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Para
cerca de um bilhão de católicos e outro tanto
de cristãos de diferentes denominações,
a semana que vem tem um significado especial, altíssimo.
Com a designação de Semana Santa, Semana Maior
ou outra, estes dias serão mais uma vez de lembrança
e celebração da pessoa de Jesus Cristo, centro
do culto cristão e da vida cristã. Todo o seu
mistério será focalizado na liturgia, à
luz da fé, mas sobretudo a sua Páscoa entendida
como Agonia, Paixão, Crucificação, Morte
e Ressurreição.
Quem é este Jesus, protagonista do drama que a Semana
Santa celebra? Da visão que se tenha dele dependerá
a compreensão mais ou menos integral e plena da Páscoa.
Uma visão dicotomizada de Cristo resultará numa
compreensão parcial e fragmentada do seu mistério
pascal. Uma visão unitária e globalizante produzirá
uma compreensão plena.
Este é um tempo no qual ainda prevalecem, vindas de
tempos passados, tendências a vivissecções
dolorosas da pessoa de Cristo. Cito as duas principais:
• Primeira, a que faz de Jesus de Nazaré um
simples homem, mesmo admitindo que foi um grande profeta,
possuído aos poucos pela convicção
de que é filho de Deus. Tal concepção
rompe a unidade profunda do mistério da Encarnação
pelo qual o Verbo de Deus se fez homem, unindo hipostaticamente
as duas naturezas numa única pessoa.
• Segunda, a que separa o Jesus histórico do
Cristo da fé, aquele sendo objeto de fatos e acontecimentos
verificáveis por testemunhos da época, este
sendo um produto mais ou menos tardio de uma elaboração
dos discípulos mais íntimos ou das comunidades
congregadas em torno dele.
Distinguir nos atos de Jesus Cristo o que deriva da sua condição
humana (sentimentos, reações psicológicas,
evolução no conhecimento dos desígnios
do Pai, a possibilidade de sofrer a dor, o cansaço,
as tentações, a capacidade de morrer)
em confronto com o que se prende à sua divindade (a
intimidade com o Pai, os prodígios que realiza e, acima
de tudo, a própria Ressurreição)
é natural. Mas romper a unidade indissolúvel
entre o "perfectus homo"
e o "perfectus Deus"
é esvaziar o mistério da Encarnação
e, por conseguinte, também o da Redenção.
Só a unidade inseparável do Verbo Encarnado
nos permite entrever gestos e atos pelos quais, como Deus,
ele é capaz de oferecer a Deus reparação
infinita, e, como homem, é capaz de morrer pelos pecadores.
A Paixão, Crucificação e Morte não
teriam sentido se Jesus fosse um simples homem que tivesse
a fantasia de ser Deus. Se ele fosse só isso, a sexta-feira
santa não teria sentido, e tampouco o domingo da Ressurreição.
Quanto à distinção entre Jesus histórico
e o Cristo da fé, ela nada tem de extravagante ou perturbadora
(antes, pode ser altamente positiva) se pretende
ser um elemento a mais no esforço da razão humana
para poder entender o mistério de Cristo. Em outros
termos, essa distinção deixa claro que não
se trata de dois, mas de um único e verdadeiro Jesus
Cristo visto sob dois ângulos complementares (neste
sentido, não é exato nem conveniente destacar
o nome de Jesus quando se fala do histórico e o título
Cristo ou Messias quando se refere ao da fé, pois há
um só Jesus Cristo à luz da história
ou à luz da fé). A distinção
é cabível e útil quando a perspectiva
é mostrar que os fatos verificados na existência
de Jesus de Nazaré – o nascimento em Belém
de Judá (durante o recenseamento ordenado por
César Augusto, a fuga para o Egito na perseguição
de Herodes) a infância em Nazaré, a
pregação na Galiléia e na Judéia,
a condenação e morte de cruz sob Pôncio
Pilatos, a Ressurreição e o túmulo vazio
– foram percebidos por todos os que tiveram conhecimento
deles mas tiveram, no espírito dos Apóstolos,
dos discípulos e dos numerosos seguidores de Cristo,
uma compreensão nova e diferente – a da fé.
O Jesus Cristo da fé é o mesmo documentado pelos
evangelhos e por historiadores profanos como Suetônio,
Plínio, o Jovem e Marco Aurélio, mas é
mais do que este. A fé não veio alterar a visão
histórica, mas, segundo a comparação
expressiva de um autor contemporâneo, servir de caixa
de ressonância e conferir uma determinada sonoridade
ao fato histórico, como acontece com o violino ou a
harpa.
Outra coisa seria se a distinção entre o Jesus
histórico e o Cristo da fé (designado
também por alguns autores como Cristo pós-pascal)
significasse a existência de dois personagens diversos:
Jesus filho de Maria e do carpinteiro José e a sua
existência histórica de profeta e pretenso Messias
malogrado, e o Cristo idealizado e destacado por seus sequazes,
mas não real. Assim entendidas, as expressões
Jesus histórico e Cristo da fé destroem o dogma
cristão e todo o cristianismo como são vistos
desde os primeiros concílios e por todo o Magistério
da Igreja em resposta às heresias do primeiro século
e de todos os séculos.
Essas posições doutrinais, que qualifico como
destrutivas, surgiram e alcançaram grande voga no século
passado, especialmente através do chamado Protestantismo
liberal, de Harnack e Bultmann. Tiveram eco também
no nosso século e ainda têm alguma repercussão.
Cada vez mais, porém, sobretudo a partir de estudos
acurados das Escolas Bíblicas de Jerusalém e
de Roma, através dos dados fornecidos pelo exame científico
dos manuscritos de Qunrân, através de estudos
de Carmignac e outros pesquisadores, cada vez mais se descobre
a antigüidade e autenticidade dos textos evangélicos,
daí o alto valor testemunhal das narrativas, de suas
afirmações sobre Jesus Messias e das razões
de crer e esperar que serviram de raiz e base para as comunidades
cristãs primitivas. À luz desses estudos, mostram-se
improcedentes e infundadas, superficiais e retrógradas
certas alegações contrárias ao ensinamento
constante da Igreja de Cristo sobre a sua Pessoa e o seu Magistério,
ou seus mistérios como os que celebramos na próxima
semana.
O Jesus da Semana Santa é o Filho de Deus que, em todos
os lances da sua Páscoa redentora, se abandona ao Pai
para, na mais perfeita obediência, cumprir o desígnio
de Salvação da humanidade. Ele é igualmente
o Filho do Homem que, sem bravata, mas sem medo e sem vacilação,
voluntária e livremente, com coragem e destemor, aceitou
a Paixão e a Morte. “Sabendo
que era chegada a hora de passar deste mundo ao Pai, tendo
amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até
o fim”. Não só até
o fim cronológico. Amou-os até o extremo. É
este o sentido de toda a Semana Santa.
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