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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
03° Domingo do Advento
13 de Dezembro de 2009

Primeira Leitura
Sofonias 3,14-18a
ALEGRE-SE, CIDADE, O SEU LIBERTADOR CHEGOU!

Sofonias exerceu sua missão profética em Jerusalém no tempo do rei Josias (640-639 a.C.). Foi uma das forças que levou o rei a empreender a reforma político-religiosa após a descoberta no Templo do livro do Deuteronômio. Para os exegetas, o capítulo 3,9-20 não pertence ao profeta, mas a um discípulo. Faz parte de um oráculo acrescentado após a volta da Babilônia. É uma mensagem de esperança dirigida à memória que sobreviveu à catástrofe nacional (v.13).

A história do povo de Deus reiniciou a partir deste pequeno resto composto de pobres. Com ele será construída a nova sociedade.

Estes versículos estão cheios de otimismo, esperança e alegria (v.14). Convidam à festa e à dança, pois chegou o dia do casamento de Deus com seu povo (vv.16-17). O motivo da alegria é que o Senhor é o rei de Israel (v.15b). Ele é o juiz que anula a sentença de morte que pesava sobre o povo. Forçou os inimigos a se retirarem, deixando o povo retornar à sua pátria. Agora surge uma nova liderança para o povo que não trai, não leva ao exílio, pois é o próprio Deus quem os dirige. É uma nova sociedade feita pelos pobres. Deus está no meio do seu povo como um herói guerreiro que salva, como um companheiro e esposo. Ele é um juiz que anula a sentença de morte sobre o povo (exílio).

Os reis de antes, Manassés (687-642) e Amon (642-640), eram idólatras, corruptos, desonestos e prepotentes. Também com Josias, que subiu ao trono com 8 anos, as coisas não mudaram. De 640 a 628, este rei esteve subordinado aos tutores. Por causa dos reis incompetentes, o povo pagou caro indo para o exílio, ficando sem terra e sendo explorado.

Neste contexto, Sofonias mostrou os erros em altos brados, previu o domínio do Império Babilônico e a destruição de Jerusalém. Ao mesmo tempo previu a conversão dos pagãos e uma nova sociedade. A filha de Sião personifica todo o povo salvo, onde Javé oferece uma nova identidade.

Segunda Leitura
Filipenses 4,4-7

ALEGRIA E PAZ: O SENHOR ESTÁ PERTO!

A comunidade de Filipos nasceu na casa de uma senhora chamada Lídia e em torno da família de um carcereiro de quem Paulo havia salvado a vida. Foi a primeira cidade da Europa a receber o anúncio (Atos dos Apóstolos 16,11-40). Esta comunidade foi fundada na segunda viagem missionária de Paulo (Atos dos Apóstolos 16,49-52).

Paulo não esperava nada das comunidades onde pregava, mas com esta comunidade foi diferente. Ela foi solidária com ele quando soube que estava preso em Éfeso (16,56-57) e mandou-lhe uma ajuda através de Epafrodito (4,18).

Esta carta é uma explosão de alegria. É uma coleção de três bilhetes escritos por Paulo para esta comunidade.

O texto traz algumas recomendações, pois ele ficou sabendo que havia alguns desentendimentos entre duas mulheres líderes na comunidade e isto estava causando divisões. Então o apóstolo faz um apelo à unidade e ao diálogo, e depois convoca todos à alegria. Para ele, ser cristão é motivo de alegria, compreensão e equilíbrio. A união da comunidade em torno do projeto de Deus deve ser propagada para os que estão fora, para que estes, vendo a união, comprovem a presença de Deus. O apóstolo não ignora os momentos de tensão na comunidade. Por isso pede que tudo seja resolvido num clima de diálogo com as pessoas e com Deus (v.16).

Poderia descrever estes versículos como uma espécie de quadro da psicologia do cristão fundado na fé, na alegria, na oração, na serenidade e na afabilidade. É um mini-tratado de ascética cristã autêntica baseada em valores.

