Lucas,
ao escrever seu evangelho, tinha em mente o início
das comunidades cristãs, os apóstolos itinerantes,
a força da palavra de Deus anunciada que gerava conversão
e o Batismo que selava a fé.
No
começo do evangelho de hoje, Lucas faz a sincronia
da história da salvação de Deus com
a história humana. Detalha o momento da história
política (romana) e nacional (judaica),
que constitui o enquadramento temporal no qual a palavra
de Deus entra em ação pela boca de João
Batista. Neste tempo “a
palavra de Deus veio sobre João”
. Esta palavra se encarna na história e pede uma
mudança estrutural do homem e da sociedade. O Batismo
de João é resposta à Palavra de Deus,
que pede conversão individual e estrutural.
João
Batista é um profeta mensageiro esquálido
e pobre, pois Deus não necessita como veículo
de sua graça do forte, do que tem status social ou
do que tem poder político.
Conversão
pessoal é o apelo que soa para nós hoje. É
Deus quem fala “Endireitem
os caminhos”, ou seja, nossas vidas,
com nossa conversão. Devemos abaixar (aplainar)
os montes da soberba e do orgulho e nos tornar humildes.
Eliminar a falsidade, a hipocrisia, ser leais com Deus,
com os outros e conosco mesmos. Devemos eliminar as incertezas
e os medos e tomar decisões.
Tudo
isto é obra da ascese, que exige um exame de consciência
para ver quais são nossos defeitos. Depois é
necessário empenho para corrigi-los, confiando na
ajuda de Deus. Só assim se realizarão as palavras
de João Batista: “Todo
homem verá a salvação.”
O
trabalho “topográfico”
que nos é proposto para preparar um caminho plano
significa, no nível da conversão pessoal,
rebaixar a soberba, origem de tantos pecados, reconhecendo-nos
pecadores. Rebaixar as desigualdades e levantar os direitos
humanos, enchendo os vazios da fome e da pobreza com nossa
solidariedade. Hoje como ontem, precisamos de pessoas capazes
de operar mudanças radicais na sociedade, como São
Francisco de Assis, que viveu a pobreza evangélica;
como Teresa de Ávila, que sem estudos renovou em
Salamanca a contemplação religiosa e toda
a espiritualidade do século XVI e dos seguintes.
Para isso, é preciso renovação pessoal,
mudança de conduta.
As palavras: “Preparem os caminhos do Senhor”,
não dizem respeito somente a nós, mas também
aos outros. Devemos cooperar para a salvação
dos outros. Devemos aplainar também as estradas dos
outros, para que cheguem à salvação.
Jesus nos diz particularmente: “Confortem
as mãos frouxas, firmem os joelhos vacilantes. Digam
àqueles que têm o coração perturbado:
Coragem, não tenham medo” (Is
35,1-10). Ora, todos os dias nos encontramos com pessoas
que estão desorientadas no aspecto mais essencial
de sua existência. Sentem-se incapazes de ir até
Deus e andam como paralíticos pelos caminhos da vida.
Temos que guiá-las para o sentido de suas vidas.
É
significativo de Paulo na 2º leitura “...
Pelo motivo da colaboração de vocês
para a difusão do Evangelho desde o primeiro dia...”
Está historicamente comprovado que o cristianismo
se difundiu mais rapidamente não tanto pela pregação
dos apóstolos, quanto pelo testemunho dos cristãos.
É por isso que o Vaticano II insiste no apostolado
dos leigos, pois hoje mais do que nunca os leigos são
chamados a colaborar na Igreja. Mas as estatísticas
mostram que uma parte mínima dos leigos exerce suas
atividades de cristãos batizados.
Qual
a modalidade específica de nosso apostolado? Paulo
diz que é na caridade e no discernimento, ou seja,
no amor ao próximo. Esta é a dívida
que todos temos. Com esta modalidade de apostolado veremos
os frutos que serão feitos da felicidade de vermos
voltar para Deus os filhos que estão distantes dele
(1ª leitura).
