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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
Tempo Comum
4°
DOMINGO
31 de Janeiro de 2010
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Primeira
Leitura
Jeremias 1,4-5.17-19
VOCAÇÃO
DE JEREMIAS |
Jeremias
recebeu o chamado de Deus no ano 627 a.C., quando Josias,
rei piedoso e fiel, reinava em Judá. Ele prometeu uma
reforma religiosa para o povo, a fim de levá-lo à
plena fidelidade à Aliança, e terminou em 587.
No tempo de Josias, o profeta exerceu seu ministério
em paz, mas com a morte do rei enfrentou muitas provações
e contrariedades, chegando a lamentar-se com Deus por tê-lo
chamado à vocação de profeta.
Como
o profeta superou este conflito? Com a confiança em
Deus, e Deus mostrando-se aliado a ele. Jeremias teve consciência
de que Deus o chamou para uma missão e o investiu de
uma missão altamente importante, como porta-voz do
próprio Deus. Este chamado é gratuidade (desde
o seio materno), é um sinal de amor, bondade,
e precisa ser correspondido mesmo nas dificuldades.
O
profeta é enviado contra os reis de Judá e seus
ministros, para incomodar os que detêm o poder religioso
e político, os que fazem da política um jogo
de interesses próprios, para desestabilizar o poder
político absolutizado.
Ele
é enviado contra os sacerdotes, para com suas palavras
desestabilizar o sacerdócio falso, o poder religioso.
Ele mesmo era descendente da casta sacerdotal de Abiatar.
Ele
é enviado contra os latifundiários, os donos
do poder econômico que, à custa da exploração,
apoderavam-se das terras, expulsando do campo os pequenos
agricultores.
Estes
três poderes moverão perseguição
contra o profeta, mas a força de Deus estará
com ele . Deus se mostra aliado de Jeremias. O mesmo aconteceu
com Jesus, que foi processado pelos três poderes, mas
saiu vitorioso.
Deus lhe fala que, “antes
de plasmá-lo no seio materno”,
ou seja, antes de modelá-lo, como o oleiro faz com
o barro, Deus o conhecia e o havia consagrado “quadàsh”,
ou seja, separado dentre todos os homens. Deus fez dele uma
fortaleza, uma coluna de ferro, um muro de bronze. Todas essas
imagens exprimem a invencibilidade do profeta. |
Segunda
Leitura
1
Coríntios 12,31 - 13,13
HINO À CARIDADE |
A
comunidade de Corinto era rica em dons e carismas. Diante
disto, Paulo faz uma consideração sobre o amor,
que é o dom mais precioso. Incentiva os coríntios
a buscarem os dons mais altos, pois o amor é a base
de tudo, é a nota característica dos cristãos,
e devia ser também dos coríntios, os quais sempre
estavam competindo em carismas especiais.
Paulo
sabe que o dom das línguas é o mais ambicionado
pelos cristãos desta comunidade. Por isso, admoesta
que, se ele não serve para a edificação
da comunidade, é como um sino barulhento que irrita
os ouvidos.
Em
segundo lugar, Paulo fala dos dons da profecia, do conhecimento
de todos os mistérios, da ciência, da fé
extraordinária, que sem a solidariedade não
são nada, visto que os coríntios ambicionavam
os dons para se promoverem.
No
versículo 3 Paulo vai além. Fala da distribuição
de todos os bens, de entregar até o próprio
corpo às chamas, mas se isso não for por amor
de nada vale. Em seguida mostra quinze expressões para
indicar o que é ser solidário. Amor é
ação concreta em favor de alguém, dos
mais necessitados, não é sentimento, mas atitude
concreta. Esta solidariedade é marcada pelo equilíbrio
na busca do bem comum (tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera...).
Cabe
à comunidade escolher entre o transitório e
o permanente, pois o amor jamais passará. |
Evangelho
Lucas 4,21-30
JESUS É REJEITADO PELOS NAZARENOS |
Este
trecho descreve uma síntese de tudo o que aconteceu
na vida e na ação de Jesus. Em Nazaré,
ele leu o texto do Dêutero-Isaías na sinagoga,
aplicando a si as palavras do profeta e fazendo entender que
os tempos messiânicos haviam começado. Isto trazia
dificuldade para os nazarenos, que pensavam num messianismo
feito de milagres, sinais e triunfos. Isto tornou o povo incrédulo,
excluindo o “hoje”
salvífico de Deus.
Mas,
quais os obstáculos que os nazarenos viram em Jesus?
01)
A sua encarnação. “Não
é este o filho do carpinteiro?"
(v.22). O povo esperava um Messias espetacular,
capaz de fazer milagres. Era impossível que o Messias
tivesse vindo de uma origem conhecida por todos. O provérbio
“Médico, cura-te
a ti mesmo” pode ter este significado:
“Olhe para você
mesmo, pobre, sem proteção social, incapaz
de libertar os próprios familiares da opressão
e da miséria”.
