Os capítulos 3-4 de Mateus preparam a vinda do Reino
do céu, que no seu Evangelho é o Reino traduzido
em termos de justiça. Jesus inaugura a justiça
do Reino (3,15). E João Batista, com
a sua pregação, introduz as pessoas na nova
dinâmica do Reino. Aqui o Batista é apresentado
no estilo de um profeta do Antigo Testamento. Com o seu estilo
de vida (v.4), ele prepara a vinda do Reino
já prefigurado por Malaquias, que pregava a vinda de
Elias para preparar o dia de Javé (Malaquias
3,23). O Batista retoma o anúncio de Isaías
40,3: “Preparem o caminho
do Senhor, endireitem as suas veredas”.
O
lugar que o Batista escolheu para a sua atividade de batizador
é significativo: o deserto. O deserto é importante
na tradição bíblica: é o cenário
dos encontros importantes entre Deus e o povo (Êxodo
3,19; Deuteronômio 8,16; 1Reis 19; Oséias 2,6).
Assim, através da ação do Batista, Deus
está de novo chegando ao meio do seu povo com um apelo
importante na história. Mateus pinta um retrato austero
e simbólico do Batista: como um profeta vestido de
roupas de pele de camelo (Zacarias 13,4)
e com uma cintura de pele que o aproxima de Elias (2Reis
1,8). Alimenta-se de gafanhotos, comida do povo no
deserto, e mel selvagem, que era consumido junto com os gafanhotos.
Assim, ele é apresentado mais como um asceta do que
como um profeta.
Os habitantes de Jerusalém, de toda a Judéia
e dos arredores do Jordão iam ao seu encontro (v.6).
Eram muito explorados e perceberam que começava a surgir
a possibilidade de um mundo novo. O povo estava disposto a
deixar o passado, a confessar seus pecados (v.6)
e começar uma vida nova. Porém, os fariseus
e os saduceus não concordavam com o povo, porque eram
os mantenedores do poder público econômico-religioso.
Os fariseus, formados pelos latifundiários e pela aristocracia
sacerdotal, acreditavam que a observância meticulosa
da Lei apressaria a vinda do Messias. Por isso amaldiçoavam
o povo ignorante e queriam apropriar-se do movimento do Batista.
Então João Batista os chamou de raça
de víboras (v.7), porque queriam manter
o sistema que gera a morte. Ao chamá-los de raça
de víboras, João Batista se apóia em
Isaías 14,29, onde a víbora representava a ostentação
do mal, e é um eco de Gênesis 3, onde a serpente
é inimiga de Deus e do homem.
João Batista apresenta Jesus como “o
mais forte”. A sua superioridade consiste
na administração de um Batismo de fogo, elemento
purificador por excelência na literatura profética
, e no dom do Espírito Santo.
Por fim, o Batista usa duas imagens agrícolas (vv.10-12)
para indicar a inoperabilidade do juízo divino, que
se cumpre com a chegada do Messias: ele vai trazer o julgamento
ao mundo e o critério decisivo são as obras
de justiça (v.11), de conseqüências
dramáticas para os maus. A atitude de João Batista
no deserto confunde os planos econômicos da sociedade
estabelecida em Jerusalém, baseada na exploração
e no lucro, com a conseqüente miséria do povo.
O povo que vai ao encontro do precursor é considerado
pelos fariseus e saduceus como maldito, gente ignorante e
analfabeta, em contraste com eles, que se consideravam a “raça
pura”. João, porém, coloca
a necessidade da conversão para todos. |
| A
liturgia deste domingo apresenta um feixe de luz sobre a figura
do Messias e do seu Reino onde reina a justiça. Um
novo tempo em que haverá abundância da ciência
divina, em que Deus conferirá seus dons de sabedoria,
inteligência, conselho... Este futuro não será
somente na parusia, mas se concretiza desde já.
João
Batista grita “Convertam-se...”,
isto é, “mudem
de mentalidade”. Sabemos que há
diferentes tipos de conversão: da incredulidade à
fé, da fé incompleta cheia de erros à
ortodoxia plena, de uma conduta degenerada à honestidade
de vida, da simples observância dos mandamentos à
observância dos conselhos evangélicos, de um
estado de mediocridade espiritual a um fervor dinâmico
empenhado. O Advento propõe uma forma de conversão
para todos esses tipos.
Nada
contribui de maneira mais eficaz para a nossa conversão
e o incremento do Reino de Deus que a caridade e a oração.
