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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
Tempo Comum

2° DOMINGO
17 de Janeiro de 2010

Primeira Leitura
Isaías 62,1-5
RESTAURAÇÃO DE JERUSALÉM

O trecho faz parte da composição unitária do profeta anônimo Terceiro Isaías. O profeta incentiva a comunidade pós-exílica. Neste período, Jerusalém era uma cidade insignificante, pois Nabucodonosor a havia destruído, levando sua população para o cativeiro. Estamos nos anos 537-521 a.C. Jerusalém é considerada uma viúva desprezada por Javé. O país estava destruído, o que gerou desânimo no povo. Ele se perguntava: Será que Deus abandonou o seu povo devido à infidelidade?

O ambiente é o do retorno do exílio em 538 a.C., beneficiado pelo decreto de Ciro. Jerusalém estava destruída, não tinha muros nem templo. O profeta se apresenta como sentinela em seus muros, anunciando a volta do esposo com a mesma ansiedade com que a sentinela espera a aurora. Diz que Javé virá para fazer justiça aos que exploraram seu povo (v.1). Ele é comparado ao sol e sua volta vitoriosa com a aurora, e com ele chegará a justiça e a vitória (v.2). Jerusalém será como um diadema entre as mãos do Senhor (v.3). Ele se posicionará do lado dos fracos. Jerusalém brilhará como uma chama acesa. Javé é considerado como um jovem apaixonado que encontra prazer no amor de sua amada (Oséias 2,21). O profeta afirma assim sua fé inabalável em Javé.

O profeta tem a admiração de todas as nações e reis. Emerge, assim, o tema da salvação universal (Isaías 2,2; 42,6; 49,6). A luz da cidade santa atrairá todos ao monte santo de Sião. Deus imporá um novo nome a Jerusalém, o que exprime um novo relacionamento de amor entre Deus e a cidade santa. O profeta não encontrou termo mais forte que o casamento entre Deus e o seu povo.

Segunda Leitura
1 Coríntios 12,4-11
DIVERSIDADE DOS DONS DO ESPÍRITO

Nos capítulos 12 a 14 desta carta, Paulo aborda o tema das experiências carismáticas vividas pelos cristãos. Já no Antigo Testamento eram atribuídas ao Espírito de Deus manifestações poderosas como previsão do futuro, visões etc. Para o Novo Testamento, os profetas previam o espírito de Deus com seus dons presentes, entre os quais a mudança do coração dos homens (Ezequiel 36,26). Joel previu que o Espírito de Deus seria dado a todo o povo eleito (Joel 3,1; Atos dos Apóstolos 2,14-21). Pedro declarou que esta profecia se realizou no Pentecostes. Os próprios Atos dos Apóstolos manifestam a presença ativa do Espírito em diversas ocasiões, como na atividade dos apóstolos e colaboradores para o bem da comunidade.

Nesta carta Paulo se empenha em esclarecer os cristãos para que não façam confusão entre certas experiências estáticas dos pagãos e os dons suscitados pelo Espírito de Cristo para a comunidade. Em nosso texto, Paulo fala que as experiências carismáticas não vêm de um poder oculto, mas têm o Espírito Santo como única fonte. Os carismas não são dados para a distinção de quem os recebe, para se isolar dos outros, mas para o bem da comunidade. Os dons não são méritos dos homens, porque todos vêm da mesma raiz e são dados para o mesmo fim.

A comunidade de Corinto foi fundada na segunda viagem missionária de Paulo (Atos dos Apóstolos 18,1-10). Era formada por gente pobre e vinda do paganismo. Entre eles haviam sido eliminadas as barreiras de sexo e raça. Porém, existia o problema dos carismas, pois alguns só davam importância aos carismas que geravam impacto, como falar em línguas, curar, profetizar. Eram somente dons extraordinários, com o objetivo do enaltecimento. Em vista disto, Paulo os adverte que todos os carismas são importantes, porque vêm do Espírito Santo. Ensina que os carismas não são dons para que aquele que os recebeu se orgulhe, mas para serem colocados a serviço da comunidade.

