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ANO C - São Lucas
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COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano C
02° Domingo do Advento
06 de Dezembro de 2009

Primeira Leitura
Baruc 5,1-9
ESPERANÇA DE REINTEGRAÇÃO E ALEGRIA

O profeta anuncia uma mensagem de esperança para Jerusalém despojada de seus filhos. O texto lembra o tempo em que Judá foi deportado para o cativeiro na Babilônia. Deus teria abandonado o seu povo, repudiado Jerusalém, sua esposa, e seus filhos? O autor personifica Jerusalém como uma esposa abandonada por Javé. Seu marido teria deportado para longe seus filhos? Este livro, escrito em grego na época helenística pelo fim do 2º século a.C., tem uma afinidade com Isaías 40,3-5. A leitura de Baruc transborda de otimismo e entusiasmo, para animar os judeus da dispersão que viviam em circunstâncias difíceis. De fato, nestes versículos o autor, que personifica Jerusalém como esposa de Javé, convida-a a trocar as roupas de luto e revestir-se de alegria, pois é o início da libertação. A cidade é chamada a vestir o manto da justiça que Deus lhe oferece, pois o povo libertado está reabilitado, e vai viver de agora em diante não do poder das armas, mas da misericórdia de Deus, que se põe do lado dos oprimidos.

Deus dá ao povo e à cidade um nome novo, uma nova identidade, “Paz da Justiça e Glória da Religião”, anunciando que nesta comunidade as relações humanas serão fundadas na justiça e voltadas para a paz. Assim, as pessoas poderão se relacionar de modo perfeito com Deus (religião) e o próprio Deus habitará no meio delas (glória).

Jerusalém recebe ordens para se levantar do pó onde está cheia de dor e subir a um lugar elevado e contemplar o retorno alegre de seus filhos, transportados em tronos (v.6), pois Deus se lembrou deles.

O cortejo é mágico. Supera de forma extraordinária a saída do Egito, quando foi preciso enfrentar o deserto, o sol quente e o calor. Desta feita o próprio Deus manda rebaixar as colinas e encher os buracos, para que o caminho seja plano. As florestas e as árvores perfumadas irão oferecer abrigo ao povo (v.8). O autor mostra aqui o contraste entre a saída e a chegada do povo. Ao sair de Jerusalém foram a pé, como escravos. Agora, ao retornarem, são conduzidos por Deus transportados em tronos (v.6).

Segunda Leitura
Filipenses 1,4-6.8-11

AÇÃO DE GRAÇAS E ORAÇÃO; INTEGRIDADE

A comunidade de Filipos nasceu na casa de uma senhora de nome Lídia, e também na família do carcereiro cuja vida Paulo havia salvo (Atos dos Apóstolos 16,11-40). Paulo escreveu esta carta do seu cárcere provavelmente no ano 53 d.C. Na prisão ele experimentou que a união com Cristo é mais eficaz que a ação, e por isso ele não tem medo da morte por causa de Cristo.

Filipos foi a primeira cidade da Europa a receber o anúncio. Esta comunidade ficou sabendo da prisão de Paulo e enviou-lhe uma ajuda, mostrando solidariedade. Esta carta é formada por três bilhetes que Paulo escreveu a esta comunidade.

No texto de hoje Paulo reza e faz um pedido. Sua oração é marcada pela alegria que resulta da participação da comunidade na difusão do Evangelho desde que ficou preso. Sua oração é uma ação de graças a Deus pela perseverança da comunidade e pela solidariedade que viveu. Ele tem a convicção de que quem está agindo ali é o próprio Deus. Acredita que o Evangelho tem uma força extraordinária capaz de levar as pessoas a se comprometerem em profundidade com o projeto de Deus e de criar novos laços.

Por fim, Paulo pede que o amor entre os membros da comunidade cresça sempre mais, amor que se concretiza discernindo o que é melhor a ser feito, pois o amor assim vivenciado gera a santidade.

