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COMENTÁRIO
AOS TEXTOS BÍBLICOS |
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Ano
A
ADVENTO
I
Domingo
28 de Novembro de 2010
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Primeira
Leitura
Isaías
2,1-5
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A
PAZ MESSIÂNICA:
VENHAM, CAMINHEMOS
À LUZ DO SENHOR, LUZ DAS NAÇÕES |
| Este
oráculo foi pronunciado na mesma época dos oráculos
dos capítulos 9-11 e precisa ser interpretado à
luz deles. O projeto prevê que na era escatológica
Jerusalém terá um papel de proeminência
universal.
Isaías exerceu o seu ministério em tempos difíceis,
em que o povo era esmagado pelo peso dos tributos e pela exploração
das lideranças. O seu ministério situa-se entre
740 e 700 a.C., período dramático devido às
ameaças dos assírios.
Os primeiros cinco capítulos trazem oráculos
do profeta em seus cinco primeiros anos de ministério,
nos quais ele exprime a corrupção moral do reino
de Judá no século VIII. Neste contexto, Isaías
tem uma visão acerca de Judá e Jerusalém,
uma intuição profunda sobre o futuro, quando
haverá uma virada na história. Ele vislumbra
uma peregrinação de todos os povos para o Templo
Santo no monte Sião, o lugar mais alto das montanhas.
Para os antigos, o monte era o lugar onde se encontrava a
divindade e, com isso, Isaías queria dizer que o mundo
inteiro iria prestar culto ao Deus único e verdadeiro,
Deus Juiz e Árbitro das nações (v.4).
Ele será o verdadeiro ponto de gravidade do universo.
Para o profeta, este monte da Casa de Deus é como um
farol que irradia a instrução e a palavra do
Senhor. Será um ponto de convergência dos povos
(v.3) e a casa de Jacó puxará a fila dessa romaria.
Sião será o grande centro missionário
de onde a Palavra de Deus será anunciada para a humanidade,
com a criação de um mundo novo sem fronteiras,
porque a norma última será a justiça
que vem de Deus e o fruto maduro dessa união universal
será a paz que decorre da justiça. Nesse contexto,
o povo conhecerá um jeito novo de fazer história
e construir a sociedade, em que Deus intervirá no coração
do homem para transformá-lo. Será o tempo messiânico
da intervenção definitiva de Deus.
Nesta visão de Isaías está contida a
idéia da universalidade da salvação messiânica,
vista na perspectiva da supremacia hebraica. É uma
idéia centrípeta da salvação,
enquanto o Novo Testamento tem uma idéia centrífuga,
em que os apóstolos sairão de Jerusalém
para ir ao encontro dos homens. Em Jerusalém Javé
será reconhecido por todos os povos.
Este oráculo se encontra também em Miquéias
4,1-3. Por isso, alguns exegetas o atribuem a Isaías
ou a Miquéias. Outros sustentam que há uma in-terdependência
com uma profecia mais antiga que celebrava a vitória
de Javé sobre os povos. Outros, ainda, afirmam que
é uma inserção pós-exílica.
O fruto da paz gerada nesta nova situação é
um mundo novo sem fronteiras e cheio de justiça: “As
espadas serão transformadas em enxadas...”. |
Segunda
Leitura
Romanos
13,11-14
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O CRISTÃO É “FILHO DA LUZ”:
A SALVAÇÃO ESTÁ PERTO!
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Estes
versículos fazem parte da seção parenética
da carta, que começa no capítulo 12, onde
o apóstolo expõe as conseqüências
de ser cristão. Para Paulo, os que aderiram a Cristo
pelo Batismo e pela fé descobrem no tempo presente
as sementes da eternidade e por isso são capazes
de transformar a vida do dia-a-dia em “kairós”,
conscientes de que seus estados não podem continuar
no sono. Este é o motivo da salvação
que deve deixá-los atentos. O “kairós”,
tempo decisivo e empenhativo da salvação inaugurada
por Jesus e que se estende a toda a Igreja peregrina, ainda
não chegou à plenitude, e por isso é
preciso ficar atento, acordado, pois o cristão é
filho do dia (Gálatas 1,4).
Neste
texto, Paulo dá um fundamento soteriológico
e escatológico, segundo o qual o cristão opera
porque foi renovado por dentro pela graça (fundamento
soteriológico) e porque é encaminhado
para a salvação com a qual é chamado
a colaborar (fundamento escatológico).
O imperativo do cristão é “revestir-se
de Cristo”. Por isso, tendo a consciência
da salvação que recebeu do Cristo, o cristão
deve ter uma conduta de vida digna, isto é, não
caminhar nas trevas. Deve deixar a sonolência, símbolo
de indiferença e pecado (1Tessalonicenses
5,6; 1Coríntios 15,34; Efésios 5,4).
Acordar (eghèiro) é
um verbo que indica ressurreição.
