| Hoje
a mensagem da Palavra de Deus é mais uma vez a misericórdia
de Deus que perdoa o pecador arrependido, representado por
Davi e pela mulher pecadora. Mostra também a predileção
de Jesus pelos marginalizados, pois a mulher pecadora era
uma marginalizada, tanto por ser mulher como pelo seu ofício.
Não
parece provável que esta mulher seja Maria, irmã
de Lázaro e Marta, que ungiu Jesus em Betânia
(João 12,1ss), e menos ainda Maria
Madalena.
Certamente
Jesus foi comer na casa de Simão num dia de sábado,
pois era um costume e uma honra convidar um rabi que, estando
de passagem, houvesse falado na Sinagoga. Inesperadamente
a mulher pecadora da cidade ficou sabendo que Jesus estava
na casa de Simão e se dirigiu para lá com um
frasco de perfume, colocando-se aos pés de Jesus, banhando
seus pés com suas lágrimas, enxugando-os com
seus cabelos, beijando-os e ungindo-os com perfume.
Simão
incriminou Jesus e a mulher em seu íntimo, porém
Jesus leu seus pensamentos secretos e mediante uma parábola,
a dos dois devedores, deu-lhe uma lição sobre
a relação existente entre o amor e o perdão.
A
pecadora sentiu a mesma sensação que o rei Davi
experimentou (2Samuel 12,17ss). Natã,
por parte de Deus, reprovou as atitudes de pecado e o crime
de Davi. Ele cometeu adultério com Betsabé,
mulher de Urias, a quem fez perecer na batalha. Natã
lhe contou a parábola do rico que sacrifica a ovelhinha
do pobre para obsequiar um hóspede, semelhante à
ação vil que merece a condenação
de Davi, e Natã, diante da reprovação
de Davi face a esta má ação, apontou-lhe
que era ele esse homem mau. Então Davi reconheceu o
seu pecado: “Pequei, Senhor...”.
A
pecadora sentiu-se perdoada porque amou e teve fé em
Jesus. “O homem não
se justifica pelo cumprimento da lei, mas pela fé em
Jesus Cristo...”. “O
homem é justificado pela fé sem as obras da
lei mosaica” (Romanos 3,28).
A justificação compreende a salvação
de Deus, o perdão e a libertação do pecado
pela fé em Cristo, a benevolência do Senhor para
com o homem, a união e a vida nova com Jesus.
A
pecadora ama porque está perdoada. “Aquele
que ama nasceu de Deus e conhece a Deus..."
(1João 4,7).
A
fé e a humildade salvaram aquela mulher do desastre
definitivo: “A sua fé
a salvou”. Com a contrição
ela iniciou uma vida nova. São Gregório Magno
diz que “aquela mulher
representou todos os que, depois de termos pecado, nos voltamos
de todo coração para o Senhor e a imitamos no
pranto da penitência”. Por isso,
nossos piores defeitos e faltas, embora sejam muitos e freqüentes,
não nos devem desanimar enquanto formos humildes e
quisermos voltar arrependidos.
“Neste
torneio de amor não nos devem entristecer nossas quedas,
nem mesmo as quedas graves, se recorremos a Deus com dor e
bom propósito, mediante o sacramento da Penitência.
O cristão não é nenhum colecionador maníaco
de uma folha de serviços imaculada. Jesus não
só se comoveu com a inocência e a fidelidade
de João, como se enterneceu com o arrependimento de
Pedro depois da queda”.
Simão
contemplou calado aquela cena e menosprezou o interior daquela
mulher. Jesus a perdoou e ele, erigindo-se em juiz, a condenou.
Simão não ofereceu a Jesus os sinais de hospitalidade
que eram costumeiros naquele tempo aos hóspedes importantes.
Não lhe ofereceu água para lavar os pés
cansados do caminho, não o cumprimentou com o ósculo
da paz, não lhe fez ungir a cabeça com perfumes.
A mulher fez muito mais.
“Mais
que o próprio pecado - diz São
João Crisóstomo -, o
que irrita e ofende a Deus é que os pecadores não
sentem dor alguma por serem pecadores”.
Precisamos ter uma atitude humilde como a da mulher pecadora
para crescer no conhecimento próprio com sinceridade
e assim confessar nossos pecados. A humildade nos permite
ver a grande dívida que temos com Deus e sentir nossa
insuficiência, inclinando-nos a pedir perdão
a Deus. A caridade e a humildade nos ajudam a ver nas faltas
e pecados dos outros nossa própria condição
fraca e desvalida e nos ajudam a nos unir de todo coração
à dor do pecador que se arrepende, porque também
nós cairíamos em faltas iguais ou piores se
a misericórdia de Deus não nos sustentasse.
Santo
Ambrósio disse: “Jesus
não amou o ungüento, mas o carinho; agradeceu
a fé, louvou a humildade. Se você deseja a graça,
aumente também o seu amor; derrame sobre o corpo de
Jesus a sua fé na ressurreição, o perfume
da Santa Igreja e o ungüento da caridade dos demais”
(Tratado sobre o Evangelho de Lucas).
Há
dois aspectos a destacar na liturgia de hoje: o amor e a bondade
de Deus e a atitude de penitência e conversão
do pecador. O amor de Deus se manifesta num dos personagens
mais ilustres do Antigo Testamento, que recebeu tudo de Deus.
Davi reconheceu o seu pecado e arrependeu-se. Diante da situação
de Davi, o profeta Natã lhe disse: “Tu
es ille vir!” – “Você
é este homem!”.
Para
que Deus possa salvá-lo é preciso que o homem
reconheça seu pecado. O pior doente para o médico
é aquele que se julga são. Do mesmo modo, quem
se julga santo, perfeito, dificilmente acolherá o amor
de Deus. Davi foi justificado no momento em que tomou consciência
de seu pecado. Além do reconhecimento do próprio
pecado, o homem deve acreditar no amor misericordioso de Deus.
Quem está se afogando não se salva pelo simples
fato de tomar consciência do que está sucedendo,
mas deve contar com alguém que o tire fora da água.
Um
santo certa vez sonhou que Deus, para conduzir as pessoas
para o céu, colocou um trem com três vagões.
O primeiro era só para as crianças mortas antes
do uso da razão. O segundo era só para os santos.
E o terceiro, o maior de todos, era reservado para os pecadores,
inclusive para os maiores pecadores, que se arrependeram pedindo
perdão a Deus como a mulher do Evangelho de hoje. |