Estamos
em pleno mês da Bíblia, no qual a liturgia
nos convida a um aprofundamento maior da palavra de Deus,
de forma a apreciá-la mais, meditá-la com
maior freqüência e deixá-la agir no íntimo
de nossos corações e em nossas vidas.
Um
dos maiores dons que Deus poderia nos dar é sua própria
palavra (dabar Iahweh, em hebraico). Ela é real,
histórica e viva, criadora e eficaz, como vemos no
Livro do Gênesis, no qual Deus cria pela sua palavra
onipotente: “Faça-se a luz! E a luz foi feita”
(Gn 1,3). Assim, a palavra opera tudo o que anuncia. Quando
Jesus diz: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”
(Jo 14,27), esta se produz em nosso íntimo, pela
sua própria eficácia.
Deus
nos falou outrora, nos fala ainda hoje e jamais deixará
de fazê-lo, porque sua função de Pai
e Educador continua até o fim dos tempos, quando
o último ser humano tiver chegado ao seu termo. A
palavra divina nos revela “o mistério de Deus,
isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos
os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2,2-3).
E nós fomos chamados a haurir dessas fontes, através
da graça que o Senhor nos concede.
Há
que ouvir a palavra de Deus, deixando que ela nos penetre,
como a chuva na terra, produzindo nascimento, crescimento,
floração e maturação. Pois o
próprio Deus nos fala: “Assim acontece à
palavra que minha boca profere: não volta sem ter
produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e
cumprido sua missão” (Is 55,11).
Deixar-se
inundar pela palavra é, ao mesmo tempo, um ato de
submissão a Deus, o próprio Autor da Sagrada
Escritura, e uma reverência para com o conteúdo
que ela nos comunica. Somos educados e conduzidos por essa
palavra. Nascemos como pessoas, aliás já somos
concebidos como tais; e a palavra de Deus traça o
caminho para que cada um passe de pessoa a personalidade,
ou de pessoa sociável a pessoa socializada.
A
palavra de Deus é sempre veraz e definitiva. Quando
ela nos interpela, nosso “sim” também
deve ser definitivo, porque Deus não aceita um “não”
ou um “talvez”, apenas porque mudamos nossas
convicções e atitudes. Como a palavra se identifica
com o próprio agir de Deus, ela é a Verdade,
que não está sujeita ao tempo: não
é de ontem, nem de amanhã; ela é de
sempre, eternamente atual. Então, não se pode
dizer que o conteúdo da palavra do Senhor seja anacrônico,
defasado quanto à evolução do tempo
e da história. É nosso conhecimento dessa
palavra que é limitado.
Evidentemente,
a palavra está condicionada à cultura que
a registrou. Antes de ser escrita, a palavra foi vivida.
A princípio, como uma tradição que
ia de tenda em tenda, de casa em casa, de um grupo humano
a outro, sendo, finalmente, consubstanciada nos textos que
conhecemos. É uma história revista e contemplada
sob a experiência dos que nos antecederam, e que nós,
hoje, levamos adiante. Daí porque deve haver uma
ciência que nos reconduza ao tempo, ao lugar e às
circunstâncias em que o texto foi revelado: é
a exegese que faz essa contextualização.
Os
mediadores da palavra foram, primeiramente, os profetas,
que falaram em nome de Deus. Sempre estiveram a serviço
da palavra, dando até a vida pelo que anunciaram.
Foram mensageiros de Deus, inspirados pelo seu Espírito,
como instrumentos, através dos quais o Artista Divino
comunica a beleza de sua arte. Pensemos, por exemplo, nos
salmistas, cujas orações poéticas ficaram
registradas para nós, atestando a experiência
daquele povo, na intimidade com Deus e na história
que construíram.
Depois
de ter se revelado na Antiga Aliança, Deus “ultimamente
nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal,
e pelo qual criou todas as coisas” (Hb 1,2). E Jesus
diz, no final da sua vida: “Já não vos
chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu
senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo
quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Como a confidentes,
Ele nos entrega o segredo de sua Pessoa e da amplitude de
sua Missão.
Pela
palavra, Deus se apresentou ao ser humano como Pai, Criador,
Pastor, que guia e acompanha o seu rebanho. Enfim, um Deus
que sabe nos conduzir ao termo pré-fixado para nós,
segundo a sua bondade. E aqui não basta o tempo,
não basta a vida, não bastam as gerações,
para aprofundarmos tudo o que a Sagrada Escritura nos diz
a respeito de Deus.
Ela
nos revela, também, a história do mundo e,
especialmente, do Povo Escolhido para ser o primeiro depositário
da palavra. Essa história manifesta as desordens
introduzidas na obra da Criação. Mas não
podemos atribuí-las a Deus, sumamente bom e perfeito.
Foi esta reflexão que levou o autor sagrado a re-buscar,
isto é, buscar lá atrás, na origem
da história, como se deu a falha original.
Aí
entra o enigma humano. Como foi possível ao homem,
dotado por Deus de todos os dons para sua plena bem-aventurança,
ter rejeitado tudo isso, pelo pecado? A Bíblia atesta
que o homem introduziu o mal na história: é
o mistério da iniqüidade, de que nos fala São
Paulo (cf. Tt 1,14). Chegamos, assim, a toda a história
dos pecados da humanidade.
Em
meio a tudo isso, porém, manifestam-se as maravilhas
que Deus realizou, e realiza, em favor de seu povo. O ápice
foi a Redenção, conquistada pelo Mistério
Pascal de Cristo. Por ela, somos novamente filhos de Deus,
chamados a uma felicidade eterna, que irá preencher
todo vazio de nosso coração, destino glorioso
que nos está reservado, e para o qual nos preparamos,
alentando-nos pelas promessas reveladas.
A
palavra de Deus, portanto, é normativa: traça
como que um trilho orientador, que conduz ao encontro da
vontade divina. Porém, mais do que isso, ela é
transformante: age em nós para a santificação,
concedendo-nos os meios necessários para vivermos
de acordo com o plano de Deus. E isso é comprovável.
Aquele que faz do amor a Deus e aos outros sua norma de
vida, esse encontra a verdadeira felicidade, já agora
neste mundo, rumo ao encontro definitivo com o Senhor. Por
outro lado, quem vive afastado dessa norma jamais experimenta
a autêntica realização pessoal, na doação
total de si mesmo.
Agradeçamos
ao Bom Deus por nos ter falado de tantos modos, para o nosso
bem e a nossa santificação, a tal ponto que
sua própria Palavra se encarnou (cf. Jo 1,14). Tenhamo-la
em nossas casas, não empoeirada pela falta de manuseio,
mas constantemente lida e meditada. Acima de tudo, tenhamo-la
em nossos corações, para que, penetrando noss’alma,
sonde nossos sentimentos e pensamentos, expondo-os à
luz fulgurante do olhar divino (cf. Hb 4,12-13), que dissipa
toda treva, cura toda ferida e preenche toda solidão.