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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XII Domingo
20 de Junho de 2010

Primeira Leitura
Zacarias
12,10-11
LAMENTAÇÃO SOBRE AQUELE QUE TRANSPASSARAM!

Este trecho é do chamado Dêutero-Zacarias. Os exegetas colocam os capítulos 9 a 14 de Zacarias no contexto dos acontecimentos bíblicos na época grega de Alexandre Magno (333-323 a.C.) e seus sucessores (300-250 a.C.), pois esta é a época que melhor coincide com os dados históricos, literais e psicológicos do Dêutero-Zacarias. O autor destes capítulos é anônimo e é difícil determinar para quem o texto é dirigido.

São textos pós-exílio. O autor dos capítulos 1 a 9 é um profeta do exílio, que, por volta do ano 520 a.C., promoveu com Ageu o renascimento religioso e a reconstrução do templo de Jerusalém, reduzido a destroços em 587 a.C. por Nabucodonosor.

A segunda parte do livro foi escrita no tempo de Alexandre Magno, que teve uma vitória brilhante e reacendeu a esperança de libertação para os hebreus. Porém, eles logo verificaram que só podiam esperar ajuda de Deus para libertar Jerusalém. Deus tomaria a iniciativa de libertar o seu povo infundindo um “Espírito de graça e consolação” sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém. Aqui é evidente a referência à esperança messiânica real colocada na descendência davídica, ou seja, Deus renovaria com sua graça o espírito dos jerosolimitanos, purificando suas infidelidades e desvios idolátricos e levando-os à conversão. Eles se voltariam para Deus com coração sincero e invocariam o seu auxílio com sentimento de profunda piedade e fiel confiança.

Para o povo, as conquistas de Alexandre Magno devem ter suscitado as mesmas esperanças de renovação que havia suscitado a vitória de Ciro sobre os babilônios em 538 a.C., documentada em 1940-55.

Os versículos do nosso texto são bastante obscuros, numa linguagem apocalíptica, e sua simbologia torna difícil saber para quem foram dirigidos. O certo é que o profeta fala do renascimento espiritual e da conversão escatológica dos habitantes de Jerusalém, sobre os quais Deus derramará um Espírito de graça e súplica, um espírito de profundo pesar, ou seja, será um tempo de arrependimento e de luto. Quando tudo isso acontecerá? A impressão é de que se está falando do futuro, mas na verdade é do presente.

O texto fala: “Olharão para aquele que transpassaram”. Esta frase é uma célebre "Crux interpretum". A transcrição textual é incerta. De fato, o texto massorético se refere a Deus, ou seja, os habitantes de Jerusalém voltaram o olhar para Deus, que transpassaram com suas próprias culpas. O texto dos LXX traduziu a palavra “transpassaram” por “me insultaram”. O hagiógrafo, porém, refere-se ao rei piedoso Josias, morto na batalha de Megido (609 a.C.), ou ao Servo Sofredor, de Isaías 53, ou ainda ao sumo sacerdote Onias III (172 a.C.). Para o cristão, a leitura feita à luz da Cristologia, na ótica de João 19,37, faz a aplicação a Jesus. Ele é o transpassado que o soldado golpeou com a lança, e de seu lado saiu sangue e água, símbolo do dom do Espírito Santo, ao qual Zacarias faz alusão em 13,1. De Cristo golpeado pela lança vem o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo.

Segunda Leitura
Gálatas
3,26-29
BATISMO, FILIAÇÃO DIVINA, LIBERDADE, A “PROMESSA”

Este trecho apresenta a síntese de tudo que Paulo ensinou: há um só Pai e todos são filhos dele mediante a fé. Para Paulo, o Batismo confere ao homem uma nova identidade. Esta afirmação decorre do simbolismo da “roupa nova”. Pelo Batismo é assumida a identidade de Cristo. Com o Batismo nos tornamos cristãos, a expressão visível de Cristo. Com o Batismo já não existe distinção entre judeus e não judeus. Os judeus discriminavam os não judeus.

