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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
Ano
C
BATISMO
DO SENHOR
10 de Janeiro de 2010
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Primeira
Leitura
Isaías 42,1-4.6-7
EIS
O MEU SERVO, A QUEM DEDICO TODA A AFEIÇÃO |
Este
é o primeiro canto do Servo de Javé, um texto
que surgiu no exílio. É uma figura carismática
difícil de ser identificada do ponto de vista histórico.
Este personagem misterioso, o Servo ungido por Javé,
é apresentado pela primeira vez em toda a literatura.
Este
personagem possui alguns atributos e uma missão. Possui
o Espírito de Deus, assemelhando-se aos juizes do passado,
aos líderes libertadores, que eram considerados pelo
povo como agindo com o Espírito de Javé. Tem
como tarefa o direito das nações, isto é,
a missão de realizar o projeto de Deus, e é
um intérprete desse projeto. Portanto, a tarefa deste
Servo é levar o direito às nações
(v.1b), missão semelhante à
dos sacerdotes a serviço de Deus. O direito lembra
a Lei que contém o plano de Deus. O Servo será
o porta-voz, isto é, deverá interpretar como
um profeta o projeto de Deus para o povo.
Por
ser assim, o Servo se parece com Moisés, pois terá
que renovar a Aliança feita com Israel e reconduzir
os exilados para a sua pátria, estabelecendo a verdadeira
religião. Por isso, o autor serviu-se da terminologia
própria da criação para descrevê-lo:
“Eu te formei...”,
como o primeiro homem, pois este Servo começará
um mundo novo, uma nova criação, na qual os
cegos (os pagãos) abrirão os
olhos e os prisioneiros (israelitas) serão
libertados.
O
Servo terá o caráter de um homem de paz (v.2)
e será semelhante a Davi devido a suas lutas constantes
em defesa do povo (v.4).
Como
este Servo vai servir? Não como os poderosos, pois
ele não gritará, não quebrará
o caniço rachado, não apagará a mecha
que ainda fumega... (v.2). O caniço
rachado e a mecha que ainda fumega lembram a situação
do povo que, apesar do sofrimento e das injustiças
que padece, ainda tem um fio de esperança. O Servo
não consolidará o projeto de Deus massacrando
o povo, enganando-o com promessas e propagandas ilusórias.
Ao contrário, estabelecerá uma Aliança
com o povo, fazendo-o voltar a Javé, tornando-o luz
das nações, criando dimensões de justiça,
levando o direito, isto é, o Mishpat, que não
é uma legislação imposta externamente,
mas a capacidade de discernir e fazer o que é justo.
Por isso, o texto especifica a obra messiânica de Jesus,
e a tradição cristã o interpretou na
pessoa e na obra de Jesus. É, portanto, uma interpretação
cristológica, embora haja outras três hipóteses
de interpretação:
01)
Identificação com o povo de Israel (interpretação
coletiva).
02) Identificação
com um personagem histórico (interpretação
individual).
03) Identificação
com Israel escatológico (interpretação
coletiva individual), conforme a concepção
semita da personalidade incorporante.
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Segunda
Leitura
Atos dos Apóstolos 10,34-38
DEUS UNGIU JESUS DE NAZARÉ COM O ESPÍRITO SANTO |
Este
capítulo fala do contato do cristão com os pagãos,
que a legislação judaica proibia, sob pena de
se tornar impuro. Pedro foi o primeiro a romper com esse esquema
elitista e marginalizador ao hospedar-se primeiro na casa
de um curtidor de couros chamado Simão, tido como pessoa
impura pelos judeus devido à sua profissão,
e em seguida na casa do centurião Cornélio em
Cesaréia Marítima, onde falou com os pagãos,
rompendo o esquema opressor e ressaltando o novo modo de viver
no Senhor.
