Este
é o primeiro canto do Servo de Javé, um texto
que surgiu no exílio. É uma figura carismática
difícil de ser identificada do ponto de vista histórico.
Este personagem mis-terioso, o Servo ungido por Javé,
é apresentado pela primeira vez em toda a literatura.
Este
personagem possui alguns atributos e uma missão.
Possui o “Espírito
de Deus”, assemelhando-se aos juízes
do passado, aos líderes libertadores, que eram conside-rados
pelo povo como agindo com o Espírito de Javé.
Tem como tarefa o direito das nações, isto
é, a missão de realizar o projeto de Deus,
e é um intérprete desse projeto. Portanto,
a tarefa deste Servo é levar o direito às
nações (v.1b), missão
semelhante à dos sacerdotes a serviço de Deus.
O direito lembra a Lei que contém o plano de Deus.
O Servo será o porta-voz, isto é, deverá
interpretar como um profeta o projeto de Deus para o povo.
Por
ser assim, o Servo se parece com Moisés, pois terá
que renovar a Aliança feita com Israel e reconduzir
os exilados para a sua pátria, estabelecendo a verdadeira
reli-gião. Por isso, o autor serviu-se da terminologia
própria da criação para descrevê-lo:
“Eu te formei...”,
como o primeiro homem, pois este Servo começará
um mundo novo, uma nova criação, na qual os
cegos (os pagãos) abrirão
os olhos e os prisioneiros (is-raelitas)
serão libertados.
O
Servo terá o caráter de um homem de paz (v.2)
e será semelhante a Davi devido a suas lutas constantes
em defesa do povo (v.4).
Como
este Servo vai servir? Não como os poderosos, pois
ele não gritará, não quebra-rá
o caniço rachado, não apagará a mecha
que ainda fumega... (v.2). O caniço
rachado e a mecha que ainda fumega lembram a situação
do povo que, apesar do so-frimento e das injustiças
que padece, ainda tem um fio de esperança. O Servo
não consolidará o projeto de Deus massacrando
o povo, enganando-o com promessas e propagandas ilusórias.
Ao contrário, estabelecerá uma Aliança
com o povo, fazendo-o voltar a Javé, tornando-o luz
das nações, criando dimensões de justiça,
levando o direito, isto é, o “Mishpat”,
que não é uma legislação imposta
externamente, mas a capacidade de discernir e fazer o que
é justo. Por isso, o texto especifica a obra messiânica
de Jesus, e a tradição cristã o interpretou
na pessoa e na obra de Jesus. É, portanto, uma interpretação
cristológica, embora haja outras três hipóteses
de interpretação:
01)
Identificação com o povo
de Israel (interpretação coletiva).
02) Identificação
com um personagem histórico (interpretação
individual).
03) Identificação
com Israel escatológico (interpretação
coletiva individual), conforme a concepção
semita da personalidade incorporante.
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| A
festa do Batismo de Jesus encerra o tempo do Natal e abre
o tempo de reflexão sobre o ministério público
de Jesus. O mesmo Espírito que estava presente no início
da criação agora está presente no Jordão
para dar início à nova criação,
isto é, à redenção.
Esta
festa era celebrada no Oriente junto com a Epifania. Para
os orientais, só a partir do Batismo de Jesus a divindade
se uniu à sua humanidade. Assim, era possível
dizer que no Batismo o verdadeiro e completo Jesus havia nascido.
Com a reforma da liturgia em 1969, a festa do Batismo de Jesus
foi estabelecida e fixada no domingo depois da Epifania.
Santo
Agostinho dizia que no Novo Testamento está escondido
o Antigo Testamento e o Antigo Testamento por sua vez se torna
claro no Novo Testamento. Por isso, a liturgia de hoje nos
introduz nesta festa com um texto de Isaías, o qual,
depois de ter anunciado ao povo no exílio uma esperança
com uma vida liberta na terra prometida, anuncia a era messiânica,
apontando o Messias como Servo de Javé, no qual Javé
se compraz e põe o seu Espírito. Com isso, estabelece
a justiça, fazendo-o luz das nações e
salvação para o povo fechado no pecado.
