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ANO A - São Mateus
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
04 DOMINGO TEMPO COMUM
30 de Janeiro de 2011

Primeira Leitura
Sofonias
2,3; 3,12-13
O HUMILDE RESTO DE ISRAEL SERÁ FIEL
Sofonias foi profeta em Judá entre os anos 640 e 630 a.C. A sua atuação foi decisiva para que Josias (629-609 a.C.) empreendesse uma reforma política e religiosa. Judá era objeto de exploração estrangeira e os líderes do país, em vez de tomarem medidas contra essa situação, ficavam discutindo qual seria o melhor aliado: o Egito ou a Assíria. Além disso, havia muita corrupção e exploração interna. Os que moravam nos campos não tinham um pedaço de terra para prover o seu sustento. Eles são chamados “pobres da Terra”.

Para Sofonias, toda essa situação pesa no julgamento de Deus. Assim virá o dia de Javé, não para o fim do mundo, mas para a transformação do povo de Deus e para o fim da era de idolatria. Segundo os profetas, eram ídolos não só as divindades estrangeiras, mas também a absolutização das grandes forças, do dinheiro e do poder. Esses ídolos estavam presentes tanto nas outras nações quanto na cidade de Jerusalém, tanto no palácio real como no Templo e nos bairros da cidade.

A única possibilidade de salvação que Sofonias vislumbra para escapar da ira divina são os “pobres da terra” (2,3), isto é, os destituídos do poder e das riquezas que clamavam por justiça. Eles formam o “resto” para conduzir a história. Portanto, a nova sociedade nasce entre os pobres que lutam pela justiça, e é para eles que o profeta faz o convite à conversão (teshuvà). É aos que buscam a justiça, isto é, que observam a Torá e buscam a humildade, que reconhecem os dons vindos de Deus, que a bondade de Deus se dirigirá. O texto fala que Deus olha cada um, mas tem um relacionamento especial com o seu povo, ao qual jurou fidelidade (Deuteronômio 4,31; 9,5; Jeremias 11,5).

Segunda Leitura
1 Conríntios
1,26-31

SABEDORIA DO MUNDO E LOUCURA DA CRUZ

Paulo lembra neste trecho onde e quando a comunidade nasceu: no meio dos fracos, dos vis, dos desempregados e empobrecidos (vv.26-27). Foi para estes que Cristo rico se fez pobre, a fim de enriquecê-los com a sua riqueza (2 Coríntios 8,9). Paulo explica o agir de Deus que faz as suas escolhas com uma lógica diferente da humana, que vira de cabeça para baixo a hierarquia do mundo.

A elite de Corinto pensava que a religião era uma questão de cultura e, portanto, seria impossível que Deus se interessasse pela periferia. Viam assim um Deus burguês, comprometido com a elite. Por isso, Paulo afirma que o projeto de Deus de optar pelos pobres transtornou a sabedoria humana (vv.28-29). Esta comunidade deve ao beneplácito de Deus ter sido escolhida em Jesus Cristo.

Evangelho
Mateus
5,1-12a
AS BEM-AVENTURANÇAS

O texto pertence ao início do Sermão da Montanha, que é a nova constituição do povo de Deus. O versículo 1 fala que o destinatário desta boa nova é a multidão (4,25). É portanto uma mensagem para todos e não apenas para os discípulos que viviam com Jesus. A montanha lembra o Sinai, onde Deus selou por meio de Moisés a Aliança com o povo hebreu que havia saído do Egito. O clima desta nova Aliança é de confiança ilimitada. De fato, no Sinai o povo devia permanecer longe da montanha e não se aproximar de Deus, que lhe falava por meio de Moisés, enquanto aqui os discípulos estão perto de Jesus. Jesus é apresentado como Mestre, Rabi (Didaskalos), como alguém que ensina como a Torá e os profetas que eram lidos e comentados nas sinagogas.

As bem-aventuranças são propostas de felicidade, nas quais Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, aflitos, famintos...) e percebe o esforço que ele faz para mudar a situação; conhece as dificuldades e as perseguições que enfrenta para criar uma sociedade nova. Por isso ele diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito..." (v.3); “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça...” Estas duas bem-aventuranças são como que a síntese das demais (vv.4-9), que são explicitações destas.

Os versículos 3-10 são compostos por duas partes completamente simétricas (3-6; 7 10) e em grego têm o mesmo número de palavras. Estamos diante de um trecho muito bem elaborado e considerado muito importante pelo redator.

Lucas fala somente “bem-aventurados os pobres”. Mateus acrescenta “pobres de espírito”. Esta expressão é semelhante a Isaías 57,15. Trata-se da condição social de pobreza, à qual desde o tempo do Dêutero-Isaías pertenciam os “piedosos”, aqueles que não tinham se prostituído com a idolatria ou com os sincretismos dos cultos pagãos, aos quais haviam aderido as classes mais elevadas e os próprios sacerdotes. Aqui os pobres lembram os “anawim” do Antigo Testamento, que depositavam a confiança em Deus em última instância, que viviam a pobreza não porque a miséria lhes era suficiente, mas porque nesta condição participavam do projeto de Deus baseado na justiça e na igualdade.