Paulo adverte severamente os gálatas que foram na conversa dos judaizantes. Estes afirmavam que, para se obter a salvação, não era suficiente a obra redentora de Cristo. Era preciso observar toda a lei mosaica. Assim, esvaziavam o significado e o valor da cruz de Cristo. Por isso, Paulo demonstra, com base na Sagrada Escritura, que Abraão foi justificado com base na fé na Palavra de Deus e não com base na lei, que foi dada muito mais tarde. E junto com ele são benditos todos os que imitam a sua fé.

Para Paulo, é em Cristo que a bênção de Abraão passa para todos com o dom do seu Espírito. A promessa feita a Abraão e à sua descendência não podia ser anulada pela lei dada a Moisés 430 anos depois. A função da lei era pedagógica. Era tornar o homem consciente de sua situação de pecado e levá-lo a Cristo. Para Paulo, com Cristo o homem foi liberado da escravidão da lei. Por meio da fé em Cristo, o homem se tornou filho de Deus. Através do Batismo, o homem foi enxertado profundamente em Cristo, revestindo-se de sua identidade teândrica, participando de sua filiação divina, para formar com ele um único ser vivo. Em Romanos 6,1-11 Paulo desenvolve esta temática da união sacramental do cristão enxertado em Cristo pelo Batismo.

Revestir-se de Cristo não deve ser entendido em sentido exterior, pois para o oriental a veste exprimia a própria personalidade daquele que a vestia. Por isso, com o Batismo o cristão é inserido profundamente em Cristo para formar uma nova criatura, e assim toda distinção de religião, status social ou sexual perde o seu significado para se formar uma única criatura em Cristo. Por isso Paulo afirma que, com esta nova realidade, não há mais judeu ou não judeu, escravo ou livre, homem ou mulher. Realmente, os judeus discriminavam os não judeus e nas comunidades cristãs os judeus cristãos achavam que os pagãos gregos convertidos eram cristãos de segunda classe.

Os judeus admitiam classes e distinguiam entre senhores e escravos, entre o homem e a mulher. O bom judeu agradecia a Deus todas as manhãs por tê-lo criado homem. Também os gregos faziam questão da raça e admitiam classes sociais, relegando a mulher a segundo plano. Para os gregos, os escravos vinham após os rebanhos e eram considerados como coisas, propriedades para se dispor. Também no mundo romano os escravos eram considerados coisas (“res”), algo que podia ser comprado e vendido. Para o filósofo Catão, um escravo velho valia menos que um boi velho, pois do boi podia pelo menos ser aproveitada a carne, ainda que dura. O historiador Tácito, falando do massacre de um grupo de escravos, qualificou-os como “vile dannum” (perda de pouco valor). Para o cristianismo nada disso existe, porque somos todos de Cristo, descendentes de Abraão, herdeiros de suas bênçãos. Somos revestidos de Cristo e “transformados nele”. Há uma profunda participação do homem adâmico na nova dignidade de filho de Deus. Esta dignidade do cristão é expressa de modo indicativo, mas quanto ao modo de vivê-la é expressa de modo imperativo. Leão Magno expressa esta dignidade dizendo: “Agnosce, o christiane, dignitatem tuam”.

Evangelho
Lucas
9,18-24
PRIMEIRO ANÚNCIO DA PAIXÃO; PEDRO DECLARA SUA FÉ EM JESUS

Este trecho situa-se no final das atividades de Jesus na Galiléia (Lucas 4,14-19,50). Em seguida Jesus empreende o longo caminho para Jerusalém, onde será morto e ressuscitado.

O texto é composto por três articulações:

1) a confissão de Pedro;
2) a primeira previsão da paixão de Jesus;
3) a “sequela Christi”.

Neste contexto, Jesus se encontrava num lugar solitário para rezar. Aqui Lucas destaca a virada fundamental do seu ministério, descrevendo Jesus absorto em oração, assim como quando foi batizado (Lucas 3,21), na escolha dos doze apóstolos (Lucas 6,12), na transfiguração (Lucas 9,28-36) e na paixão (Lucas 22,40-46). As atividades de Jesus estavam chegando ao fim. Jesus ensinou aos seus discípulos e estava para revelar-lhes a sua identidade após a multiplicação dos pães, a partir da qual a multidão queria fazê-lo rei. Diante disto, Jesus perguntou a seus discípulos qual era a opinião do povo a respeito de sua pessoa. O objetivo de Jesus era desbloquear uma situação incompreensível e de crise nos apóstolos, estimulando-os à reflexão.

