Paulo
afirma em 2 Timóteo 3, 15–16: "Pois
toda Escritura é divinamente inspirada e útil
para ensinar, para repreender, para corrigir, para educar
na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito
e capacitado para toda boa obra". Ele assim diz
em função da certeza sobre os ensinamentos
e princípios. Timóteo, discípulo de
Paulo, é alguém que mereceu sua confiança
e por isso foi escolhido para continuar o trabalho que o
Apóstolo havia iniciado. Para isto ele necessita
estar seguro do que crê. A Escritura é um ponto
fundamental no ato de crer. Mas, se Paulo afirma que toda
Escritura é útil para a Fé ele não
diz, por outro lado, que ela é a única fonte
da Fé. Entre muitas definições de Fé
que encontramos na Bíblia a que mais me chama a atenção
está em Hebreus 11, 1. Lá podemos ler: A fé
é o fundamento do que se espera e a convicção
das realidades que não se vêem. Fundamento
do que se espera. Ainda não é uma realidade,
pois é esperança, é algo que virá.
Mas já está fundamentado, certo. Fundamento
de algo que ainda não aconteceu mas que acontecerá
e isto é certo! E além disto, convicção
de realidades que não se vêem. Mas, se não
são vistas não podem gerar convicções.
E todavia quem tem Fé já possui esta convicção,
mesmo que não a visão direta.
Neste ponto começamos a ter uma confluência
de idéias — Realidades não vistas, mas
existentes. Esperanças que são certas, mesmo
que ainda não existam, pois são esperanças.
A Fé tem um forte conteúdo de paradoxo, isto
é, de contradição aparente. Para compreendê-la
é preciso entrar dentro de seu Mistério. A
Bíblia ou Sagrada Escritura é um modo de compreender
tudo isto e chegar a uma Fé mais adulta, madura e
responsável.
Na Igreja Católica nós lemos muito a Bíblia.
Costumo afirmar, em alguns momentos que me parecem necessários,
que a Igreja Católica lê “demais”
a Bíblia. Se alguém diz o contrário
é uma mentira muito grande. Nas celebrações
de Sacramentos a leitura bíblica é uma constante.
Por outro lado, os Católicos ainda têm muita
distância da Bíblia. Isto é devido ao
muito tempo ela não foi valorizada como deveria ter
sido em nossas comunidades. Ainda hoje é mais fácil
reunir pessoas para devoções e novenas do
que para grupos de reflexão ou comunidades ouvintes
da Palavra.
E
todavia nossa Fé baseia-se na Escritura e lá
tira a sua seiva vital, seu alimento indispensável
para a saúde e a vida. Mas me aconteceu em um curso
bíblico que uma pessoa perguntou: quem confirma a
Bíblia? Ou: qual é a autoridade que confirma
que aquela é a Palavra de Deus?
De fato, a Bíblia tem sua autoridade na Igreja ou,
em outras palavras, é a Igreja desde os tempos mais
antigos, que reconhece aqueles livros como inspirados por
Deus e, portanto, como Palavra de Deus. E isto forma um
dos pontos mais importantes na Fé Católica
— a idéia da Tradição.
Tradição é o modo de crer, de vivenciar
a Fé no que ela tem de mais profundo: o modo de compreender
a Deus e sua Mensagem. A Tradição tem sua
origem nos primeiros séculos da Igreja e vai se formando
e confirmando com o passar do tempo. Não é
uma pessoa ou um grupo de pessoas que guarda a Tradição
mas sim toda a Igreja que vai vivenciando o que as gerações
anteriores viveram.
A
Tradição pode também ser identificada
com o modo de vivenciar a Fé. É ela que reconhece
os Livros Bíblicos como Palavra de Deus e por isso
é algo importante. Sem a Tradição não
há uma autoridade que nos confirme a Sagrada Escritura.
Por
isso a Bíblia não pode ser vista apenas de
modo isolado. Ela precisa da Comunidade de Fé para
que tenha sentido. Claro, muitos fazem a leitura da Escritura
sem a Comunidade, sem a Igreja. E podem até ir longe.
Mas chega um momento que a Palavra tem sentido se está
dentro de um contexto. Ela precisa de uma referência,
uma segurança. É isto o que podemos compreender
pela leitura dos primeiros capítulos do Apocalipse.
Aliás, penso que este Livro bíblico, tantas
vezes citado de modo errado, misterioso, é um dos
mais belos textos que se encontram na Escritura. Ele foi
escrito para confirmar a Fé dos Cristãos,
quase no final do primeiro século depois de Cristo,
quando já haviam começado algumas dificuldades
e perseguições sobre os discípulos
de Jesus que já eram muitos.
Em
Apocalipse 1, 3 encontramos a frase: Feliz o leitor e os
ouvintes das palavras desta profecia e os que observam as
coisas nela escritas, pois o Tempo está próximo.
E logo depois, nos capítulos 2 e 3 o Livro do Apocalipse
nos apresenta sete cartas a sete comunidades que são
apresentadas como “Igrejas”. A cada “Anjo
da Igreja”, isto é, seu responsável
primeiro, Bispo ou Presbítero, são feitos
alguns elogios e algumas repreensões. Sem nos determos
nestas cartas, o que seria muito interessante, o importante
é notar que a Palavra é dirigida a grupos
de pessoas que se reúnem com uma identidade comum
— seguidores de Jesus Cristo, testemunhas do seu Reino.
Por isso devem empenhar-se em fazer valer a Palavra que
receberam e que está sendo posta à prova pela
vida, pelas perseguições, pelas contradições
e pela própria conduta das comunidades. Isto exige
que cada Igreja, cada Comunidade, volte aos princípios
do Evangelho, a Boa Nova do Senhor e seja fiel a Ele. A
Tradição começa aqui: no retorno contínuo
à Palavra de Deus, à Bíblia ou Sagrada
Escritura e na confirmação do modo de ver,
de sentir, de entender o que lá encontramos.
O Concílio Vaticano 2° afirma na Constituição
Dogmática Palavra de Deus (em latim, Dei Verbum)
que a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição
estão juntas na transmissão da Revelação,
isto é, da vontade e da mensagem de Deus (Veja o
texto da Dei Verbum no Box). Isto tudo é parte do
Mistério de Deus na vida, na História Humana.