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ANO A - São Mateus
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ADVENTO
COMENTÁRIO AOS TEXTOS BÍBLICOS

Ano A
ADVENTO
II Domingo
05 de Dezembro de 2010

Primeira Leitura
Isaías
11-1,10
DEUS VIRÁ E TRARÁ OS DONS DO ESPÍRITO
Os versículos deste capítulo se inserem no contexto dos capítulos 7 a 12 de Isaías, que são denominados “Livro do Emanuel”. Este trecho surgiu num tempo de crise em que a monarquia e a dinastia davídica eram incapazes de devolver esperança ao povo. Era um toco sem vida em vez de uma árvore que frutifica. Nesse contexto, o profeta estimula à esperança, dizendo que desse toco nascerá um broto, um descendente de Davi, que com a sua liderança fará o povo respirar novos ares. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor.

O Espírito era dado aos grandes homens do Antigo Testamento que tinham a função de guiar o povo. Era concedido aos juízes, aos reis, aos profetas e até aos artistas (Êxodo 31,3; 35,31). Neste sentido, o futuro Messias era apresentado com uma potencialidade excepcionalmente rica e apta para várias tarefas. Seria um novo líder capaz de catalisar as esperanças dos povos, um líder perspicaz com espírito de sabedoria e discernimento que governaria o povo defendendo seus interesses e direitos com espírito de conselho e fortaleza, submetendo-se ele próprio a Deus que o escolheu com o Espírito de reconhecimento e temor de Deus.

O pano de fundo destes capítulos é a guerra efraimita iniciada após a ascensão de Acaz ao trono de Jerusalém (735). Ele aceitou o apoio do imperador assírio Tiglat Pileser, ligando Israel à Assíria e à sua religião idolátrica. Acaz havia sido educado na Assíria e era um rei sem fé.

Os versículos 3-5 mostram como o “filho de Jessé” agirá em defesa do povo. Ele estará comprometido com a justiça, desmascarará a falsidade dos poderosos, prestará atenção aos últimos e humilhados, condenará os exploradores do povo (v.4).

Sob a liderança deste novo Rei, o povo vai respirar novos ares, pois o novo broto nascido do tronco de Jessé terá a força do Espírito, e como sábio governará com justiça como Davi. Em conseqüência da sua ação haverá uma sociedade reconciliada, na qual reinará a paz e não mais a violência.

O centro de todo esse evento será Jerusalém, a Terra Santa montanhosa, e esse povo comprometido com a justiça será como uma bandeira levantada para atrair outros povos.

O restabelecimento da justiça será o fundamento da paz, uma paz universal que se traduzirá num paraíso sobre a terra. Os rivais passarão a conviver juntos, como Deus havia projetado no início (Gênesis 1,30): o lobo e o cordeiro, a onça e o cabrito, a ovelha e o leãozinho, a vaca e o urso, o leão e o boi. Os animais não serão mais um perigo para os homens (Gênesis 2,18-20), mas haverá uma convivência característica das origens. A criança brincará com a serpente, sua inimiga principal (v.7b).

Segunda Leitura
Romanos
15,4-9

O CRISTÃO É “FILHO DA LUZ”:
A SALVAÇÃO ESTÁ PERTO!

Na comunidade cristã de Roma haviam se formado dois grupos: o dos fortes e o dos fracos. Os fracos eram os convertidos do judaísmo, que ainda conservavam algumas tradições dos hebreus, entre as quais um calendário especial. Os fortes eram os que se sentiam livres dessa observância. Em vista disso, Paulo exorta os dois grupos a uma unidade comum, tendo como ponto de referência Jesus Cristo que acabou com as discriminações, tornando-se servidor de todos. Portanto, a solidariedade tem as suas raízes em Cristo.

Este trecho pertence à última parte da seção parenética desta carta, em que o apóstolo ressalta a caridade para com os fracos (14,1-15), isto é, a reconciliação com os irmãos vacilantes na fé, já que nesta comunidade havia dificuldade em acolher estas pessoas (v.7) devido à diferença entre os cristãos vindos do paganismo e do hebraísmo (judeus, gregos, romanos), além de diferenças de condição social.

A referência para superar este obstáculo é a Sagrada Escritura (v.4). Ela é o testamento do amor de Deus por todos os homens. Proporciona perseverança e consolação para superar os conflitos na comunidade. É o instrumento que ajuda o povo a caminhar para a liberdade e a vida que Deus planejou para o seu povo. Na Escritura temos o Cristo como referência para o cristão, ele que acabou com as discriminações (v.3), sendo o Servo de todos (v.8).