Raul
Foullereau escreveu: “Sonhei que um homem se apresentava
para o juízo diante de Deus, e lhe disse: “Veja,
meu Deus, observei tua lei, não fiz nada desonesto,
não dei maus exemplos... Senhor, minhas mãos
estão limpas.” Deus, porém, lhe respondeu:
“Sem dúvida, tuas mãos estão
limpas, mas também estão vazias...”.
Como nos apresentaremos diante do Senhor? Com mãos
sujas, limpas ou cheias de boas obras?
Baruc
está no exílio com seu povo na Babilônia.
Tem a missão de desvendar os mistérios de
Deus para o povo que vive um momento dramático. Jerusalém
está destruída na pátria distante.
Se de um lado o exílio é castigo, de outro
a misericórdia de Deus é a promessa de um
futuro esplêndido. Por isso Baruc convida o povo a
esquecer o luto e a aflição e se revestir
do “manto da justiça”
e colocar na cabeça um diadema de glória.
E assim aconteceu. O povo voltou do exílio e reconstruiu
Jerusalém e o Templo de maneira mais esplêndida
que antes.
Charles
de Foucauld declarou que foi conduzido a Cristo e à
Igreja, de militar mundano que era, pelo testemunho de sua
prima Madame de Bonay, com seu silêncio, sua bondade,
docilidade e santidade. Convertido, ele pedirá a
seus seguidores que estejam simplesmente presentes entre
os homens como testemunhas silenciosas do amor de Cristo.
Tomás
Merton fala da influência profunda que recebeu aos
12 anos de uma família católica: “Eram
santos, com aquela santidade eficaz e convincente que consiste
em levar a vida ordinária de modo sobrenatural.”
Lucas
apresenta João Batista num cenário religioso
em cujo vértice está Tibério César,
dono do mundo, a quem devem se curvar até os sumos
sacerdotes, autoridades religiosas mais altas do povo. Mas
no meio deste povo humilhado a palavra de Deus desce sobre
João Batista, que anuncia a salvação.
O homem pensa em reformar e transformar o mundo com armas,
guerras e astúcias. Deus, ao contrário, transforma
o homem penetrando silenciosamente em seu coração.
Kierkegaard,
pai do existencialismo no século passado, dizia:
“A condição
do mundo atual, aliás de toda a vida, está
doente. Se eu fosse médico e me perguntassem: - “O
que você recomendaria para curá-la”,
eu responderia: “Procurem o silêncio, façam
com que os homens silenciem, pois a palavra de Deus não
pode ser ouvida assim. É preciso entrar num convento
igual àquele do qual Lutero saiu”.
João Batista anuncia a conversão, ou seja,
deixar de prestar atenção neste mundo e voltar-se
para o Senhor, fazer como Maria: “Faça-se
em mim a tua vontade”.
Domingos
Sávio disse um dia a Dom Bosco que queria ser santo,
mas não sabia como fazer. Então Dom Bosco
lhe disse: “É
fácil, fique sempre alegre, faça bem suas
obrigações de piedade e de estudo. Por amor
a Deus, esforce-se para conquistar para o Senhor seus companheiros”.
Neste
domingo o Senhor nos convida a ver e gozar a salvação,
pois é sua vontade, e João Batista nos diz
quais são as condições: converter-se,
endireitar os caminhos, encher os vales e buracos, ou seja,
preenchê-los com a oração, o recolhimento,
os sacramentos, a generosidade... Rebaixar os montes, ou
seja, tirar tudo que é demais: soberba, prepotência,
preguiça, egoísmo...
Esta
salvação está aberta a todos, mas só
se concretiza em quem a acolhe.
Numa
articulação de redes de irrigação,
existem inúmeros canais até chegar ao campo
da terra. Quando se abrem os canais grandes, estes chegam
aos pequenos. Se não for aberto o tampão de
ingresso da água no terreno, o campo permanece seco,
pois a água não consegue chegar. Assim, o
campo fértil pode ficar árido por falta de
água. O mesmo exemplo vale para o aparelho circulatório
do sangue, que só leva a vida onde o sangue chega.