Mateus
é o primeiro Evangelho canônico. Ele é
uma referência à esperança de Israel
pois Jesus é o Filho de Abraão, Filho de Davi
e isto já está claro no próprio título
do texto: Registro do nascimento de Jesus Cristo, filho
de Davi, filho de Abraão.
Jesus, José e Israel — A referência
é o Povo de Israel. Neste passo inicial do Evangelho
segundo Mateus José, o Justo, o Esposo de Maria,
será o elo de ligação de Israel com
Jesus. Se Jesus é Filho de Abraão e de Davi
é através de José que é também
“filho de Davi”, isto é, da descendência
de Davi. É por isso que neste início do Evangelho
a anunciação de Jesus é feita a José
como lemos em Mateus 1, 20–25: Mas enquanto assim
pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho
e disse: “José filho de Davi não tenhas
medo de receber Maria, tua esposa, pois o que nela foi gerado
vem do Espírito Santo. Ela dará à luz
um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus. É
ele que salvará o povo de seus pecados”. Tudo
isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou
pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará
à luz um filho, e o chamarão com o nome de
Emanuel, que significa: Deus conosco. Quando acordou, José
fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado e aceitou sua
mulher. E não teve relações com ela
até que ela deu à luz um filho, a quem ele
pôs o nome de Jesus.
Dirigido aos Judeus — Mateus é
dirigido aos judeus e para tanto lança mão
de um grande número de citações de
Profetas, interligando-as muitas vezes. Jesus é o
cumpridor das Profecias e deve formar o “novo Israel”.
A Lei, a história, a herança que Jesus recebe
do povo Judeu não é negada, não é
suprimida e sim, declaradamente cumprida: Não penseis
que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir
mas completar. E eu vos garanto: enquanto não passar
o céu e a terra, não passará um i ou
um pontinho da Lei, sem que tudo se cumpra (5, 17–18).
Porém, Jesus, mesmo sem negar a Lei, supera-a de
modo surpreendente: É o argumento do Ouvistes o que
foi dito… Eu porém vos digo… Encontramos
isto em Mateus 5, 33–34. 38–39. 43–45.
Além disto as citações das profecias
do Antigo Testamento são recorrentes. São
aproximadamente 130 passagens onde ele é citado.
Autor
e data de redação — Mateus
deve ser datado de antes do ano 62. Em Mateus 27, 8 e 28,
15 é possível supor que passou um certo período
de tempo entre a Páscoa e a redação
do texto. Quanto à autoria de Mateus, como os outros
Evangelhos não uma referência interna do autor.
Em Mateus 9,9 encontra-se o convite de Jesus que chama um
cobrador de impostos, Mateus para segui-lo: Partindo dali,
Jesus viu um homem de nome Mateus, sentado junto ao balcão
da coletoria e lhe disse: “Segue-me”. O homem
levantou-se e o seguiu.
Episódio semelhante encontra-se em Marcos 2, 13–17
e Lucas 5, 27–32, porém aqui se encontra a
menção de Levi. Em ambas as passagens a narração
se amplia com um jantar na casa de Levi. A questão
é: não seria isto uma ampliação
feita pelos redatores de Marcos e Lucas e resumida em Mateus
por ser ele o sujeito envolvido?
Um novo Pentateuco — Sendo dirigido
aos cristãos de origem judaica alguns especialistas
sugerem que o texto possa ser dividido em cinco partes,
mais um prólogo, formando assim uma espécie
de “Pentateuco evangélica”. Este é
um tipo de divisão do texto: Cinco partes ou cinco
livros, cada qual com duas seções: a primeira
é uma narração, onde são apresentados
feitos e fatos de Jesus ou sobre Jesus; a segunda é
um discurso de Jesus a partir daquilo que foi narrado ou
mesmo alguma novidade que Ele propõe em relação
ao Reino. Na última parte ou último Livro
encontram-se três partes, sendo a terceira o Mistério
Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição
de Jesus. Podemos ver esta divisão do box à
esquerda.
| Prólogo:
Origem de Jesus |
1
— 2 |
| Primeiro
Livro: A justiça do Reino de Deus |
3
— 7 |
| |
Narração:
O Reino chegou |
3
— 4 |
| |
Discurso:
Sermão da montanha |
7
— 8 |
| Segundo
Livro: A dinâmica do Reino de Deus |
8
— 10 |
| |
Narração:
Sinais do Reino |
8
— 9 |
| |
Discurso:
Missão dos discípulos |
10 |
| Terceiro
Livro: O Mistério do Reino de Deus |
11,1
— 13,52 |
| |
Narração:
Oposição |
11
— 12 |
| |
Discurso:
Parábolas do Reino |
13,1–52 |
| Quarto
Livro: A Igreja, semente do Reino de Deus |
13,53
— 18,35 |
| |
Narração:
Seguir a Jesus |
13,53
— 17,27 |
| |
Discurso:
A vida da Igreja |
18,
1–35 |
| Quinto
Livro: A vinda definitiva do Reino de Deus |
19
— 28 |
| |
Narração:
O Reino de Deus |
19
— 23 |
| |
Discurso:
O Filho do Homem |
24
— 25 |
| |
Paixão
Morte e Ressurreição: Mistério
Pascal |
26
— 28 |
|
Um
texto catequético — É forte
a característica catequética de Mateus. As
passagens são muito bem organizadas em função
da pregação e mesmo da leitura. Parece também
que os sumários são sempre bem colocados,
fazendo a passagem geográfica ou psicológica
de um texto ao outro. Os momentos catequéticos por
excelência parecem ser:
A. |
Sermão
da montanha: |
5 — 7 |
B. |
O
discurso comunitário: |
9,
35 — 11, 1 |
C. |
As
Parábolas do Reino: |
13
|
D. |
Instruções
aos Apóstolos: |
19
— 20 |
E. |
O
apocalipse sinótico ou Discurso Escatológico: |
24
— 25 |
Estes
são os cinco discursos que identificam o texto de
Mateus e dão-lhe uma índole interessante.
A cada discurso corresponde uma narração,
como foi visto atrás, formando assim um belo conjunto
muito útil para a Catequese.
Jesus
é o Messias de Israel para o mundo —
Jesus é o descendente de Davi, o Novo Messias que
assume a identidade mais humilde e misteriosa de Filho do
Homem. É o Messias que vem salvar a Israel em primeiro
lugar (Mateus 10, 5–6) mas que no final ordena que
sua palavra seja levada até os extremos da terra.
(Mateus 28, 19–20).
Enfim,
o prestígio de Mateus na Igreja primitiva foi tão
grande que ele ocupa, nos códices antigos, o primeiro
lugar. Isto por uma questão de praticidade e uso:
era, seguramente, o texto mais usado no ensino e na Catequese,
inspirando até o Pai Nosso nas orações
comunitárias e ligando Jesus à Esperança
de Israel.