Este
trecho é chamado pelos exegetas de “grande
excerto lucano” (Lucas 9,51;
59,28). Lucas o coloca na moldura de uma longa viagem
de Jesus feita da Galileia a Jerusalém, onde morrerá.
No decorrer desta viagem Lucas coloca todo o material sobre
Jesus que Mateus e Marcos colocam num contexto diferente.
Como
a salvação do povo de Israel se deu no êxodo
do Egito e culminou com a Páscoa e o ingresso na terra
prometida, assim a salvação definitiva da humanidade
é vista por Lucas na Páscoa da morte e ressurreição
de Jesus que se dá em Jerusalém, meta de sua
viagem.
Jerusalém,
cidade santa do hebraísmo, é vista por Lucas
não tanto como cidade geográfica, mas como lugar
da salvação e da intervenção de
Deus a favor da humanidade. Jesus deve subir a Jerusalém
e ali deve morrer, não porque sobre ele pese um destino
cruel, mas porque, como o verbo “dever”
significa teologicamente em Lucas, nele se realiza o projeto
da salvação que Deus pensou para o homem e que
o êxodo e a Jerusalém bíblica prefiguram.
Assim, podemos entender alguns termos que Lucas coloca no
texto, como por exemplo, “Enquanto
se cumpriam os dias em que Jesus seria tirado do mundo”.
Aqui, para Lucas, o verbo “cumprir”
(“plerèo”) exprime
“scandire”, as etapas principais da salvação,
onde Jesus realiza o projeto do Pai. “Ele
se dirigiu decididamente para Jerusalém”.
No texto grego se lê que Jesus “To
pròsopon estèrisen”,
ou seja, “tornou duro
o seu rosto”, o que indica a atitude
decidida de Jesus de querer realizar a vontade do Pai e de
empenhar-se no caminho que lhe fora traçado. |
| As
leituras de hoje desenvolvem o tema da “sequela
Christi” e nos conclamam a refletir
sobre nossa identidade de cristãos e de discípulos
de Jesus.
O
texto da primeira leitura relata a vocação de
Eliseu. Ele recebeu este convite divino em meio às
ocupações do dia-a-dia. Encontrava-se arando
a terra com doze pares de bois. A graça extraordinária
surpreendeu este homem na banalidade da vida de todos os dias.
A mesma coisa aconteceu com quase todos os eleitos do Antigo
Testamento, assim como com os apóstolos e com cada
um de nós.
Elias
realizou um gesto simples, jogando o manto nas costas de Eliseu.
O manto era a vestimenta característica do profeta
e este gesto era altamente significativo. Eliseu entendeu
e deixou tudo. Foi um gesto de renúncia e ruptura com
o passado. Ofereceu um sacrifício de comunhão
com os de sua casa, imolando os bois do trabalho e cozinhando
a carne com a madeira do arado. Depois partiu, seguindo Elias.
Nesta
vocação temos os aspectos característicos
de todo chamado: é Deus quem toma a iniciativa. O discípulo
não escolhe, mas é escolhido, e por isso é
livre para se desvincular de tudo. O chamado de Deus não
é uma imposição, mas um convite e uma
resposta na liberdade. Exige desapego das coisas e dos compromissos
humanos e disponibilidade incondicional. Exige coragem em
direção a um futuro que é missão.
O
cristão é aquele que escolhe seguir Cristo.
Também aí há um chamado e o que há
de original e característico nele Lucas relata em seu
evangelho. O caminho para Jerusalém é a estrada
que conduz ao Calvário e mostra o destino para aqueles
que enveredam por ele. A subida para Jerusalém feita
por Jesus e pelo primeiro grupo de discípulos é
a estrada que devem subir os discípulos de todos os
tempos. Ao longo deste caminho são colocados três
encontros significativos, que fazem refletir aqueles que querem
segui-lo.
O
primeiro candidato diz: “Eu
o seguirei para onde quer que vá!”.
São palavras generosas e cheias de entusiasmo. Ele
está disposto a seguir Jesus incondicionalmente. Todavia,
Jesus o adverte para tomar consciência da dimensão
de sua decisão, pois não se pode segui-lo sem
perigo e risco, e por isso lhe diz: “As
raposas têm suas tocas e as aves dos céus seus
ninhos, mas o Filho do homem não tem uma pedra para
reclinar a cabeça”. Assim é
o discípulo de Cristo: um erradicado do mundo que não
tem nada para se apegar e como segurança. Por quê?
A razão está na amplidão do coração
do homem, cujo espaço só pode ser preenchido
por Deus. Com o pecado o homem destronou Deus para preencher
seu coração com as coisas do mundo. O homem
pecador é um idólatra, sempre tentado a esta
aberração. Este é o erro e a impiedade
com os quais é sempre sugestionado e só pode
sair vencedor disso com o desapego, para instaurar em sua
existência o primado de Deus e dos valores absolutos.
Quem decide seguir Cristo se faz um “peregrino
do Absoluto através do deserto da alma”,
como disse Leon Blouy. Por isso não pode encontrar
estabilidade no mundo, pois é tomado por uma inquietação
divina que agita sua alma por esta aventura.
