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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
Tempo Comum
3°
DOMINGO
24 de Janeiro de 2010
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Primeira
Leitura
Neemias 8,2-4.5-6.8-10
O
POVO OUVE A LEITURA DA LEI COM RESPEITO |
Antes,
este livro fazia parte do livro das Crônicas junto com
o livro de Esdras. Depois foi separado. O livro tomou o nome
do protagonista da reconstrução política,
religiosa, civil e social do povo bíblico, depois do
exílio da Babilônia. Ele se tornou governador
dos repatriados na Judéia, que havia se tornado Província
persa. O exílio de 587 a.C., com a conquista de Jerusalém
e a deportação do povo para a Babilônia,
terminou em 538 a.C. com o edito do rei Ciro (rei
persa que pôs fim ao Império babilônico),
que permitiu aos judeus voltarem à pátria e
reconstruírem as cidades e o Templo.
No
centro do livro de Neemias está a palavra de Deus proclamada
e praticada pelo povo bíblico. A centralidade de Deus
e de sua palavra é o sinal da importância que
o povo dá à dimensão religiosa depois
da catástrofe. Depois desta, a primeira reconstrução
é sempre a moral e religiosa.
Os
acontecimentos narrados em nosso texto situam-se no primeiro
dia do sétimo mês do ano 444 a.C. Tempo de dificuldade
para o povo que voltou do exílio babilônico.
Liderado pelo sacerdote Esdras e pelo governador Neemias,
o povo tenta reconstruir o país, recuperar a memória
do passado e conservar sua identidade de povo livre. Mas para
se unir num objetivo comum precisa de um instrumento, e este
é a palavra de Deus, centro da atenção
do povo. Esdras, sacerdote, viu a palavra de Deus guardada
não só na memória, mas também
escrita, como o instrumento. Trata-se do núcleo central
do Deuteronômio, a lei de Estado para Israel, a lei
principal.
Os
versículos descrevem em detalhes a celebração
da palavra de Deus e suas conseqüências:
01)
Em cima de um palanque, Esdras promulga
a Lei (Torá) diante de uma assembléia reunida
na praça. Ali estão homens, mulheres e todos
que eram capazes de entender. Portanto, a
palavra congrega.
02) Todos
ficam de pé diante da palavra e a ouvem atentamente.
A Palavra é proclamada
do palanque, para que todos possam ver
o livro.
03) A Palavra
ouvida gera reações em todos, que erguem
as mãos (disposição para
rezar), provoca a fé (todos dizem
Amém) e conduz ao recolhimento (todos
ficam de joelhos e prostrados), gestos que na
Bíblia são reservados a Deus. Assim, Deus
é adorado.
04) Esdras
lê e explica a Palavra, e a atualiza para que se
torne iluminação na vida do povo e alicerce
para a construção do país. Neste
sentido, a Palavra serve-se
de mediações hermenêuticas.
05) O povo
tem reações diante da Palavra: chora e fica
triste. Por quê? Talvez devido à distância
entre o que foi proclamado e a realidade vivida pelo povo,
ou devido à constatação de que tudo
está para ser feito. Contudo, a
Palavra não quer ser motivo de
frustração para o povo, mas luz
e esperança.
O
sacerdote Esdras vem da Babilônia com um encargo especial
do rei da Pérsia: promover na Judéia e em Jerusalém
a observância da Torá, que o rei havia elevado
a lei de Estado (Esdras 7,25s).
A
lei devia ser constituída pelas antigas leis de Israel,
dos sacerdotes e do Deuteronômio, recolhidas em um “corpo”
único, não diferente do Pentateuco.
Nesta
liturgia que Esdras proclama todos participam sem nenhuma
distinção. A única condição
é a capacidade de escutar.
A
palavra proclamada suscita a partilha dos bens entre o povo.
É a partilha que leva à criação
de uma nova sociedade. É assim que o futuro se constrói
e a esperança se realiza. Este é o primeiro
fruto maduro da nova sociedade. |
Segunda
Leitura
1
Coríntios 12,12-31a
COMPARAÇÃO DO CORPO E DOS MEMBROS |
O
contexto deste trecho compreende grande parte do capítulo
12 desta carta, onde Paulo se esforça para conduzir
a comunidade dividida à união, eliminando os
litígios e as incompreensões.
