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Leitura Orante da Palavra de Deus
"Lectio Divina"

A Lectio Divina é a leitura crente e orante da Palavra de Deus, feita a partir da fé em Jesus Cristo, que disse: ‘O Espírito vos recordará tudo o que disse e vos introduzirá na verdade plena’ (Jo 14,26). A expressão Lectio Divina vem de Orígenes. Ele diz que, para ler a Bíblia com proveito é necessário esforço de atenção e de assiduidade.

O objetivo da Lectio Divina é o objetivo da própria Bíblia: ‘Elas [as Sagradas Escrituras] têm o condão de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé que há em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para qualquer obra boa’ (2Timóteo 3,15-17).

Segue dez passos para a leitura orante da Bíblia. Estes passos podem ser feitos tanto individualmente quanto em família e comunidade. Será útil, especialmente quando praticada em grupos, escolher pequenos refrões para serem cantados na passagem dum passo pra outro. Estabeleça o tempo que você irá dedicar a oração e permaneça fiel a ele. As perguntas colocadas a cada passo são para ajudar a fazê-lo bem. Examine-os e tente assimilá-los na sua prática diária:

1. Preparação (statio)
O Senhor lhe disse: ‘Sai e permanece no alto da montanha,
diante do Senhor, porque o Senhor vai passar

(1Reis 19,11).

Oração é um ato que envolve toda a pessoa. Precisamos ter força para sair do corre-corre cotidiano, coragem de parar um pouco no silêncio, desejo de entrar na presença de Deus e, sobretudo, da invocação do Espírito Santo, sem o qual a Escritura permanece letra morta. À Luz do Espírito Santo, responda: como está minha situação pessoal, familiar, comunitária e social?

2. Leitura (lectio)
“Acaso minha palavra não é parecida com o fogo
– oráculo do Senhor -
com uma marreta que pulveriza a pedra?”

(Jeremias 23,29)

Trata-se de ler com muita calma e atenção o texto bíblico. Se tenho invocado o Espírito Santo, é Deus mesmo que fala, enquanto leio a Palavra. Pode ser útil reler várias vezes o texto, sublinhá-lo, talvez decorar alguma expressão que me toca ou me surpreende. É essencial acolher tudo o que o Senhor diz, mesmo o que não faz meu gosto. Aqui é importante responder: o que o texto diz?

3. Meditação (meditatio)
“Quanto amo a tua Lei, todos os dias eu a medito”
(Salmo 119,97).

Não basta ler, porque a palavra desce ao profundo do coração. É necessário um paciente trabalho de meditação, uma lenta ruminação das palavras, das idéias, das imagens, enfim de tudo aquilo que a Palavra contém. É utilíssimo confrontar textos semelhantes da Escritura: um ilumina o outro. A verdadeira meditação tem início quando compreendo que O que fala e age na história sagrada é O mesmo que fala e opera na minha história pessoal. Neste passo responda a pergunta: o que o texto me diz?

4. Oração (oratio)
“Senhor, eu te chamei; depressa!
Vem! Presta ouvido à minha voz quando te chamo”

(Salmo 142,1).

Se a meditação for uma verdadeira escuta da Palavra de Deus e não do próprio pensamento, ela gerará infalivelmente no coração o desejo de encontrar, face a face, O que falou pela Palavra bíblica vivificada pelo Espírito. Medita-se com o intelecto, mas reza-se, sobretudo, com o coração, num arremesso de amor com Aquele que, na meditação, se revelou, mais uma vez, como fonte de todo a amor. Agora, o que eu digo a Deus me falou por este texto?

5. Contemplação (contemplatio)
“A descoberta das tuas palavras ilumina, dá discernimento aos simples”
(Salmo 119,130).

Aos poucos, as palavras cedem ao silêncio adorativo. A reflexão e a própria oração dão espaço ao puro amor. Esta etapa do caminho da oração não é alcançada toda vez que nos dispomos a rezar. A meditação sempre é possível, a contemplação não, porque é um dom da graça. E, se a contemplação não acontece, é preciso retomar a meditação, assim como o marinheiro se serve dos remos quando o vento não vem mais inchar as velas. Neste e no passo seguinte a pergunta que devo responder é: o que o texto me leva a saborear?

6. Consolação (consolatio)
“Provai e vede como ele é bom”
(Salmo 34,9).

O primeiro fruto do encontro com Deus é a íntima alegria, a misteriosa e inefável paz que o ser humano experimenta diante do mistério do amor de Deus. E este o momento propício para tomar as grandes decisões que não devem ser mudadas em momentos de desânimo ou de desolação. O mau espírito procura levar à total desconfiança e à tristeza. “Mas eis o fruto do Espírito: amor, alegria e paz…” (Gálatas 5,22).

7. Discernimento (discreto)
“Senhor, mostra-me teu caminho e eu me conduzirei segundo a tua verdade” (Salmo 86,11).

Com o dom do conselho, o Espírito me sugere como interpretar as situações da vida pessoal, familiar, comunitária e social. Trata-se de sintonizar-se com os pensamentos de Deus, de ler com fé também o livro da história que a Providência divina escreve com sabedoria e amor. E o Espírito que me ensina a compreender onde e como posso agir no mundo para preparar a estrada do Senhor. Como este texto ilumina minha vida?

8. Decisão (deliberatio)
“Vê: hoje ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade... Escolherás a vida para que vivas, tu e tua descendência”
(Deuteronômio 30,15.19).

Peço ao Espírito o dom da fortaleza para que saiba decidir- me a realizar as escolhas evangélicas e os propósitos que brotaram do discernimento. Com freqüência, é nas pequenas coisas de cada dia que se constrói uma plena fidelidade ao chamado de Deus. Que compromissos assumo a partir dessa oração?

9. Partilha (collatio)
“Repetirei teu nome aos meus irmãos e te louvarei em plena assembléia”
(Salmo 21,23).

Quando é possível, é de grande vantagem partilhar o fruto da oração com os irmãos no caminho da fé. Não estou sozinho a procurar o rosto de Deus: somos, ao contrário, Igreja, comunhão de pessoas chamadas a crescer junto na caridade. As graças que o Senhor concede a cada um, sobretudo as espirituais, não são posse privada, mas dons oferecidos para a utilidade comum. O que posso partilhar com as pessoas desta oração?

10.Ação (actio)
“Assim, todo o que ouve estas minhas palavras e as põe em prática pode ser comparado a um homem sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha” (Mateus 7,24).

Se, na verdade, acolhi a Palavra, se tenho me deixado conquistar pela sua força, não é possível que tudo termine ali, ao final da oração. Se completei com amor o percurso da Lectio Divina, o meu “agir” será animado pelo sopro do Espírito. Como que a Palavra de Deus me leva a agir?

Fonte: MALDANER, Maria Fátima. Prática da Oração
Pessoal
. Loyola. São Paulo, 2001. p. 47-80
 
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