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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
04° Domingo do Advento
20 de Dezembro de 2009

Primeira Leitura
Miquéias 5,1-4a
DE VOCÊ, BELÉM, VAI SAIR O VENCEDOR

Miquéias foi um profeta contemporâneo de Isaías em Judá (século VIII a.C.). Tempo difícil contaminado pela corrupção do poder e das lideranças, pela idolatria, com os profetas a serviço da burocracia, tendo nas vozes palacianas o seu ponto de apoio. Tempo de grande empobrecimento do povo. Neste contexto, Jerusalém, capital do poder, estava nas mãos dos inimigos.

Este capítulo é um clássico da teologia messiânica. Provavelmente seja um oráculo surgido nos meios rurais e reelaborado no pós-exílio. Portanto, é um acréscimo. Este oráculo serviu de inspiração para os mais pobres, e critica o poder em Jerusalém, que traiu os objetivos da realeza davídica.

O oráculo privilegia Belém, aldeia desprezível para a corte instalada em Jerusalém. A salvação vem da periferia, e não do poder instalado. Belém será a pátria daquele que vai governar Israel. A salvação não vem do poder instalado na capital. Deus é fiel à promessa de um descendente davídico (2 Samuel 7).

Miquéias não diz quando isso acontecerá, mas indica dois sinais:

a) uma mulher que dará à luz;
b) a volta dos exilados.

Belém de Éfrata e Davi filho de um efrateu (1 Samuel 17,12). Belém, onde não moravam nem mil pessoas substituem a cidade real.

O descendente de Davi herdará com justiça, servindo o povo, não como os reis tiranos de Judá e Israel, que mantinham o poder com a ideologia palaciana e a violência. O novo rei será sustentado pela força de Javé. Deus o conservará no trono para defender os oprimidos. Seu domínio será total e fará reinar a plenitude da paz (Shalom).

Segunda Leitura
Hebreus 10,5-10

Ó DEUS, EU VENHO PARA FAZER A TUA VONTADE

Esta carta foi escrita para o grupo de cristãos que corriam o perigo de rejeitar a fé em Jesus como portador da salvação. Sentiam dificuldade em aceitar a forma humilhante e dolorosa de sua aparição (Hebreus 2), bem como o sofrimento que passavam por serem cristãos (Hebreus 10,32ss; 12,3ss), e sentiam a desilusão de não ver a salvação final realizada (Hebreus 10,36ss; 3,4). Por outro lado, parece que a religião do Antigo Testamento exercia forte influência sobre este grupo. Ele era formado por judeus convertidos à comunidade de Roma.

A carta mostra Jesus como aquele que superou o Antigo Testamento, como o único mediador entre Deus e os homens. É uma homilia sobre o sacerdócio de Jesus, que supera o do Levítico. Ele não realizou seu sacrifício no santuário, mas na carne (Hebreus 5,7). O autor apresenta uma tríplice incapacidade da Lei:

01) ela possui apenas as sombras dos bens futuros (Hebreus 10,1);
02) com o sangue do sacrifício e das imolações é impossível eliminar os pecados;
03) os sacerdotes são incapazes de eliminar os pecados.

Nosso texto mostra a novidade única do sacrifício de Cristo, apresentando Jesus como cumpridor da vontade de Deus. Jesus pode perdoar os pecados porque se ofereceu como vítima a Deus. Supera com seu corpo o complexo sacrificial do Antigo Testamento, entregando-se pessoalmente para remir o povo. Para explicitar, o autor cita o Salmo 40,7-9, que expressa a gratuidade de Deus por ter livrado dos males o rei Davi não com sacrifícios de animais, mas com a obediência à sua vontade. Para os hebreus, este trecho em chave cristológica ou messiânica manifesta a plena adesão de Cristo ao projeto do Pai. O autor toma o tema da tradição deuteronomista, que ensinava que a essência do sacrifício consiste na obediência e não no ritual externo. Por isso, esta novidade trazida por Cristo também deve ser aceita pelo judaísmo.

Evangelho
Lucas 1,39-45

MARIA VISITA ISABEL

O trecho pertence ao relato do Evangelho da Infância de Jesus. Lucas faz uma leitura teológica dos acontecimentos, portanto não é uma curiosidade histórica. Com o “Fiat” (Sim) de Maria, Jesus se encarnou e Maria, após concebê-lo, vai prestar seu serviço à prima Isabel. Isabel é indicada a Maria como sustentáculo de sua fé. Se ela está velha, é estéril e pode ver seu seio reflorir e dar a vida, Maria também pode reconhecer a maternidade simultânea à sua virgindade. Para Deus nada é impossível. Assim, ela reconhece em sua carne o poder do Altíssimo.

A cena das duas mães agraciadas com o dom da fecundidade e da vida também mostra o encontro de duas crianças: o precursor e o salvador. Jesus concebido pelo Espírito Santo e João Batista exulta no seio de sua mãe, que cheia do Espírito Santo proclama Maria bem-aventurada.

As palavras de Isabel a Maria se inspiram nos elogios das mulheres libertadoras do Antigo Testamento: Jael - “Bendita entre as mulheres seja Jael" (Juízes 5,24), e Judite - “Ó filha, bendita sejas para o Deus Altíssimo, mais que todas as mulheres da terra” (Judite 13,18).