É possível que um dos pontos fortes de atrito fosse a diferença de raças, já que judeus e não judeus se discriminavam reciprocamente. Paulo mostra que Deus continua fiel aos judeus mantendo as suas promessas, porém, manifesta a sua misericórdia também aos não judeus, convocando todos a louvar o Deus único.

Evangelho
Mateus
3,1-12
PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA:
PREPAREM O CAMINHO!
Os capítulos 3-4 de Mateus preparam a vinda do Reino do céu, que no seu Evangelho é o Reino traduzido em termos de justiça. Jesus inaugura a justiça do Reino (3,15). E João Batista, com a sua pregação, introduz as pessoas na nova dinâmica do Reino. Aqui o Batista é apresentado no estilo de um profeta do Antigo Testamento. Com o seu estilo de vida (v.4), ele prepara a vinda do Reino já prefigurado por Malaquias, que pregava a vinda de Elias para preparar o dia de Javé (Malaquias 3,23). O Batista retoma o anúncio de Isaías 40,3: “Preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas veredas”.

O lugar que o Batista escolheu para a sua atividade de batizador é significativo: o deserto. O deserto é importante na tradição bíblica: é o cenário dos encontros importantes entre Deus e o povo (Êxodo 3,19; Deuteronômio 8,16; 1Reis 19; Oséias 2,6). Assim, através da ação do Batista, Deus está de novo chegando ao meio do seu povo com um apelo importante na história. Mateus pinta um retrato austero e simbólico do Batista: como um profeta vestido de roupas de pele de camelo (Zacarias 13,4) e com uma cintura de pele que o aproxima de Elias (2Reis 1,8). Alimenta-se de gafanhotos, comida do povo no deserto, e mel selvagem, que era consumido junto com os gafanhotos. Assim, ele é apresentado mais como um asceta do que como um profeta.

Os habitantes de Jerusalém, de toda a Judéia e dos arredores do Jordão iam ao seu encontro (v.6). Eram muito explorados e perceberam que começava a surgir a possibilidade de um mundo novo. O povo estava disposto a deixar o passado, a confessar seus pecados (v.6) e começar uma vida nova. Porém, os fariseus e os saduceus não concordavam com o povo, porque eram os mantenedores do poder público econômico-religioso. Os fariseus, formados pelos latifundiários e pela aristocracia sacerdotal, acreditavam que a observância meticulosa da Lei apressaria a vinda do Messias. Por isso amaldiçoavam o povo ignorante e queriam apropriar-se do movimento do Batista. Então João Batista os chamou de raça de víboras (v.7), porque queriam manter o sistema que gera a morte. Ao chamá-los de raça de víboras, João Batista se apóia em Isaías 14,29, onde a víbora representava a ostentação do mal, e é um eco de Gênesis 3, onde a serpente é inimiga de Deus e do homem.

João Batista apresenta Jesus como “o mais forte”. A sua superioridade consiste na administração de um Batismo de fogo, elemento purificador por excelência na literatura profética , e no dom do Espírito Santo.

Por fim, o Batista usa duas imagens agrícolas (vv.10-12) para indicar a inoperabilidade do juízo divino, que se cumpre com a chegada do Messias: ele vai trazer o julgamento ao mundo e o critério decisivo são as obras de justiça (v.11), de conseqüências dramáticas para os maus. A atitude de João Batista no deserto confunde os planos econômicos da sociedade estabelecida em Jerusalém, baseada na exploração e no lucro, com a conseqüente miséria do povo. O povo que vai ao encontro do precursor é considerado pelos fariseus e saduceus como maldito, gente ignorante e analfabeta, em contraste com eles, que se consideravam a “raça pura”. João, porém, coloca a necessidade da conversão para todos.

REFLEXÃO

A liturgia deste domingo apresenta um feixe de luz sobre a figura do Messias e do seu Reino onde reina a justiça. Um novo tempo em que haverá abundância da ciência divina, em que Deus conferirá seus dons de sabedoria, inteligência, conselho... Este futuro não será somente na parusia, mas se concretiza desde já.