A
comunidade de Corinto havia experimentado a presença
do Espírito Santo, que tinha se manifestado na variedade
de carismas. Portanto, era preciso insistir na unidade na
pluralidade. Paulo mostra que os carismas recebidos não
eram para ser usados em benefício próprio, como
estava acontecendo, com o conseqüente desprezo dos demais.
Como
bom catequista, Paulo faz uma apologia do corpo, usando uma
comparação para que todos entendam. A apologia
do corpo e de seus membros era muito popular no mundo antigo.
Já se encontrava na liturgia egípcia do século
XII a.C. A diversidade de membros e de órgãos
não pode ser eliminada no corpo. Ele existe na diversidade.
Portanto, são muitos os membros no corpo, cada qual
com sua função. Assim como o corpo humano vive
a unidade na pluralidade de seus membros, também Cristo
tem muitos membros que são os cristãos e formam
um só corpo, a Igreja.
Paulo
não fala apenas do corpo físico, mas também
do corpo social, onde cada um tem seus valores e capacidades,
cada qual com seu jeito, e na diversidade dos membros chega-se
à unidade em Cristo, pois não existe mais distinção
em Cristo, visto que foi o Espírito Santo que uniu
na Igreja judeus, pagãos, homens e mulheres, gente
ignorante e culta.
Paulo
afirma ainda que os membros do corpo que parecem mais fracos
são os mais necessários. Os que parecem menos
dignos de honra se vestem com mais respeito, os menos apresentáveis
são tratados com mais cuidado. Aqui, portanto, ele
faz uma nítida opção pelos pobres, de
comunhão e de solidariedade (se um membro sofre,
todo o corpo sofre). Por isso, todos são iguais
com seus dons e, se houver necessidade de privilegiar alguém,
este seria o pequeno, o pobre.
Com
esta metáfora física, Paulo apresenta um argumento
profundo quando tratado à luz da fé (os
cristãos são o corpo de Cristo Ressuscitado)
e do Batismo (somos batizados em um só Batismo
para formar um só corpo). Devido à
fé e ao Batismo, os cristãos não devem
olhar suas funções na Igreja como pretensões,
reivindicações ou busca de lugares privilegiados,
mas colocar seus dons à disposição (catequista,
apóstolo, mestre...), a serviço da
unidade de todos. |
Evangelho
Lucas 1,1-4; 4,14-21
EM NAZARÉ, JESUS LÊ A PROFECIA DE ISAÍAS |
Com
este trecho se inicia a leitura contínua de Lucas nos
próximos domingos. O trecho tem duas partes:
a)
introdução
ao evangelho, que é compreendida
à luz das introduções que os clássicos
da literatura grega e latina faziam;
b) descrição
do início do ministério público de
Jesus, que leva as promessas do Antigo
Testamento ao cumprimento.
A
primeira parte compreende também a metodologia que
Lucas se propõe a adotar: fazer pesquisas acuradas
sobre tudo desde o início e escrever tudo de forma
ordenada, para mostrar a solidificação dos ensinamentos.
É, portanto, uma metodologia rigorosa. Isto é
importante para nós nos dias de hoje, em que o homem
sente-se dentro de dois fenômenos preocupantes: a secularização
e a indiferença.
A
segunda parte nos conduz ao culto sinagogal hebraico no tempo
de Jesus e nos abre para o sentido definitivo das profecias
do Antigo Testamento, que se realizam em Jesus. No tempo de
Jesus, o culto sinagogal devia ter o seguinte esquema:
a)
“Shemá
Israel” = escuta Israel (Deuteronômio
6,4; 9,11; 13,2) e “Shemonèh
Esrch” (Lucas 18);
b) duas leituras, uma do Pentateuco e outra dos profetas;
c) explicação ou homilia;
d) conclusão com a bênção sacerdotal
de Neemias 6,22-27.
Lucas,
ao escrever para Teófilo, diz-lhe que o que está
narrando não é fruto de especulação
à semelhança dos autores gregos daquele tempo,
mas objeto de um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu
desde o princípio. Para isso, Lucas pesquisou as tradições
existentes transmitidas por aqueles que desde o princípio
foram testemunhas oculares e ministros da Palavra. Com isso,
Lucas fala implicitamente que o seu Evangelho é uma
síntese da catequese primitiva. Para o evangelista,
o seguimento de Jesus é um fato histórico que
pode ser comprovado a partir de testemunhas oculares que transmitiram
esta experiência. Portanto, ter fé no Evangelho
é aderir à erupção de Deus na
história da humanidade na pessoa de Jesus.