A situação dos pobres que buscam a libertação é descrita nos versículos 4 6. Eles são os aflitos. Esta bem-aventurança se inspira em Isaías 61,1: são as pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de uma sociedade opressora. Eles são felizes porque o Reino irá libertá-los da opressão.

Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Esta bem-aventurança se baseia no Salmo 37,10 11.

Para podermos aprofundar a alusão messiânica das bem-aventuranças, além de buscarmos em Isaías 53, precisamos ler os versículos 5 e 6 no horizonte de Isaías 61, que faz alusão ao Messias consolador de toda aflição humana e portador da renovação da vida neste mundo.

Os pobres que entram na dinâmica do Reino são misericordiosos, isto é, solidários, não deixando ninguém passar necessidade, pois compartilham. A misericórdia caracteriza o juízo de Deus (Mateus 5,7). Uma tradição hebraica diz que, desde o momento da criação, Deus deixou o trono da Justiça e passou a ocupar o da Misericórdia. Usar a misericórdia é uma característica divina (Lucas 6,36). Quem age assim tem o comportamento de Deus.

Os puros de coração fazem parte da bem-aventurança inspirada no Salmo 24,4, na qual a pureza de coração está associada a “mãos inocentes”, àquele que tem uma conduta íntegra. No Antigo Testamento, ser puro dependia de uma série de rituais, mediante os quais se tinha acesso a Deus. No Novo Testamento, na linha dos Salmos 15 e 25, pureza é sinônimo de opção pelo Reino e de respeito à integridade das pessoas. As pessoas não encontram mais Deus no Templo, mas no relacionamento fraterno.

A bem-aventurança “Bem-aventurados os que promovem a paz” indica a plenitude dos bens (shalom), que é fruto da misericórdia e da pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui a injustiça, a opressão, a violação dos direitos...

A bem-aventurança “Bem-aventurados os perseguidos pela justiça...” indica, no contexto de Mateus, a situação de João Batista, que foi preso por seguir o caminho da justiça (Mateus 4,12; 21,32).

No tempo de Mateus, a comunidade siro-palestina passava por uma crise de identidade, porque os cristãos eram difamados, caluniados e perseguidos, do mesmo modo como os profetas foram perseguidos.

REFLEXÃO

Quem procura a paz só pode ser bondoso e misericordioso, e entende que não existe paz sem justiça. A justiça exige a distribuição dos bens econômicos e o uso racional das reservas naturais para que elas sejam acessíveis a todos. Isto exige uma escolha de estilo de vida pobre no sentido e solidária com os demais. A justiça também deve ser entendida como a possibilidade real de participar dos bens culturais e das decisões políticas. A pobreza de espírito pode ser lida como consciência da interdependência de todos os homens em nível mundial e como respeito aos valores culturais, éticos e religiosos de todos.

A fome e a sede de justiça sempre devem acompanhar os discípulos de Jesus. Estes devem sentir-se “aflitos” e não ficar em paz enquanto isso não acontecer. Agem com o “coração puro”, isto é, de maneira transparente, sabendo reconhecer o bem onde quer que esteja.

Deus vem em socorro dos humildes e dos pobres e Jesus deu o exemplo com a sua ação. Ele ensinou com obras além das palavras. Deus manifesta a sua força nos humildes. Esta é uma constante no agir do Deus bíblico. Sofonias nos apresenta um Deus que salva os humildes e um resto insignificante de Israel e Isaías apresenta inclusive o paradoxo em que Deus se gloria no Servo (Isaías 49,3). Os grandes personagens bíblicos são de origem humilde: Moisés, ao ser chamado por Deus, era um refugiado em Madian (Êxodo 3,19), um criador de ovelhas, incapaz de falar (Êxodo 3,10). Israel era um povo insignificante (Deuteronômio 7,7-8). A Mãe de Jesus foi a serva humilde (Lucas 1,35-48). São José era um carpinteiro humilde. Da mesma forma os discípulos.

O apelo de Sofonias e o texto de Paulo nos conduzem às bem-aventuranças e nos abrem uma pista de reflexão: “Procurem o Senhor, procurem a justiça, procurem com humildade...”. Pobreza e humildade se contrapõem à iniqüidade e à mentira. A pobreza é não fazer da riqueza um ídolo ao qual tudo deve ser sacrificado e a humildade é a consciência das próprias limitações. É nessa perspectiva que devemos entender as bem-aventuranças: Deus não beatifica a pobreza, mas aqueles que assumem a pobreza.

As bem-aventuranças revelam uma ordem de felicidade, de graça, de beleza e de paz. Jesus exalta a alegria dos pobres, aos quais pertence o Reino (Catecismo da Igreja Católica 2546). Ouvir hoje Jesus proclamar bem-aventurada uma classe de pessoas que o mundo considera perdedoras deve levar-nos a refletir seriamente sobre o nosso relacionamento com Deus, com o próximo e com as coisas.

