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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum

5° DOMINGO
07 de Fevereiro de 2010

Primeira Leitura
Isaías 6,1-2a.3-8
VOCAÇÃO DE ISAÍAS

Estamos no ano 739 a.C., ano em que o rei Ozias morreu e Isaías foi chamado para ser profeta. Ele recebeu o seu chamado durante uma celebração no Templo, no momento da cerimônia litúrgica em que se celebrava a realeza de Javé sobre todo o universo, a qual é cantada no Salmo 99. Foi uma celebração histórica, porque ali nasceu a vocação do maior profeta do Antigo Testamento, uma cerimônia que proclamava que só a Deus se deve a realeza, pois só ele é Absoluto. Foi neste contexto, diante do Salmo 99, que o profeta fez sua experiência extraordinária e inaudita de Deus, e isto, tocou-o profundamente.

A primeira experiência de Isaías é de que Javé é o Senhor, o Absoluto da história. Ele está sentado (posição de quem reina) num trono majestoso e elevado. Esse trono é o céu. Ele se estende até a terra, penetrando no santuário do Templo, preenchendo-o com as franjas de suas vestes. Nesta visão, Isaías sente a plenitude de Deus. Ele vê apenas a barra de suas vestes, e já é o suficiente para encher o Templo. Sinal de que Javé não pode ser reduzido aos espaços e às dimensões do Templo. O céu é o lugar onde ele se senta e o Templo o lugar onde apóia seus pés. O profeta sente Deus transcendente presente no meio do seu povo.

A experiência fundamental que Isaías fez de Deus no Templo é a da santidade de Deus, pois a realeza de Deus isolada de sua santidade não tem sentido. Tal santidade se manifesta em sua presença libertadora no meio do seu povo, pois ele ama o direito e a justiça.

Durante a liturgia os anjos cantam o Trisaghion (três vezes Santo), afirmando a transcendência de Deus. Diante desta experiência de Deus, Isaías tem a sensação de que está perdido, toma consciência de sua impureza, ou seja, de que não é digno do culto divino, é um homem de lábios impuros, morando no meio de um povo pecador, de que não é digno de estar na presença divina, sente-se fora de lugar. Mas Deus está presente na história e o torna seu mensageiro, purificando-lhe os lábios com um tição de fogo por meio de um anjo, e assim Isaías sente-se elevado à dignidade de conselheiro do Trono divino. Gozando de tal reputação, Isaías toma consciência de que Deus quer um mensageiro para lhe confiar a difícil tarefa, e assim se coloca responsavelmente à disposição de Deus, aceitando a missão.

Segunda Leitura
1 Coríntios 15,1-11
CERTEZA DA RESSURREIÇÃO DE JESUS

Nesta carta Paulo responde a uma série de perguntas dos coríntios e no capítulo 15 responde à última pergunta, explicitando que a Boa Nova se torna salvação para todos que a acolhem.

Em particular, Paulo aborda neste capítulo o tema da Ressurreição de Jesus, visto que a comunidade de Corinto estava dividida sobre esta questão. Alguns não acreditavam em ressurreição, outros acreditavam na imortalidade da alma, mas não na ressurreição. Esta confusão na comunidade fazia com que os cristãos de Corinto perdessem toda a capacidade de ser fermento na sociedade.

Em vista disso, o apóstolo convida a comunidade a se lembrar da catequese fundamental que ele mesmo anunciou e que não foi fruto de especulações filosóficas, mas palavra que conduz à salvação. Sua catequese reporta à tradição que ele recebeu e transmitiu inalterada. Trata-se aqui da própria substância do Evangelho. Tal tradição sobre a ressurreição de Jesus já existia antes de Paulo se tornar apóstolo, por volta do ano 20 após a morte de Jesus. Por isso, Paulo afirma que Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou, aparecendo a muitos. Este é o conteúdo básico de sua catequese. O próprio Jesus apareceu a ele no caminho de Damasco. Portanto, Paulo mostra o coração do mysterium paschale, ou seja, Cristo morto, sepultado, ressuscitado e, depois, manifestado. Este é o primeiro credo da comunidade cristã.

Evangelho
Lucas 5,1-11

VOCAÇÃO DOS PRIMEIROS APÓSTOLOS

O evangelista explicita a vocação dos primeiros apóstolos, ligando-a à pesca milagrosa. Nesta narração encontramos condensados vários fatos, dos quais Lucas faz uma leitura teológica. Em primeiro lugar, o lago de Genesaré é o lugar teológico onde Jesus desenvolve suas atividades libertadoras. Ele se encontra à beira do lago apertado pela multidão que tem fome da Palavra. Diante disto, sobe na barca afastando-se um pouco da margem do lago, não para se isolar, mas para poder ver melhor o povo e comunicar-lhe a Palavra de novidade. Então, sentado (atitude de Mestre autorizado), começou a pregar. Lucas não conta o que Jesus pregou, mas o que podia ele ter dito a um povo faminto? Sermões bonitos? Oratória?

Pedro entendeu as palavras do Mestre. Avançou nas águas profundas e lançou a rede. O que teria feito Pedro, especialista em pescaria, voltar a jogar as redes diante da palavra de alguém que nunca havia pescado? Ele, que estava acostumado a comandar? Foi a atenção às palavras de Jesus: “Em atenção às suas palavras...”. A confiança nas palavras do Mestre reverte a situação, pois pescaram tantos peixes que as redes se rompiam.

Diante disto, Pedro reagiu como Isaías, pedindo que o Senhor se afastasse dele porque não era digno.