Evangelho
Lucas 3,10-18

JOÃO BATISTA PREPARA OS CORAÇÕES
PARA A VINDA DO SENHOR

João Batista está preparando o povo para a chegada do Messias, com os requisitos básicos contidos em sua pregação. O Batista está no deserto, onde dá o Batismo de conversão. Sua pregação leva as pessoas a não se fecharem em si mesmas. Neste sentido, sua pregação supera a dos zelotas, que esperavam um messias guerreiro, capaz de resolver tudo sozinho, sobretudo a grave situação social do país. Supera também o ritualismo farisaico, que com seus ritualismos pregava um tipo de conversão voltada para dentro das pessoas, com apego à observância da Lei e de seus detalhes. Supera também a segregação grupal dos essênios de Qunran, que diziam ser necessário fugir do mundo para pertencer ao Messias esperado.

João Batista situava as pessoas dentro do julgamento de Deus e exigia renovação total. Para isso era necessário converter-se e, para acolher o Messias, era preciso mudar o relacionamento com as pessoas, pois os parâmetros da história social não serviam e para isso ele esboça um programa de vida, com requisitos básicos para construir a nova história e a nova sociedade. Uma história diferente da oficial, baseada na ganância e no acúmulo de bens. Eis os itens deste programa:

a) Partilha - O que devemos fazer? Era uma pergunta básica nas comunidades primitivas, feita por aqueles que procuravam o Batismo (Atos dos Apóstolos 16,20). Então o Batista fala de partilha; este é o primeiro requisito. Não se trata de esmolas, mas de uma nova sociedade não baseada no acúmulo e na ganância. “Quem tiver duas túnicas...” (v.11). Neste sentido, a pregação do Batista se alinha com a tradição profética (Isaías 58,6-10).

b) Justiça - Para os cobradores de impostos que faziam a mesma pergunta, o Batista dizia que não cobrassem mais do que a taxa estabelecida. Eles eram odiados porque colaboravam com os romanos exploradores e se enriqueciam facilmente. Portanto, João Batista pede eqüidade e que não roubassem o povo. O Batista estava preparando a chegada de Jesus. Jesus vai além do que o Batista pregava, pois para ele entrar na justiça do Reino não pode se limitar à justiça da história oficial. Isto fica claro em Lucas 19,1-10: Zaqueu devolveu os bens roubados.

c) Acabar com os abusos do poder - O terceiro grupo são os soldados de Herodes Antipas, que acompanhavam os cobradores de impostos, os quais, se não conseguissem roubar mediante a pressão verbal, recorriam à força militar, intimidando, batendo e fazendo acusações. Estes eram os homens da Lei e o Batista dizia para eles: “Não tomem o dinheiro de ninguém...”, e que ficassem contentes com o que ganhavam.

Esta pregação de João Batista suscitou a expectativa messiânica, de sorte que perguntavam entre o povo se ele não seria o Messias (v.15). Mas ele responde que está preparando o caminho, pois o Messias batizará com o fogo e o Espírito Santo (v.16). Será Jesus quem irá implantar a nova ordem na sociedade. Ele possui um Espírito novo que trará o julgamento à terra e João descreve este acontecimento com a metáfora do agricultor que separa na eira os grãos da palha (v.17). João Batista realça a superioridade do Messias, de quem não é escravo, pois não é digno de desamarrar suas sandálias (tarefa dos escravos). Jesus irá mostrar quem é quem na sociedade e na história.

Jesus batizará com o Espírito Santo. É uma comparação com Atos dos Apóstolos 1,5, lembrando uma promessa de Lucas 24,49 que se concretizou no Pentecostes (Atos dos Apóstolos 2,1-13). O Espírito é apresentado como fogo, elemento “mais espiritual” do que a água, e já havia sido indicado no Antigo Testamento como instrumento purificador (Isaías 1,15; Jeremias 6,29).

REFLEXÃO

Este é chamado o domingo “Gaudete”. É permitido, portanto, o paramento rosa para expressar esta alegria.