Cornélio
era um militar romano, e Pedro fez um discurso em sua casa
dizendo que Deus não faz acepção de pessoas,
pois o povo de Deus não está ligado a uma raça
ou nação. Pedro destacou que a dimensão
universal da salvação foi conseguida mediante
Jesus (v.36): ele derrubou o muro da separação
entre dois povos e fez deles um só povo. |
Evangelho
Lucas 3,15-16.21-22
BATISMO DE JESUS |
O
evangelho nos diz que Jesus começou por baixo, fazendo-se
discípulo de João.
A versão do Evangelho segundo Lucas, que lemos ou ouvimos
hoje, começa com uma alusão ao batismo de toda
a gente. Jesus se fez batizar como tantos que iam a João,
reconhecendo seus pecados e tornando-se seus discípulos.
O entrar e sair da água significava o começo
de uma vida nova. Na água eram sepultados os pecados
do passado e o subir do rio significava o começo de
nova vida como discípulo do Batista.
Segundo Marcos e Mateus, também Jesus vem à
procura do batismo de João; como diz uma oração
do Ritual do Batismo, vem “solidário
com os pobres e pecadores”. Até
então, é apenas mais um que se faz batizar por
João. Quando Jesus sobe do rio, porém, ocorrem
outros acontecimentos significativos.
Lucas, como é do seu feitio, mostra Jesus em oração.
Todos estavam se apresentando ao batismo. Depois de batizado,
Jesus se põe a orar, momento em que os céus
se abrem.
Zacarias era considerado o último profeta; depois dele
teria se encerrado a profecia. Deus não falava mais,
o céu estava fechado. O que se podia fazer, então,
era apenas seguir o que diziam aqueles que conheciam a Lei
de Deus e a explicavam – os escribas ou mestres da Lei
de Deus. Tudo estava previsto, nada de novo podia ou devia
acontecer.
Agora o céu se abre novamente, o que significa que
Deus volta a falar. Jesus é o missionário do
Pai, aquele que vem trazer novas revelações
de Deus. Ele é um novo profeta, uma fala nova de Deus;
traz na sua pessoa a mensagem de Deus para hoje, um recado
diferente, novo e atual. Chega de submissão cega aos
que se apoderaram da palavra de Deus! Deus abre a boca novamente:
de agora em diante, vai falar por meio de Jesus.
Abrindo-se o céu, o Espírito, segundo Marcos,
o Espírito de Deus, segundo Mateus, o Espírito
Santo, segundo Lucas, desce sobre Jesus. É o Espírito
que falou pelos profetas, que ungiu os profetas.
Nesse mesmo Evangelho de Lucas, em sua homilia programática
na sinagoga de Nazaré, Jesus vai aplicar a si o texto
de Isaías: “O Espírito
do Senhor está em mim, ele me ungiu para eu anunciar
a boa-nova...”. Se Deus agora fala,
Jesus é o seu profeta, animado pelo seu Espírito.
Lucas diz que o Espírito Santo desceu “em
forma corporal de pomba”. Na história
de Noé, a pomba que volta à arca com um ramo
de oliveira no bico é sinal de paz, de que o dilúvio
terminou e novamente a vida é possível na terra.
Na tradição judaica, porém, a pomba é
também símbolo da "shekiná",
a morada, a presença de Deus. É, sem dúvida,
o que ela aqui significa. Reforça a ideia do Espírito
de Deus que desce sobre Jesus.
Com a descida do Espírito, a voz vinda do céu:
“Tu és o meu Filho
amado, em ti está a minha alegria”
acentua mais ainda a ligação do episódio
com o texto do livro de Isaías lido na 1ª leitura.
Ali se diz: “É
o meu escolhido, alegria do meu coração, eu
pus nele o meu espírito, ele vai levar o direito às
nações”. Tudo aponta para
Jesus como aquele Servo de Javé ou do SENHOR de cuja
vocação e missão falam os quatro poemas. |
REFLEXÃO |
| A
festa do Batismo de Jesus encerra o tempo do Natal e abre
o tempo de reflexão sobre o ministério público
de Jesus. O mesmo Espírito que estava presente no início
da criação agora está presente no Jordão
para dar início à nova criação,
isto é, à redenção.