Evangelho
Lucas 3,1-6

JOÃO BATISTA PREPARA A VINDA DO SENHOR

Depois do “Evangelho da infância”, Lucas segue o esquema tradicional: a atividade pública com três narrações (missão de João Batista, Batismo de Jesus e as três tentações). Nosso texto apresenta a investidura profética do Batista. O evangelista se preocupa em descrever o quadro geográfico e histórico dos anos 30, procurando dar uma dimensão histórica e um significado teológico à vida de Jesus. Mostra o início da missão de Jesus, contando como era a sociedade daquele tempo. Diz que há um Imperador, Tibério, que domina o mundo. Pilatos, romano que está a serviço do poder central, governa a Judéia entre os anos 20-36 d.C. Herodes Antipas administra a Galiléia, lugar onde Jesus pregou. Ele é filho de Herodes, o Grande, que se sentiu ameaçado no poder e mandou matar as crianças de Belém (Mateus 2,13-18). Filipe, irmão de Herodes Antipas, é administrador da Ituréia e de Traconítide. Lisânias é administrador de Abilene. Toda esta história oficial é feita de opressão e abuso do poder. Para Lucas, o centro da história não está neste poder, nem nos pontífices que detêm o poder religioso em Jerusalém, mas na palavra de Deus que chega com João Batista no deserto.

Em seguida Lucas apresenta as lideranças religiosas judaicas: Anás e Caifás. Anás foi sumo sacerdote de 6 a 15 d.C. e Caifás de 17 a 37 d.C. Mesmo depois de perder o poder, Anás continuou por muitos anos sendo o homem forte da aristocracia sacerdotal e do Sinédrio. Direta ou indiretamente, Jesus irá se confrontar com esses personagens no contexto de sua paixão: com o sumo sacerdote (22,55), com o Sinédrio (22,66s), com Pilatos (23,2ss.13ss) e com Herodes (23,8ss).

O 15º ano do império de Tibério César ocorre mais ou menos pelos anos 27-28 d.C. Pilatos governou a Judéia de 26 a 36 d.C. e Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia e da Peréia, governou de 4 a.C. a 39 d.C. e Filipe, de 4 a.C. a 34 d.C.

O caminho de Jesus é diferente. Não passa por esta história oficial, marcada pela ambição, pelo jogo de interesses e pela morte. Ele inicia quando João Batista, filho de Zacarias, preparava o Batismo de conversão e o perdão dos pecados, convidando o povo a iniciar uma nova história.

Lucas apresenta João Batista como o profeta que prepara o caminho para Jesus. Ele anuncia uma nova história com as palavras de Is 40,3-5. Assim como Isaías anunciava o fim do exílio e o início da vida nova, o Batista anuncia o fim da história de opressão e o início da história que Jesus começaria a construir. Este precursor devia vir do deserto (Is 40,3). O deserto é o ambiente onde o Batista recebe e proclama a Palavra. O deserto é, na Bíblia, o lugar dos grandes caminhos de liberdade. Ao voltarem do Egito e da Babilônia, os israelitas passaram pelo deserto. É o lugar da experiência da libertação. O caminho de Jesus é uma proposta aberta para todos, contanto que se convertam e endireitem o próprio caminho, pois assim “todo homem verá a salvação” (V 6 - Is 40,5).

O Batismo de João Batista era, para os judeus que intuíram a insuficiência da purificação ritual (Lc 16; Nm 19,1-10), a oportunidade para receber o perdão dos pecados. Por isso o Batista insiste neste gesto exterior no processo de conversão, pois sem ele o outro seria vazio. Para ser perdoado é preciso vontade determinada de mudar o coração e as ações radicalmente, vontade de ter discernimento.

A pregação sobre a vinda do Senhor consistia, portanto, neste gesto de transformação interior radical, em assumir uma mentalidade nova, em dar direção para a vida.

