| A
mensagem da liturgia ensina que o cristão deve ser
como luz num candelabro, não devendo ficar num canto
onde não possa desempenhar a sua função.
A luz que o cristão deve mostrar não são
palavras bonitas, verdades teóricas, mas boas obras
(kala erga). Por isso, só a benevolência, a bondade,
o amor e o espírito de serviço podem tornar-se
luz para os outros.
Com
o simbolismo da luz-sal, Jesus diz que o cristão deve
manifestar ao mundo a sua mensagem, o que implica uma grande
responsabilidade. Infelizmente, aquilo que é impossível
para o sal – tornar-se insípido –, para
a luz – não iluminar – ou para a cidade
situada num monte – não ser vista – é
possível para o discípulo de Jesus que não
se empenha e não testemunha o Evangelho.
A
mensagem de Jesus no evangelho está ligada à
da primeira leitura, na qual são elencadas as boas
obras que o israelita era obrigado a fazer para tornar visível
o amor de Deus por seu povo.
A
atitude que deve caracterizar o homem da Bíblia é
a mesma que caracterizou Deus em relação a Israel
escravo no Egito. Como Deus se interessou por sua libertação,
cuidando dele no caminho do deserto (Deuteronômio
8), assim Israel deve fazer com o próximo.
Trata-se, portanto, de refazer o caminho do Êxodo, pois
o homem precisa fazer um êxodo de dentro de si mesmo,
saindo em direção ao próximo, abrindo
o seu coração. Se o homem bíblico souber
atualizar assim o Êxodo histórico e souber imitar
de forma conseqüente o comportamento de Deus, então
se repetirão por meio desse êxodo interior os
prodígios do Êxodo histórico.
No
primeiro Êxodo Deus esteve na vanguarda e na retaguarda
de Israel. No novo Êxodo Deus reconstrói a sua
imagem e semelhança no homem através da luminosidade
do bem e do esplendor da sua presença.
No
Êxodo histórico os maiores prodígios foram
a libertação da escravidão, a passagem
a pé enxuto do mar Vermelho e a caminhada segura no
deserto. No Êxodo interior os maiores prodígios
são a reconstrução interior do homem,
a libertação do egoísmo, a saída
de si mesmo, o caminho para Deus e para o próximo.
Deus
agiu nos diversos momentos da história da salvação
e a liturgia nos propõe a sua memória. A palavra
ressoa para nós com força sempre renovada em
nosso tempo distraído e indiferente. Interpela a nossa
liberdade, pede o nosso empenho para poder encarnar-se na
nossa história e tornar-se mensagem significativa para
nós.
No
Sermão da Montanha, a “Charta
Magna” do cristianismo, Jesus diz
para sermos sal da terra e luz do mundo. Esta é a missão
do povo de Deus (Catecismo da Igreja Católica,
782), a identidade do batizado, simbolizada na vela
acesa que nos é dada no rito do Batismo (Catecismo
da Igreja Católica, 1243). Se o sal perde
a sua propriedade confundindo-se com a massa insípida,
não serve para cumprir a sua função.
Ele deve, pois, distinguir-se, manter suas propriedades e
assim comunicar aos alimentos o seu sabor.
A
lâmpada que produz a luz não serve para nada
se ficar escondida para não perturbar a escuridão
que a cerca. Deve ser colocada sobre o candelabro para clarear
a escuridão, mas para isso é preciso que ela
se distinga e brilhe. Assim também o cristão
deve ter um comportamento diferente do da massa para poder
influir diretamente sobre a realidade, modificar o mundo,
como o sal transforma os alimentos e a luz anula a escuridão.
O
cristão deve ser transparente como o Cristo Luz do
mundo (Catecismo da Igreja Católica, 2466).
Mas isto não basta, é preciso difundir a verdade
e a justiça como um espelho reflete a luz. O texto
de Isaías não é apenas uma dura reprovação
ao formalismo e à exterioridade do culto hipócrita,
mas é, sobretudo, um programa preciso de vida individual
e social. O texto critica uma religiosidade ritual mecânica,
feita de preceitos e proibições, e propõe
obras concretas de misericórdia. Estas são obrigações
para a instauração da justiça (v.8).
“Não distribuir
os bens com os pobres é defraudá-los. Os bens
que possuímos não são nossos, mas dos
pobres” (Catecismo da Igreja
Católica, 2446). “Quando
damos aos pobres o indispensável, não lhes fazemos
benefícios pessoais, mas damo-lhes o que é deles
e, mais do que fazer-lhes um ato de caridade, cumprimos um
dever de justiça” (Gregório
Magno). A propriedade de bens faz de quem os possui
um “administrador” da Providência (Catecismo
da Igreja Católica, 2404). Por isso, tudo
o que nos é pedido em nome da solidariedade e da partilha
com os menos afortunados não deve suscitar em nós
um instinto de autodefesa, e não é uma esmola
para tranqüilizar a consciência. A medida não
é o que possuímos de supérfluo, mas o
que é necessário para os outros.