Jesus
tinha cerca de 30 anos quando iniciou o seu ministério,
depois de viver em Nazaré como carpinteiro. Deixou
tudo (família, trabalho...) para ir
até o rio Jordão, onde foi batizado. João
Batista, filho de Zacarias e Isabel, foi previsto como precursor
para preparar os caminhos de Jesus e, depois de viver a sua
juventude no silêncio e na comunhão com Deus
no deserto, foi encontrar-se com o povo às margens
do Jordão, anunciando que o Messias estava para chegar
e era preciso converter-se.
Por
que o Jordão? Porque através do Jordão,
em cujas águas o povo passou, ingressou a arca da Aliança
e Josué introduziu o povo na terra prometida, e agora,
ainda através do Jordão, terá início
a libertação dos pecados e a introdução
no Reino messiânico, do qual a terra prometida era apenas
uma figura profética.
João
Batista tinha consciência de que o seu Batismo de conversão
dos pecados era apenas um prenúncio do Batismo do Messias.
Por isso pregava com honestidade que depois dele viria alguém
mais forte que ele, de quem não era digno de desamarrar
as sandálias. Entretanto, diante de João Batista
desfilava uma multidão de pecadores arrependidos e
desejosos do seu Batismo, mas, quando Jesus chegou para ser
batizado, achou que não podia submetê-lo a um
rito ao qual eram submetidos os pecadores. Por isso, ele o
contesta: “Eu preciso
ser batizado por Ti e Tu vens a mim?”.
Mas Jesus respondeu-lhe que era preciso cumprir toda a justiça,
isto é, tudo aquilo que o Pai desejava para concretizar
o plano de salvação dos homens, tomar sobre
si os nossos pecados para expiá-los na cruz. Por isso,
Jesus pede a João Batista que o imirja nas águas
do Jordão, lugar onde simbolicamente os pecados eram
descarregados, para fazê-los seus e expiá-los.
João
Batista atendeu ao pedido de Jesus e o batizou enquanto os
céus se abriam, o Espírito Santo pousava sobre
Ele e uma voz dizia: “Este
é o meu Filho amado”. Esta teofania
solene será explicada mais tarde pelo próprio
João Batista em João 1,29-34, ao apresentá-lo
como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, pois o
Espírito Santo que Jesus recebeu O consagrou como vítima
de expiação, como o cordeiro sacrificado na
noite da Páscoa, que era o sinal de libertação
da escravidão do Egito.
João
Batista afirma que viu e dá testemunho de que Jesus
é o Filho de Deus e o Espírito Santo desceu
do céu sobre ele em forma de pomba. Ele não
é apenas um homem extraordinário, mas o Filho
de Deus. Com o Batismo de Jesus, “as
portas dos céus se abriram”,
isto é, as portas dos céus, que estavam fechadas
devido ao pecado de Adão, se reabriram porque o Filho
de Deus expiou os pecados e por isso Jesus pôde dizer
ao bom ladrão na cruz: “Hoje
mesmo você estará comigo nos céus”.
Por isso, Tomás de Aquino disse: “Cristo
não foi batizado para ser purificado, mas para purificar”.
E Tertuliano afirma: “Ele
santificou a água com o seu Batismo”.
Portanto,
o Batismo de Jesus é imprescindível para o anúncio
do Evangelho. Sem ele o mistério da cruz seria incompreensível.
Por isso Pedro, ao escolher o substituto de Judas no colégio
apostólico, colocou como condição que
fosse alguém que “viveu
no meio de nós desde o Batismo de João Batista”.
O mesmo Pedro em Atos dos Apóstolos 10, quando pregava
o Evangelho na casa de Cornélio, começou do
seguinte modo: “Desde
o Batismo pregado por João Batista”,
isto é, quando Deus consagrou Jesus de Nazaré
na força do Espírito Santo. Foi no Batismo que
Jesus recebeu oficialmente a unção-consagração
do Espírito Santo, tornando-se o Messias para sempre.