Esta
festa era celebrada no Oriente junto com a Epifania. Para
os orientais, só a partir do Batismo de Jesus a divindade
se uniu à sua humanidade. Assim, era possível
dizer que no Batismo o verdadeiro e completo Jesus havia nascido.
Com a reforma da liturgia em 1969, a festa do Batismo de Jesus
foi estabelecida e fixada no domingo depois da Epifania.
Santo
Agostinho dizia que no Novo Testamento está escondido
o Antigo Testamento e o Antigo Testamento, por sua vez, torna-se
claro no Novo Testamento. Por isso, a liturgia de hoje nos
introduz nesta festa com um texto de Isaías, o qual,
depois de ter anunciado ao povo no exílio uma esperança
com uma vida liberta na terra prometida, anuncia a era messiânica,
apontando o Messias como Servo de Javé, no qual Javé
se compraz e põe o seu Espírito. Com isso estabelece
a justiça, fazendo-o luz das nações e
salvação para o povo fechado no pecado.
Jesus
tinha cerca de 30 anos quando iniciou o seu ministério,
depois de viver em Nazaré como carpinteiro. Deixou
tudo (família, trabalho...) para ir
até o rio Jordão, onde foi batizado. João
Batista, filho de Zacarias e Isabel, foi previsto como precursor
para preparar os caminhos de Jesus e, depois de viver a sua
juventude no silêncio e na comunhão com Deus
no deserto, foi encontrar-se com o povo às margens
do Jordão, anunciando que o Messias estava para chegar
e era preciso converter-se.
Por
que o Jordão? Porque através do Jordão,
em cujas águas o povo passou, ingressou a arca da Aliança
e Josué introduziu o povo na terra prometida, e agora,
ainda através do Jordão, terá início
a libertação dos pecados e a introdução
no Reino messiânico, do qual a terra prometida era apenas
uma figura profética.
João
Batista tinha consciência de que o seu Batismo de conversão
dos pecados era apenas um prenúncio do Batismo do Messias.
Por isso pregava com honestidade que depois dele viria alguém
mais forte que ele, de quem não era digno de desamarrar
as sandálias. Entretanto, diante de João Batista
desfilava uma multidão de pecadores arrependidos e
desejosos do seu Batismo, mas, quando Jesus chegou para ser
batizado, achou que não podia submetê-lo a um
rito ao qual eram submetidos os pecadores. Por isso, ele o
contesta: “Eu preciso
ser batizado por Ti e Tu vens a mim?”.
Mas, Jesus respondeu-lhe que era preciso cumprir toda a justiça,
isto é, tudo aquilo que o Pai desejava para concretizar
o plano de salvação dos homens, tomar sobre
si os nossos pecados para expiá-los na cruz. Por isso,
Jesus pede a João Batista que o imirja nas águas
do Jordão, lugar onde simbolicamente os pecados eram
descarregados, para fazê-los seus e expiá-los.
João
Batista atendeu ao pedido de Jesus e o batizou enquanto os
céus se abriam, o Espírito Santo pousava sobre
Ele e uma voz dizia: “Tu
és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.
Esta teofania solene será explicada mais tarde pelo
próprio João Batista em João 1,29-34,
ao apresentá-lo como o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo, pois o Espírito Santo que Jesus recebeu
O consagrou como vítima de expiação,
como o cordeiro sacrificado na noite da Páscoa, que
era o sinal de libertação da escravidão
do Egito.
João
Batista afirma que viu e dá testemunho de que Jesus
é o Filho de Deus e o Espírito Santo desceu
do céu sobre ele em forma de pomba. Ele não
é apenas um homem extraordinário, mas o Filho
de Deus. Com o Batismo de Jesus, “as
portas dos céus se abriram”,
isto é, as portas dos céus, que estavam fechadas
devido ao pecado de Adão, se reabriram porque o Filho
de Deus expiou os pecados e por isso Jesus pôde dizer
ao bom ladrão na cruz: “Hoje
mesmo você estará comigo nos céus”.