Embora
vivendo o tempo (kronos), cada
dia se torna para o cristão o tempo oportuno, o momento
definitivo, o “kairós”
da salvação. Viver como se estivesse em pleno
dia significa comportar-se não segundo os prazeres
da carne. Foi esse imperativo que levou Santo Agostinho
a converter-se: “Peguei
o texto do apóstolo, abri-o e li em silêncio
o capítulo que primeiro se apresentou aos meus olhos:
“Nada de orgias ou bebedeiras”.
Não quis ler mais, nem era preciso. De fato, no fim
desse trecho como que uma luz de segurança infusa
no meu coração fez com que todas as trevas
fugissem do meu coração” (Confissões
VIII, 12, 9, 29).
Por
isso, o cristão iluminado pela luz de Cristo não
dá mais espaço aos vícios em sua vida.
Se em Gálatas 3,27 o apóstolo apresenta o
Batismo como um revestimento de Cristo, imagem para indicar
uma nova realidade do cristão, com a sua dignidade,
aqui ele expressa o ser cristão como uma exigência
ética, um imperativo que brota da força do
dom de Deus e encontra Nele a sua força. Revestido
de Cristo, o cristão não tem mais espaço
em sua vida para o que inclina o homem para os instintos
baixos, não apenas na esfera sexual, mas também
no fechamento de si que nega o amor.
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Evangelho
Lucas
24,37-44
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AGUARDAR
A VINDA DO SENHOR,
A VOLTA DO FILHO DO HOMEM |
Os
capítulos 24 e 25 de Mateus formam o “discurso
escatológico”, no qual emergem
dois temas importantes:
01)
o fim do Templo de Jerusalém, com a conseqüente
destruição da cidade, marcando o início
de uma nova época para os cristãos.
02) o desconhecimento
da vinda do Filho do Homem e a vigilância como um
gesto para a transformação da sociedade.
Com
a queda de Jerusalém, o hebraísmo caiu para
todo o mundo. E a vigilância lembra a época de
Noé e a pregação dos profetas, que significava
ouvir a salvação de Deus e abrir-se para ela.
Ninguém
sabe quando será o fim do mundo. Por isso, Mateus ressalta
que é preciso estar vigilante, acordado, para a vinda
do Senhor. O texto se reporta ao dilúvio genesíaco
(Gênesis 7,11-23) para ilustrar a incerteza
do dia da parusia. No tempo de Noé todos levavam uma
vida comum, comendo, bebendo, casando-se... Nada de extraordinário
deixava pensar que o dilúvio viria, a não ser
Noé, que era temente a Deus (Gênesis
6,8-9).
O
perigo está em não ter consciência da
presença de Deus, ficar preocupado com muitas coisas
e deixar o essencial. Por isso, a salvação é
vigiar, que não é uma atitude policialesca,
isto é, solidarizar-se com os que clamam pela vinda
de Jesus, projetando luzes nas trevas da sociedade. |
REFLEXÃO |
| Com
o Advento iniciamos o novo ano litúrgico. O Advento
nos aponta para a celebração do Natal, mas também
para a segunda vinda, a última vinda ou a parusia.
Dentro deste anúncio há a recomendação
de viver a vigilância. A última vinda do Senhor,
anunciada nas parábolas da vigilância, tem uma
certeza e uma incerteza. Sua vinda é certa, mas é
incerto o momento, e é justamente nessa ignorância
que a vigilância se fundamenta.
Quando
Mateus escreveu o seu evangelho, o ânimo das comunidades
em relação à parusia estava esfriando,
o que ocasionou um afrouxamento da vigilância dos cristãos.
Daí a insistência sobre a vigilância, porque
a vinda do Senhor é imprevisível. Portanto,
esperar o dia da chegada do Senhor é um alerta esperançoso
para o novo encontro com Ele.
O
Advento se caracteriza de modo especial como símbolo
de espera confiante, como sinal de aspirações,
desejos...
A
dinâmica do Advento está orientada também
para o futuro terreno e histórico, mas, sobretudo,
para o transcendental, eterno e infinito.
A
tradição distinguiu três formas de vinda
de Cristo: “Conhecemos
um tríplice advento do Senhor”
(São Bernardo). O primeiro e o último
Advento são o Natal e a Parusia, o Advento intermediário
é o oculto, conhecido somente por quem o experimenta
em seu interior. É a visita do Cristo ao coração
que traz a salvação. O Advento intermediário
é o caminho que nos faz passar do primeiro ao último.
No primeiro Cristo foi a nossa redenção, no
último aparecerá como a nossa vida plena e definitiva.
No intermediário Cristo é a nossa paz e salvação.