Lucas
é um cristão da segunda geração.
Ele não viu Jesus, não é testemunha direta
de sua ressurreição. Nascido em Antioquia, foi
discípulo de Paulo. Ao escrever, faz uma síntese
das atividades de Jesus, situando-as na Galileia, onde ele
ensinava ao povo. Foi a força do Espírito Santo
que conduziu Jesus para o meio do povo marginalizado. Jesus
é ungido pelo Espírito Santo. O Espírito
Santo tomou posse de Jesus ainda no seio de Maria (Lucas
1,39). João Batista o apresenta ao povo como
aquele que vai batizar com o Espírito Santo (Lucas
3,16). Ao ser batizado no Jordão, recebeu
o Espírito Santo (Lucas 3,22). Foi
conduzido ao deserto pelo Espírito Santo (Lucas
4,1). Há, portanto, um verdadeiro Pentecostes
no início do Evangelho de Lucas.
Lucas,
logo em seu prólogo, escreve um período bem
construído segundo o estilo helenístico: com
argumentos, fontes, método e objetivo. Não é
uma história com narração de fatos, mas
uma confissão de fé, um testemunho kerigmático
daquele que nestes fatos manifesta o Salvador.
Lucas
diz que consultou várias fontes para escrever o seu
Evangelho. Usou Marcos, Mateus e testemunhas oculares da vida
pública de Jesus desde o Batismo até a Ascensão.
O
objetivo não era anunciar Cristo a quem já o
conhecia, mas confirmar na fé quem já havia
sido catequizado através de uma narração
de fatos que levassem a uma confiança plena e a uma
adesão a Jesus, sem incertezas. O evangelista quer
colocar nas mãos dos cristãos e dos evangelizadores
do seu tempo um texto seguro e incisivo.
Jesus,
para Lucas, não inicia sua missão à margem
da comunidade hebraica, mas no terreno onde os hebreus tinham
o alimento para sua fé, ou seja, a liturgia do sábado,
presidida na Sinagoga. Portanto, participando da vida do povo,
Jesus entrou na Sinagoga, abriu o livro de Isaías na
liturgia do sábado, presidida pelo chefe da Sinagoga.
Aqui Lucas faz uma descrição solene: todos fixam
os olhos nele, inclusive os doutores da lei. O trecho que
Jesus lê concentra mais a atenção de todos.
Ele faz ali a sua auto-apresentação e explicita
o programa de sua missão, mediante a aplicação
do texto a si mesmo. Tudo o que este profeta anônimo
anunciou se cumpria na pessoa de Jesus. Jesus tem consciência
de sua messianidade.
O
programa de Jesus era a boa nova para os pobres, os “anawim”,
os que viviam à mercê dos poderosos. A boa nova
é de libertação para os marginalizados:
para os presos, os cegos, os oprimidos, os sem forças
ou condições de resistir. Seu programa era a
proclamação de um ano de graça: todos
os endividados receberiam o indulto, uma vida nova com a partilha
dos bens, a plena posse da vida. Seu programa de vida se inspirava
no programa de Isaías (Isaías 61,1-2). |
REFLEXÃO |
| Na
liturgia do domingo passado Jesus se manifestou em Caná,
na intimidade de uma festa nupcial. Hoje se manifesta na Sinagoga
de Nazaré, sua cidade, evidenciando a dimensão
universal de sua presença.
Na
primeira leitura, a Palavra de Deus é apresentada como
regra de vida para o povo hebreu e o Evangelho vê esta
Palavra realizada nas ações e na pessoa de Jesus.
Hoje
inicia o tempo “per annum” com o evangelista Lucas.
É o ciclo C. Este tempo é visto como o período
em que a Igreja é constituída como corpo através
da palavra e da Eucaristia.
O
aspecto particular que colhemos na liturgia é a atitude
do cristão diante da Palavra ouvida e praticada. É
a eficácia desta Palavra que pode transformar em salvação
a vida do cristão de cada dia.
Em
Jesus o homem tem certeza de que Deus é sempre fiel
à sua Palavra e as suas promessas.
O
trecho do Evangelho de hoje abre a história do ministério
de Jesus na Galileia. Na Sinagoga Jesus confirma a realização
dos vaticínios de Isaías (61,1s).