Por isso Paulo nos exorta a nutrir nossa esperança
na meditação das Escrituras e recomenda também
a caridade como condição ideal para a oração,
pois com a caridade se pode rezar e glorificar a Deus.
No
período litúrgico do Advento, não podemos
ignorar a figura de João Batista, o último dos
profetas do Antigo Testamento, que anuncia o advento do Messias
como já presente no mundo. A sua tarefa é preparar
imediatamente a vinda do Messias. A substância da sua
mensagem se reduz à exortação: “Preparem
o caminho do Senhor, endireitem suas estradas”
(Mateus 3,3). Isso consiste basicamente numa
obra de reforma moral, em particular na prática da
justiça (Lucas 3,11-24). Este é
o modo de esperar a vinda do Messias. Operar a justiça
é fazer com que Deus desça à terra, porque
o Messias é o Rei da justiça e da paz. Preparar-se
para a vinda do Senhor quer dizer disciplinar e purificar
o nosso pensamento, a fim de que ele possa proceder na verdade.
Só assim a nossa mente poderá descobrir os caminhos
que levam a Deus.
Novamente
a liturgia insiste sobre a conversão, e não
é fácil pregá-la, já que no ambiente
cristão é comum a idéia de que a conversão
é para os que não são praticantes, os
distantes, os que não são batizados. Assim,
muitas vezes nenhum de nós acha que precisa de conversão.
Mas
converter-se é abandonar o pecado e voltar-se para
Deus. É o relacionamento com Deus, uma reta conduta
de vida. Se a árvore é boa produz bons frutos.
Na
primeira leitura Isaías descreve o futuro dos tempos
messiânicos. O elemento mais importante deste oráculo
é o dinamismo que imprime o futuro Messias, possuidor
do Espírito de Javé. Pertencendo à dinastia
davídica de Acaz, ele deverá transformar-se,
com a força do Espírito, no principal ideal
dos tempos messiânicos. Moisés, juízes,
reis... todos participaram desse Espírito que os transformou
em carismáticos, isto é, em instrumentos de
Deus a serviço do povo. Esse Espírito proporciona
qualidades humanas em alto grau para o bem da comunidade.
Segundo Isaías, estes dons estão divididos em
três grupos.
João
Batista começou a sua missão em outubro do ano
27. A sua pregação não agradava a todos,
por isso foi preso em seguida. Ele apenas pregava aquilo que
seiscentos anos antes Isaías havia pregado (1ª
Leitura). Pedia que as estradas fossem consertadas
para a passagem do Messias. Consertar as estradas humanas,
a nós mesmos, nossas atitudes, nosso dia-a-dia, encher
os “buracos” da nossa vida, limpando o egoísmo
da nossa estrada.
João
Batista pregou e mostrou com suas atitudes, com seu modo austero
de viver, como fazer a conversão. Era um pregador exigente,
não se contentava com ritos, não poupava os
fariseus e os saduceus. Toda a motivação de
sua ação estava voltada para a vinda do Messias.
A
segunda leitura da liturgia nos mostra os muitos caminhos
que nos conduzem a Deus, correspondentes aos muitos modos
como Deus gosta de manifestar-se aos homens nas várias
culturas e tempos. “Deus
se fez servidor dos circuncisos, e as nações
pagãs glorificam a Deus por sua misericórdia”
(Romanos 15,8). Os circuncisos são
o povo hebreu, ao qual Deus revelou os mistérios da
sua vida divina e da salvação dos homens cumprindo
a sua promessa. Mas também os pagãos, embora
não depositários da verdade, tiveram por outros
caminhos a possibilidade de glorificar a Deus, e na linguagem
bíblica puderam cumprir os seus mandamentos e salvar-se,
graças à misericórdia que obtiveram.
As
leituras de hoje nos mostram o relacionamento estreito do
Salvador com o “Espírito
do Senhor”, que para nós é
o Espírito Santo, embora os hagiógrafos do Antigo
Testamento não tivessem uma percepção
clara do “Espírito
do Senhor”, entendido como a terceira
pessoa da Santíssima Trindade. Este era o sentido mais
comum do dom divino, uma força divina concedida aos
profetas, uma energia divina, sobretudo, de luz e coragem
que pousava sobre os profetas de modo transitório,
enquanto exerciam o dom da profecia. Fora disso os profetas
eram homens comuns. Para o rei messiânico, o Espírito
do Senhor não será um dom efêmero, mas
perene. Nele o Espírito Santo descerá e permanecerá
(João 1,33).
