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ANO A - São Mateus
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ADVENTO
COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
ADVENTO
IV Domingo
19 de Dezembro de 2010

Primeira Leitura
Isaías
7,10-14
UMA VIRGEM CONCEBERÁ
O “DEUS CONOSCO”

Este oráculo, denominado do “Emanuel”, situa-se por volta do ano 734 a.C., quando Acaz era rei de Judá. Naquele tempo, o povo passava por grandes dificuldades. Jerusalém havia sido cercada por Facéia, rei de Israel, e Rason, rei de Aram. Isto gerou a guerra siro-efraimita. A coligação do rei de Israel com o rei de Aram tinha como objetivo tomar Jerusalém, depor Acaz e estabelecer como rei o filho de Tabeel (Isaías 7,6). Deste modo a dinastia terminaria, truncando a promessa de Deus a Davi de manter no trono um descendente dele (2 Samuel 7,12-16).

Diante do perigo externo, Acaz recorreu a alianças perigosas com a Assíria, pedindo ajuda a Tiglat-Pilezer (2 Reis 16,5-20), atitude que Isaías condena porque vê a esperança da nação em Javé (2 Samuel 7,13.15-16). Este é a melhor garantia para a sobrevivência da dinastia davídica. Além disso, ele se comporta como um idólatra que manda o seu único filho aos ídolos (2 Reis 16,3).

Isaías lembrou a este rei de cabeça dura os seus direitos como soberano do povo de Deus. De fato, Deus tinha um relacionamento profundo e afetuoso com o rei de Israel (Salmo 2,7; 2 Samuel 7,14; 1 Samuel 26,9-11; 2 Samuel 7,18-19; 1Reis 3,7-9).

Por isso, Javé está disposto a dar ao rei um sinal, isto é, um apoio à sua fé. Mas Acaz não lhe pede nenhum sinal, com a desculpa de que não quer tentar o Senhor (Isaías 7,12). Em sua religiosidade aparente esconde a sua idolatria e é isso que Isaías condena.

O sinal tinha como objetivo confirmar a proteção de Deus sobre o rei e o povo, mostrando que Ele é fiel a suas promessas. Mas o convite para pedir-lhe um sinal é declinado. Apesar da recusa em pedir um sinal, Deus se dispõe por meio de Isaías a lhe dar um sinal: “Uma Virgem ficará grávida e dará à luz um filho e lhe porá o nome de Emanuel” (v.14). O sinal é uma criança, provavelmente Ezequias, filho de Acaz. Ele devolverá a esperança ao povo e construirá a dinastia prestes a ruir.

A palavra “virgem” que Isaías usa não indica integridade física. É um termo genérico que indica simplesmente uma jovem em idade de casar. Tratar-se-ia de Abias, mulher de Acaz (2 Crônicas 29,1). Isaías não pensou em José e Maria. Estes estão incluídos no sentido profundo das palavras do profeta, que só mais tarde será revelado (Mateus 1,23). A maternidade indicada por Isaías, verificada por ele e seus contemporâneos, é apenas uma figura do que acontecerá com a Virgem de Nazaré, de quem nascerá Jesus.

Segunda Leitura
Romanos
1,1-7

JESUS CRISTO, DESCENDENTE DE DAVI

O prólogo desta carta é muito rico em elementos teológicos, contidos nos esquemas típicos de introdução das cartas. Uma apresentação do emitente (v 1-6), menção aos destinatários (v.7a) e saudação com a forma litúrgica (v.7b).

No início desta carta Paulo coloca os seguintes temas:

01) a vocação como dom gratuito de Deus, que manifestou o seu amor aos judeus e aos pagãos;
02) a justificação pela fé, que é a adesão à pessoa de Jesus Cristo;
03) a morte e ressurreição de Jesus trouxe a salvação a todos;
04) o Antigo Testamento preparou o Novo Testamento.