Jesus se encontra na Sinagoga para a liturgia, à qual
assistia regularmente, onde era lida a primeira leitura do
Pentateuco, depois comentada por um especialista. Uma segunda
leitura, tirada dos profetas, podia ser lida por qualquer
homem com mais de 30 anos. Jesus se pôs a ler o trecho
de Isaías, aplicando a si as palavras do profeta e
expondo um programa de salvação integral do
homem, de todas as situações de escravidão,
quer fossem fruto do pecado social ou do pecado individual.
O
conteúdo fundamental da libertação de
Jesus é a salvação, o amor e a graça
libertadora de Deus, porém esta supõe a prática
da justiça social e a conversão ao amor do irmão.
Portanto, para o cristão continuar a missão
libertadora de Jesus deve fazer a denúncia profética
da opressão e da exploração, promovendo
a justiça. Não devemos nos esquecer que a libertação
cristã é salvação do pecado, e,
portanto parte essencial da evangelização, mas
também é promoção integral do
homem, e, portanto, parte integrante da evangelização
(cf. EN 26-31).
“A
teologia da libertação, mais do que uma teoria,
é antes de tudo uma tomada de consciência da
situação e necessidade que todo homem tem,
sobretudo o mais rebaixado humanamente, de libertar-se integralmente
de toda escravidão: interior (pecado)
e exterior (conseqüência
do próprio pecado, alheio ou social), para
alcançar a dignidade pessoal, sua condição
humana e sua categoria de filho de Deus. Só assim
se realiza o programa de salvação plena do
homem em Cristo ressuscitado, como o próprio Jesus
expôs na Sinagoga de Nazaré”.
Devemos
encarnar dinamicamente nossa fé na vida e no mundo,
e isto exige uma práxis libertadora do homem. A missão
libertadora de Jesus hoje continua conosco. Devemos restabelecer
a dignidade e alta vocação do homem, recuperando
nele a imagem de Deus deformada por tantas escravidões.
Devemos fazer como o especialista que restaura uma pintura
deteriorada pelo tempo, dando-lhe o colorido que saiu do pincel
do pintor.
“A
vocação da Igreja é estar presente
no coração do mundo anunciando a boa nova
aos pobres, a libertação aos oprimidos e a
alegria aos aflitos. Toda ação que se desenvolve
no mundo em favor da justiça, paz, fraternidade e
verdade, embora não nomeie expressamente a Deus,
não é alheia ao dinamismo do Evangelho”.
A
primeira leitura narra que o povo, depois de tantos anos de
desterro na Babilônia, já em solo judaico recebe
explicações do sacerdote Esdras sobre o conteúdo
da Lei que haviam esquecido nas terras de exílio. Ao
ouvir a Palavra, aqueles homens choravam de alegria ao reconhecerem
novamente a lei de Deus. Ouviam-na em atitude vigilante. Da
mesma forma nós, ao ouvirmos a Palavra, deveríamos
ter a mesma atitude. Santo Agostinho diz: “Devemos
ouvir o Evangelho como se o Senhor estivesse presente e nos
falasse”. Mas não basta ouvi-lo,
não basta dizer “Glória
a vós, Senhor”, não basta
um simples assentimento a suas palavras. É preciso
louvá-lo com obras, com gestos concretos.
Lucas
fala no Evangelho que resolveu passar a vida de Cristo por
escrito para que conhecêssemos a solidez dos ensinamentos
que recebemos. Portanto, o cristão tem a obrigação
de conhecer profundamente a doutrina de Jesus, pois nunca
deve se conformar com os conhecimentos que já possui.
Assim como na vida profissional: um médico, um engenheiro,
um advogado, se quiserem ser bons profissionais, nunca devem
dar seus estudos por concluídos ao saírem da
faculdade, mas devem continuar em formação,
com o cristão deve acontecer o mesmo. Não basta
conhecer o catecismo.
Uma
fé pouco fundamentada, como por exemplo, “Eu
creio em tudo, embora não saiba do que se trata”,
não é suficiente para o cristão, pois
ele deve conhecer os argumentos necessários para enfrentar
os ataques dos inimigos da fé, e deve saber apresentá-los
de modo atraente, com clareza e precisão. “A
ignorância é freqüentemente filha da preguiça”,
diz São João Crisóstomo. Na luta contra
a incredulidade, é muito importante ter um conhecimento
exato e completo da teologia católica. Ser instruído
no catecismo é ser um autêntico missionário.
Não se ama aquilo que não se conhece. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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