O
segundo candidato recebe de Jesus um convite: “Siga-me!”.
Este não renega o convite, apenas pede para que o deixe
antes cumprir algumas obrigações: “Deixe-me
antes ir sepultar o meu pai!”. E Jesus
responde-lhe: ”Deixe que
os mortos sepultem os seus mortos. E você vá
e anuncie o Reino de Deus!”. Por quê?
Porque a vocação cristã é totalizante
no sentido de que não se deixa condicionar por nada.
Devemos eliminar tudo o que retarda, confunde ou atenua o
nosso itinerário. O caminho para seguir Jesus é
árduo e exigente. É necessário decisão
e coragem.
Ao
terceiro candidato Jesus dá uma resposta altamente
emblemática: ”Aquele
que põe a mão no arado e depois olha para trás
não é digno do reino de Deus”.
A “sequela Christi”
exige, portanto, uma concentração máxima.
O seguimento de Cristo é renúncia a tudo para
o serviço da caridade, pois a doação
de si se concretiza no amor, no desapego total, como fez Paulo,
que escolheu Jesus com uma adesão absoluta e incondicional.
Portanto,
a vocação cristã se caracteriza por sua
radicalidade e tal seguimento não se concretiza num
moralismo coativo, estéril e triste, mas na liberdade.
No
Evangelho de hoje, Lucas relata a missão de Jesus na
Galiléia e abre o caminho para Jerusalém com
temas preferenciais sobre a atividade missionária de
Jesus e sua instrução aos discípulos.
Fala-lhes da urgência do desprendimento e da ruptura
com tudo, inclusive com os laços familiares, porque
o seguimento não admite demora, abatimento nem descontos.
Jesus é mais exigente do que Elias em relação
a Eliseu. Eliseu se despede dos seus, oferece uma refeição
à sua gente e depois segue Elias.
Jesus
impõe condições para segui-lo. Não
se pode olhar para trás depois de ter posto a mão
no arado. O novo trabalho daquele que é chamado é
como o do arado palestino, que é difícil de
manobrar, sobretudo, na terra dura das margens do lago de
Genesaré. Assim, quando somos chamados, precisamos
“ter sempre os olhos fixos
em Jesus” (Hebreus 12,2),
como o corredor que ao iniciar a corrida não pode distrair-se
em nada. A única coisa que lhe interessa é a
meta, ou como o agricultor que fixa um ponto de referência
e depois dirige o seu arado para esse ponto. Se olhar para
trás, o sulco sai torto.
Muitas
vezes, a tentação de olhar para trás
pode vir das limitações pessoais, ou do ambiente
que se choca frontalmente com os compromissos assumidos, ou
da conduta da pessoa que devia ser exemplar e não é,
ou da falta de esperança, devido aos resultados medíocres
apesar dos esforços. Assim, depois do entusiasmo inicial
começam as vacilações e os titubeios.
Diante disto Jesus admoesta: “Não
olhe para trás”.
“Olhar
para trás, diz Santo Atanásio, significa sentir
saudades e voltar a experimentar o gosto das coisas do mundo”.
É a tibieza que se introduz no coração,
é não ter o coração transbordante
de Deus e das coisas nobres da vocação. Olhar
com tristeza para trás, para aquilo que se deixou para
aquilo que se poderia ter muitas vezes pode significar quebrar
a relha do arado numa pedra ou, pelo menos, porque a missão
que recebemos saiu torta, como o sulco.
“O
homem se realiza ou se perde conforme cumpre ou não
em sua vida o desígnio concreto que Deus tem a seu
respeito”. Nós recebemos uma
vocação para conhecer a Deus, um convite para
entrar na intimidade divina, para cultivar um relacionamento
pessoal com ele. Depende de nós. Um chamado para colocar
Cristo como centro de nossa existência, para tomar decisões
tendo sempre em conta a sua vontade, para reconhecer os homens
como nossos irmãos, e, portanto, para superar de maneira
radical o egoísmo a fim de viver a fraternidade e desenvolver
uma ação apostólica fecunda. É
um chamado para entendermos que tudo isso se deve realizar
em nossa própria vida, nas circunstâncias em
que Deus nos colocou e de acordo com a missão que nos
cabe realizar pessoalmente. A fidelidade a essa vocação
exige em conseqüência uma fidelidade às
pequenas coisas do dia-a-dia, e repelir com firmeza tudo que
nos impede de encontrar o olhar de Cristo.
A
fidelidade se apóia numa série de virtudes essenciais,
sem as quais se torna difícil seguir o Mestre. Por
isso precisamos ter humildade, reconhecer que temos pés
de barro, como a estátua colossal descrita por Daniel
(Daniel 2,33). Ter prudência e sinceridade,
que são conseqüências da humildade. Ter
caridade e fraternidade, que nos impedem de fechar-nos em
nós mesmos. Ter espírito de sacrifício,
que nos conduz à temperança, à sobriedade,
à luta contra o comodismo e o aburguesamento. E, sobretudo,
ter espírito de oração, pois, como diz
Santa Teresa, “abandonar
a oração não me parece outra coisa senão
perder o caminho”! |