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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XIII Domingo
27 de Junho de 2010

Primeira Leitura
1 Reis
9,16b.19-21
VOCAÇÃO DO PROFETA ELIAS

O primeiro livro dos Reis dedica boa parte do seu conteúdo ao “ciclo de Elias”, personagem que marcou profundamente a vida religiosa de Israel e exerceu uma influência particular no Novo Testamento. Nosso texto constitui a conclusão deste “ciclo”. Elias unge o profeta Eliseu, escolhido por Deus para continuar a obra da pregação. Elias, segundo o costume, “colocou o manto nas costas de Eliseu”, para exprimir com isso a passagem do poder e da autoridade de sua pessoa ao seu sucessor.

É um texto que a tradição bíblica coloca entre os “episódios do chamamento” e que serve para iluminar episódios semelhantes, presentes no Novo Testamento. Assim se explica a aproximação deste texto com o Evangelho de hoje.

Segunda Leitura
Gálatas
5,1.13-18
NÃO ABUSAR DA LIBERDADE;
VIVER A VIDA ESPIRITUAL

Carne”, na linguagem paulina, indica a condição do homem distante de Cristo e fora do âmbito da salvação trazida por ele. É o termo que descreve o mundo do pecado, da não salvação, o mundo antes da ressurreição e sem a luz do Evangelho.

Espírito”, na linguagem paulina, é o termo que indica o âmbito de Deus, o âmbito da graça e da salvação no qual a ressurreição de Jesus colocou o crente. O cristão deve empenhar-se cada dia em corresponder a esse dom e a esse âmbito da graça.

Evangelho
Lucas
9,51-62
JESUS REPELIDO PELOS SAMARITANOS;
DEIXAR TUDO PARA SEGUIR JESUS

Este trecho é chamado pelos exegetas de “grande excerto lucano” (Lucas 9,51; 59,28). Lucas o coloca na moldura de uma longa viagem de Jesus feita da Galileia a Jerusalém, onde morrerá. No decorrer desta viagem Lucas coloca todo o material sobre Jesus que Mateus e Marcos colocam num contexto diferente.

Como a salvação do povo de Israel se deu no êxodo do Egito e culminou com a Páscoa e o ingresso na terra prometida, assim a salvação definitiva da humanidade é vista por Lucas na Páscoa da morte e ressurreição de Jesus que se dá em Jerusalém, meta de sua viagem.

Jerusalém, cidade santa do hebraísmo, é vista por Lucas não tanto como cidade geográfica, mas como lugar da salvação e da intervenção de Deus a favor da humanidade. Jesus deve subir a Jerusalém e ali deve morrer, não porque sobre ele pese um destino cruel, mas porque, como o verbo “dever” significa teologicamente em Lucas, nele se realiza o projeto da salvação que Deus pensou para o homem e que o êxodo e a Jerusalém bíblica prefiguram. Assim, podemos entender alguns termos que Lucas coloca no texto, como por exemplo, “Enquanto se cumpriam os dias em que Jesus seria tirado do mundo”. Aqui, para Lucas, o verbo “cumprir” (“plerèo”) exprime “scandire”, as etapas principais da salvação, onde Jesus realiza o projeto do Pai. “Ele se dirigiu decididamente para Jerusalém”. No texto grego se lê que Jesus “To pròsopon estèrisen”, ou seja, “tornou duro o seu rosto”, o que indica a atitude decidida de Jesus de querer realizar a vontade do Pai e de empenhar-se no caminho que lhe fora traçado.

REFLEXÃO

As leituras de hoje desenvolvem o tema da “sequela Christi” e nos conclamam a refletir sobre nossa identidade de cristãos e de discípulos de Jesus.

O texto da primeira leitura relata a vocação de Eliseu. Ele recebeu este convite divino em meio às ocupações do dia-a-dia. Encontrava-se arando a terra com doze pares de bois. A graça extraordinária surpreendeu este homem na banalidade da vida de todos os dias. A mesma coisa aconteceu com quase todos os eleitos do Antigo Testamento, assim como com os apóstolos e com cada um de nós.

Elias realizou um gesto simples, jogando o manto nas costas de Eliseu. O manto era a vestimenta característica do profeta e este gesto era altamente significativo. Eliseu entendeu e deixou tudo. Foi um gesto de renúncia e ruptura com o passado. Ofereceu um sacrifício de comunhão com os de sua casa, imolando os bois do trabalho e cozinhando a carne com a madeira do arado. Depois partiu, seguindo Elias.

Nesta vocação temos os aspectos característicos de todo chamado: é Deus quem toma a iniciativa. O discípulo não escolhe, mas é escolhido, e por isso é livre para se desvincular de tudo. O chamado de Deus não é uma imposição, mas um convite e uma resposta na liberdade. Exige desapego das coisas e dos compromissos humanos e disponibilidade incondicional. Exige coragem em direção a um futuro que é missão.

O cristão é aquele que escolhe seguir Cristo. Também aí há um chamado e o que há de original e característico nele Lucas relata em seu evangelho. O caminho para Jerusalém é a estrada que conduz ao Calvário e mostra o destino para aqueles que enveredam por ele. A subida para Jerusalém feita por Jesus e pelo primeiro grupo de discípulos é a estrada que devem subir os discípulos de todos os tempos. Ao longo deste caminho são colocados três encontros significativos, que fazem refletir aqueles que querem segui-lo.

