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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum
XI Domingo
13 de Junho de 2010

Primeira Leitura
2Samuel
12,7-10.13
ELIAS RESSUSCITA O FILHO DE UMA VIÚVA DE SAREPTA

É o relato do famoso texto do pecado do rei Davi. Estamos no período de esplendor do reino davídico. Depois de uma grande campanha de vitórias, Davi, o rei piedoso e reto, pratica um duplo pecado, cometendo adultério com Betsabé e mandando matar Urias seu esposo.

Antes de ser rei, Davi liderou um grupo de pessoas descontentes com a política de Saul (1Samuel 22,2). Buscando a unidade, conseguiu reunir em torno de si todas as tribos, tornando-se rei de Israel (2Samuel 5,3). Como chefe guerreiro, tornou-se também chefe da linhagem messiânica. Tornou-se o ancestral do Messias esperado.

Como rei de Israel, Davi foi o símbolo do rei que promoveu a justiça e a paz. De fato, uma das principais tarefas de sua autoridade política foi a defesa contra as agressões externas (ele mesmo ia à guerra) e a instauração da justiça.

Depois de consolidar seu império, Davi deixou que o poder subisse à sua cabeça. Permanecia no palácio em plena mordomia (2Samuel 14). Tornou-se adúltero, violento, insensível, hipócrita e assassino (2Samuel 11).

Em vista do episódio relatado hoje, Deus mandou-lhe o profeta Natã, que lhe contou uma parábola (2Samuel 12,1-7) para despertar sua consciência de rei, perscrutar-lhe o coração e provocar sua responsabilidade pela justiça e induzi-lo a pronunciar com sua própria boca a sentença sobre si próprio: “Quem fez isto merece a morte”.

Por que Davi mereceu a morte? Porque pagou com injustiças os favores de Deus. Os versículos 7-8 enumeram cinco desses favores. As injustiças cometidas contra as pessoas também são contra Deus. Em vista disto Davi reconheceu o seu pecado: “Pequei, Senhor, contra vós”, e iniciou um caminho penitente de conversão que se manifestou em seu arrependimento.

Para o pensamento judaico, Davi era um homem em quem o atrativo do mal não tinha poder. Aconteceu-lhe ser fraco por permissão de Deus, para que todos os pecadores possam dizer: Vá a Davi e aprenda com ele como se deve arrepender” (The legend of Jesus 1,32-37).

Segunda Leitura
Gálatas
2,16.19-21
JUSTIFICADOS PELA FÉ EM JESUS CRISTO

Nesta carta Paulo combate um tipo de religião mercantilista na qual se pretendia comprar a salvação. Esse tipo de religião era pregado por judeus cristãos, os quais afirmavam que, mediante as boas ações (o cumprimento da Lei), se podia ter direito sobre Deus. Por isso Paulo ensina que o homem não é justificado pela prática da lei, mas pela fé em Cristo. O que salva é a redenção operada por Cristo.

A iniciativa de perdoar e salvar vem de Deus e a resposta do homem é a fé, uma fé dinâmica.

Paulo, em sua segunda viagem pelos anos 50-51, evangelizou os gálatas. Obrigado a permanecer um bom tempo na Galácia devido a uma doença, foi acolhido muito bem pelo povo, recobrando a saúde e evangelizando os gálatas. Voltou em seguida para a Europa, mas não sem se preocupar com este povo, que era muito volúvel. De fato, por influência de cristãos judaizantes, ele estava se tornando uma seita judaica com um verniz de cristianismo. Diante disto Paulo, no ano 57, escreveu-lhes esta carta, que é um grito de dor e amor. Explica-lhes que a doutrina que lhes ensinou é a mesma dos apóstolos, reconhecida pelo Concílio de Jerusalém (Gálatas 2,11-14).

Paulo argumenta com a “reductionem ad absurdum” através de duas frases: “Talvez Cristo seja ministro do pecado?”; ”Se a justificação vem da lei, Cristo morreu em vão!”.

Evangelho
Lucas
7,36-8,3
A PECADORA QUE UNGIU OS PÉS DE JESUS

Lucas é o evangelista da bondade (o filho pródigo, a ovelha perdida, o fariseu e o publicano, o bom samaritano, Lázaro e o rico Epulão, o filho da viúva de Naim, o perdão do bom ladrão...).

Este trecho se encontra somente em Lucas. Ele relata o convite de um fariseu a Jesus para um almoço, mas com segundas intenções. O fariseu era uma pessoa influente, tinha o status de cumpridor da Lei. Durante a refeição ele se escandalizou com o fato de que Jesus se deixou tocar, perfumar e beijar por uma pecadora que fazia da prostituição o seu ganha-pão. Na cena, Lucas apresentou dois hóspedes na casa do fariseu: um profeta e uma prostituta, ele convidado e ela nem sequer tolerada. A presença imprevista da prostituta provocou desorientação, mas ela não se intimidou. Percebeu em Jesus os gestos da misericórdia de Deus, pois Jesus se mostrou cheio de bondade e misericórdia em relação a ela.

Naquele tempo era costume propor enigmas nos banquetes para distrair os convidados. Jesus serviu-se deste costume e tomou a iniciativa, provocando a “piedade” de Simão. Este, ao responder, apesar de cauteloso, concluiu que “aquele a quem foi perdoado fora-lhe demonstrada maior gratidão”.

REFLEXÃO

Hoje a mensagem da Palavra de Deus é mais uma vez a misericórdia de Deus que perdoa o pecador arrependido, representado por Davi e pela mulher pecadora. Mostra também a predileção de Jesus pelos marginalizados, pois a mulher pecadora era uma marginalizada, tanto por ser mulher como pelo seu ofício.