As respostas dos discípulos denotam que o povo não havia descoberto a verdadeira identidade de Jesus, confundindo-o com João Batista, Elias ou outro grande profeta. De fato, o povo esperava a chegada de Elias antes do Messias. Este profeta viveu no século IX a.C. e tinha a função de ser o precursor do Messias (Malaquias 3,23). Até hoje os hebreus rezam: “Senhor, manda-nos o profeta Elias. Manda-o com o Messias Filho de Davi... O seu poder fará reflorir a lei e a sua boca anunciará a boa notícia (a vinda do Messias) que nos livrará das trevas...

Pedro, porém, em nome de seus companheiros, responde que Jesus é o Messias, o “Christós”, o mestre profeta que revela com plenos poderes, o ungido de Deus, a presença reveladora de Javé, que com sua palavra ensina quem é Deus e quais são os seus projetos.

Como os discípulos ainda eram incapazes de entender a sorte dramática de Jesus, ele lhes impôs silêncio, pedindo que não divulgassem a sua messianidade, que seria entendida em sentido errado, pois esta passava pela cruz. Ao mesmo tempo anunciou-lhes pela primeira vez a sua paixão, para que os discípulos acolhessem pedagogicamente na fé o mistério do Messias crucificado. O messianismo de Jesus é marcado por conflitos com os poderes. Ele teria consciência de seu sofrimento como resultado do confronto com o Sinédrio, os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v.23). Estes eram os membros do Sinédrio, o Supremo Tribunal de então.

Os anciãos eram aristocratas leigos, latifundiários dados ao dinheiro. Formavam o núcleo central do partido dos saduceus e defendiam uma religião materialista. Os sumos sacerdotes formavam a aristocracia sacerdotal. Eram os detentores dos mais elevados graus da hierarquia sacerdotal, cujo primado era o sumo sacerdócio. Também eles pertenciam ao partido dos saduceus. Eram os donos do poder. Os doutores da lei também eram membros do Sinédrio e na sua grande maioria pertenciam ao partido dos fariseus. Eles eram os donos da verdade.

Tal revelação perturbadora sobre a sorte de Jesus comportava uma seqüela: o discípulo não podia contentar-se em conhecer a verdade sem comprometer-se com a paixão de Jesus. Para entender o sentido salvífico de impor uma “sequela Christi” no caminho do Calvário e um tal percurso exige-se carregar a cruz, renegando a si mesmo, aceitando a tribulação cada dia.

Jesus explica aos discípulos que deve ser morto e sofrer muito. O verbo “dei” do grego denota uma necessidade que faz parte do desígnio divino. Ele deve enfrentar as estruturas da morte na qualidade de “Filho do Homem”, ou seja, em sua fragilidade, sem recursos do alto ou extraordinários. O título “Filho do Homem” expressa Jesus em sua humildade (Daniel 7,13-14; Isaías 52,13-53).

REFLEXÃO

sus é o Cristo, tradução grega da palavra hebraica Messias (“Mashiàch”), personagem de quem o Antigo Testamento fala muito em seus múltiplos gêneros literário (narrações, histórias, oráculos dos profetas, hinos, poesias, festas, orações...) e através de vários títulos (Filho do Homem, Filho de Davi, bom pastor, Filho de Deus, Salvador...), identificado com os grandes personagens da Bíblia (Elias, Moisés, Davi...).

Portanto, os evangelhos explicitam a verdadeira identidade de Jesus como os primeiros cristãos o identificaram através de categorias ricas em imagens, simbolismos... Coisa que hoje não percebemos muito devido ao nosso racionalismo, onde o sacro se explica pela razão e pela ciência, ou então não passa de magia, obscurantismo, engano...

O que Jesus representa hoje para nós? Ele nos enriquece? Incomoda-nos? Empobrece-nos? Dá-nos serenidade? Alegria? Ou é um personagem, uma fábula, ou alguém que é necessário para se conhecer o verdadeiro sentido da vida, do ser? Do existir? Ele é uma realidade que só tem valor para as crianças? Velhos? Ou também para mim?

Jesus não se contenta com a resposta impulsiva de Pedro e o conduz a uma reflexão mais profunda.