Nesta introdução, Paulo se apresenta a si mesmo nas relações fundamentais da sua vida, como um servo chamado a evangelizar, um escravo no sentido de doar a sua vida a serviço dos irmãos. No Antigo Testamento, este título era dado aos grandes colaboradores de Deus e aos personagens escolhidos para guiar o povo, como Moisés (Josué 14,7), Davi (Salmo 88,4) e Abraão (Salmo 104,22). Paulo sente-se um enviado para anunciar a boa nova. Essa boa nova constituiu uma virada na sua vida e este é o significado da sua atividade.

O versículo 4 não é de Paulo. Foi tomado da expressão de fé primitiva e deve ser interpretado não em sentido adocionista, isto é, que Jesus tornou-se participante da natureza divina somente com a sua ressurreição. Isto não condiz com o pensamento de Paulo (Romanos 2,6-11). Efetivamente, a ressurreição constituiu para Jesus uma mudança no sentido de que Ele, sentado à direita do Pai, possui a capacidade de salvar e vivificar como o Pai em favor dos que Nele crêem.

Paulo vê o apostolado como um dom do amor gratuito de Deus (v.5) com o objetivo de levar os homens à obediência da fé. Assim, no versículo 7 ele apresenta a vocação fundamental do cristão como busca da santidade, pois sem esse esforço o cristão não pode ser cristão.

Evangelho
Mateus
1,18-24
A CONCEPÇÃO VIRGINAL DE JESUS

A maternidade virginal de Maria, a descendência davídica de Jesus, o seu papel salvífico, o cumprimento das profecias, a obediência à vontade do Pai são os temas centrais destas páginas evangélicas.

A descrição se abre com a apresentação do relacionamento entre José e Maria. Ela era esposa de José, legalmente já estavam casados e ligados pelo vínculo da fidelidade. Sabemos que a coabitação dos cônjuges ocorria depois do primeiro ano de contrato matrimonial, que vinculava a noiva a um segundo empenho da própria virgindade.

Neste momento delicado, o Espírito Santo interveio inequivocamente como autor da fertilização de Maria, sendo a sua maternidade uma obra divina. O anúncio dessa maternidade surpreende Maria, e podemos imaginar a crise que causou em José, homem justo, o que na mentalidade judaica significava que observava escrupulosamente a Lei, a qual era muito severa para casos semelhantes ao de Maria. José, no início, encontrava-se apenas no nível humano, insuficiente para entender e aceitar a maternidade da sua esposa. Estando nesse nível, não lhe restava senão debater-se entre a aplicação da Lei (Deuteronômio 22,20-21) e o seu amor a Maria. José escolheu a solução menos dolorosa, isto é, não expor Maria à humilhação pública (para alguns, é aí que está a justiça de José; para outros, a sua justiça seria aceitar a intervenção extraordinária de Deus que irrompeu em sua vida, tornando-o participante do plano salvífico). Se ele receou tomar Maria como sua esposa, foi porque descobriu uma “economia” superior à do matrimônio que tinha a intenção de contrair e por isso, como os justos da Bíblia, afastou-se diante da grandeza do divino, considerando-se simplesmente “pobre”.

José impõe o nome ao menino. Os pais, ao darem o nome ao filho, caracterizavam a missão que a criança iria desenvolver na sociedade. O nome que Jesus recebeu não foi escolhido por José e Maria, e sim por Deus. Jesus é a síntese do programa de Deus para levar a história à sua plenitude. O seu nome significa “Deus Salva”. Jesus é o novo Josué que introduzirá o povo no Reino de Deus: “Ele vai salvar o povo de seus pecados” (v.21).

Mateus se preocupa em mostrar que em Jesus se cumprem as profecias: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e será chamado Emanuel, que significa ‘Deus está conosco’” (v.22). Doravante, Deus caminha com o povo na pessoa de Jesus.

