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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
02 DOMINGO TEMPO COMUM
16 de Janeiro de 2011

Primeira Leitura
Isaías
49,3.5-6
O SERVO DE JAVÉ, LUZ DAS NAÇÕES
O texto pertence ao segundo cântico do Servo de Javé. O contexto é o exílio na Babilônia e o profeta alimenta a esperança do povo dizendo que em breve ele voltará à pátria e a libertação acontecerá por meio de um personagem apresentado por Javé como sendo o seu Servo. O texto apresenta uma autobiografia do profeta, que foi chamado desde o seio materno para uma missão extraordinária. Esta referência autobiográfica está na mesma linha das confissões de Jeremias e se divide em duas partes:
01) O profeta elucida a sua vocação, a missão que recebeu e as dificuldades encontradas. Ele é chamado e tem uma missão concreta, associada à comunicação de algo muito importante (vv.2-3).
02) O Servo confirma a amplitude da sua missão, que é levar o anúncio ao povo de Israel. Ele faz isso com dedicação total a Deus, até à imolação de si próprio (Isaías 53). Assim, ele se torna luz e porta-voz da salvação até as extremidades da terra. Luz e salvação são temas encontrados em todo o livro de Isaías, e dizem respectivamente libertação, desenvolvimento e paz sob a Palavra de Deus e da sua misericórdia (Isaías 9,1; 53,11), assim como vida autêntica, plena e segura (Isaías 12; 53). A tradição cristã viu a realização desta missão na pessoa de Cristo (Lucas 2,32) e de todos os seus discípulos (Atos dos Apóstolos 13,47).

Este Servo é chamado Israel e Deus porá a sua glória sobre ele. Mesmo que o profeta queira tirar o corpo fora da tarefa da qual Deus o incumbiu, este não permite, aliás confirma a sua missão e a evidencia (v.6). Como Servo de Javé, ele é o executor de uma vontade superior e suprema. A glória de Javé está nele, isto é, através dele o povo verá a presença atuante de Deus na história, levando-o para a liberdade, pois esta é a missão do Servo: devolver a liberdade ao povo em nome de Javé.

Esta missão do profeta faz parte do projeto de Deus e por isso é o próprio Deus quem o modela desde o seio materno (Isaías 42,6). A sua missão será universal, e ele será luz para as nações.

Segunda Leitura
1 Conríntios
1,1-3

A SANTIDADE, DESTINO DO CRISTÃO

Paulo evangelizou em Corinto e ali fundou uma comunidade, formada por pagãos e judeus, depois de um ano e meio (Atos dos Apóstolos 18,1-7). A maioria de seus membros era pobre (1 Coríntios 1,26), constituída de escravos e trabalhadores do cais. Passado algum tempo, Paulo tomou conhecimento da situação dessa comunidade por meio de informações pessoais e de uma carta que membros da comunidade lhe enviaram consultando-o sobre questões importantes.

Paulo ficou sabendo que havia conflitos internos, com divisões, incestos, fornicações etc. Por isso, mandou-lhes esta carta de Éfeso, onde se encontrava no ano de 57, orientando-os sobre questões importantes e polêmicas, como a das carnes sacrificadas aos ídolos, a ressurreição dos mortos e inclusive uma coleta que devia ser feita para ajudar as comunidades pobres de Jerusalém.

O texto é a introdução da carta, na qual Paulo se autodefine como apóstolo de Cristo por vontade de Deus. Essa autodefinição era importante, porque a autoridade do apóstolo era contestada em Corinto (1 Coríntios 9).

Paulo insiste no binômio Jesus Cristo, que para ele não era um nome e um sobrenome, mas sim: Jesus - a sua identidade pessoal e Cristo - a expressão da missão no mundo daquele que está na raiz da sua fé e da fé dos coríntios, e do seu empenho missionário em relação aos coríntios.

O reconhecimento de que Jesus é o Cristo, isto é, o Messias esperado por Israel, foi a novidade que revolucionou a sua vida e o levou a pregar em Damasco logo depois da sua conversão (Atos dos Apóstolos 9,22) e em Antioquia. Foi nesta cidade que surgiu um fato novo, pois pela primeira vez os seguidores de Cristo foram chamados cristãos (Atos dos Apóstolos 11,36) e desta mesma comunidade ele foi enviado com Barnabé para pregar o Evangelho no mundo inteiro (Atos dos Apóstolos 13,1-3). Devido às suas viagens apostólicas, Paulo fundou a comunidade de Corinto com o vigor de pregar Jesus Cristo crucificado (1 Coríntios 2,2), o Cristo escândalo para os judeus e loucura para os pagãos (1 Coríntios 1,23-24).

