| Algum
tempo atrás tive a oportunidade de passar uma semana
em Genebra, a convite do ACNUR, o órgão das
Nações Unidas encarregado dos refugiados. O
assunto envolvia, por extensão, o problema das migrações,
e a Pastoral dos Migrantes se fazia presente.
Observando
a cidade, alguns detalhes chamavam a atenção.
Praças bonitas, ruas limpas, trânsito disciplinado,
ausência total de pedintes, tão freqüentes
em nossas cidades.
Mas
uma coisa estranhava em demasia. Não se via criança
alguma, parecia uma cidade só para adultos. Intrigado,
perguntei a um cidadão como ele imaginava a Suíça
daí a 50 anos.
Percebendo
a intenção da pergunta, como resposta simplesmente
me fez uma ressalva. Disse ele que, antes de perguntar como
será a Suíça, era preciso perguntar de
quem seria a Suíça daqui a 50 anos. Pois, pelo
visto, faltariam herdeiros para tanta riqueza que o país
ostentava.
Sem
crianças não existe futuro, e o presente perde
o melhor de suas motivações. Neste dia em que
sociedade celebra o dia das crianças, convém
pensar na sua importância, e nas salutares interpelações
que elas nos fazem.
O
assunto merece ser tratado com equilíbrio e responsabilidade.
Em sua recente encíclica "Cáritas in Veritate",
sobre a situação mundial, ao abordar a questão
do baixo crescimento demográfico, Bento 16 reconhece
que "é forçoso prestar atenção
a uma procriação responsável". Ao
mesmo tempo, alerta que a drástica diminuição
da natalidade revela o que ele identifica como "situações
que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro
e de cansaço moral".
Em
outras palavras, um país com escasso índice
de natalidade é sintoma de escassa vitalidade e de
pouco futuro.
As
estatísticas no Brasil começam a preocupar.
No Brasil a diminuição da natalidade foi rápida
e drástica, revelando, inclusive, sinais de pressões
indevidas e eticamente questionáveis, como as campanhas
que redundaram em esterilização em massa de
mulheres pobres e inadvertidas das conseqüências
da intervenção cirúrgica em que se viam
envolvidas.
Pelas
recentes informações, o índice de natalidade
no Brasil atinge hoje 1.7 por casal, sinalizando, portanto,
uma tendência à diminuição da população,
que só não se concretiza agora porque o fato
vem acompanhado de uma rápida ascensão da média
de vida da população. Mas, continuando esta
tendência, em 2.035 o Brasil entraria em declínio
de sua população, numa triste perspectiva de
termos mais óbitos do que nascimentos.
Neste
contexto, cresce de significado o Dia das Crianças.
Elas merecem bem mais do que um dia. Elas podem nos alertar
para uma urgente retomada de motivações e de
apoio às famílias, em vista de um salutar estímulo
para uma "abertura à vida", como nos recomenda
com insistência a Igreja.
É
muito sintomático o apreço que Cristo demonstra,
no Evangelho, para com as crianças. Continua soando
com força seu pedido, e sua advertência: "Deixai
vir a mim as crianças, pois delas é o Reino
de Deus".
Cristo
sempre fazia apelo para o reencontro dos valores, dos princípios,
em vista de critérios a guiarem a vida com coerência.
Ele colocava a crianças como referência prática
e motivadora da vida. O Dia das Crianças é de
festa para elas, e de reflexão para os adultos. Enquanto
é tempo, aprendamos as lições que elas
nos transmitem, na sua simplicidade, mas também na
sua pureza e autenticidade de vida. |