O nascimento de Jesus, que tem um caráter único, é a plenitude da história acontecendo no seio de Maria. Mateus, ao escrever para os hebreus que conheciam a Sagrada Escritura, enfoca todo o seu “Evangelho da Infância” em gênero de profecia. Assim o nascimento virginal de Jesus, Isaías 7,14; os Magos, Isaías 60,66; a matança dos inocentes, Jeremias 31,15; a fuga para o Egito, Oséias 11,1. Deste modo, a maneira como Mateus apresenta Jesus é tipicamente bíblica e, com esta ótica, vemos a importância que ele dá a José no Evangelho da Infância, em que os acontecimentos giram em torno da sua pessoa. Maria fica quase na sombra, porque o evangelista viu José na linha da descendência davídica da qual o Messias devia nascer, segundo todas as tradições bíblicas, e o transmitiu claramente aos destinatários hebreus do seu Evangelho. Portanto, José se insere como descendente de Davi e Jesus está na linha das promessas bíblicas feitas a Abraão e na linha da bênção messiânica dada a Davi (2 Samuel 7).

REFLEXÃO

A reflexão do 4º domingo do Advento é fortemente cristológica. Os textos bíblicos põem a pessoa de Cristo no centro. Ele é o Messias esperado, um ramo da estirpe de Davi.

O Advento nos prepara para celebrar o primeiro Advento do Filho de Deus, a sua vinda na carne humana, em que a natureza divina se une à natureza humana; uma e outra são guiadas pela única pessoa do Verbo. O Advento nos prepara para reviver o fazer-se carne do Filho de Deus, na humanidade de Jesus de Nazaré. Isto constitui o mistério central da nossa fé: “Por nós homens e para a nossa salvação desceu do céu e por obra do Espírito Santo se encarnou no seio da Virgem Maria e se fez homem”.

O Filho de Deus se fez homem porque Deus dirigiu-se em busca de suas criaturas. Esta paixão de Deus pelos homens exigiu um duplo movimento: a divinização da criatura e a encarnação de Jesus. Com o pecado houve a alienação entre Deus e a criatura. Foi justamente para nos salvar, para nos restituir esse relacionamento com Deus, que o Verbo se fez carne. Foi para ser o nosso modelo de santidade, para que nos tornássemos participantes da sua natureza divina. A humanidade decaída tornou-se objeto do amor, da ternura de Deus.

A espera do descendente de Davi para restaurar o Reino tornou-se ao longo dos séculos um dos temas da experiência religiosa de Israel. O Messias ungido do Senhor era esperado como Juiz do povo e o Emanuel não foi apenas um indicativo do cumprimento das promessas de Deus, mas o próprio Deus feito homem. Assumiu a humanidade na carne de uma mulher e a ligou à pessoa do Verbo. É, como proclama a liturgia, um admirabile commercium. Este paradoxo da Encarnação teve o seu primeiro impacto em José. Mas, pela fé, José o reconheceu como Messias e o acolheu.

O advento de Jesus na carne é um advento “kenótico”. Ele não chegou com o esplendor da sua divindade, mas na humilhação. Hoje muitas vezes há dificuldade em aceitar Jesus como Senhor. A sua figura moral e até a sua morte trágica na cruz são aceitas, mas é difícil aceitar a sua divindade. É mais fácil, como fizeram muitos nos difíceis séculos das controvérsias cristológicas, aderir a um certo néo-monofisismo ou a um néo-docetismo. Diante disso, não é desproporcional voltar ao conceito de Calcedônia (451), onde se encerrou uma fase das controvérsias cristológicas e se proclamou que a Igreja professa “Um só e mesmo Filho, o Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na sua divindade e perfeito na sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, consubstancial a nós pela humanidade... ‘Semelhante a nós em tudo menos no pecado’, um só e mesmo Cristo, Senhor Filho Unigênito reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação...”.

Jesus, em certo momento do seu ministério, perguntou: “Quem diz o povo que Eu sou?”. Consideremos esta pergunta dirigida a nós, que somos seus discípulos, que caminhamos ao seu lado. Devemos responder que Jesus é o Filho de Deus, alguém como nós, que conheceu alegrias e tristezas, e só o pecado lhe foi estranho.

Ele foi um homem para os outros, que deu a sua própria vida para nos salvar. Mas não foi só isso. Para que a sua morte gerasse vida, foi preciso ser mais que um homem. Foi preciso que Nele estivesse a força de Deus, que ele fosse como disse Pedro: “o Cristo, o Filho de Deus vivo!” (Mateus 16,16).

