O
movimento de multidões em visita aos cemitérios,
nos dois primeiros dias deste mês de novembro, nos
leva a perguntar: por quê? Poder-se-ia responder dizendo:
uma homenagem aos que partiram ou expressão de uma
ausência sentida. Seria pouco: homenagem a um corpo
já consumido? Saudade? Mas seria muito mais consolador
contemplar o retrato da pessoa falecida quando ainda vivia
com suas feições pessoais, do que visitar
o túmulo de cimento ou de flores onde foi ela sepultada.
A
lembrança dos nossos mortos, que nos leva ao cemitério,
ao lugar onde seus corpos foram depositados, é um
sinal de esperança cristã. Porque temos certeza
de nossa imortalidade e, por isto, esperamos uma vida que
não tem fim, recordamos os que partiram antes de
nós para a recompensa com que a justiça divina
os gratifica.
Conscientes
ou inconscientes, vivemos da esperança que dá
sentido à nossa caminhada terrestre. Enquanto aguardamos
a recompensa futura, que Cristo nos garantiu, ilumina-nos
a certeza de um reino de paz e de felicidade, que é
a recompensa divina aos que amaram a Deus e seguiram pelos
caminhos que nos levam à felicidade eterna.
A
Escritura sagrada, na palavra de São Paulo (Rm 4,21),
nos dá em Abraão o claro exemplo de esperança.
Ele soube esperar contra toda esperança, na certeza
de que Deus todo poderoso cumpriria, como de fato cumpriu,
o que prometera: ter ele uma descendência tão
numerosa como as areias da praia e as estrelas do céu.
É
bom lembrar aqui que não se mata uma pessoa somente
quando se lhe tira a vida. Mata-se realmente alguém,
quando se lhe tira toda a esperança no âmago
da alma. A filosofia popular assimilou esta verdade ao exprimir
com sabedoria que “a esperança é a última
que morre”. Qual o sentido de nossa vida, por difícil
que seja, se já não se tem esperança?
Na
festa de Nossa Senhora das Mercês, há pouco
tempo, pregando ao povo, lembrei aos presentes que não
se deixassem abater com as dificuldades que todos enfrentamos.
Mas que, confiados na graça divina e na proteção
de Maria, Mãe de Deus, nos replenássemos de
esperança nos momentos de dificuldades. E lembrei
aos presentes a linda poesia de Jorge de Lima sobre Maria
Santíssima.
Com
inspiração invejável, diz ele - o poeta
– que Nossa Senhora sabe ver os acontecimentos difíceis,
com os olhos verdes de esperança, já que popularmente
se acredita que a cor verde é a cor da esperança.
E pede ele, cujos olhos são pretos “cor de
carvão”, para Nossa Senhora pintar-lhe os olhos
de verde “que eu quero ver verdes os dias que inda
virão”. Um anseio, pois de esperança.
Este
mês de novembro, em que lembramos nossos irmãos
falecidos, é ocasião feliz de reviver em nós
a esperança teologal, iluminando o coração
com a certeza de que a morte não é o fim,
mas a passagem para os braços paternos de nosso Deus.
É esta esperança cristã que ilumina
nossa caminhada terrestre.