Ao falar da importância do Batismo, Gregório
Nazianzeno diz: “Descemos
ao sepulcro junto com Cristo por meio do Batismo, de modo
que podemos ressuscitar junto com Ele. Descemos com Ele para
podermos subir com Ele, tornamos a subir com Ele para poder
ser glorificados por Ele”.
Os
textos da liturgia evidenciam a missão de Jesus e o
testemunho e a predileção do Pai por Ele. A
voz do Pai que confirma a sua complacência pelo Filho
tem o seu prenúncio no primeiro dos quatro cânticos
do Servo de Deus (1ª leitura), que descreve
por antecipação a figura do Messias. Ele será
caminho para os doentes, compaixão para os pecadores,
mestre de justiça e santidade. Será o salvador,
o libertador, o tipo absoluto do homem novo, o sol que iluminará
a todos.
Jesus
é ungido pelo Espírito Santo e recebe a investidura
oficial messiânica. Será o Cristo Sacerdote-Profeta-Rei
e, em vista dessa tríplice função, tirará
os homens do pecado e os fará tomar parte no seu Reino.
O
Batismo de Jesus no Jordão fazia parte da sua obra
redentora. É um evento lembrado pelos evangelistas.
Era, portanto, objeto da pregação apostólica.
O
relato do Batismo de Jesus é confirmado pelos Sinópticos,
menos por João, que o supõe (João
1,29-34). Os Sinóticos construíram
um relato no gênero literário “Midrash
Magadico”, utilizando teofanias
para dar realce à fé cristológica das
primeiras comunidades cristãs, que viam esse fato salvífico
da vida de Cristo à luz da revelação
pascal.
Batizar
na água não era uma invenção de
João Batista. Os judeus piedosos já tinham esse
rito de purificação e ele era particularmente
importante entre os essênios de Qumran às margens
do mar Morto, que o usavam como sinal do compromisso de servir
a Deus com fidelidade plena. Os prosélitos que se incorporavam
à religião judaica também passavam por
um ritual de Batismo. A originalidade do Batismo de João
Batista era a sua intenção penitencial e o fato
de ser anúncio do Batismo cristão. Além
do mais, quase todas as religiões tinham um rito batismal,
basta lembrar que entre os índios Nahua do México,
assim como entre os maias, havia ritos semelhantes antes da
evangelização.
O
Batismo de João Batista era mais ético do que
cultural, mais um rito de conversão dos pecados do
que uma purificação legal. Por isso ele reagiu
não querendo batizar Jesus. Além do mais, o
Batismo de João Batista, colocando-se na linha das
grandes teofanias bíblicas, contém a primeira
revelação do mistério trinitário
do Novo Testamento (Mateus 3,13-17).
Ao
pedir para ser batizado, Jesus confirma a autoridade do precursor
e se coloca na fila dos pecadores, embora sem pecado. Esta
sua atitude faz parte do seu programa de auto-humilhação,
“kénosis”.
E a declaração pública do Pai sobre a
filiação divina de Jesus é a confirmação
da sua investidura, a sua unção messiânica
pelo Espírito, é a credencial com a qual inaugura
o anúncio do Reino de Deus. A unção messiânica
de Jesus pelo Espírito Santo lembra a unção
com óleo feita aos juízes, reis, profetas e
sacerdotes do Antigo Testamento e é feita em público,
como numa cerimônia oficial, e tem uma testemunha qualificada
como João Batista.
O
Batismo cristão não é um peso, mas um
dom, uma predileção de Deus, uma vocação.
Deus começa o seu diálogo conosco não
fazendo imposições, mas nos amando e nos oferecendo
a sua graça mediante o seu Filho. Este dom de amor
deve fazer surgir em nós uma resposta de gratidão
através do nosso amor a Deus e aos irmãos.
Santo
Agostinho diz que Jesus quis ser batizado “para
proclamar com a sua humildade o que para nós era uma
necessidade”. Com o Batismo nos é
comunicada a dignidade mais alta do cristão, a de ser
filhos de Deus. Com o Batismo nascemos para uma vida nova,
a vida de filhos de Deus e herdeiros de Deus. |