Paulo sente-se apóstolo de Cristo, e por esse Cristo os cristãos são santificados na Assembléia que dá testemunho dele.

Evangelho
João
1,29-34
"EIS O CORDEIRO DE DEUS"

Este trecho tem como ponto de partida o testemunho de João Batista sobre Jesus Cristo. O evangelista articula este conhecimento em três momentos sucessivos, colocados nos três dias iniciais da semana que prepara a manifestação pública de Jesus:

01) A resposta do precursor sobre a sua própria identidade aos enviados oficiais de Jerusalém (João 1,19-28).
02) A sua profissão de fé sobre a identidade de Jesus, que é dirigida a todos (evangelho de hoje).
03) A reafirmação dessa profissão diante de dois de seus discípulos que se tornaram os primeiros de Cristo (João 1,35-39). O evangelista é um deles.

Este testemunho de João Batista é muito apreciado por Jesus (João 1,6-8.15), seja pela intenção de integrar a sua obra aos Sinópticos, seja por motivos apologéticos e catequéticos em relação aos seguidores de João Batista ainda presentes e ativos em Éfeso (Atos dos Apóstolos 19,1-7). De fato, João apresenta:

01) As prerrogativas que João Batista reconhece em Jesus, sendo Jesus antes de tudo o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Esta expressão ajuda a entender o vocábulo “talia”, que significa cordeiro ou servo. João Batista indicou de modo evidente Jesus como a figura do Servo de "JHWH", que em Isaías 53 assume e expia os pecados. Assim, Jesus é o Cordeiro que tira o pecado (no singular), implicando o conjunto de pecados vistos numa organicidade dentro daquilo que João chama de mundo.
02) Só pode tirar o pecado aquele que preexiste, porque é o maior em grandeza divina e preexiste eternamente (João 1,15). Ele tirará o pecado com o Batismo ou a imersão no Espírito Santo, isto é, com o germe de vida nova com o qual a força criadora de Deus queima a raiz infectada. Ele possui o Espírito, como se esperava do Messias e de sua obra (Isaías 11,2; 42,1), e o doa sem medidas (João 3,34). Enfim, para João Jesus é o Filho de Deus. Aqui está o vértice da sua profissão de fé, que para João Batista tinha um significado messiânico.

Esta identificação de Cristo foi um dom de Deus. João Batista afirma que não o conhecia, mas que o conheceu através de dois caminhos:

01) Pela sua missão de batizar com água para preparar o seu Batismo no Espírito Santo.
02) Através de uma verdadeira revelação que antecedeu e acompanhou o Batismo de Jesus no Jordão, onde viu o Espírito permanecer sobre Ele e ouviu a voz de Deus proclamá-lo como Filho de Deus. Ele acreditou e testemunhou isso.

Para João Batista, Jesus é ungido pelo Espírito Santo para a missão. O Espírito Santo sobre Ele indica a sua missão como Messias. O simbolismo da pomba que pousa sobre Jesus possui o significado de que ele é a morada do Espírito Santo, o seu hangar natural e querido. A pomba representa o amor do Pai, que fez de Jesus a sua habitação estável e definitiva.

Jesus é para João Batista o Filho de Deus, porque o Pai o gerou, porque lhe comunicou a sua vida, isto é, porque ele possui a plenitude da vida do Pai (João 1,27; 20,28; 20,31).

REFLEXÃO

A liturgia nos convida a acolher Jesus Cristo como João Batista o acolheu. Jesus vem hoje em nossa direção de muitos modos e nos pede que o reconheçamos e acolhamos. Nós só poderemos fazer isso seguindo João Batista, que o reconheceu através dos dois caminhos, isto é, naquilo que fazemos no dia-a-dia e escutando o Espírito Santo em nós. Os dois caminhos são necessários.

Precisamos reconhecer Jesus como Filho de Deus ou como Cordeiro de Deus. Como Filho de Deus, e não como alguém distante de nós; como Cordeiro de Deus, não para negar o pecado em nossa vida, diante da sociedade secularizada.