Sempre
podemos fazer algo pelo outro. Um provérbio africano
diz: “A folha que cai
no rio muda o aspecto do rio”. Assim,
se negarmos ao rio a contribuição da nossa folha,
seremos responsáveis pelo atraso do Reino na terra.
São Cipriano de Viterbo (†1750)
dizia: “Deus providencia
tudo com abundância quando duas portas estão
abertas: a do coro, isto é, a da glória de Deus,
e a da portaria, isto é, a do benefício aos
pobres”.
Quando
se fala em sal muitos significados surgem em nossa mente.
Para a dona de casa vem imediatamente a idéia do feijão
temperado que, graças a uma pitadinha desta substância
branca, tem um sabor agradável. A mesma dona de casa,
sobretudo a mais antiga, associa ainda o sal à conservação
dos alimentos. Para nossos avós quem sabe lembre a
recepção do Batismo, em particular o sacerdote
que dava sal à criança. Se tivéssemos
uma máquina do tempo e fôssemos interrogar os
antigos povos do Oriente, eles nos diriam que o sal lhes representava
um sinal de aliança entre duas pessoas ou entre dois
povos.
Todavia,
o sal tem um significado não menos importante do que
os que foram expostos. No momento em que ele é dissolvido
na água parece desaparecer, mas só assim pode
dar sabor aos alimentos. Para nós, cristãos,
ser sal tem diversas implicações, mas, sobretudo,
a de dar sabor à vida, ajudando os outros a saborearem
a própria vida, impedindo a corrupção
do mundo.
A
cidade sobre o monte anuncia a visibilidade. Assim deve ser
a Igreja, ponto de referência para todos os homens.
Por isso, o cristão não deve refugiar-se na
sua juventude, ufanar-se do conforto que a própria
luz lhe proporciona.
Numa
noite, compareceram em um estádio de Los Angeles mais
de cem mil pessoas para ouvir o Pe. Keller falar. Em certo
momento ele disse: “Não
fiquem com medo. Vamos apagar todas as luzes”.
E logo a escuridão tomou conta do estádio. Através
de um alto-falante, o padre disse: “Agora vou
acender um palito de fósforo e todos os que o virem
digam sim”. Assim que aquela pontinha de fogo
brilhou na escuridão, todos disseram um alto sim. O
Pe. Keller continuou explicando: “Vejam,
um ato qualquer de bondade da nossa parte pode brilhar no
meio da escuridão e, por menor que seja, não
passa sem ser observado por Deus. Mas podemos fazer mais ainda.
Todos os que têm um fósforo acendam-no”.
E imediatamente a escuridão foi iluminada por milhares
de pequenos focos de fogo. Por fim o padre disse: “Vejam,
se quisermos, podemos todos juntos acabar com a escuridão”.
Jesus
não ensina que o sal não é uma pérola,
um talento que deve ser mantido guardado, mas um ingrediente
para ser misturado ao alimento. Sua ação depende
do seu consumar-se. O cristão é sal da terra
porque não é chamado à segregação.
Por isso, a imagem do sal combate o espirito separatista e
tem a ver com a parábola do fermento, cujo efeito e
capacidade dependem de misturar-se à massa. O cristão
é chamado a ser um irmão para os outros.
Paralelamente
ao sal está a luz, que condiciona a existência
do homem. Sem ela a vida seria impossível. Portanto,
se não vencemos o mal é porque a nossa luz é
fraca. A luz que o cristão deve fazer resplandecer
é aquela de que fala Isaías 58,1-6: não
tanto os jejuns e as orações, mas, sobretudo,
ações concretas de amor aos irmãos.
Paulo
não nos diz hoje que os intelectuais não têm
lugar na Igreja. Ao contrário, mas não podemos
esquecer que Deus escolheu os fracos para confundir os fortes.
Não precisamos ter um diploma na Universidade Gregoriana
ou em Harvard para ocupar o nosso lugar na Igreja. Basta ter
boa vontade como tiveram um cultivador de sicômoros
da Galiléia (Amós), um carpinteiro
de Nazaré (José), um pescador
do lago de Genesaré (Pedro) e uma
humilde jovem de Nazaré (Maria). Até
mesmo Israel era no princípio fundado sobre gente pobre.
O primeiro rei foi um pastor (Saul), o segundo
um pouco mais (Davi), e na época dos
Juízes Deus fez escolhas providenciais como Gedeão.