REFLEXÃO

Lucas, ao escrever seu evangelho, tinha em mente o início das comunidades cristãs, os apóstolos itinerantes, a força da palavra de Deus anunciada que gerava conversão e o Batismo que selava a fé.

No começo do evangelho de hoje, Lucas faz a sincronia da história da salvação de Deus com a história humana. Detalha o momento da história política (romana) e nacional (judaica), que constitui o enquadramento temporal no qual a palavra de Deus entra em ação pela boca de João Batista. Neste tempo “a palavra de Deus veio sobre João” . Esta palavra se encarna na história e pede uma mudança estrutural do homem e da sociedade. O Batismo de João é resposta à Palavra de Deus, que pede conversão individual e estrutural.

João Batista é um profeta mensageiro esquálido e pobre, pois Deus não necessita como veículo de sua graça do forte, do que tem status social ou do que tem poder político.

Conversão pessoal é o apelo que soa para nós hoje. É Deus quem fala “Endireitem os caminhos”, ou seja, nossas vidas, com nossa conversão. Devemos abaixar (aplainar) os montes da soberba e do orgulho e nos tornar humildes. Eliminar a falsidade, a hipocrisia, ser leais com Deus, com os outros e conosco mesmos. Devemos eliminar as incertezas e os medos e tomar decisões.

Tudo isto é obra da ascese, que exige um exame de consciência para ver quais são nossos defeitos. Depois é necessário empenho para corrigi-los, confiando na ajuda de Deus. Só assim se realizarão as palavras de João Batista: “Todo homem verá a salvação.”

O trabalho “topográfico” que nos é proposto para preparar um caminho plano significa, no nível da conversão pessoal, rebaixar a soberba, origem de tantos pecados, reconhecendo-nos pecadores. Rebaixar as desigualdades e levantar os direitos humanos, enchendo os vazios da fome e da pobreza com nossa solidariedade. Hoje como ontem, precisamos de pessoas capazes de operar mudanças radicais na sociedade, como São Francisco de Assis, que viveu a pobreza evangélica; como Teresa de Ávila, que sem estudos renovou em Salamanca a contemplação religiosa e toda a espiritualidade do século XVI e dos seguintes. Para isso, é preciso renovação pessoal, mudança de conduta.

As palavras: “Preparem os caminhos do Senhor”, não dizem respeito somente a nós, mas também aos outros. Devemos cooperar para a salvação dos outros. Devemos aplainar também as estradas dos outros, para que cheguem à salvação. Jesus nos diz particularmente: “Confortem as mãos frouxas, firmem os joelhos vacilantes. Digam àqueles que têm o coração perturbado: Coragem, não tenham medo” (Is 35,1-10). Ora, todos os dias nos encontramos com pessoas que estão desorientadas no aspecto mais essencial de sua existência. Sentem-se incapazes de ir até Deus e andam como paralíticos pelos caminhos da vida. Temos que guiá-las para o sentido de suas vidas.

É significativo de Paulo na 2º leitura “... Pelo motivo da colaboração de vocês para a difusão do Evangelho desde o primeiro dia...” Está historicamente comprovado que o cristianismo se difundiu mais rapidamente não tanto pela pregação dos apóstolos, quanto pelo testemunho dos cristãos. É por isso que o Vaticano II insiste no apostolado dos leigos, pois hoje mais do que nunca os leigos são chamados a colaborar na Igreja. Mas as estatísticas mostram que uma parte mínima dos leigos exerce suas atividades de cristãos batizados.

Qual a modalidade específica de nosso apostolado? Paulo diz que é na caridade e no discernimento, ou seja, no amor ao próximo. Esta é a dívida que todos temos. Com esta modalidade de apostolado veremos os frutos que serão feitos da felicidade de vermos voltar para Deus os filhos que estão distantes dele (1ª leitura).