Corinto havia correspondido à altura à pregação de Paulo, que fez sua primeira experiência de evangelização entre os pagãos. Por isso, esta comunidade estava muito em seu coração: “A nossa carta são vocês, carta escrita em seus corações, conhecida por todos os homens e lida por eles” (2 Coríntios 3,2). Mas, apesar da fidelidade dos coríntios, eles ainda se achavam condicionados pela mentalidade pagã, que provocava desordens, sobretudo nas assembléias. As mulheres, para se auto-afirmarem, não colocavam o véu nas celebrações, que também eram profanadas pela falta de partilha dos alimentos com os pobres. Até os carismas, que deviam exprimir sua presença na comunidade como veículo de amor e união, eram usados individualmente para a busca de emoções espetaculares, ambições e egoísmo. Particularmente o carisma da glossolalia, ou seja, da oração estática, que se exprimia com sons inarticulados, gemidos e gritos. Era difícil avaliar se as pessoas eram movidas pelo impulso do Espírito Santo ou por efeito da exaltação, o que se verificava também entre os pagãos.

Paulo ficou sabendo da situação incômoda e crítica dos coríntios através de cartas, que lhe pediam esclarecimentos sobre os carismas. Membros desta comunidade pensavam que o Espírito se manifestasse com dons extraordinários e quem não os possuísse não tinha o Espírito. Paulo explica que os carismas são muitos e todos os recebem na comunidade. Observa que os carismas são para o bem da comunidade e não para benefício pessoal (cap. 12). Exalta a caridade como dom acima de todos (cap. 13) e explica a hierarquia dos carismas. Exorta os coríntios dizendo que a única finalidade dos carismas é o bem de todos, e assim a vida de cada um que recebe os dons do Espírito Santo se torna uma transferência do dinamismo interior do Espírito, que age profundamente em cada membro do corpo místico de Cristo.

Depois de mostrar a unidade dos carismas, Paulo dá uma lista deles para mostrar sua variedade e diversidade. Inicia com os dons. Dá ao cristão um conhecimento mais alto das verdades divinas (sabedoria) e também o mais ordinário (ciência), sempre para o bem comum.

Evangelho
João 2,1-12

BODAS EM CANÁ DA GALILÉIA,
COM A PRESENÇA DE JESUS E MARIA

As bodas de Caná são o primeiro sinal com que Jesus revelou-se. Ele inaugura a nova Aliança trazendo o vinho novo. Os cinco primeiros discípulos não haviam entendido a sua verdadeira identidade. O diálogo com Natanael se conclui com a afirmação: “Verei o céu aberto e o Filho do Homem...” (João 1,51). O milagre de Caná manifestou sua verdadeira glória e teve para os discípulos o valor de uma autêntica Epifania. Este milagre relatado por João não tem semelhante nos sinóticos. São João declara com estas palavras o principal valor teológico deste milagre: “Manifestou a sua glória e os discípulos creram nele”. Com este milagre abriu-se na terra a história da salvação e foi proclamado o início do cumprimento da salvação. O outro motivo teológico proclamado neste acontecimento é que daquele momento em diante Jesus era o único caminho da salvação. A quantidade de seiscentos litros de vinho oferecidos indica a superioridade do caminho da salvação em comparação com o Antigo Testamento.

Este evento ocorreu três dias depois do encontro de Jesus com Natanael em Caná, localidade próxima de Nazaré (6 km). O vinho era elemento indispensável numa festa. Neste acontecimento, Jesus (elemento cristológico) e Maria (elemento mariológico) são figuras centrais e Maria tem sua parte na cena. Como intercessora ela apressa o milagre. Este é um exemplo da solicitude maternal de Maria, que se mostra sensível às necessidades do próximo.

Com as seis talhas usadas para abluções rituais, Jesus transformou a água em vinho, indicando a superação do ritualismo judaico, exigente e hipócrita. A abundância do vinho faz alusão ao cumprimento das profecias dos bens escatológicos previstos para a vinda do Messias.

REFLEXÃO

As bodas são uma espécie de ícone, de símbolo, para entender a realidade do Deus de Abraão. A imagem do casamento expressa a verdadeira realidade do Deus verdadeiro e misericordioso. Por isso, no AT os profetas manifestavam os sentimentos íntimos de Deus com palavras de um namorado à namorada (1ª leitura).