Também a história cristã foi feita de
personalidades sem destaque como São José de
Copertino, que humanamente falando era um retardado mental,
porém dava soluções para os casos morais
do cardeal De Lugo e de outras pessoas. Margarida de Alacoque
era obtusa e o Cura d’Ars foi ordenado padre por pura
piedade, e depois se tornou o melhor pastor da França.
O
cristão é luz do mundo não pela fé
que possui, mas pela fé que se traduz em obras, pois
a fé sem obras é morta. Ele possui um ideal
de vida em duas direções: uma voltada para si
mesmo, procurando viver a vida da graça traduzida em
ações virtuosas, isto é, com princípios
operativos através dos quais a fé, sob o influxo
da caridade, realiza obras. Outra voltada para os outros,
pois o cristão não é alguém voltado
para si mesmo, daí a caridade que anima a sua fé
o faz operoso diante das necessidades dos irmãos.
Hoje
se fala em eclipse de Deus, que não é mais visível
na história. Mas num eclipse não é o
Sol que desaparece, e sim um corpo estranho que se coloca
entre a trajetória do Sol e a Terra. A fonte da luz
não se enfraquece, mas encontra um obstáculo,
que é o pecado. Para perceber Deus visível,
o homem precisa ter fé. O soviético Gherma Titou
deu dezessete voltas em torno da Terra e, por não ter
deparado com Deus em sua cápsula, concluiu: “Não
vi Deus. Ele não existe!”. Já
o norte-americano Gordon Cooper, nas mesmas condições,
lançou um grito de entusiasmo: “Eu
vi Deus”. E gravou no espaço
esta oração: “Eu
te agradeço, meu Deus, o privilégio que me deste
de estar no meio de todas estas estrelas que Tu criaste”.
O
sal dá sabor e conserva os alimentos, e é símbolo
da sabedoria divina. No Antigo Testamento prescrevia-se que
tudo que fosse oferecido a Deus devia estar condimentado em
sal (Levítico 2,13) para significar
o desejo de que a oferenda se tornasse agradável. A
luz é a primeira obra da criação, o símbolo
de Deus. Portanto, o cristão como sal deve evitar a
corrupção e levar com suas palavras a sabedoria
de Deus aos homens. Deve ser luz que indica o caminho no meio
da escuridão, deve brilhar por suas atitudes coerentes
como astro no mundo (Filipenses 2,15).
A
omissão de tantos cristãos nos faz ver como
eles perderam o sentido de luz e sal de Cristo. Basta olhar
as conseqüências das ideologias que negam Deus
e a liberdade religiosa, dão importância máxima
ao êxito econômico em detrimento dos valores humanos,
e atacam os valores familiares e a vida. Sim, há muitos
males que derivam do abandono pelos cristãos de suas
posições. Por isso, o Papa João Paulo
II fala de uma nova evangelização, a fim de
recuperar na vida dos homens o exemplo de vida correta, a
pureza de conduta, o exercício das virtudes humanas
e cristãs.
Jesus
espera do cristão uma força que afogue com sua
vitalidade a podridão do materialismo, para que Deus
não seja um estranho na sociedade, que transforme o
mundo com a sua dedicação à família,
aos pais e aos filhos, com a construção de valores
estáveis na sociedade...
Deus
precisa de nós, pois de alguma forma “vocês
lhe emprestam os seus rostos, o seu coração,
toda a sua pessoa na medida em que se entregam ao bem dos
outros e se tornam servidores fiéis do Evangelho”
(João Paulo II).
Se
o cristão seguir o pedido de Isaías na primeira
leitura exercitando as obras de misericórdia, então
poderá cantar com o Salmo 3,4-5: “A
luz de vocês irromperá como aurora... a luz de
vocês brilhará nas trevas, a escuridão
de vocês se tornará meio-dia”.
É por meio do amor que o cristão dá testemunho
de Jesus Cristo: “Nisto
conhecerão que vocês são meus discípulos”
(João 13,35).
As
próprias normas habituais de convivência que
muitos praticam apenas exteriormente, ou porque tornam mais
fácil o trato social, para o cristão devem ser
fruto da caridade, da sua união com Deus, impregnando
esses gestos com o conteúdo sobrenatural. Assim, a
caridade deve muitas vezes ser manifestada em formas usuais
de educação e de cortesia.
O
cristão também deve ser sal e luz dando provas
de temperança e sobriedade, visto que em nossos dias
busca-se o bem-estar material a qualquer custo e, em conseqüência,
tem-se pavor de tudo que possa ocasionar sofrimentos. Neste
ambiente, palavras como pecado, mortificação,
cruz..., são incompreensíveis para inúmeras
pessoas. Dai a necessidade de dar exemplo de temperança
e sobriedade que levam a utilizar os bens com moderação. |