Não parece provável que esta mulher seja Maria, irmã de Lázaro e Marta, que ungiu Jesus em Betânia (João 12,1ss), e menos ainda Maria Madalena.

Certamente Jesus foi comer na casa de Simão num dia de sábado, pois era um costume e uma honra convidar um rabi que, estando de passagem, houvesse falado na Sinagoga. Inesperadamente a mulher pecadora da cidade ficou sabendo que Jesus estava na casa de Simão e se dirigiu para lá com um frasco de perfume, colocando-se aos pés de Jesus, banhando seus pés com suas lágrimas, enxugando-os com seus cabelos, beijando-os e ungindo-os com perfume.

Simão incriminou Jesus e a mulher em seu íntimo, porém Jesus leu seus pensamentos secretos e mediante uma parábola, a dos dois devedores, deu-lhe uma lição sobre a relação existente entre o amor e o perdão.

A pecadora sentiu a mesma sensação que o rei Davi experimentou (2Samuel 12,17ss). Natã, por parte de Deus, reprovou as atitudes de pecado e o crime de Davi. Ele cometeu adultério com Betsabé, mulher de Urias, a quem fez perecer na batalha. Natã lhe contou a parábola do rico que sacrifica a ovelhinha do pobre para obsequiar um hóspede, semelhante à ação vil que merece a condenação de Davi, e Natã, diante da reprovação de Davi face a esta má ação, apontou-lhe que era ele esse homem mau. Então Davi reconheceu o seu pecado: “Pequei, Senhor...”.

A pecadora sentiu-se perdoada porque amou e teve fé em Jesus. “O homem não se justifica pelo cumprimento da lei, mas pela fé em Jesus Cristo...”. “O homem é justificado pela fé sem as obras da lei mosaica” (Romanos 3,28). A justificação compreende a salvação de Deus, o perdão e a libertação do pecado pela fé em Cristo, a benevolência do Senhor para com o homem, a união e a vida nova com Jesus.

A pecadora ama porque está perdoada. “Aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus..." (1João 4,7).

A fé e a humildade salvaram aquela mulher do desastre definitivo: “A sua fé a salvou”. Com a contrição ela iniciou uma vida nova. São Gregório Magno diz que “aquela mulher representou todos os que, depois de termos pecado, nos voltamos de todo coração para o Senhor e a imitamos no pranto da penitência”. Por isso, nossos piores defeitos e faltas, embora sejam muitos e freqüentes, não nos devem desanimar enquanto formos humildes e quisermos voltar arrependidos.

“Neste torneio de amor não nos devem entristecer nossas quedas, nem mesmo as quedas graves, se recorremos a Deus com dor e bom propósito, mediante o sacramento da Penitência. O cristão não é nenhum colecionador maníaco de uma folha de serviços imaculada. Jesus não só se comoveu com a inocência e a fidelidade de João, como se enterneceu com o arrependimento de Pedro depois da queda”.

Simão contemplou calado aquela cena e menosprezou o interior daquela mulher. Jesus a perdoou e ele, erigindo-se em juiz, a condenou. Simão não ofereceu a Jesus os sinais de hospitalidade que eram costumeiros naquele tempo aos hóspedes importantes. Não lhe ofereceu água para lavar os pés cansados do caminho, não o cumprimentou com o ósculo da paz, não lhe fez ungir a cabeça com perfumes. A mulher fez muito mais.

Mais que o próprio pecado - diz São João Crisóstomo -, o que irrita e ofende a Deus é que os pecadores não sentem dor alguma por serem pecadores”. Precisamos ter uma atitude humilde como a da mulher pecadora para crescer no conhecimento próprio com sinceridade e assim confessar nossos pecados. A humildade nos permite ver a grande dívida que temos com Deus e sentir nossa insuficiência, inclinando-nos a pedir perdão a Deus. A caridade e a humildade nos ajudam a ver nas faltas e pecados dos outros nossa própria condição fraca e desvalida e nos ajudam a nos unir de todo coração à dor do pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em faltas iguais ou piores se a misericórdia de Deus não nos sustentasse.

Santo Ambrósio disse: “Jesus não amou o ungüento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade. Se você deseja a graça, aumente também o seu amor; derrame sobre o corpo de Jesus a sua fé na ressurreição, o perfume da Santa Igreja e o ungüento da caridade dos demais” (Tratado sobre o Evangelho de Lucas).

Há dois aspectos a destacar na liturgia de hoje: o amor e a bondade de Deus e a atitude de penitência e conversão do pecador. O amor de Deus se manifesta num dos personagens mais ilustres do Antigo Testamento, que recebeu tudo de Deus. Davi reconheceu o seu pecado e arrependeu-se. Diante da situação de Davi, o profeta Natã lhe disse: “Tu es ille vir!” – “Você é este homem!”.

Para que Deus possa salvá-lo é preciso que o homem reconheça seu pecado. O pior doente para o médico é aquele que se julga são. Do mesmo modo, quem se julga santo, perfeito, dificilmente acolherá o amor de Deus. Davi foi justificado no momento em que tomou consciência de seu pecado. Além do reconhecimento do próprio pecado, o homem deve acreditar no amor misericordioso de Deus. Quem está se afogando não se salva pelo simples fato de tomar consciência do que está sucedendo, mas deve contar com alguém que o tire fora da água.

Um santo certa vez sonhou que Deus, para conduzir as pessoas para o céu, colocou um trem com três vagões. O primeiro era só para as crianças mortas antes do uso da razão. O segundo era só para os santos. E o terceiro, o maior de todos, era reservado para os pecadores, inclusive para os maiores pecadores, que se arrependeram pedindo perdão a Deus como a mulher do Evangelho de hoje.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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