Em relação ao texto de Zacarias, uma releitura de João 19,37 nos dá condição de conhecer melhor o pensamento do profeta. A liturgia nos convida a contemplar Cristo crucificado de cujo lado aberto pela lança saiu sangue e água. Jesus morre para manifestar a todos o imenso amor do Pai que sacrifica o seu Filho para a salvação dos homens: “Desprezado e rejeitado pelos homens, ele carregou as nossas dores...” (Isaías 53,3-5). Jesus fez a primeira predição de sua paixão e morte aos discípulos depois da profissão messiânica de Pedro. Sua glória pascal é conseqüência de sua oblação na cruz em filial e heróica adesão à vontade do Pai. Deus não quer “capturar” o homem com o esplendor de sua potência, mas trazê-lo a si com a demonstração suprema de sua bondade infinita através da elevação à cruz de seu Filho. Ele é o Cordeiro imolado que resgata com seu sangue todos os homens, constituindo-os num reino de sacerdotes (Apocalipse 4,10).

Jesus não é o Messias vencedor dos povos e dominador, como os judeus esperavam. Sua realeza realiza-se na cruz, onde se revela plenamente a verdade do Pai, ou seja, o seu amor infinito pelos homens alienados pelo pecado. Do seu peito aberto, a alma que tem sede do Deus vivo (Salmo 62) pode chegar à fonte inexaurível da água para a vida eterna (João 4,13; 7,37-39). A abertura do coração de Cristo pela lança que fez jorrar sangue e água é o símbolo dos sacramentos da Igreja. São João Crisóstomo diz: “Esta água e este sangue eram símbolos do Batismo e dos mistérios eucarísticos. Ora, é destes dois sacramentos que nasceu a Igreja, por esse banho de nascimento e pela renovação, produzida pelo Espírito Santo. Os símbolos do Batismo e dos mistérios eucarísticos saíram do lado de Cristo. Em conseqüência, é do seu próprio lado que Cristo formou a Igreja, como Eva foi formada do lado de Adão”.

Pelo Batismo somos revestidos de Cristo, morremos para o pecado, somos sepultados com ele, somos enxertados nele, completamente unidos a ele para participar de sua ressurreição (Romanos 6,3-5). Por isso, enquanto membro de Cristo, o cristão deve “completar o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Colossenses 1,24) ou seja, partilhar suas provas, associar-se aos seus sofrimentos.

Para o povo que havia escutado Jesus, visto seus milagres, Jesus se apresenta em uma imagem sublime. Por isso, na mente do povo passava a idéia dos grandes personagens do Antigo Testamento e, assim, ele exprimia sua admiração e estima por Jesus.

Mas para os discípulos Jesus é algo mais, é o “Cristo Filho de Deus”, uma resposta justa, mas não completa, pois esta poderia ser mal interpretada dando a Jesus uma imagem triunfalista, distorcendo o sentido de sua missão. Por isso, Jesus completou a resposta dos discípulos dizendo que ele devia ir a Jerusalém, sofrer muito nas mãos dos anciãos e sumos sacerdotes, ser morto e ressuscitar. Pedro assustou-se com essa declaração, tomou Jesus à parte e começou a admoestá-lo, mas Jesus completou que se alguém quisesse segui-lo devia tomar sua cruz.

Ao longo dos séculos os homens sempre se perguntaram quem é Jesus e deram respostas diferentes, algumas errôneas, outras incompletas, outras abordando seus interesses (cf. Jesus, o infinito presente na história dos homens). Jesus crucificado e ressuscitado, eis a sua verdadeira identidade.

Jesus deixou claro que não era o messias político que os discípulos imaginavam, e para evitar equívocos substituiu o termo Messias pelo título Filho do homem, mais próximo da figura do Servo Sofredor, ou do “transpassado” anônimo da primeira leitura de hoje. Por isso, para ser seu discípulo, é preciso carregar a cruz.

Quem é o Cristo para mim hoje? Não uma figura do passado, que viveu na Palestina há 20 séculos, mas uma pessoa viva, próxima, ressuscitada, que vive na comunidade. É aquele que optou pelos pobres e marginalizados da sua sociedade, que anunciou a presença do Reino de Deus em sua pessoa, testemunhou a verdade, denunciou uma religião corrompida pelo formalismo dos escribas e fariseus...

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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