Com a vinda de Jesus foi inaugurada uma nova fase para a humanidade. A nova Jerusalém, depois da conquista de Davi pelo ano 1000 a.C., tornou-se capital do reino de Judá, centro religioso e político do povo eleito, embora durante alguns séculos tenha tido a concorrência da Samaria, capital do reino do Norte, depois destruída em 721 a.C. Toda a história da salvação gira ao redor de Jerusalém, porque Deus a escolheu para morar nela. Os profetas a negam e ameaçam, mas também a celebram e exaltam como esposa de Javé. Mesmo que seja abandonada por um tempo, é retomada mais tarde com imenso amor (Isaías 54,7). Jerusalém é idealizada para exprimir a intensidade do amor de Deus por seu povo. Seu processo de espiritualização chegou ao ponto mais alto com Paulo e João no Apocalipse, onde ela é identificada com a Igreja (Gálatas 4,24-26).

Jerusalém é muito importante na tradição hebraica: “Dez partes da beleza foram dadas pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes da sabedoria foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes de sofrimento foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove” (Talmude). Jerusalém está no centro do destino de Israel, por causa da Aliança com Javé.

Jesus estava iniciando seu ministério público e Maria, que sabia que ele era o Messias, pediu-lhe sem exigir, expondo uma necessidade. Parecia que Jesus não ia atendê-la, porém Maria se comportou como se tivesse sido atendida e pediu aos servos: “Façam tudo o que ele lhes mandar” (João 2,5). E o milagre aconteceu por causa de sua intercessão. As petições aos santos são de serviço. As de Maria são de Mãe, daí a sua eficácia. Maria é suplicante onipotente porque o seu filho é Deus e não pode negar-lhe nada. Se ela conseguiu do seu Filho o vinho, que não era tão importante, não haverá de nos socorrer em nossas necessidades?

A leitura do Evangelho relata uma boda celebrada em Caná da Galiléia, onde focaliza como personagens principais não os noivos, mas Jesus e Maria, podemos dizer há neste relato um nível Cristológico e Mariológico.

A celebração deste domingo continua mostrando a manifestação de Jesus ao mundo: Epifania, Batismo e boda de Caná. No contexto do milagre de Caná manifesta-se a glória de Jesus (v.11), é a auto-manifestação de Jesus e ao mesmo tempo anúncio do banquete Messiânico do Reino de Deus.

Neste acontecimento houve a decisiva participação de Maria que com sua solicitude material mostra-se sensível à necessidade dos noivos e com isso, demonstra seu poder de intercessão junto a seu Filho que “Por sua maternal caridade cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigo e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria” (Lumen Gentium 62).

Maria esteve na boda de Caná, assim como Jesus, certamente porque havia uma amizade ou um parentesco com os noivos. Nesta ocasião era costume as mulheres prepararem tudo para a festa. No decorrer da festa, certamente pelo aumento de número dos convidados veio faltar vinho e Maria sabedora do que seu Filho era o Messias, intercede junto a ele: “Não têm vinho”. Jesus dá-lhe uma resposta evasiva, parecendo que Ele não iria atender ao pedido de sua Mãe, entretanto ela sabe no seu coração que será atendida e diz aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Maria é Mãe atentíssima a todas as necessidades. Porque o pedido de mãe tem diante de Deus tanta eficácia? Porque suas orações são de mãe, dai sua eficácia e autoridade.

A piedade cristã chamou Maria de Onipotência Suplicante porque seu Filho é Deus e nada lhe pode negar. Portanto, não devemos implorar-lhe com confiança, sabendo que ela nos conseguirá o que mais nos é necessário? Maria é Mediadora entre nós e Deus não como uma estranha, mas na posição de Mãe, consciente de que como tal pode, tem direito de tornar presentes ao Filho as necessidades de seus filhos.

Jesus podia ter realizado o milagre com as talhas vazias, mas não ele as quis até à borda “usque ad summum” porque quis que cooperemos com nossos esforços e com os meios que temos ao alcance.

Os comentaristas calculam que Jesus converteu em vinho uma quantidade que oscila entre 480 a 720 litros, de acordo com as capacidades das seis talhas de pedra. Aqui fica clara a abundância do dom, da mesma forma ficou clara a quantidade do dom na multiplicação dos pães.

O milagre em Caná serviu para os discípulos darem um passo à frente na sua fé incipiente e assim Jesus confirmou-os na fé.

Por fim o evangelista deixa-nos uma pérola de conselho saída da boca de Maria: “Fazei o que Ele vos disser”.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

 
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