O
homem sempre foi curioso sobre o fim do mundo, mas a nossa
curiosidade não pode ser satisfeita. O juízo
só ocorrerá para nós com a morte (Lumen
Gentium, 48). Embora a Bíblia não fale
desse juízo particular, existem trechos que o esclarecem:
Lucas 16,19-31 e Lucas 23,43. O juízo depois da morte
nos lembra três coisas:
a)
a morte é uma coisa séria, porque fixa a
nossa condição eterna, abrindo as portas
para o nosso destino eterno;
b) o homem
é um ser aberto ao infinito, conservando sua responsabilidade
e liberdade;
c) a morte
vem como um ladrão, por isso é preciso vigiar.
Com
o tempo do Advento tem início o novo ano litúrgico.
Este tempo aponta para a celebração da primeira
vinda histórica de Jesus no Natal, mas ao mesmo tempo
lembra a sua segunda vinda.
O
Advento lembra, portanto, a vinda de Jesus ao nosso meio.
É o cumprimento da vontade de Deus, prefigurada na
história do povo de Israel. Jesus veio dar sentido
à nossa vida, fazendo-se homem, encontrando-se conosco,
vivendo a nossa situação e indicando-nos o caminho.
Para
termos o encontro definitivo com Ele precisamos de purificação,
isto é, de metanóia,
de doação de nós
ao próximo, de assumir
a cruz que opera a salvação
e de cultivar a presença
de Deus, pois sem Ele nada pode ser feito.
No
Advento emergem três figuras bíblicas: Isaías
com suas profecias; João Batista, o precursor no umbral
do Novo Testamento, com sua denúncia profética
suscitando conversão e clima de expectativa; e Maria,
que ocupa o lugar de destaque neste tempo, porque esperou
o Redentor.
As
leituras do Advento revelam as etapas da vinda do Senhor:
a primeira vinda histórica, com o seu nascimento em
Belém, cumprindo as profecias messiânicas do
AT e inaugurando a plenitude dos tempos; a segunda vinda gloriosa
e definitiva, que é o fundamento da vigilância
escatológica; a terceira vinda, que é o tempo
intermediário entre as duas vindas com a sua presença
atual, sacramental. O Advento é a tensão entre
o já e o ainda não motivo de vigilância.
É a espera ativa e alegre na fé que é
garantia do futuro (Hebreus 11,1). Por isso,
não é um tempo limitado de quatro semanas, mas
uma atitude cristã, um processo de libertação
rumo à casa do Pai, um lugar teológico da presença
de Deus no mundo.
Advento é a hora de Deus, como Paulo lembra na segunda
leitura (Romanos 13,11-14), passagem que
provocou a conversão de Agostinho. É uma iniciativa
constante de Deus que vem ao nosso encontro, encontro que
Isaías anunciou na primeira leitura, segundo a qual
Jerusalém seria na plenitude dos tempos o centro religioso
mundial que atrairia todas as nações para serem
instruídas pela Palavra do Senhor, uma visão
profética de cunho escatológico e ecumênico
que se realizou em Jesus.
Diante
deste fato tão importante para a nossa salvação,
a Igreja nos coloca de sobreaviso nas quatro próximas
semanas, a fim de que nos preparemos para celebrar o Natal,
e nos pede que examinemos o fundo de nossa alma e individualizemos
os inimigos que nos afastam de Deus: a concupiscência
da carne, que não é apenas o impulso desordenado
dos sentidos, ou não diz respeito somente à
desordem da sensualidade, mas se estende ao comodismo e à
falta de vibração; e também a soberba,
que não se resume a pensamentos efêmeros de vaidade
ou de amor próprio, mas é também um endurecimento
generalizado na vida.
O
Advento pede de nós um estado de vigília, que
é luta, uma preparação igual à
de um soldado bem armado que não se deixa surpreender
(1Tessalonicenses 5,4-11). O nosso cuidado
deve ser com o esmero na oração, com o exercício
de pequenos sacrifícios que nos mantêm despertos.
É só quando desocuparmos os entulhos que guardamos
dentro de nós (preocupações,
ânsia de bens...) que poderemos ouvir o que
o Senhor tem a nos dizer neste Advento.
Um
mestre japonês notável por sua sabedoria recebeu
a visita de um professor, que veio interrogá-lo e comprovar
a sua sabedoria. Durante a conversa, o mestre serviu-lhe uma
xícara de chá que encheu até transbordar
e continuou a enchê-la com uma expressão serena
e sorridente. O professor ficou pasmado, sem saber como explicar
a distração do mestre. Em um certo momento disse-lhe:
“A xícara já
está cheia, não cabe mais”.
E o mestre disse-lhe: “Como
esta xícara, você está cheio de cultura,
de opiniões... Como posso falar-lhe da minha doutrina
se você não esvazia a sua xícara?”. |
Pe.
José Antonio Bertolin, OSJ
Apucarana - PR
"A
Palavra, Ano A:
Exegese e comentário
dentro do ano litúrgico A"
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