O primeiro candidato diz: “Eu o seguirei para onde quer que vá!”. São palavras generosas e cheias de entusiasmo. Ele está disposto a seguir Jesus incondicionalmente. Todavia, Jesus o adverte para tomar consciência da dimensão de sua decisão, pois não se pode segui-lo sem perigo e risco, e por isso lhe diz: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus seus ninhos, mas o Filho do homem não tem uma pedra para reclinar a cabeça”. Assim é o discípulo de Cristo: um erradicado do mundo que não tem nada para se apegar e como segurança. Por quê? A razão está na amplidão do coração do homem, cujo espaço só pode ser preenchido por Deus. Com o pecado o homem destronou Deus para preencher seu coração com as coisas do mundo. O homem pecador é um idólatra, sempre tentado a esta aberração. Este é o erro e a impiedade com os quais é sempre sugestionado e só pode sair vencedor disso com o desapego, para instaurar em sua existência o primado de Deus e dos valores absolutos. Quem decide seguir Cristo se faz um “peregrino do Absoluto através do deserto da alma”, como disse Leon Blouy. Por isso não pode encontrar estabilidade no mundo, pois é tomado por uma inquietação divina que agita sua alma por esta aventura.

O segundo candidato recebe de Jesus um convite: “Siga-me!”. Este não renega o convite, apenas pede para que o deixe antes cumprir algumas obrigações: “Deixe-me antes ir sepultar o meu pai!”. E Jesus responde-lhe: ”Deixe que os mortos sepultem os seus mortos. E você vá e anuncie o Reino de Deus!”. Por quê? Porque a vocação cristã é totalizante no sentido de que não se deixa condicionar por nada. Devemos eliminar tudo o que retarda, confunde ou atenua o nosso itinerário. O caminho para seguir Jesus é árduo e exigente. É necessário decisão e coragem.

Ao terceiro candidato Jesus dá uma resposta altamente emblemática: ”Aquele que põe a mão no arado e depois olha para trás não é digno do reino de Deus”. A “sequela Christi” exige, portanto, uma concentração máxima. O seguimento de Cristo é renúncia a tudo para o serviço da caridade, pois a doação de si se concretiza no amor, no desapego total, como fez Paulo, que escolheu Jesus com uma adesão absoluta e incondicional.

Portanto, a vocação cristã se caracteriza por sua radicalidade e tal seguimento não se concretiza num moralismo coativo, estéril e triste, mas na liberdade.

No Evangelho de hoje, Lucas relata a missão de Jesus na Galiléia e abre o caminho para Jerusalém com temas preferenciais sobre a atividade missionária de Jesus e sua instrução aos discípulos. Fala-lhes da urgência do desprendimento e da ruptura com tudo, inclusive com os laços familiares, porque o seguimento não admite demora, abatimento nem descontos. Jesus é mais exigente do que Elias em relação a Eliseu. Eliseu se despede dos seus, oferece uma refeição à sua gente e depois segue Elias.

Jesus impõe condições para segui-lo. Não se pode olhar para trás depois de ter posto a mão no arado. O novo trabalho daquele que é chamado é como o do arado palestino, que é difícil de manobrar, sobretudo, na terra dura das margens do lago de Genesaré. Assim, quando somos chamados, precisamos “ter sempre os olhos fixos em Jesus” (Hebreus 12,2), como o corredor que ao iniciar a corrida não pode distrair-se em nada. A única coisa que lhe interessa é a meta, ou como o agricultor que fixa um ponto de referência e depois dirige o seu arado para esse ponto. Se olhar para trás, o sulco sai torto.

Muitas vezes, a tentação de olhar para trás pode vir das limitações pessoais, ou do ambiente que se choca frontalmente com os compromissos assumidos, ou da conduta da pessoa que devia ser exemplar e não é, ou da falta de esperança, devido aos resultados medíocres apesar dos esforços. Assim, depois do entusiasmo inicial começam as vacilações e os titubeios. Diante disto Jesus admoesta: “Não olhe para trás”.

Olhar para trás, diz Santo Atanásio, significa sentir saudades e voltar a experimentar o gosto das coisas do mundo”. É a tibieza que se introduz no coração, é não ter o coração transbordante de Deus e das coisas nobres da vocação. Olhar com tristeza para trás, para aquilo que se deixou para aquilo que se poderia ter muitas vezes pode significar quebrar a relha do arado numa pedra ou, pelo menos, porque a missão que recebemos saiu torta, como o sulco.

O homem se realiza ou se perde conforme cumpre ou não em sua vida o desígnio concreto que Deus tem a seu respeito”. Nós recebemos uma vocação para conhecer a Deus, um convite para entrar na intimidade divina, para cultivar um relacionamento pessoal com ele. Depende de nós. Um chamado para colocar Cristo como centro de nossa existência, para tomar decisões tendo sempre em conta a sua vontade, para reconhecer os homens como nossos irmãos, e, portanto, para superar de maneira radical o egoísmo a fim de viver a fraternidade e desenvolver uma ação apostólica fecunda. É um chamado para entendermos que tudo isso se deve realizar em nossa própria vida, nas circunstâncias em que Deus nos colocou e de acordo com a missão que nos cabe realizar pessoalmente. A fidelidade a essa vocação exige em conseqüência uma fidelidade às pequenas coisas do dia-a-dia, e repelir com firmeza tudo que nos impede de encontrar o olhar de Cristo.

A fidelidade se apóia numa série de virtudes essenciais, sem as quais se torna difícil seguir o Mestre. Por isso precisamos ter humildade, reconhecer que temos pés de barro, como a estátua colossal descrita por Daniel (Daniel 2,33). Ter prudência e sinceridade, que são conseqüências da humildade. Ter caridade e fraternidade, que nos impedem de fechar-nos em nós mesmos. Ter espírito de sacrifício, que nos conduz à temperança, à sobriedade, à luta contra o comodismo e o aburguesamento. E, sobretudo, ter espírito de oração, pois, como diz Santa Teresa, “abandonar a oração não me parece outra coisa senão perder o caminho”!

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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