhe é revelado, se não
se encontra com o amor, se não o experimenta e não
o torna seu” (João Paulo
II).
“O
samaritano é todo homem que pára diante do sofrimento
de outro homem, qualquer que ele seja, e este parar não
significa curiosidade, mas disponibilidade”.
Henri
Durant, belga de nascimento, recebeu em 1901 o Prêmio
Nobel da Paz e dedicou toda a sua vida para ajudar os feridos
de guerra, criando a Conferência de Genebra para garantir
a assistência à saúde nos campos de batalha
e nas grandes calamidades naturais humanas, assim como a proteção
nos campos de prisão, de concentração
e de tortura. Ele morreu pobre, não aceitando um centavo
do seu Prêmio Nobel e doando-o todo à Cruz Vermelha.
O
tema do amor ao próximo é introduzido pelas
duas perguntas do doutor da lei a Jesus sobre como fazer para
ganhar a vida eterna e sobre quem é o seu próximo.
A resposta do doutor da lei recebeu a aprovação
de Jesus, embora as escolas rabínicas discordassem
em alguns pontos. Na verdade, todos concordavam que o próximo
era o compatriota judeu, incluindo os prosélitos. Porém,
os fariseus excluíam os não fariseus, os essênios
de Qumran e o povo em geral negavam a categoria de próximo
a qualquer inimigo pessoal.
Na
parábola, os dois primeiros viajantes, o sacerdote
e o levita, desciam (Lucas emprega o verbo descer
porque a distância de Jerusalém a Jericó
não passava de 30 km, havendo um desnível bem
acentuado, pois Jerusalém fica a 760 metros acima do
nível do mar e Jericó 250 metros) e,
ao encontrar o assaltado, evitaram-no talvez porque o julgassem
morto e assim quiseram livrar-se da impureza legal que se
contraía ao tocar o cadáver. Diante da atitude
anti-solidária dos dois e da misericórdia do
samaritano, Jesus, ao concluir a parábola, devolveu
a pergunta ao interlocutor: “Qual
destes três lhe parece que se portou como próximo
daquele que caiu nas mãos dos bandidos?”.
O
doutor da lei respondeu-lhe que foi aquele que praticou a
misericórdia para com ele e Jesus então concluiu:
“Vá e faça
você também o mesmo”.
O
ensinamento de Jesus quer nos dizer que somos nós que
devemos fazer o bem ao próximo sem distinção
alguma. O doutor da lei via mais quem era o objeto do seu
amor (a quem devo amar). Jesus, ao invés,
pergunta pelo sujeito do amor (quem agiu como companheiro?).
O doutor da lei pensa a partir de si perguntando onde estava
o limite do seu dever. Jesus, ao contrário, pensa a
partir daquele que sofre necessidade, que espera ajuda.
Jesus
diz ao doutor da lei: “Faça
isso e viverá”. Amar, portanto,
é ter vida, pois “quem
não ama permanece na morte” (1
João 3,17). Só quem ama é capaz
de sair de si para ir ao encontro do necessitado, é
capaz de ser hospitaleiro e acolhedor com todos. Portanto,
é impossível um cristão verdadeiro sem
amor ao irmão, porque amar o irmão é
uma característica própria do cristão.
É a prática eficaz do amor a Deus e ao irmão,
sem restrições, que define o cristianismo: “Nisto
todos conhecerão que vocês são meus discípulos,
se amarem uns aos outros” (João
13,34s). Por isso Jesus, no juízo final, vai
nos identificar pelo nosso amor: “Venham,
benditos de meu Pai... O que vocês fizeram a um destes
pequeninos, a mim fizeram” (Mateus
25,40).
“A
religião pura e sem mancha aos olhos de Deus é
esta: visitar os órfãos e as viúvas em
suas tribulações, e não manchar as mãos
com este mundo” (Tiago 1,27).
“Se alguém, possuindo
os bens deste mundo, vê seu irmão em necessidade
e lhe fecha o coração, como o amor de Deus permaneceria
nele?“ (1 João 3,17)
“Se alguém diz
‘Amo a Deus’ mas odeia seu irmão, é
um mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a
quem vê, não pode amar a Deus, a quem não
vê” (1 João 4,20).
O
amor cria vida para quem ama e para quem é amado. Quem
ama verdadeiramente não busca desculpas, mas vai direto
ao necessitado que cruza em sua vida. Não se preocupa
com seu status, raça, língua, cor, religião
ou ideologia.
O
preceito do amor ao próximo já existia na Lei
judaica, que até o especifica com detalhes: “Quando
você ceifar as messes do seu campo, não corte
até o chão o que nasceu na superfície
da terra, nem apanhe as espigas deixadas. E na sua vinha não
colha os bagos que caem, mas deixe que os apanhem os pobres
e forasteiros” (Levítico
19,9-10). “Ame
o próximo como a si mesmo” (Levítico
19,18). Estas prescrições já
eram uma antecipação longínqua do mandamento
de Jesus. Porém, no Antigo Testamento havia uma incerteza
quanto ao termo “próximo”, pois alguns
admitiam que ele se referia aos do próprio clã,
outros aos amigos. Por isso o doutor pergunta a Jesus: “Quem
é o meu próximo?“. Com
quem devo ter misericórdia? Jesus, ao contar a parábola
do bom samaritano, explica-lhe que o próximo é
qualquer pessoa, alguém que necessita de ajuda. Não
existe especificação de raça, nacionalidade
ou parentesco, nem de familiaridade, cultura ou condição
social. Ele é o “homo
quidam”, um homem qualquer.
Encontramos
constantemente este “homo
quidam” nos caminhos de nossa vida.
São pessoas despojadas de tudo, pessoas cobertas pela
dor, pela falta de compreensão e de carinho, ou de
meios materiais, sofridas pelas humilhações
que atentam contra a dignidade humana, despojadas de seus
direitos mais fundamentais. Diante destes o cristão
não pode passar ao largo, como fizeram os personagens
da parábola.
A
atitude do sacerdote e do levita foi de omissão. Eles
não causaram nenhum novo dano ao homem ferido e abandonado,
pois tinham suas preocupações e não queriam
complicações. Deram mais importância a
seus assuntos que ao homem necessitado.
O
samaritano percebeu a desgraça do homem assaltado e
se moveu de compaixão. Não foi uma compaixão
teórica, ineficaz. Ao contrário, recorreu aos
meios necessários para prestar uma ajuda concreta e
prática. Fez o que era preciso fazer naquele momento.
Antes de mais nada, “aproximou-se”.
Esta é a atitude que devemos começar por fazer
perante quem tem necessidade. Aproximar-nos, não observar
as necessidades alheias de longe, como se não nos dissessem
respeito. Depois devemos dar as atenções que
a situação requer. O bom samaritano cuidou dele.
Quase nunca serão gestos heróicos e difíceis,
mas quase sempre serão coisas simples, pequenas, pois
a caridade não deve ser procurada unicamente nos acontecimentos
importantes, mas, sobretudo no dia-a-dia, em ter uma palavra
de estímulo e bem humorada ao colega, em dizer afavelmente
onde fica a rua ou que horas são, em escutar sem mostrar
pressa um colega que interrompe nosso trabalho...
Para
o bom samaritano, naquele momento seus afazeres e suas urgências
passaram a segundo plano. É isto que o Senhor nos pede,
e não só em relação a nossas ocupações
e ao nosso tempo ou gostos. Por isso Jesus disse ao doutor
da lei: “Vá e faça
você o mesmo” (Lucas 10,37).
Seja o próximo ativo e compassivo de todo aquele que
precisar de você. |