Jesus fala de pobres de espírito, isto é, de uma pobreza escolhida, desejada, e não imposta por uma necessidade. O espírito é na Bíblia o centro da pessoa, onde são tomadas as decisões e feitas as escolhas. Por isso, as bem-aventuranças não devem ser lidas como preceitos abstratos, mas como uma autobiografia de Jesus, pois através delas descobrimos quem ele é. Jesus não só amou os pobres, mas foi pobre por opção, tornando-se pobre com os pobres. Optar por ser pobre não significa ter uma vida passiva, sem empenho ou guiada por um fatalismo cego. Jesus não foi fatalista, mas se empenhou totalmente.

Por isso, as bem-aventuranças representam a autêntica vida de Cristo. Elas são modeladas pela vida dele e são propostas como meta para todos. São expressões de caridade. Não têm apenas uma importância pessoal, mas irradiam para uma dimensão social, pois o cristão não é um nômade fechado em si mesmo, mas um ser aberto aos outros, que seguindo o exemplo de Cristo deve viver as angústias, as alegrias e os problemas da humanidade.

Cristo não disse que é bem-aventurada a pobreza, pois esta é sempre uma injustiça, algo que Deus não deseja, e a sua bondade não colocou os bens apenas nas mãos de alguns.

O relato das bem-aventuranças é exclusivo de Mateus e de Lucas. Mateus escreveu para os judeus convertidos ao cristianismo, e por isso é mais judaizante que Lucas. Colocou-as na terceira pessoa e lhes deu um colorido especial espiritualizando-as: pobres “em espírito”, fome e sede “de justiça”, limpos de coração, perseguidos “pela justiça”. Lucas, ao contrário, escreveu para os cristãos vindos do paganismo greco-romano. Colocou as bem-aventuranças na segunda pessoa do plural, combinando o presente com o futuro. Parece ter uma intenção mais sociológica ao usar os termos: pobres, perseguidos... Esses matizes diferenciais entre os dois evangelistas não afetam o conteúdo, porque para ambos as bem-aventuranças são atitudes próprias dos que vivem o Reino de Deus.

Será que as bem-aventuranças têm ressonância em nosso mundo materialista e egoísta? Não seriam uma estupidez? Normas para fazer feliz um fracassado? Uma mera utopia? Certamente, elas são uma inversão dos critérios e valores do mundo. É um ideal tão elevado que o homem carnal não pode entendê-las. Por isso, muitos as vêem como um vago espiritualismo conceitual e simpático como o bem, a pobreza, a paz..., isto é, uma bela utopia e com isso o compromisso com esta dinâmica do Reino se dilui na passividade do impossível.

Ser bem-aventurado por ser pobre, perseguido, faminto, oprimido, explorado, encarcerado... Não significa que já se esteja na dinâmica do Reino, pois é a atitude psicológica e pessoal que qualifica para as bem-aventuranças. Assim, ninguém é herdeiro do Reino de Deus pelo simples fato de ser pobre, como não é excluído do Reino o rico só por causa da sua riqueza. Embora seja certo que as condições para ser bem-aventurado ajudam o homem a atrair o seu espírito para Deus.

A vida e o exemplo de Cristo são, em suma, a chave para a interpretação autêntica das bem-aventuranças. Ele encarnou em sua pessoa as atitudes básicas do Reino que as bem-aventuranças preconizam. Assim, elas são a norma suprema para a conduta dos cristãos, embora sejam um convite, um indicativo, e não um imperativo. Viver as bem-aventuranças define o autêntico seguidor de Cristo, e não aquele que o é por herança familiar.

Como falamos, viver as bem-aventuranças é ser paradoxal, pois supõe a inversão total dos valores e dos critérios do mundo. Por isso, só conseguem entendê-las e não se escandalizar com elas aqueles que as têm como opção pessoal e espontânea.

Diante de uma multidão, Jesus aproveitou para traçar a imagem profunda do verdadeiro discípulo discorrendo sobre as bem-aventuranças. Certamente, os que ouviram estas palavras devem ter ficado impressionados, pois elas reformularam completamente os juízos de valor habituais na sociedade, como os que viam na felicidade, na ternura e na bênção o prêmio de Deus e na infelicidade e na desgraça o castigo. Em geral, para o homem daquele tempo e para o próprio povo de Israel a riqueza, o gozo e a estima eram considerados fontes de bênçãos divinas. Jesus enveredou por um caminho oposto, pois exaltou e abençoou a pobreza, a doçura, a misericórdia, a pureza e a humildade.

Com as bem-aventuranças, Jesus proclamou que no meio da pobreza, da dor e do abandono o cristão pode dizer como Paulo: “Superabundo de gozo em todas as minhas tribulações”. Mas queria também dizer que, mesmo na opulência, o homem pode ser profundamente infeliz.

Com as bem-aventuranças se confirmam as diversas exigências de santidade que Cristo pede a todos que querem segui-lo. Por isso, o seu conjunto apresenta um único ideal: a santidade. Naturalmente, Deus não nos proíbe de empregarmos os meios para vencer a pobreza, a doença, a injustiça, a dor etc., mas o espírito das bem-aventuranças indica a absoluta e incondicional confiança em Deus. Portanto, são felizes os que seguem o Senhor e fomentam dentro de si o desejo da santidade.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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