Este
discernimento sobrenatural que permite a João Batista
descobrir o Messias e indicá-lo ao mundo deve-se ao
fato de que ele teve o privilégio extraordinário
de ficar sob o influxo do Espírito Santo: “Será
pleno do Espírito Santo desde o seio materno”
(Lucas 1,45). Esta presença do Espírito
será um dos maiores frutos da redenção
operada por Cristo. O fato de sermos batizados quer dizer
que toda vida como a de João Batista pode ser vivida
na luz e força do Espírito Santo, e manter-se
disposta ao Espírito Santo, com o exercício
constante das virtudes. Assim, podemos imitar João
Batista na vivência dos altíssimos dons do Espírito
Santo, sobretudo o da sabedoria, que nos faz amar as coisas
divinas e ter o gosto pelas coisas celestes que nos permite
distinguir entre o bem e o mal.
O
poder de fascínio que o Precursor exercia sobre o povo
não era devido ao seu estilo doce, mas ao seu porte
austero, penitente, radical e servidor da verdade, sincero
até à falta de diplomacia. Sua linguagem, seu
aspecto e sua alimentação mostravam que ele
era um homem carismático e superior. Ele já
fora anunciado no umbral do Antigo Testamento por Isaías:
“Uma voz grita no deserto:
preparem o caminho do Senhor...” (Mateus
3,3). Por isso, recebeu de Jesus um grande elogio:
“É o maior nascido
de mulher...” (Mateus 11,9.11).
O
estilo de João Batista é o dos profetas do Antigo
Testamento e todo o seu ministério está resumido
na frase “Convertam-se”.
A vinda do Messias está condicionada à transformação,
o machado já está posto na raiz da árvore,
pertencer à raça de Abraão não
justifica. É preciso converter-se. Seu estilo taxativo
e inconformista está no apelo: “conversão
que urge devido à iminência do Reino dos céus”
(os hebreus não pronunciavam o nome de Deus
por respeito, daí a expressão Reino dos céus,
que é sinônimo de reinado), devido à
iminência do juízo escatológico que precede
e segue a chegada do Reino. Para isso, é preciso reconhecer-se
pecador diante de Deus com humildade e simplicidade.
A
palavra conversão, no original de Mateus, é
acompanhada pela palavra hebraica-aramaica + “shub”,
que significa voltar sobre os passos, desandar o caminho.
No grego + “metanócin”
(verbo) significa mudança interior,
mudança de mentalidade, de critérios. O latim
da Vulgata traduziu como “pœnitentia”.
Portanto, o significado global para a Bíblia é
mudança interior de mentalidade e conduta de atitudes
e atos, um giro de 180 graus para reorientar a vida numa direção
radicalmente nova em direção ao bem, em direção
a Deus. É um processo que passa do coração
às obras.
O
Batismo de João era sinal de conversão. O Batismo
de água já existia antes de João, não
como expressão de conversão radical como ele
pregava, mas como sinal de incorporação dos
prosélitos ao judaísmo junto com o rito da circuncisão.
Os essênios utilizavam o Batismo como sinal de consagração
a Deus.
João
já se mostra profeta no seio materno. Cheio do Espírito
Santo, ele foi concebido para isso. Consciente da sua missão,
anuncia a chegada do Messias, de quem não é
digno de desatar as correias das sandálias. Humilde,
não se apresenta como filho de Zacarias, da tribo sacerdotal,
mas como “voz que clama
no deserto”. Voz para anunciar Jesus:
esta é a sua missão, a sua vida, a sua personalidade.
João
apresentou o Messias como o “Cordeiro
de Deus”. Perseverou na santidade, porque
se conservou humilde no seu coração. Por isso,
mereceu o elogio extraordinário de Jesus: “Entre
os nascidos de mulher não apareceu um que fosse maior
do que João” (Mateus
1,1).
Também
nós devemos testemunhar Jesus Cristo e isto implica
comportar-se segundo a sua doutrina, lutar para que a nossa
conduta lembre Jesus e a sua pessoa. Temos que nos portar
de tal maneira que, ao ver-nos, os outros possam dizer: Este
é cristão porque não odeia, porque sabe
compreender, porque não é fanático, porque
está acima dos instintos, porque manifesta sentimentos
de paz, porque ama. |