Daqui a pouco celebraremos o Natal, que é o reconhecimento da intervenção misteriosa de Deus na história dos homens e a sua condescendência pela humanidade. É a sua misericórdia concretizada uma vez para sempre.

Quellec, poeta moderno, observou que enquanto toda a criação e a humanidade olhavam para o nascimento do Redentor era fácil para o Senhor esperar de nós, “mas agora que tudo se realizou, resta tudo a esperar. Tu és o Deus que espera. És o mendigo desconhecido que aguarda a confiança e o amor dos homens, já que doou tudo. Doou-nos a voz do seu Filho, seu olhar, suas mãos, para acordar a terra, para aquecer os corações, para quebrar as correntes do velho mundo. E Tu, Senhor, entraste no tempo da espera. Entraste, Senhor, no tempo do acontecer”.

Na liturgia de hoje também está presente a figura cinzenta de José. Nela Mateus realça o “Anúncio do Anjo a José” e destaca as perguntas de José, a quem qualifica como bom, justo e honrado (1,19), mas que tomou a decisão estranha de repudiar Maria. Por quê? Não porque José desconhecesse o mistério que Maria recebera do Anjo e que Maria, portanto, o tivesse escondido. O problema não está em se José acredita na culpa ou na inocência de Maria. Isto não seria próprio de um homem honrado. Se acreditasse na culpa dela, teria que denunciá-la publicamente. Se aceitasse a sua inocência, por que a repudiaria secretamente? Sua perplexidade foi não entender o mistério, embora conhecesse a concepção virginal de Maria. Não sabia que papel lhe cabia diante do Filho de Deus, por isso lhe pareceu mais honrado retirar-se discretamente.

Diante disso, o Anjo lhe fala em sonhos, conforme a fórmula bíblica de comunicação de Deus com o homem. O Anjo lhe aclara o mistério que Maria já lhe havia revelado e lhe confia a missão de pai do descendente de Davi. Por isso, ele mesmo lhe imporá o nome, função específica do pai. Com isso Jesus entra na genealogia davídica do Messias, à qual Mateus faz menção no capítulo primeiro do seu evangelho. Assim, José ocupa um lugar preeminente na história da salvação.

No anúncio do Anjo a José há a citação textual de uma profecia messiânica de Isaías que foi dirigida a Acaz (século VIII a.C.): uma criança que nasce de uma mulher virgem. Este sinal estava se cumprindo em Maria (Mateus 1,22-23; Isaías 7,14). A palavra hebraica na profecia de Isaías para designar “a Virgem” é “Almáh”, que significa mulher núbil, jovem recém-casada, não significando virgindade em sentido fisiológico ou moral. Isaías usa o artigo “a” para se referir a uma jovem conhecida pelo rei e pelo profeta, que podia ser a esposa do rei à espera do primeiro filho. Na versão grega dos Setenta, “Almáh” é traduzida por “Parthénos”, que significa Virgem.

A atitude de José foi de fé, porque entrou em contato com o mistério obscuro e luminoso, tremendo e fascinante de Deus. Ele teve fé porque renunciou a toda segurança palpável. Porque assumiu um compromisso sério que empenhou toda a sua vida, vivendo um desafio contínuo a fim de viver com plena disponibilidade para Deus. Para ser um sinal do mistério de Deus e do seu amor transbordante.

A espera do Messias, concretizada no Natal, manifestou-se ao longo do Antigo Testamento, sendo uma das características mais essenciais do povo de Israel. Todos os olhos estavam voltados para a distância dos tempos futuros, nos quais um dia surgiria o Messias. Os livros do Antigo Testamento narram a história da salvação em que a vinda do Messias é preparada, passo a passo. O Gênesis já fala da vitória da mulher e de um mundo novo. Oséias anuncia que Israel se converterá e que nele florescerá o amor antigo. Isaías, por entre as decepções do reinado de Ezequiel, anuncia a vinda do Messias e Miquéias aponta Belém como o lugar onde ele vai nascer.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
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