REFLEXÃO

Existe um fio condutor que une as leituras destes domingos: a experiência de Deus. A experiência de Isaías, Pedro e Paulo mostra que é Deus quem toma a iniciativa, e não o homem. Os três são pecadores e Deus os encontrou em sua história concreta e os transformou. Eles imediatamente se tornaram missionários. Não ficaram estáticos. Isaías viu a glória do Senhor e sentiu-se pecador. Pedro viu o milagre de Jesus e declarou-se pecador. Paulo experimentou o Senhor no caminho de Damasco e sentiu-se o menor de todos.

Na verdade, o que distingue uma pessoa religiosa de uma não religiosa é a experiência de Deus. O homem se relaciona com Deus de modos diferenciados: Isaías numa liturgia no templo, Pedro diante da pesca milagrosa e Paulo no caminho de Damasco. Esta é a sábia pedagogia divina, que personaliza suas intervenções de graças.

As leituras nos apresentam Isaías e Pedro, dois grandes personagens que se sentem indignos e pecadores. Entre eles temos o trait d’union de Paulo, que também se confessa pecador, o último dos apóstolos. Este trio indigno que a liturgia nos apresenta tem uma razão estrutural, ou seja, o ser do homem de Deus não subsiste quando falta o fundamento da humildade. Assim, antes de dizer que somos melhores que os outros devemos pensar mil vezes, senão nos colocaremos no lugar do publicano. Isto não é um exercício acadêmico, mas muito concreto na vida.

Pedro era um pescador veterano, um profissional perito, e sabia bem que não se pesca de dia, mas de noite. Mesmo assim, confiou nas palavras do jovem Rabi, que pedia: “Reme mar adentro e lancem as redes para pescar“, e Pedro respondeu-lhe: “Por causa de sua palavra lançarei as redes” Assim pegaram tantos peixes que as redes se rompiam. A fé foi, portanto, a condição indispensável para a realização do milagre. Diante da admiração de Pedro e de seus companheiros, Jesus os convida: “De agora em diante você será pescador de homens”.

Lucas escreveu a cena da pesca milagrosa a partir da perspectiva pascal da missão da Igreja, e vê na missão dos cristãos a missão de Cristo. Ele faz uma interpretação teológica. Os vocacionados têm uma missão concreta. Pedro “será pescador de homens”. Isaías, depois de ter seus pecados perdoados, irá anunciar em nome de Deus. Paulo foi constituído apóstolo, apesar de ser o menor dos apóstolos, para testemunhar a ressurreição de Cristo.

Com o chamado, os vocacionados sentem-se disponíveis. Isaías diz: “Eis-me aqui, envie-me”. Igualmente Pedro e seus companheiros, deixando tudo, seguiram Jesus. Paulo também foi anunciar o Evangelho de Cristo.

A vocação cristã se especifica nas diversas vocações, estados de vida e carismas que o Espírito Santo reparte como quer dentro do povo de Deus (Lumen Gentium 39ss). Cada cristão continua recebendo de Deus o chamado ao discipulado, à conversão, ao apostolado nos sacramentos da vida cristã, na proclamação da palavra, nos sinais dos tempos etc. Portanto, o chamado de Cristo não se resume à hierarquia, mas a todos os fiéis onde hoje a missão se encarna e se realiza dinamicamente.

Toda vocação e chamamento é seguido por uma missão, pois toda a experiência de Deus pela vocação à fé tem de passar à ação, em que todos são chamados a ser luz do mundo, sal da terra, fermento na massa, testemunhas da ressurreição de Jesus.

A missão eclesial não é uma prerrogativa da hierarquia, nem algo que se concede ao leigo para suprir a ausência da hierarquia. Surge da condição comum de todo cristão batizado e confirmado pelo Espírito Santo.

Jesus, junto ao mar da Galiléia, prega à multidão de dentro da barca de Pedro. Quando termina a pregação, pede a Pedro que navegue mar adentro, depois de uma noite infrutífera. Pedro e os companheiros deviam estar cansados devido ao trabalho duro. Apesar do cansaço e de a ordem de pescar ter partido de alguém que não era homem do mar e da inoportunidade da hora para essa tarefa e da ausência de peixes, Pedro confia e obedece. “Deus não necessita do nosso trabalho, mas da nossa obediência” (São João Crisóstomo). A fé e a obediência de Pedro lhe renderam peixes abundantes. O fruto da fé talvez seja muito abundante. Pedro nunca pescou tanto como daquela vez.

Jesus contempla naqueles peixes uma pesca que seria muito mais abundante ao longo dos séculos, em que cada discípulo seria um novo pescador. Assim, os discípulos seriam instrumentos de grandes prodígios, apesar de suas misérias pessoais.

Pedro sentiu sua insignificância e seu pecado, porém Jesus lhe tirou todo o temor: “Você será pescador de homens”. Não devemos nunca invocar nossas misérias como pretexto para fugir da missão que Deus nos confia, pois ele nos torna aptos. Por isso, após a pesca, a vida de Pedro passou a ter um objetivo formidável: amar Cristo e ser apóstolo dele. Toda a sua existência seria meio e instrumento para este fim.

Da mesma maneira, Deus pode fazer de cada um de nós instrumento capaz de realizar milagres, e até, se for preciso, dos mais extraordinários, se lutarmos sempre para alcançar a santidade, cada um em seu próprio estado, no mundo e no exercício de sua profissão.

Devemos realizar em nosso próprio ambiente e em nossas condições específicas de vida um trabalho apostólico audacioso, cheio de fé, segundo as palavras de Jesus: “Duc in altum” - “Mar adentro”. Vá para frente com coragem. “Et laxate retia vestra in capturam” e “lança as redes para pescar”. Por isso, como Pedro podemos dizer: “In nomine tuo, laxabo rete” - ”Em teu nome procurarei almas”.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

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