João Batista grita “Convertam-se...”, isto é, “mudem de mentalidade”. Sabemos que há diferentes tipos de conversão: da incredulidade à fé, da fé incompleta cheia de erros à ortodoxia plena, de uma conduta degenerada à honestidade de vida, da simples observância dos mandamentos à observância dos conselhos evangélicos, de um estado de mediocridade espiritual a um fervor dinâmico empenhado. O Advento propõe uma forma de conversão para todos esses tipos.

Nada contribui de maneira mais eficaz para a nossa conversão e o incremento do Reino de Deus que a caridade e a oração. Por isso Paulo nos exorta a nutrir nossa esperança na meditação das Escrituras e recomenda também a caridade como condição ideal para a oração, pois com a caridade se pode rezar e glorificar a Deus.

No período litúrgico do Advento, não podemos ignorar a figura de João Batista, o último dos profetas do Antigo Testamento, que anuncia o advento do Messias como já presente no mundo. A sua tarefa é preparar imediatamente a vinda do Messias. A substância da sua mensagem se reduz à exortação: “Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas” (Mateus 3,3). Isso consiste basicamente numa obra de reforma moral, em particular na prática da justiça (Lucas 3,11-24). Este é o modo de esperar a vinda do Messias. Operar a justiça é fazer com que Deus desça à terra, porque o Messias é o Rei da justiça e da paz. Preparar-se para a vinda do Senhor quer dizer disciplinar e purificar o nosso pensamento, a fim de que ele possa proceder na verdade. Só assim a nossa mente poderá descobrir os caminhos que levam a Deus.

Novamente a liturgia insiste sobre a conversão, e não é fácil pregá-la, já que no ambiente cristão é comum a idéia de que a conversão é para os que não são praticantes, os distantes, os que não são batizados. Assim, muitas vezes nenhum de nós acha que precisa de conversão.

Mas converter-se é abandonar o pecado e voltar-se para Deus. É o relacionamento com Deus, uma reta conduta de vida. Se a árvore é boa produz bons frutos.

Na primeira leitura Isaías descreve o futuro dos tempos messiânicos. O elemento mais importante deste oráculo é o dinamismo que imprime o futuro Messias, possuidor do Espírito de Javé. Pertencendo à dinastia davídica de Acaz, ele deverá transformar-se, com a força do Espírito, no principal ideal dos tempos messiânicos. Moisés, juízes, reis... todos participaram desse Espírito que os transformou em carismáticos, isto é, em instrumentos de Deus a serviço do povo. Esse Espírito proporciona qualidades humanas em alto grau para o bem da comunidade. Segundo Isaías, estes dons estão divididos em três grupos.

João Batista começou a sua missão em outubro do ano 27. A sua pregação não agradava a todos, por isso foi preso em seguida. Ele apenas pregava aquilo que seiscentos anos antes Isaías havia pregado (1ª Leitura). Pedia que as estradas fossem consertadas para a passagem do Messias. Consertar as estradas humanas, a nós mesmos, nossas atitudes, nosso dia-a-dia, encher os “buracos” da nossa vida, limpando o egoísmo da nossa estrada.

João Batista pregou e mostrou com suas atitudes, com seu modo austero de viver, como fazer a conversão. Era um pregador exigente, não se contentava com ritos, não poupava os fariseus e os saduceus. Toda a motivação de sua ação estava voltada para a vinda do Messias.

A segunda leitura da liturgia nos mostra os muitos caminhos que nos conduzem a Deus, correspondentes aos muitos modos como Deus gosta de manifestar-se aos homens nas várias culturas e tempos. “Deus se fez servidor dos circuncisos, e as nações pagãs glorificam a Deus por sua misericórdia” (Romanos 15,8). Os circuncisos são o povo hebreu, ao qual Deus revelou os mistérios da sua vida divina e da salvação dos homens cumprindo a sua promessa. Mas também os pagãos, embora não depositários da verdade, tiveram por outros caminhos a possibilidade de glorificar a Deus, e na linguagem bíblica puderam cumprir os seus mandamentos e salvar-se, graças à misericórdia que obtiveram.

As leituras de hoje nos mostram o relacionamento estreito do Salvador com o “Espírito do Senhor”, que para nós é o Espírito Santo, embora os hagiógrafos do Antigo Testamento não tivessem uma percepção clara do “Espírito do Senhor”, entendido como a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Este era o sentido mais comum do dom divino, uma força divina concedida aos profetas, uma energia divina, sobretudo, de luz e coragem que pousava sobre os profetas de modo transitório, enquanto exerciam o dom da profecia. Fora disso os profetas eram homens comuns. Para o rei messiânico, o Espírito do Senhor não será um dom efêmero, mas perene. Nele o Espírito Santo descerá e permanecerá (João 1,33).