João Batista arrastava a multidão, que queria ouvi-lo e ser batizada. Falava duro, dizendo que não bastava jogar-se nas águas do Jordão, mas era preciso mudar o estilo de vida, converter-se, fazer uma renovação interior. Ele faz uma apresentação de Jesus ligada à idéia do judaísmo: um Jesus que condena os maus e acolhe os bons. Na verdade, Jesus veio como médico para curar. Lucas insiste na possibilidade de conversão de todos, inclusive dos publicanos e soldados, que eram mal vistos por causa de suas profissões. João Batista não pede que entrem em um convento, nem lhes impõe penitência, mas a obrigação de superar o egoísmo, partilhar...

Alegrem-se no Senhor. A afabilidade de vocês seja notada por todos”. Este é o convite de Paulo: manter-se afável, sereno, manso... A alegria misturada com o amor cristão aparece já no canto dos anjos de Belém. Faz parte da essência do Evangelho, que é notícia alegre. É preciso combater a tristeza com a alegria, pois a tristeza nos faz baixar a cabeça e não nos permite olhar para o céu. O Cura d’Ars disse que quando estava triste ia confessar-se. Chanfort escreveu que um dia em que não se riu pelo menos uma vez é um dia perdido. E João XXIII disse: “Enquanto puder, quero ser calorífico e não frigorífico”.

São Paulo nos convida a deixar a alegria florir em nossa vida, mas não como a alegria barulhenta do mundo. A fonte da alegria pode secar quando se acredita que é possível alimentá-la com água do esgoto, ou seja, com o prazer, a riqueza, o sexo... Isto gera insatisfação, desilusão, desespero.

Somos convidados a viver a bondade. Esta não pode ser uma máscara de amabilidade, um fingimento, uma atitude hipócrita ou diplomática para salvar as aparências. Infelizmente, a alegria para os cristãos não é contagiosa. “A alegria é o segredo gigantesco do cristão” (Chesterton).

Renovar, mudar, fazer um mundo novo, uma nova sociedade, é assunto de inúmeros discursos, encontros, congressos e assembléias. São idéias que ficam no plano das propostas e não alcançam o objetivo, porque os homens se negam a ser renovados por Cristo. Só a presença de Deus na vida do homem o leva a mudar o comportamento, fazendo com que seja permeado de docilidade e mansidão, eliminando os ressentimentos, a agressividade, as críticas.

A liturgia nos convida à alegria porque Deus é um Deus da alegria. “Um santo triste é um triste santo”.

São Filipe Néri, o santo da alegria, dizia: “Tristeza, fora da minha casa”. Alguns santos até brincaram na hora da morte. São Lourenço, enquanto era queimado na grelha, pediu que o carrasco o virasse do outro lado, porque daquele já estava assado. Tomás Moro, ao colocar a cabeça no cadafalso, levantou sua longa barba para que não fosse cortada e disse: “Ela não tem culpa”.

O segredo da alegria destas pessoas é a proximidade com Deus. A primeira leitura de hoje ensina que as duas condições para ter alegria é a libertação do mal e a comunhão com Deus.

São Francisco de Assis, quando encontrava um frade triste, dizia-lhe: “Ou você está na graça de Deus ou em pecado. Se está na graça, seja alegre. Se está em pecado, peça perdão a Deus e depois fique alegre”.

Se João Batista tivesse que nos dirigir palavras hoje, o que nos diria? “Eis os ingredientes básicos: oração constante e sincera para compreender a vontade de Deus; participação nos sacramentos para fortalecer-se interiormente diante das tentações; assiduidade à Palavra de Deus; confiança em Deus, que não nos pede sacrifícios além de nossas forças; paz no coração, porque Deus é fiel as suas promessas; atenção às necessidades do tempo em que Deus nos interpela; exercício do amor, que torna concreta a nossa fé”.

Maria foi convidada à alegria porque estava perto de Deus. Ante a proximidade do Messias, João Batista saltou de alegria no ventre materno. Todos se alegravam ao ver as maravilhas que Jesus fazia (Lucas 13,7). Nossa alegria deve ter fundamento forte. Não pode se apoiar exclusivamente em coisas passageiras: saúde, notícias agradáveis, bens materiais. Devemos levar a alegria aos outros: um sorriso, uma palavra cordial, um elogio. Pois a missão do cristão é levar a alegria aos outros.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

 
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