Raul Foullereau escreveu: “Sonhei que um homem se apresentava para o juízo diante de Deus, e lhe disse: “Veja, meu Deus, observei tua lei, não fiz nada desonesto, não dei maus exemplos... Senhor, minhas mãos estão limpas.” Deus, porém, lhe respondeu: “Sem dúvida, tuas mãos estão limpas, mas também estão vazias...”.

Como nos apresentaremos diante do Senhor? Com mãos sujas, limpas ou cheias de boas obras?

Baruc está no exílio com seu povo na Babilônia. Tem a missão de desvendar os mistérios de Deus para o povo que vive um momento dramático. Jerusalém está destruída na pátria distante. Se de um lado o exílio é castigo, de outro a misericórdia de Deus é a promessa de um futuro esplêndido. Por isso Baruc convida o povo a esquecer o luto e a aflição e se revestir do “manto da justiça” e colocar na cabeça um diadema de glória. E assim aconteceu. O povo voltou do exílio e reconstruiu Jerusalém e o Templo de maneira mais esplêndida que antes.

Charles de Foucauld declarou que foi conduzido a Cristo e à Igreja, de militar mundano que era, pelo testemunho de sua prima Madame de Bonay, com seu silêncio, sua bondade, docilidade e santidade. Convertido, ele pedirá a seus seguidores que estejam simplesmente presentes entre os homens como testemunhas silenciosas do amor de Cristo.

Tomás Merton fala da influência profunda que recebeu aos 12 anos de uma família católica: “Eram santos, com aquela santidade eficaz e convincente que consiste em levar a vida ordinária de modo sobrenatural.”

Lucas apresenta João Batista num cenário religioso em cujo vértice está Tibério César, dono do mundo, a quem devem se curvar até os sumos sacerdotes, autoridades religiosas mais altas do povo. Mas no meio deste povo humilhado a palavra de Deus desce sobre João Batista, que anuncia a salvação. O homem pensa em reformar e transformar o mundo com armas, guerras e astúcias. Deus, ao contrário, transforma o homem penetrando silenciosamente em seu coração.

Kierkegaard, pai do existencialismo no século passado, dizia: “A condição do mundo atual, aliás de toda a vida, está doente. Se eu fosse médico e me perguntassem: - “O que você recomendaria para curá-la”, eu responderia: “Procurem o silêncio, façam com que os homens silenciem, pois a palavra de Deus não pode ser ouvida assim. É preciso entrar num convento igual àquele do qual Lutero saiu”. João Batista anuncia a conversão, ou seja, deixar de prestar atenção neste mundo e voltar-se para o Senhor, fazer como Maria: “Faça-se em mim a tua vontade”.

Domingos Sávio disse um dia a Dom Bosco que queria ser santo, mas não sabia como fazer. Então Dom Bosco lhe disse: “É fácil, fique sempre alegre, faça bem suas obrigações de piedade e de estudo. Por amor a Deus, esforce-se para conquistar para o Senhor seus companheiros”.

Neste domingo o Senhor nos convida a ver e gozar a salvação, pois é sua vontade, e João Batista nos diz quais são as condições: converter-se, endireitar os caminhos, encher os vales e buracos, ou seja, preenchê-los com a oração, o recolhimento, os sacramentos, a generosidade... Rebaixar os montes, ou seja, tirar tudo que é demais: soberba, prepotência, preguiça, egoísmo...

Esta salvação está aberta a todos, mas só se concretiza em quem a acolhe.

Numa articulação de redes de irrigação, existem inúmeros canais até chegar ao campo da terra. Quando se abrem os canais grandes, estes chegam aos pequenos. Se não for aberto o tampão de ingresso da água no terreno, o campo permanece seco, pois a água não consegue chegar. Assim, o campo fértil pode ficar árido por falta de água. O mesmo exemplo vale para o aparelho circulatório do sangue, que só leva a vida onde o sangue chega.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano C:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico C
"

 
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