Por isso, Tomás de Aquino disse: “Cristo
não foi batizado para ser purificado, mas para purificar”.
E Tertuliano afirma: “Ele
santificou a água com o seu Batismo”.
Portanto,
o Batismo de Jesus é imprescindível para o anúncio
do Evangelho. Sem ele o mistério da cruz seria incompreensível.
Por isso Pedro, ao escolher o substituto de Judas no colégio
apostólico, colocou como condição que
fosse alguém que “viveu
no meio de nós desde o Batismo de João Batista”.
O mesmo Pedro em Atos dos Apóstolos 10, quando pregava
o Evangelho na casa de Cornélio, começou do
seguinte modo: “Desde
o Batismo pregado por João Batista”,
isto é, quando Deus consagrou Jesus de Nazaré
na força do Espírito Santo. Foi no Batismo que
Jesus recebeu oficialmente a unção-consagração
do Espírito Santo, tornando-se o Messias para sempre.
Ao falar da importância do Batismo, Gregório
Nazianzeno diz: “Descemos
ao sepulcro junto com Cristo por meio do Batismo, de modo
que podemos ressuscitar junto com Ele. Descemos com Ele para
podermos subir com Ele, tornamos a subir com Ele para poder
ser glorificados por Ele”.
Os
textos da liturgia evidenciam a missão de Jesus e o
testemunho e a predileção do Pai por Ele. A
voz do Pai que confirma a sua complacência pelo Filho
tem o seu prenúncio no primeiro dos quatro cânticos
do Servo de Deus (1ª leitura), que descreve
por antecipação a figura do Messias. Ele será
caminho para os doentes, compaixão para os pecadores,
mestre de justiça e santidade. Será o salvador,
o libertador, o tipo absoluto do homem novo, o sol que iluminará
a todos.
Jesus
é ungido pelo Espírito Santo e recebe a investidura
oficial messiânica. Será o Cristo Sacerdote-Profeta-Rei
e, em vista dessa tríplice função, tirará
os homens do pecado e os fará tomar parte no seu Reino.
O
Batismo de Jesus no Jordão fazia parte da sua obra
redentora. É um evento lembrado pelos evangelistas.
Era, portanto, objeto da pregação apostólica.
O
relato do Batismo de Jesus é confirmado pelos Sinóticos,
menos por João, que o supõe (João
1,29-34). Os Sinóticos construíram
um relato no gênero literário Midrash
Magadico,
utilizando teofanias para dar realce à fé cristológica
das primeiras comunidades cristãs, que viam esse fato
salvífico da vida de Cristo à luz da revelação
pascal.
Batizar
na água não era uma invenção de
João Batista. Os judeus piedosos já tinham esse
rito de purificação e ele era particularmente
importante entre os essênios de Qumran às margens
do mar Morto, que o usavam como sinal do compromisso de servir
a Deus com fidelidade plena. Os prosélitos que se incorporavam
à religião judaica também passavam por
um ritual de Batismo. A originalidade do Batismo de João
Batista era a sua intenção penitencial e o fato
de ser anúncio do Batismo cristão. Além
do mais, quase todas as religiões tinham um rito batismal,
basta lembrar que entre os índios Nahua do México,
assim como entre os maias, havia ritos semelhantes antes da
evangelização.
O
Batismo cristão não é um peso, mas um
dom, uma predileção de Deus, uma vocação.
Deus começa o seu diálogo conosco não
fazendo imposições, mas nos amando e nos oferecendo
a sua graça mediante o seu Filho. Este dom de amor
deve fazer surgir em nós uma resposta de gratidão
através do nosso amor a Deus e aos irmãos.
Santo
Agostinho diz que Jesus quis ser batizado “para
proclamar com a sua humildade o que para nós era uma
necessidade”. Com o Batismo nos é
comunicada a dignidade mais alta do cristão, a de ser
filhos de Deus. Com o Batismo nascemos para uma vida nova,
a vida de filhos de Deus e herdeiros de Deus. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C"
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