Deus mostra sua preferência pelos pequenos. De fato, o nome dos personagens significa: Jesus - Deus salva; João - Deus é misericórdia; Zacarias - Deus se lembrou; Isabel - Deus é plenitude; e Maria - a amada.

Isabel proclama Maria bem-aventurada. No Antigo Testamento as pessoas abençoam alguém quando descobrem a presença de Deus nela. Maria é o lugar privilegiado onde Deus é sentido.

A alegria de Isabel se manifesta da mesma forma como o espanto de Davi ao acolher a arca (2 Samuel 6,9; 1 Crônicas 15,16), por isso Maria é a Arca da nova Aliança. A exultação de João Batista no seio de Isabel é a alegria do povo de Deus pela vinda do Messias.

O elogio de Isabel a Maria vai além de sua maternidade física. Ela é bem-aventurada porque acreditou no Senhor (Lucas 11,27-28).

A viagem de Maria pelas montanhas de Judá reproduz simbolicamente o percurso da Arca da Aliança de Kiriat-Iearim a Jerusalém. Ambos os percursos se caracterizam por manifestações de alegria que saúdam a vinda da Arca a Jerusalém e a chegada de Maria. Depois da chegada, Davi abençoa o povo em nome do Senhor. Também Isabel abençoa Maria e o fruto do seu ventre. Davi recebe a Arca e exclama: “Como pode o Senhor vir até junto de mim?”. Também Isabel: “Como pode a mãe do meu Senhor vir até mim?”. A Arca permaneceu três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Maria permanece três meses na casa de Isabel (Lucas 1,56). Davi canta um canto de louvor (1 Crônicas 16,8-36). Maria canta o Magnificat.

A casa de Isabel ficava a 150 km de Nazaré e a 6 km de Jerusalém.

Em Maria a fé é atitude de abertura e disponibilidade incondicional diante de Deus. É serviço pleno ao Filho de Deus e à sua obra redentora (Lumen Gentium 56). É também solicitude maternal por todos os homens. Maria, ao aceitar a mensagem divina, converteu-se em Mãe de Jesus (Lumen Gentium 56). Por sua fé ela é a primeira crente, a primeira discípula do Senhor, a primeira cristã da Igreja.

REFLEXÃO

Como sempre, neste último domingo do Advento a liturgia nos apresenta a figura de Maria, porque ninguém melhor do que ela pode nos ensinar a preparação para o Natal.

Este domingo é tipicamente mariano. A liturgia está centrada em sua exemplaridade no mistério da Visitação. Aquilo que no momento da Anunciação estava escondido na profundidade da obediência da fé se manifesta agora em uma clara, vivificante chama do Espírito. As palavras de Maria ditas à soleira da porta de Isabel constituem uma inspirada profissão de fé na qual a resposta à Palavra da revelação se exprime com a elevação religiosa e poética de todo o seu ser para Deus.

O Natal está próximo, e não nos bastam mais os profetas do Antigo e do Novo Testamento que nos acompanharam nos últimos dias para nos introduzir na gruta do mistério de Jesus. Agora a própria Mãe de Jesus está presente. O encontro com Isabel é a expressão daquilo que será a vida de um cristão que aceita a vinda do Redentor em sua vida.

Qual é a novidade do cristianismo? A inserção de Deus na história dos homens, superando todas as perspectivas sagradas que mostravam a salvação na mentalidade do tempo e nas tradições. Esta novidade nos é apresentada pelo texto de Hebreus e diz que não são as ofertas e os sacrifícios que agradam a Deus, mas o cumprimento de sua vontade.

Miquéias anunciou sete séculos antes que o Messias nascerá em Belém, povoado perdido e desconhecido. Fala-nos que uma mulher dará à luz um menino de modo misterioso.

Deus visitou muitas vezes o seu povo no Antigo Testamento para salvar, perdoar, corrigir e punir, porém sua visita primordial é a da encarnação, na qual ele veio pessoalmente através de seu Filho, “para nós, homens, e para nossa salvação...”

Jesus visita primeiro Maria, que o acolhe na fé, aceitando o mistério do seu nascimento, abandonando-se completamente em Deus. Por isso ela é bem-aventurada.

A fé é a condição da visita de Deus a nós. A fé é a condição indispensável para o Senhor entrar em nossa casa.

Na oração de hoje, a Igreja pede ao Pai que “infunda em nosso espírito a sua graça”. Graça que nos ajude a compreender o significado da vinda do Senhor e nos abra o apetite para fazer algo construtivo no mundo.

Deus tomou a iniciativa de enviar o seu Filho para salvar o mundo. Mundo envolvido em pecados e sem forças para se livrar deles, que recebe a presença de Deus.

O mistério da encarnação foi o primeiro passo do mistério da redenção e da salvação do homem. A paixão e morte de Jesus é o segundo passo deste plano de Deus. Assim, a encarnação de Jesus comportou em toda a vida de Jesus a cruz e o martírio. A ressurreição é o terceiro passo e a certeza da nossa ressurreição.

O Natal é a vinda do Filho de Deus até nós, mas nós não o encontraremos se não formos até ele, a exemplo dos pastores, dos magos e acima de tudo de Maria.

Como pretendemos viver o nosso Natal? Como uma “grande orgia do Natal” (J. Green, Diario di un anno) ou como um tempo litúrgico que exige de nós uma imitação perfeita do exemplo de Maria?

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

 
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