Este discernimento sobrenatural que permite a João Batista descobrir o Messias e indicá-lo ao mundo deve-se ao fato de que ele teve o privilégio extraordinário de ficar sob o influxo do Espírito Santo: “Será pleno do Espírito Santo desde o seio materno” (Lucas 1,45). Esta presença do Espírito será um dos maiores frutos da redenção operada por Cristo. O fato de sermos batizados quer dizer que toda vida como a de João Batista pode ser vivida na luz e força do Espírito Santo, e manter-se disposta ao Espírito Santo, com o exercício constante das virtudes. Assim, podemos imitar João Batista na vivência dos altíssimos dons do Espírito Santo, sobretudo o da sabedoria, que nos faz amar as coisas divinas e ter o gosto pelas coisas celestes que nos permite distinguir entre o bem e o mal.

O poder de fascínio que o Precursor exercia sobre o povo não era devido ao seu estilo doce, mas ao seu porte austero, penitente, radical e servidor da verdade, sincero até à falta de diplomacia. Sua linguagem, seu aspecto e sua alimentação mostravam que ele era um homem carismático e superior. Ele já fora anunciado no umbral do Antigo Testamento por Isaías: “Uma voz grita no deserto: preparem o caminho do Senhor...” (Mateus 3,3). Por isso, recebeu de Jesus um grande elogio: “É o maior nascido de mulher...” (Mateus 11,9.11).

O estilo de João Batista é o dos profetas do Antigo Testamento e todo o seu ministério está resumido na frase “Convertam-se”. A vinda do Messias está condicionada à transformação, o machado já está posto na raiz da árvore, pertencer à raça de Abraão não justifica. É preciso converter-se. Seu estilo taxativo e inconformista está no apelo: “conversão que urge devido à iminência do Reino dos céus” (os hebreus não pronunciavam o nome de Deus por respeito, daí a expressão Reino dos céus, que é sinônimo de reinado), devido à iminência do juízo escatológico que precede e segue a chegada do Reino. Para isso, é preciso reconhecer-se pecador diante de Deus com humildade e simplicidade.

A palavra conversão, no original de Mateus, é acompanhada pela palavra hebraica-aramaica + “shub”, que significa voltar sobre os passos, desandar o caminho. No grego + “metanócin” (verbo) significa mudança interior, mudança de mentalidade, de critérios. O latim da Vulgata traduziu como “pœnitentia”. Portanto, o significado global para a Bíblia é mudança interior de mentalidade e conduta de atitudes e atos, um giro de 180 graus para reorientar a vida numa direção radicalmente nova em direção ao bem, em direção a Deus. É um processo que passa do coração às obras.

O Batismo de João era sinal de conversão. O Batismo de água já existia antes de João, não como expressão de conversão radical como ele pregava, mas como sinal de incorporação dos prosélitos ao judaísmo junto com o rito da circuncisão. Os essênios utilizavam o Batismo como sinal de consagração a Deus.

João já se mostra profeta no seio materno. Cheio do Espírito Santo, ele foi concebido para isso. Consciente da sua missão, anuncia a chegada do Messias, de quem não é digno de desatar as correias das sandálias. Humilde, não se apresenta como filho de Zacarias, da tribo sacerdotal, mas como “voz que clama no deserto”. Voz para anunciar Jesus: esta é a sua missão, a sua vida, a sua personalidade.

João apresentou o Messias como o “Cordeiro de Deus”. Perseverou na santidade, porque se conservou humilde no seu coração. Por isso, mereceu o elogio extraordinário de Jesus: “Entre os nascidos de mulher não apareceu um que fosse maior do que João” (Mateus 1,1).

Também nós devemos testemunhar Jesus Cristo e isto implica comportar-se segundo a sua doutrina, lutar para que a nossa conduta lembre Jesus e a sua pessoa. Temos que nos portar de tal maneira que, ao ver-nos, os outros possam dizer: Este é cristão porque não odeia, porque sabe compreender, porque não é fanático, porque está acima dos instintos, porque manifesta sentimentos de paz, porque ama.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A
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