A mensagem da primeira leitura é um pré-anúncio de Cristo. Este oráculo, como todos os demais, situa-se dentro da história, pois o Messias não é esperado como um salto repentino ou mágico, mas dentro de um tempo de amadurecimento, de um caminho feito de sofrimento, solidariedade, fé, esperança e sobretudo de conformação à vontade de Deus.

Os versículos 33-34 do evangelho de hoje são uma boa oportunidade para falar sobre o Batismo, pois hoje os cristãos pedem o Batismo, a Crisma e a Eucaristia para seus filhos, mas não sabem o que significam. O Batismo às vezes é apenas ocasião para apresentar o filho aos amigos, para festejar etc. O mesmo acontece com os outros sacramentos. O Batismo é um novo início de vida e não uma inscrição burocrática ou uma cerimônia sugestiva que termina ali, nem mesmo o cancelamento do pecado original. É vida nova por obra do Espírito Santo (Romanos 6,4), vida que deve ser tutelada, que deve desenvolver-se e crescer. E a família é o primeiro ambiente onde essa vida deve desenvolver-se.

Quem foi batizado (santificado) foi chamado para ser santo. Santificar-se para ser santo. É o famoso “já e ainda não”. Já somos santos porque a graça que Deus nos doa nos faz tal, mas devemos ser sempre mais. A pequena semente deve tornar-se árvore e produzir frutos. Tornar-se luz das nações (1ª leitura) é a missão do Servo de Javé, de Jesus e de todo cristão. Por isso não se pode viver segundo a carne, mas com a ajuda do Espírito Santo (Romanos 8).

Com a declaração de João Batista sobre Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele...” palavras que conhecemos muito bem porque numa intuição feliz foram inseridas na liturgia (Papa Sérgio I, 687-701), João revela a possibilidade de um encontro que pode ocorrer em profundidade e dar respostas a nossas aspirações. Para quem sente o sofrimento devido ao pecado, estas palavras, mesmo em sua obscuridade, atraem imediatamente. Aquele que se apresentou como Cordeiro de Deus pode transformar a situação de todos. Jesus é capaz de transformar profundamente o nosso íntimo, porque foi designado por Deus como Servo para se tornar luz das nações e levar a salvação aos confins do mundo (Isaías 49,6).

Cristo é o salvador. Entretanto, após vinte séculos de luz da revelação, o mundo ainda não o conhece. Numa pesquisa sobre Cristo no final do século XX, as respostas foram: “Não o conheço”; “Alguém que foi crucificado...". Dois mil anos depois ainda são atuais as palavras de João Batista: “No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem.”

João Batista deu testemunho de Jesus com duas afirmações: o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (v.29) e “Eu vi e dei testemunho de que este é o Filho de Deus” (v.34).

Repetimos a primeira declaração de João quatro vezes na celebração eucarística. Jesus é o Cordeiro imolado que com seu sacrifício e sangue anulou os sacrifícios do Antigo Testamento (Hebreus 10,1-18). Pelo seu sangue recebemos o perdão dos pecados (Efésios 1,7), fomos resgatados não com ouro ou prata, mas com o preço do seu sangue (1 Pedro 1,18-19). O cordeiro pascal que era sacrificado cada ano no Templo lembrava não só a libertação, mas também o pacto que Deus havia feito com o seu povo. Era uma promessa e uma figura de Cristo que iria oferecer-se como vítima na cruz. “Ele é o Cordeiro de Deus que tirou o pecado do mundo, que morrendo destruiu a morte e ressuscitando nos deu a vida” (Prefácio).

Ele tira o pecado do mundo. Esse “pecado do mundo” engloba todos os pecados. Ele se imolou com mansidão absoluta para reparar nossas faltas, pois “o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (Mateus 18,11), “lavou os nossos pecados no seu sangue” (Apocalipse 1,5).

Jesus veio trazer-nos a santificação e esta percorre um caminho de purificação. Temos isto através do sacramento da Confissão, e cada vez que o recebemos ouvimos, como Lázaro, as palavras de Cristo: “Desatem-no e deixem que ele vá”, porque as faltas, as fraquezas, os pecados que nos atam não nos deixando prosseguir no caminho da santidade são eliminados. O sacramento da Penitência rompe todos os liames com que o demônio tenta segurar-nos para que não apressemos o passo em direção a Deus. A confissão tira a nossa tibieza. Eis um dos tantos motivos porque a Igreja no-la recomenda com freqüência.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
"

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