02) A busca
de milagres: “Faça
em Nazaré o que ouvimos dizer que você fez
em Cafarnaum” (v.23).
Jesus se recusou a ser ídolo, a fazer sinais em
benefício próprio, não quis o prestígio
do poder.
Por
isso, a situação de Jesus foi igual à
dos profetas antigos rejeitados. Jesus lembra o episódio
de Elias e Eliseu. A rejeição dos profetas serve
de ocasião para que Deus se manifeste aos que estão
fora de Israel e os salve. |
REFLEXÃO |
| Os
conterrâneos de Jesus não o aceitaram. Isto nos
faz pensar que não basta um certo relacionamento com
Jesus para sermos salvos. Não basta nascermos numa
família cristã.
Para
muitos, Jesus é apenas um guarda-chuva protetor, é
invocado apenas para pedir proteção. Como quando
o tempo está bom o guarda-chuva é esquecido,
não há necessidade dele, assim a fé se
torna uma coisa chata, inútil, sem valor. Devemos perguntar-nos
se não estamos contaminados com a mentalidade secular
do nosso tempo, com o descartável. Se nossa fé
não é só um resíduo, se o ser
cristão representa algo importante.
Quem
segue Jesus o segue com amor, como um profeta que se empenha
no seguimento feito de amor, de doação...
Exprime
o seu empenho na oração, no perdão e
sobretudo na conversão, na luta contra o mal, o orgulho,
a ambição, a sensualidade, o egoísmo
etc.
Os
nazarenos expulsaram Jesus da cidade porque ele tinha se proclamado
Messias. Nós o expulsamos todas as vezes que preferimos
outros deuses e não o reconhecemos como nosso Senhor.
Jesus,
no discurso da sinagoga, declara-se ungido pelo Espírito
Santo para a libertação do homem, o mesmo Espírito
que falou pelos profetas do Antigo Testamento e atua na comunidade
eclesial com dons e carismas. Este Espírito não
é suficientemente conhecido e vivenciado pela maioria
dos cristãos.
Paulo
nos lembra o chamado “hino
da caridade” e diz que a virtude da
caridade não é um mero humanitarismo. Nosso
amor não se confunde com a atitude sentimental, nem
com a simples camaradagem, nem com o propósito de ajudar
os outros para provar a nós mesmos que somos superiores.
O amor do próximo é o mandamento novo, o distintivo
do cristão. Nele a medida do nosso amor ao próximo
é o próprio amor divino: “Como
eu os amei”. O amor que Deus colocou
em nossos corações é sobrenatural.
Sem
a caridade tudo é vazio. A eloqüência mais
sublime de todas as obras seria como o bater de um sino que
dura um instante e desaparece. A falta de caridade embota
a inteligência para o conhecimento de Deus e da dignidade
do homem. Quem não ama não conhece a Deus.
Paulo
aponta as qualidades que adornam a caridade:
A
caridade é paciente. A paciência
é necessária para nos fazer aceitar com
serenidade os possíveis defeitos, as susceptibilidades
ou o mau humor das pessoas. É uma virtude que nos
leva a esperar o momento apropriado para corrigir, a dar
uma resposta amável. É uma grande virtude
para a convivência. Por meio dela imitamos Deus,
que é paciente com nossos erros.
A
caridade é benigna, ou seja, disposta
a acolher a todos com benevolência. A benignidade
só se enraíza num coração
generoso.
A
caridade não é invejosa,
pois da inveja nascem inúmeros pecados contra a
caridade: a murmuração, a satisfação
com a adversidade do próximo e a tristeza diante
de sua prosperidade. A inveja é, como diz São
Tomas de Aquino, “a
mãe do ódio”.
A
caridade não é jactanciosa,
não se ensoberbece. Sem humildade não pode
haver amor. O orgulhoso não consegue olhar para
além de sua pessoa, de suas qualidades, de seus
talentos, e neste panorama mesquinho os outros nunca aparecem.
A
caridade não é interesseira.
Não pede nada para a própria pessoa, dá
sem calcular o que pode receber de volta.
A
caridade não guarda rancor,
não conserva agravos pessoais, tudo desculpa. A
caridade crê em tudo, tudo espera, tudo suporta,
sem nenhuma exceção.
A
caridade nunca termina. A fé será
substituída pela visão beatífica,
a esperança pela posse de Deus, mas a vida eterna
será um ato ininterrupto de caridade.
A
caridade nos insta continuamente a ser ativos no amor com
uma palavra amável, evitando a murmuração,
dirigindo uma palavra de alento, intercedendo junto a Deus
por alguém, dando um bom conselho, sorrindo, ajudando
a criar um clima mais descontraído e risonho na família,
no trabalho... Quando crescemos na caridade, todas as virtudes
se enriquecem e se tornam mais fortes. E nenhuma delas é
virtude verdadeira se não estiver impregnada de caridade.
“Você tem tanto
de virtude quanto de amor, e não mais”. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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